FAZER LOGINPOV Isabela Costa
Os corredores da Fundação Costa estavam mais silenciosos do que o normal. Mas eu sentia todos os olhares, todos... Cada passo que eu dava, os saltos ecoavam como tambores de guerra. Os funcionários tentavam disfarçar. Uma desviava o olhar. Outro fingia estar ocupado demais com planilhas. Mas todos viram. E eu quis que vissem. A manga da minha camisa estava levemente dobrada, revelando a marca avermelhada no pulso. Um arranhão discreto na clavícula. E, mesmo com maquiagem, a leve vermelhidão no pescoço denunciava o que havia acontecido naquela manhã.
Passei pelo saguão com a postura ereta. Nem um sorriso. Nem um desvio. Apenas o som dos saltos contra o mármore e o perfume caro que carregava como armadura.
— Senhora Costa... bom dia. — A recepcionista quase sussurrou.
— Bom dia — respondi sem parar.
Fui direto para a sala da diretoria, onde teria uma reunião com o comitê de projetos sociais. Entrei na sala, cumprimentei com um leve aceno e sentei à cabeceira da mesa.
— Podemos começar.
Durante a apresentação, percebi os olhares espiando meu pescoço como se fosse uma peça de arte trincada. Ninguém ousava perguntar. Ninguém tinha coragem. Mas a tensão era palpável. No intervalo, uma das coordenadoras mais antigas, Cecília, se aproximou com um café.
— Está tudo bem, Isabela?
Olhei para ela por dois segundos longos demais.
— Depende do que você chama de “tudo”.
Ela corou, assentiu e se afastou. Eu não a culpei. Na verdade, agradeci por não tentar encobrir o desconforto. Por não fingir que eu estava intacta. Mais tarde, enquanto revisava relatórios na minha sala, recebi a notificação no celular: “Seu pai quer vê-la. Agora.”
Suspirei. Sabia que viria. Atravessei o prédio até o andar administrativo. A porta do escritório dele estava entreaberta. Bati levemente antes de entrar. Álvaro estava em pé, gesticulando. Leonel, ao lado, encostado na mesa, os braços cruzados, olhar atento.
— Você ficou louca? — meu pai começou antes mesmo que eu dissesse oi. — Sabe quantas mensagens eu recebi hoje cedo?
— Imagino que não tenham sido sobre as doações da fundação.
— Isabela... — ele se aproximou, controlando o tom. — O que você quer? Que a imprensa descubra o que aconteceu? Você quer explodir a campanha? É isso?
— Não estou fazendo nada além de existir. Quem me deixou assim foi seu genro.
— E você tem obrigação de manter isso em segredo, pelo menos até o fim da eleição!
Leonel mexeu um músculo do rosto, quase imperceptível. Continuei firme.
— Então eu deveria passar base nas marcas? Usar gola alta para esconder a violência? É isso, pai? Me maquiar como minha mãe fazia quando o senhor gritava com ela?
O silêncio caiu como um tijolo. Leonel baixou os olhos. Meu pai cerrou o punho.
— Isso é diferente.
— Não. É exatamente igual.
— Você quer sabotar tudo? Então vá em frente. Mas não conte comigo quando estiver sozinha, afundada. Porque se essa história vaza, a primeira a perder será você.
— Já perdi. Ontem. Quando percebi que estou casada com um monstro e filha de outro.
O tapa veio seco. Alto. Imediato. Minha cabeça virou com o impacto, e o gosto metálico do sangue tocou o canto da minha boca. Por um segundo, ninguém respirou. Nem mesmo o Leonel.
— O senhor passou do limite! — ele gritou, avançando.
Leonel segurou o braço do meu pai com força e empurrou de volta, afastando-o de mim. Seus olhos estavam em chamas, o maxilar travado, o peito arfando.
— Não encoste mais um dedo nela. Nunca mais.
Meu pai, surpreso, recuou. Parecia não acreditar no que acabara de acontecer, nem no tapa, nem na ousadia de Leonel. Eu, imóvel, senti a pele queimar, mas não pela dor. Pela fúria. Leonel me olhou. Não disse nada. Apenas me ofereceu a mão para me equilibrar. Eu recusei com um gesto leve.
— Obrigada — murmurei, a voz firme apesar da dor. — Mas eu ainda consigo ficar de pé sozinha.
Saí do escritório sem olhar para trás. E naquele instante, soube: meu pai também entraria no caderno preto.
***
POV Leonel Ferraz
Desde o momento em que ela entrou na Fundação, algo me atingiu no estômago. A postura era a de sempre, cabeça erguida, salto firme, presença imbatível. Mas bastava olhar com atenção e ver: algo nela havia quebrado. Não no modo frágil. No modo perigoso. Como vidro estilhaçado, ainda cortante.
E o pior... ela não tentou esconder. O pulso com o hematoma à mostra. A gola ligeiramente aberta, revelando a marca vermelha que nenhuma base disfarçaria. Isabela Costa nunca foi de descuidos estéticos. Aquilo era escolha. Ela queria que vissem. E eu vi. Observei seu caminhar pelo saguão, os olhos da equipe evitando encarar. Vi quando pegou os relatórios e comandou a reunião com uma frieza cirúrgica. E vi, com cada fibra do meu corpo, o estrago que aquele casamento havia causado.
E aquilo me irritou. Irritou mais do que deveria. Porque eu a conheço. Desde os dezoito. Vi quando Álvaro começou a exibir a filha em palanques, moldando-a para ser a esposa de um futuro candidato, e não de um homem. E mesmo assim, ela cresceu linda, brilhante, feroz. Tinha uma luz que ninguém apagava. E agora era como se ela estivesse apagando por dentro... e eu não podia fazer nada.
Ou achava que não podia. Até ela ser chamada para o escritório. Fiquei de pé no canto, braços cruzados, observando como sempre fazia. Mas por dentro, algo se agitava. Um instinto. Uma tensão que ia além do papel de assessor. Ela entrou. O pai já estava com o semblante carregado. Eu sabia que viria tempestade.
— Você ficou louca? — foi o primeiro rugido de Álvaro.
Ela ficou em pé, sem recuar. Falou da violência. Das marcas. E da covardia por trás do silêncio que ele exigia. A cada frase, a tensão na sala crescia. E eu, calado, lutava para manter o rosto neutro. Até ela dizer:
— Já perdi. Ontem. Quando percebi que estou casada com um monstro... e filha de outro.
O tapa veio antes do silêncio. Um estalo que cortou o ar. Meu corpo se moveu sozinho.
— O senhor passou do limite! — ouvi minha própria voz, furiosa.
Agarrei o braço de Álvaro, afastando-o dela com mais força do que pretendia. Meus dedos cravaram no terno dele.
— Não encoste mais um dedo nela. Nunca mais.
Os olhos dele se arregalaram. De surpresa. De raiva. De incredulidade. Ela, em choque, se recompôs rápido. Orgulhosa como sempre. Recusou minha ajuda. E saiu como se tivesse vencido a guerra, mesmo sangrando por dentro. Quando a porta se fechou, o silêncio reinou.
Álvaro me olhou como se quisesse gritar.
— Você esqueceu quem é?
— Eu sei exatamente quem sou. — endireitei a postura. — O homem que viu sua filha ser agredida duas vezes no mesmo dia. Uma por um covarde. E outra por você.
Ele empalideceu.
— Leonel, isso é da minha família. Não se meta...
— Com todo respeito, senhor, como assessor e como alguém que está ao seu lado há anos... Eu não posso ignorar. O senhor perdeu o controle. E se isso sair — e vai sair —, não é só sua imagem que vai desmoronar. É tudo.
Ele passou a mão no rosto, cansado, envelhecido de repente.
— Você acha que eu queria? Eu tenho um estado para governar, e minha filha decide virar mártir da própria tragédia.
— Talvez ela esteja tentando sobreviver. Só isso.
Álvaro me olhou. Pela primeira vez, vi algo que não era arrogância: era medo.
— Isso vai arruinar a gente.
— Não, senhor. O que arruina não é a dor dela. É a sua resposta a essa dor.
Ficamos em silêncio. Eu sabia que ele não ia mudar. Homens como Álvaro Costa não mudam. Mas naquele momento, pelo menos, ele recuou.
— O que ela vai fazer agora?
— O que quiser. E, sinceramente, depois de hoje... eu espero que ela destrua tudo.
Saí da sala sem esperar autorização. No corredor, vi a porta da sala dela entreaberta. Ela já não estava ali. Mas o perfume ainda estava no ar.
POV IsabelaO evento de gala da Associação de Arquitetura e Engenharia era, tradicionalmente, o lugar onde a elite do setor se reunia para pavonear egos. Três anos atrás, eu estaria lá como a esposa do Daniel, preocupada com a cor do vestido, com o ângulo da foto e com o que Álvaro diria sobre a minha postura.Hoje, eu estava lá como a CEO da Vanguarda.O salão principal do hotel estava iluminado por candelabros que lembravam uma era de grandiosidade, mas a atmosfera que eu trazia era diferente. Eu vestia um vestido de um azul profundo, com um corte simples que transmitia confiança e autoridade. Eu não estava ali para ser exibida. Eu estava ali como uma igual entre iguais — ou, talvez, como a pessoa que mudou as regras do jogo.Leonel caminhava ao meu lado. Ele estava impecável em um terno escuro, mas o que me chamava a atenção não era a roupa; era a forma como ele me olhava. Não era o olhar de quem protegia uma propriedade, mas o olhar de um parceiro que compartilhava a jornada. Ele
POV IsabelaUm ano. Doze meses são o suficiente para transformar o caos em lembrança e a agonia em uma nota de rodapé.Eu estava parada no terraço da nossa casa, não a cobertura fria que ocupava na época de Daniel, mas uma casa térrea, ampla, cercada por jardins, a trinta quilômetros do centro. O ar aqui era diferente. Tinha cheiro de terra molhada, de jasmim e de um silêncio que não era mais vigiado. Abaixo de mim, o terreno se estendia até um pequeno bosque de mata nativa que decidimos preservar em vez de construir mais uma garagem.A Vanguarda Engenharia não era mais o centro gravitacional da minha existência. Ela continuava a ser o império que eu comandava, mas agora era uma entidade saudável, independente e ética. As auditorias externas, que antes eu encarava como ferramentas de sobrevivência, tornaram-se parte do nosso DNA corporativo.A empresa lucrava, sim, mas lucrava de um jeito que me permitia dormir sem precisar verificar se havia alguém rondando o meu portão. O nome "Lace
POV IsabelaO ponto de encontro era um estacionamento isolado, nos fundos de um depósito de materiais que a empresa utilizava. Eu observei tudo do meu escritório, através de monitores de alta resolução. Leonel estava lá embaixo, em um carro descaracterizado, com uma equipe de segurança que ele mesmo treinou, pronta para agir no momento em que Vilela desse o primeiro passo em falso.O carro de Vilela entrou no estacionamento às 22h. Ele estava sozinho, nervoso. Eu podia ver pela forma como ele olhava para os lados a cada segundo. Quando ele desceu do carro, ele segurava um pendrive, o objeto que ele acreditava ser o seu seguro de vida.— Ele não sabe onde se meteu — Leonel murmurou pelo rádio, sua voz calma e precisa. — Ele acha que está negociando com uma empresa. Ele não percebeu que está negociando com a mulher que derrubou o clã Lacerda.Vilela caminhou até o carro de Leonel.Quando ele se aproximou da janela, Leonel saiu, sua presença preenchendo o espaço de uma forma que forçou V
POV IsabelaA paz na Vanguarda Engenharia tinha um sabor singular, uma mistura de trabalho árduo e a leveza de quem não precisa mais olhar por cima do ombro. No entanto, o mundo dos negócios, especialmente o da construção civil, é feito de camadas profundas de podridão que nem sempre emergem de uma vez só. A empresa prosperava, as ações eram as mais valorizadas do setor e eu, finalmente, conseguia me ver como algo além de uma sobrevivente. O meu escritório, agora com as paredes forradas de projetos sustentáveis e não de documentos de auditoria, era o coração de uma nova era. Mas, naquela terça-feira nublada, uma notificação no sistema de monitoramento de fluxo de caixa de Leonel disparou um alerta vermelho.— Isabela, venha aqui. Rápido — a voz dele pelo interfone era desprovida de qualquer emoção, o tom que ele guardava apenas para ameaças reais.Caminhei até a sala de segurança, onde ele concentrava o monitoramento de riscos. Ele apontava para uma transação obscura, uma tentativa d
POV IsabelaO juiz de paz era um homem de fala mansa, cujo sorriso sugeria que ele já vira muitos casais passarem por ali, mas nenhum com a intensidade que via em nós. Ele começou o rito. As palavras sobre "honra" e "fidelidade" não soaram como obrigações religiosas pesadsa, mas como uma promessa prática, quase uma extensão do nosso trabalho diário na Vanguarda.Quando chegou o momento dos votos, eu não precisei de cartões. As palavras estavam gravadas na minha alma, forjadas por tudo o que superamos.— Leonel — comecei, olhando-o nos olhos, ignorando a leve trepidação na minha voz. — Nós nos conhecemos nas sombras de uma vida que tentava nos destruir. Eu te conheci como o assessor, a guarda, e você me conheceu como a vítima. Nós vimos o pior um do outro. Vimos o desespero, a ganância, o medo e a destruição de tudo o que achávamos ser o nosso mundo. Mas, mesmo diante da escuridão, você escolheu me proteger, e eu escolhi lutar ao seu lado. Hoje, eu não te prometo apenas amor. Eu te pr
POV IsabelaA manhã do dia 14 de maio não trouxe o sol escaldante que costumava banhar a cidade, mas uma luz suave, filtrada por uma leve neblina que tornava a cidade mais silenciosa.Eu estava parada diante do espelho de corpo inteiro em uma suíte modesta, porém elegante, longe de qualquer hotel de luxo que o clã Lacerda costumava frequentar. Não havia estilistas italianos contratados por uma revista de celebridades para me vestir. Não havia uma legião de assessores de imprensa coordenando cada movimento para garantir que o ângulo da foto fosse perfeito para a capa da Forbes.Havia apenas um vestido de seda branca, de corte simples e fluido, sem rendas ostensivas ou pedrarias desnecessárias. Era o vestido de uma mulher que não precisava mais provar nada para ninguém.A porta se abriu suavemente e Leonel entrou. Ele parou, observando-me através do espelho. O terno dele era azul-marinho, bem ajustado, longe da austeridade dos uniformes de segurança ou da formalidade sufocante dos terno







