INICIAR SESIÓNPOV Isabela Costa
Pedi que o motorista me levasse direto à sede da Associação Mulheres de Nova Augusta. Uma mansão convertida em espaço cultural, onde algumas das mulheres mais influentes da cidade jogavam conversa fora sob a desculpa de empoderamento feminino. E eu era uma delas, a mais fotografada, a mais seguida, a mais intocável. Ou pelo menos era isso que todas achavam. — Senhora Costa, bem-vinda — disse a recepcionista assim que cheguei. — A Dra. Fabiana está no jardim com as outras. Fabiana Tavares. A presidente da associação. Uma mulher que usava saltos de mil reais para esconder as pegadas de corrupção. E uma das três que dividiam a cama do meu marido. Em dias alternados, provavelmente. Atravessei o hall de mármore com postura de vitrine. Toda mulher sabe: quando está sangrando por dentro, mantenha o queixo erguido e os ombros firmes. O resto é performance. O jardim estava impecável. Bougainvilles floridos, cadeiras coloniais ao redor de uma mesa de chá montada como em um filme britânico. Elas estavam todas lá. Fabiana, de tailleur branco e óculos escuros. Rebeca, a influencer de risada fácil, tirando selfies com o bule de prata. E Lívia. Sentada ao centro. Como se já tivesse conquistado o trono. Todas viraram quando me aproximei.— Isa! — Fabiana se levantou, me abraçando com aquele perfume caro que cheirava a mentira. — Estávamos falando de você! — Espero que bem — respondi, sorrindo. — Sempre. Você é o rosto da nova mulher pública. Bela, discreta e letal — disse Rebeca, como se tivesse ensaiado a frase num espelho. — Letal? — Lívia perguntou, rindo. — A Isa é um anjo. É por isso que ela brilha tanto. — Às vezes, os anjos também caem — respondi, pegando a taça de chá. Lívia me lançou um olhar breve. Fabiana fingiu não ouvir. Rebeca se distraiu com o celular. Mas eu vi. Todas estremeceram, por dentro. Mesmo que ainda não soubessem por quê. — Estávamos comentando sobre o jantar de gala — disse Fabiana. — Você vai deslumbrar, como sempre. Daniel deve estar orgulhoso. Sorri. — Ele sempre está. Principalmente quando eu o surpreendo. Rebeca deu risada. Lívia mexeu o colar. Fabiana mudou de assunto rápido demais. — Estamos pensando em lançar uma nova frente de apoio a mulheres empreendedoras. Você toparia liderar? — Claro — respondi sem hesitar. — Mulheres apoiando mulheres... é um dos meus valores mais profundos. O deboche foi sutil. Quase invisível. Mas quando olhei para Lívia, ela desviou os olhos. O instinto falou antes da razão. Ela sabia que algo não batia. Mas ainda não sabia o quê. E era assim que eu gostava. No fim da reunião, tirei uma foto com as três. Meu braço em volta da cintura de Lívia. Meu sorriso impecável. E o post pronto na legenda da influencer: “As mulheres mais fortes são as que se unem. #sororidade #liderança #poderfeminino” Mal sabiam elas... que a mulher ao centro da foto já tinha decidido quem iria cair primeiro. Me despedi das três com abraços polidos e sorrisos ensaiados. Fabiana me lançou um olhar que parecia mais uma pergunta do que um adeus, mas não disse nada. Lívia saiu com muita pressa, pois recebeu uma ligação. Rebeca já estava tirando fotos para postar. Caminhei sozinha pela lateral do casarão da associação, onde o motorista me esperava. Mas antes de chegar ao portão, um reflexo me chamou atenção. Daniel, ao lado do seu carro. Lembro que ele estava em uma reunião no prédio ao lado da Associção das Mulheres. Ele estava do outro lado da rua, parcialmente escondido por uma árvore. Parado. Vidros semiabertos. Ele não viu que eu o vi. Inclinei-me discretamente atrás do muro de pedra coberto de trepadeiras. Minha respiração ficou contida. Quase suspensa. Daniel falava ao telefone. Voz baixa, tom firme. E, por sorte ou ironia, o painel do carro acendeu por segundos: “Lívia trabalho”. — Não, você não vai faltar hoje. Preciso que esteja lá. Perto de mim. Ela não sabe de nada. Ele fez uma pausa. Riu. — Confia em mim, amor. É só mais um teatro. Ela nasceu para ser fachada. Meu coração bateu seco. A raiva me percorreu como eletricidade estática debaixo da pele. E mesmo assim, continuei ouvindo. — Não quero mais beijos escondidos. Depois da eleição, tudo muda. Você sabe. Eu vou tirar a máscara... por você. Desligou. Fiquei parada por mais alguns segundos, como se meu corpo precisasse de permissão pra se mover. A frase martelava: "Depois da eleição, tudo muda." Claro que muda. Porque até lá, eu ainda sou útil. Respirei fundo. Endireitei os ombros. E saí de trás do muro como se nada tivesse acontecido. Caminhei com calma até meu carro. Quando entrei, o motorista já estava pronto para dar partida. Mas então o celular vibrou. Tela acesa. Número desconhecido. Nenhuma foto. Nenhum nome. “Você não faz ideia do quanto ele mente. Mas eu posso mostrar.” Olhei ao redor. Ninguém por perto. A mensagem desapareceu segundos depois. Apagada automaticamente. Fechei os olhos por um instante, sentindo a adrenalina percorrer cada vértebra. Daniel achava que eu era a mulher perfeita. A decoração da fachada. A estátua de porcelana que ele podia exibir. Mas porcelana também corta. E eu estava pronta para sangrar quem fosse necessário. *** 20h - Jantar de Gala A escadaria do Hotel Elysée parecia feita de vidro líquido. Luzes douradas, câmeras piscando, sorrisos em cada canto. Todos ali esperavam por algo: uma declaração, uma foto perfeita, um tropeço. Eu entregaria só o que quisesse. Nada mais. Daniel estendeu a mão quando descemos do carro. Peguei, claro. O show havia começado. — Está maravilhosa — ele sussurrou, como quem fala para o público, não para mim. — Sempre estou — respondi sem sorrir, sem virar o rosto. Fotógrafos se amontoavam. Gritavam nossos nomes como se fôssemos os protagonistas de um épico. E talvez fôssemos. Só que eles ainda não sabiam que era um épico de vingança. Entramos no salão principal. Lustres de cristal, pianista ao vivo, garçons servindo champanhe como se fosse água. A elite inteira estava ali. E todas as máscaras também. — Isabela! — ouvi a voz de Fabiana ao longe. — Que entrada divina. Você é o próprio pôr do sol! Virei com um sorriso estudado e caminhei até a mesa da associação. E lá estava ela. Lívia. Vestido preto com decote nas costas. Batom vinho. Cabelos soltos. A amante tentando parecer a dama. — Que bom que veio — falei, me aproximando. — Você precisava estar aqui. Ela arregalou os olhos por um segundo. Só um. Mas foi suficiente para que eu soubesse: algo dentro dela tremeu. — Eu... claro. É uma honra estar com vocês. — O Daniel vai adorar ver você — completei. — Afinal, vocês dois têm se encontrado bastante ultimamente, né? O silêncio durou meio segundo a mais do que o aceitável. Mas ela se recompôs. Riu. — Reuniões da associação. Coisa de bastidores, você sabe. Eu assenti. Bastidores. Era tudo o que ela seria em breve. De longe, vi Leonel conversando com dois empresários. Mas seus olhos estavam em mim. Não como um homem olha uma mulher bonita. Era diferente. Como alguém que observa o movimento de uma cobra prestes a dar o bote. Ele sabe que tem algo acontecendo. E parece pronto para escolher um lado. Só não sei qual ainda. — Filha, venha — chamou meu pai, impaciente, indicando nossa mesa. A família perfeita precisava sentar unida. Antes de ir, olhei para Lívia. — Te espero no lounge depois. Precisamos conversar. Mulheres influentes... têm que se manter unidas, não acha? Ela forçou um sorriso. — Claro, Isa. O que você quiser. Mal sabe ela que a única coisa que eu quero agora... é ver esse teatro desmoronar com ela no centro do palco. — E com vocês, Lívia Ribeiro! — anunciou o mestre de cerimônias. Luzes sobre ela. Vestido preto, pose estudada. Lívia subiu ao palco com aquele ar de mulher que acredita que chegou ali pelo mérito e não pelo banco de trás de um carro com vidros escuros. O salão aplaudiu com elegância moderada. Eu, apenas bati palmas com as pontas dos dedos. Sem levantar da cadeira. Sem desviar o olhar. — Esta medalha representa um esforço coletivo, mas também pessoal — começou ela, já com a medalha no peito. — Por isso, quero dedicar a uma mulher que me inspira... Isabela Costa. A mesa se virou para mim. Os olhares, o murmúrio, os celulares sendo levantados para filmar minha reação. Eu respirei fundo, levantei a taça e sorri como quem ganha um prêmio que nunca quis. — Que honra — respondi, erguendo levemente o copo. — Acho admirável ver mulheres que sabem reconhecer... influência. Daniel olhou para mim com aquele brilho artificial nos olhos. Tentou rir. Mas não passou da garganta. — Vocês duas mal se conhecem, né? — disse ele, entre dentes, enquanto voltava a se sentar. — E mesmo assim, ela me admira. Vai ver você também causa esse efeito por aí. Ele não respondeu. Lívia desceu do palco e voltou para a mesa da associação. Fingiu não me olhar. Mas eu sabia que cada palavra que eu dizia era um anzol lançado direto no ego dela. — Preciso te apresentar uma amiga depois, Isa — ela disse, quando passei perto da mesa delas. — Claro — respondi. — Mas só se ela também admirar gente casada. Acho que é o critério da casa. O grupo riu. Rebeca, sem entender, achou que era piada. Fabiana estreitou os olhos. Lívia travou por meio segundo, o suficiente para saber que ela entendeu. Mas ninguém ali poderia acusar nada. Não havia nomes. Nem acusações. Só... camadas. Veneno por entre o champanhe. E esse era o meu novo jogo.POV IsabelaO evento de gala da Associação de Arquitetura e Engenharia era, tradicionalmente, o lugar onde a elite do setor se reunia para pavonear egos. Três anos atrás, eu estaria lá como a esposa do Daniel, preocupada com a cor do vestido, com o ângulo da foto e com o que Álvaro diria sobre a minha postura.Hoje, eu estava lá como a CEO da Vanguarda.O salão principal do hotel estava iluminado por candelabros que lembravam uma era de grandiosidade, mas a atmosfera que eu trazia era diferente. Eu vestia um vestido de um azul profundo, com um corte simples que transmitia confiança e autoridade. Eu não estava ali para ser exibida. Eu estava ali como uma igual entre iguais — ou, talvez, como a pessoa que mudou as regras do jogo.Leonel caminhava ao meu lado. Ele estava impecável em um terno escuro, mas o que me chamava a atenção não era a roupa; era a forma como ele me olhava. Não era o olhar de quem protegia uma propriedade, mas o olhar de um parceiro que compartilhava a jornada. Ele
POV IsabelaUm ano. Doze meses são o suficiente para transformar o caos em lembrança e a agonia em uma nota de rodapé.Eu estava parada no terraço da nossa casa, não a cobertura fria que ocupava na época de Daniel, mas uma casa térrea, ampla, cercada por jardins, a trinta quilômetros do centro. O ar aqui era diferente. Tinha cheiro de terra molhada, de jasmim e de um silêncio que não era mais vigiado. Abaixo de mim, o terreno se estendia até um pequeno bosque de mata nativa que decidimos preservar em vez de construir mais uma garagem.A Vanguarda Engenharia não era mais o centro gravitacional da minha existência. Ela continuava a ser o império que eu comandava, mas agora era uma entidade saudável, independente e ética. As auditorias externas, que antes eu encarava como ferramentas de sobrevivência, tornaram-se parte do nosso DNA corporativo.A empresa lucrava, sim, mas lucrava de um jeito que me permitia dormir sem precisar verificar se havia alguém rondando o meu portão. O nome "Lace
POV IsabelaO ponto de encontro era um estacionamento isolado, nos fundos de um depósito de materiais que a empresa utilizava. Eu observei tudo do meu escritório, através de monitores de alta resolução. Leonel estava lá embaixo, em um carro descaracterizado, com uma equipe de segurança que ele mesmo treinou, pronta para agir no momento em que Vilela desse o primeiro passo em falso.O carro de Vilela entrou no estacionamento às 22h. Ele estava sozinho, nervoso. Eu podia ver pela forma como ele olhava para os lados a cada segundo. Quando ele desceu do carro, ele segurava um pendrive, o objeto que ele acreditava ser o seu seguro de vida.— Ele não sabe onde se meteu — Leonel murmurou pelo rádio, sua voz calma e precisa. — Ele acha que está negociando com uma empresa. Ele não percebeu que está negociando com a mulher que derrubou o clã Lacerda.Vilela caminhou até o carro de Leonel.Quando ele se aproximou da janela, Leonel saiu, sua presença preenchendo o espaço de uma forma que forçou V
POV IsabelaA paz na Vanguarda Engenharia tinha um sabor singular, uma mistura de trabalho árduo e a leveza de quem não precisa mais olhar por cima do ombro. No entanto, o mundo dos negócios, especialmente o da construção civil, é feito de camadas profundas de podridão que nem sempre emergem de uma vez só. A empresa prosperava, as ações eram as mais valorizadas do setor e eu, finalmente, conseguia me ver como algo além de uma sobrevivente. O meu escritório, agora com as paredes forradas de projetos sustentáveis e não de documentos de auditoria, era o coração de uma nova era. Mas, naquela terça-feira nublada, uma notificação no sistema de monitoramento de fluxo de caixa de Leonel disparou um alerta vermelho.— Isabela, venha aqui. Rápido — a voz dele pelo interfone era desprovida de qualquer emoção, o tom que ele guardava apenas para ameaças reais.Caminhei até a sala de segurança, onde ele concentrava o monitoramento de riscos. Ele apontava para uma transação obscura, uma tentativa d
POV IsabelaO juiz de paz era um homem de fala mansa, cujo sorriso sugeria que ele já vira muitos casais passarem por ali, mas nenhum com a intensidade que via em nós. Ele começou o rito. As palavras sobre "honra" e "fidelidade" não soaram como obrigações religiosas pesadsa, mas como uma promessa prática, quase uma extensão do nosso trabalho diário na Vanguarda.Quando chegou o momento dos votos, eu não precisei de cartões. As palavras estavam gravadas na minha alma, forjadas por tudo o que superamos.— Leonel — comecei, olhando-o nos olhos, ignorando a leve trepidação na minha voz. — Nós nos conhecemos nas sombras de uma vida que tentava nos destruir. Eu te conheci como o assessor, a guarda, e você me conheceu como a vítima. Nós vimos o pior um do outro. Vimos o desespero, a ganância, o medo e a destruição de tudo o que achávamos ser o nosso mundo. Mas, mesmo diante da escuridão, você escolheu me proteger, e eu escolhi lutar ao seu lado. Hoje, eu não te prometo apenas amor. Eu te pr
POV IsabelaA manhã do dia 14 de maio não trouxe o sol escaldante que costumava banhar a cidade, mas uma luz suave, filtrada por uma leve neblina que tornava a cidade mais silenciosa.Eu estava parada diante do espelho de corpo inteiro em uma suíte modesta, porém elegante, longe de qualquer hotel de luxo que o clã Lacerda costumava frequentar. Não havia estilistas italianos contratados por uma revista de celebridades para me vestir. Não havia uma legião de assessores de imprensa coordenando cada movimento para garantir que o ângulo da foto fosse perfeito para a capa da Forbes.Havia apenas um vestido de seda branca, de corte simples e fluido, sem rendas ostensivas ou pedrarias desnecessárias. Era o vestido de uma mulher que não precisava mais provar nada para ninguém.A porta se abriu suavemente e Leonel entrou. Ele parou, observando-me através do espelho. O terno dele era azul-marinho, bem ajustado, longe da austeridade dos uniformes de segurança ou da formalidade sufocante dos terno







