Compartilhar

Capítulo 6: Duas Vozes

Autor: FannyMotta
last update Data de publicação: 2025-01-24 02:48:03

Fernanda Mendonça:

— Sério? Não acredito que deixaram uma gorda buscar equipamentos tão importantes!

A voz cheia de deboche ecoa pelo corredor, cortando o ar como uma lâmina, minha mão trava na maçaneta da sala de descanso.

— Ainda bem que a doutora também te levou, Ka. Imagina se você não estivesse lá! Poderiam ter perdido a vida do bebê! — Outra voz se junta, carregada de veneno, o tom leve só tornando as palavras mais cruéis.

— Eu ouvi dizer que ela não saiu da sala após a saída da doutora. Será que cometeu mais algum erro e por causa disso a paciente morreu? — Uma terceira voz se une ao coro, cada palavra me atingindo como um soco.

— Não duvido. Ela mais atrapalha do que ajuda.

— Sim, a tia da paciente deu um tapão na cara dela, só não bateu mais porque o Doutor Castellane impediu.

— Bem pouco, ela não tinha que dar notícia nenhuma a família.

As palavras pairam no ar, pesadas e implacáveis. Cada uma delas parece atravessar minha pele e se alojar fundo, alimentando uma dor que já carrego há tanto tempo.

Meu peito aperta, e uma mistura de vergonha e raiva cresce dentro de mim, como uma chama sufocada que não consegue se apagar nem se espalhar.

É tanta coisa acontecendo...

As risadas abafadas continuam, carregadas de escárnio, e tudo o que consigo fazer é abaixar a cabeça, fingindo que não ouvi e a passos lentos me afasto da sala. Meu rosto queima, e as lágrimas que eu pensei ter conseguido me livrar voltam com o dobro de força.

Mas eu não posso chorar.

Não aqui.

Meus dedos se fecham em punhos, cravando as unhas na palma das mãos, tentando conter o tremor que toma meu corpo.

Por que estou aqui mesmo?

A pergunta surge na minha mente como um sussurro insidioso. Por que achei que poderia fazer isso? Por que pensei que seria capaz?

Por que foi mesmo que eu tive a brilhante ideia de me tornar uma enfermeira?

Fecho as mãos em punhos e respiro fundo, tentando não me deixar consumir por essas palavras cruéis. Mas a verdade é que elas ecoam, alimentando a insegurança que já está tão arraigada dentro de mim.

Eu respiro fundo, tentando segurar a onda de emoções que ameaça me engolir. Mas é impossível ignorar o eco das palavras delas, repetindo-se na minha cabeça como uma fita quebrada, cada vez mais altas, mais cruéis.

— Ei, Mendonça... estagiaria Mendonça! — Sinto uma mão firme em meu ombro, me fazendo parar abruptamente.

Viro-me, encontrando a figura da Dra. Débora um pouco embaçada pelas lágrimas que teimam em se formar nos meus olhos.

— Você está bem?

Pisco rapidamente, tentando me recompor.

— Si-sim, estou... estou bem , eu só... eu — não consigo encontrar palavras.

Ela me observa por um momento, como se tentasse avaliar se deve insistir ou não.

— Soube do incidente com a tia da paciente. Não se abale por isso. Violência da parte deles é mais comum do que deveria em hospitais. A maioria acha que somos Deus.

Eu apenas assinto, incapaz de responder. Ela não precisa saber que a mulher não me bateu porque queria salvar a sobrinha, mas sim porque a culpa precisava de um alvo — e eu estava lá.

— Enfim — a Dra. Débora continua, ajeitando o jaleco. — Distraia sua mente absorvendo mais conhecimento. Venha comigo.

Ela começa a caminhar para a ala pediátrica onde as crianças estão internadas.

Meu coração começa a acelerar assim que entro na sala cheia de monitores e pequenos corpos conectados a fios e tubos. O som das máquinas é um lembrete constante de quão delicadas são essas vidas. Tento me concentrar, mas minhas mãos estão trêmulas, e cada movimento parece mais desajeitado do que o anterior.

— Estagiária Fernanda, o prontuário do paciente — a Dra. Débora pede, estendendo a mão.

— Ah, sim, claro — digo apressadamente, pegando a prancheta ao meu lado.

Mas, no processo, ela escorrega dos meus dedos e cai no chão com um som seco que parece muito mais alto do que deveria.

A Dra. Débora e a enfermeira Carla me lançam olhares rápidos. Não são hostis, mas a tensão no ar é palpável.

Abaixo-me para pegar a prancheta, meu rosto queimando de vergonha. Quando volto a ficar de pé, percebo que perdi parte do que a Dra. Débora estava dizendo.

— Você ouviu o que eu pedi? — Ela pergunta, olhando para mim.

— Sim... quer dizer, não. Me desculpe, pode repetir?

Ela suspira, tentando disfarçar a irritação.

— A dosagem do medicamento que precisamos administrar. Está aí no prontuário.

Folheio as páginas freneticamente, meus olhos passando por linhas que parecem se embaralhar. As palavras na prancheta não fazem sentido, como se eu estivesse lendo um idioma desconhecido.

— Fernanda, hoje ainda, por favor — a enfermeira Carla fala baixo, para que as crianças não ouçam, me fazendo estremecer.

— Aqui... está aqui... — finalmente aponto para a linha, mas minha voz vacila.

— Isso não está certo — Carla diz, olhando rapidamente o que indiquei. Ela pega a prancheta das minhas mãos e verifica o dado correto em segundos. — A dosagem é 2,5 mg, não 1 mg.

Meu rosto queima, e eu sinto vontade de desaparecer ali mesmo.

— Está tudo bem. Vamos ajustar — a doutora Débora tenta amenizar.

Mas o olhar dela é suficiente para me fazer recuar. Ela se vira para Carla.

— Carla, assuma aqui, por favor. Fernanda, vá para casa, volte amanhã com a mente no lugar.

As palavras são educadas, mas o peso da insuficiência é impossível de ignorar.

— Sim, doutora — murmuro, com a garganta apertada. Saio da sala rapidamente, sem olhar para trás.

Assim que fecho a porta, as lágrimas finalmente escapam. Encosto-me contra a parede fria do corredor, sentindo cada gota escorrer pelo meu rosto.

Por que isso está acontecendo? Por que não consigo acertar?

Na faculdade, eu era excelente. Sempre tirava as melhores notas, sempre elogiada pelos professores. Mas aqui, na realidade, sinto como se não soubesse nada.

As vozes da doutora e de Carla ainda ecoam pela porta, calmas e eficientes. Elas estão fazendo o trabalho que deveria ser meu, por ser a estagiaria.

Você não está pronta para isso — a voz cruel na minha mente me golpeia novamente, mas a raiva contra mim mesma é maior.

— Fernanda?

Meu nome é chamado, mas não por uma voz — são duas, em uníssono.

Levanto a cabeça de repente, piscando para limpar a visão embaçada pelas lágrimas. Meus olhos alternam entre Pietro e Tiago, ambos parados à minha frente, tão próximos que parecem quase espelhar a presença um do outro. Suas mãos estão erguidas, como se estivessem prestes a me tocar, mas ambas hesitam, congeladas no meio do caminho dando-se conta uma da outra.

O choque inicial me deixa sem reação. Mas antes que eu consiga dizer qualquer coisa, os dois homens desviam os olhares de mim e se encaram.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 86: A Gente Volta A brincar

    5 anos depois:Pietro Castellane:O sol começa a nascer com uma delicadeza quase tímida, tingindo o céu com tons suaves de rosa e dourado. Da varanda do nosso quarto, na casa de praia onde passamos nossa lua de mel, tudo parece exatamente como naquela primeira vez — mas ao mesmo tempo, absolutamente transformado. Agora há brinquedos esquecidos na areia, risadas infantis ainda ecoando na minha memória e pequenos pares de chinelos na porta do quarto. As crianças ainda dormem nos quartos de baixo, exaustos depois de um dia inteiro de sol, castelos de areia, correria com os primos e mergulhos infinitos. Os responsaveis pela crianças ontem foram Laura e Fernando. Então, eu e a minha linda e querida esposa aproveitamos a noite toda. Literalmente. Fizemos amor em cada canto desse quarto: contra a parede, sobre os lençois amarrotados, no chão ainda quente da varanda, como se tentássemos imprimir nossa história mais uma vez nas paredes dessa casa.Fernanda está de costas para mim agora, nua so

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 85: Chá Revelação.

    Seis meses depois:Fernanda Castellane:— Pronto. Agora sim você está perfeita — ouço a voz de Olivia atrás de mim, enquanto ajeita a última mecha do meu cabelo com delicadeza.Minha mãe sorri, em pé à minha esquerda, com as mãos cruzadas diante do peito, visivelmente emocionada. Laura, mais concentrada, se abaixa para alisar com cuidado a barra do meu vestido branco, esvoaçante e leve, que abraça minha barriga de sete meses como se tivesse sido feito para isso.Sinto as mãos delas em mim com um carinho que aquece o peito. Tantos meses se passaram desde aquele dia no banheiro, desde a confusão, o medo, a descoberta — e agora, aqui estou, prestes a revelar o nome e o sexo do nosso bebê, cercada por pessoas que verdadeiramente torcem pela nossa felicidade.De repente, o som de um choro frágil e agudo corta o ar. É Eduardo, o recém-nascido de Laura, que desperta com o barulho das vozes, exigindo atenção como o pequeno rei da casa que é.— Com licença, meninas, vou alimentar meu comilão

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 85: Melhor Coisa Do Mundo

    Fernanda Castellane:O mundo para quando seus lábios tocam minha barriga, num beijo tão terno que arde como fogo, com uma reverência inesperada que me faz querer chorar.— Cresça, minha criança... — ele sussurra contra minha pele, a voz tão cheia de amor. — Seus pais estão aqui. Te esperando, ansiosos para te conhecer.Pietro se levanta devagar, como se o chão que pisasse fosse sagrado. O olhar dele permanece fixo no meu rosto, tão intenso que faz meu coração doer. Sinto como se ele enxergasse além da minha pele, além da confusão, da coragem e do medo. Como se ele visse a mulher inteira que eu sou — assustada e grávida — e ainda assim, quisesse me amar mais por isso. Não consigo conter mais as lágrimas. Elas escorrem silenciosas, quentes, lavando tudo que ficou preso dentro de mim por dias. Minhas mãos agarram a camisa dele com força e, sem pensar, me jogo contra seu peito e grudo meus lábios nos dele.O beijo é desesperado, molhado de emoção, cheio de tudo o que eu não consegui dizer

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 84: Não Mudaria Nada

    Fernanda Castellane:— Não entra aí! — grito, sem pensar, correndo pelo quarto como se minha vida dependesse disso.O grito rasga minha garganta antes que eu possa pensar, um reflexo puro de pânico. Meu corpo se lança em direção ao banheiro como se estivesse disputando uma corrida contra a morte — pés descalços batendo no chão frio, quase escorregando no tapete, mas me mantenho de pé.Pietro está quase dentro do banheiro, com a luz acesa. Meu coração bate ainda mais rápido, ele para, seus olhos fixos em mim, aproveito e bloqueio a porta com o meu corpo.Pietro recua um passo, surpreso, me encarando com as sobrancelhas erguidas. O olhar dele se estreita com uma mistura de confusão e algo mais… desconfiança.— Por que não? — ele pergunta, a voz baixa, controlada, mas carregada de alerta.— Eu... eu… — minha voz falha.Minhas mãos se fecham em punhos tão apertados que as unhas cavam sulcos na palma. O ar queima nos pulmões, uma onda de medo adentrando meu corpo. Meu peito sobe e desce

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 83: Vencemos!

    Fernanda Castellane:O silêncio do banheiro é tão denso que parece ter peso próprio — um véu sufocante que amplifica cada batida do meu coração, cada tremor das minhas mãos. O ar está parado, impregnado com o cheiro de limpeza.Sento sobre a tampa do vaso sanitário, o plástico gelado chegando a minha pele, atravessando o tecido fino do meu short. Não me importo. O frio é real, concreto — algo que posso sentir além do turbilhão dentro de mim.Na pia, o teste de gravidez repousa como uma sentença.Dois minutos.Dois minutos desde que o tirei da embalagem, desde que segurei sob o fluxo, desde que o coloquei ali, virado para baixo—covardemente escondido, como se isso pudesse adiar o inevitável.Não olho.Não ainda.Cruzo os dedos, meus pensamentos voam para Pietro. Nesse momento, a audiência já está acontecendo. Queria estar lá com ele, demonstrando o meu apoio, mas achamos melhor eu ficar aqui com Gabriel, que neste exato momento está dormindo no bercinho. Mas me acalma o fato de que meu

  • Meu Amor Proibido: O pai do bebê - Livro 2   Capítulo 82: Tribunal

    Pietro Castellane:O ar no tribunal está pesado, carregado da eletricidade silenciosa que precede uma tempestade. A promotora, com seu terno impecável e postura afiada, desfia as acusações contra mim com a precisão cirúrgica de quem acredita ter a vitória nas mãos. Cada palavra dela é uma faca, cuidadosamente afiada para o golpe final.Mas meus olhos não estão nela.Eles estão fixos em Adélia, sentada do outro lado da sala, aninhada entre seus advogados como uma rainha em seu conselho de guerra. Seu sorriso é fino, quase imperceptível, mas eu o vejo — aquele brilho de triunfo nos olhos, a postura relaxada de quem já conta os troféus antes da batalha. Ela cruza as pernas, ajusta a pulseira de ouro no pulso e me encara, desafiante. "Você já perdeu", seu olhar diz.E então, a promotora termina.O silêncio que se instala é quebrado pelo som de uma cadeira arrastando-se lentamente contra o piso de mármore. Meu advogado — um homem de cabelos grisalhos, pele marcada pelo tempo e olhos que já

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status