FAZER LOGINAndréas Albuquerque construiu um império. Aos trinta e dois anos, tornou-se o homem mais rico do país. Frio, perfeccionista e conhecido por não tolerar erros, ele acredita que sentimentos são uma fraqueza e que sua empresa sempre virá em primeiro lugar. Ana jamais imaginou trabalhar para um homem como ele. Filha de uma diarista, moradora de um pequeno apartamento no Queens e prestes a concluir a faculdade de Direito, ela aceita o emprego de secretária para pagar os estudos. Inteligente, determinada... e absurdamente desastrada quando o assunto é café. Em poucos dias, consegue derramar café, água e outras bebidas sobre o próprio chefe tantas vezes que vira motivo de piada na empresa inteira. A cada acidente, Andréas a humilha ainda mais, convencido de que contratou a secretária mais incompetente de Nova York. Mas tudo muda quando a leitura do testamento de sua falecida mãe revela uma última condição para que ele recupere sua herança. Embora continue sendo dono da Nexus, todo o seu patrimônio pessoal, suas contas, imóveis, ações, investimentos, iates, jatos particulares e coleções milionárias permanecem bloqueados por um fundo administrado pelos advogados da família. Para recuperar o controle de sua fortuna, ele terá de cumprir uma única cláusula deixada por sua mãe: Casar-se e permanecer casado por, no mínimo, um ano com alguém que não tenha qualquer interesse em seu dinheiro. Se descumprir a exigência, a herança será destinada a uma fundação beneficente, e ele perderá para sempre bilhões de dólares e parte do controle do legado de sua família. Depois de conhecer dezenas de candidatas interesseiras, Andréas percebe que existe apenas uma mulher completamente imune ao seu dinheiro. Sua própria secretária. A garota que não consegue passar uma semana sem derramar uma bebida nele e não o tolera. Sem alternativas, ele faz uma proposta. Um casamento falso.
Ver maisA primeira semana na Nexus parecia ter durado um mês inteiro. Trabalhar para Andréas Albuquerque ia muito além de responder e-mails, organizar reuniões e controlar agendas. Ele chegava pontualmente às sete da manhã. Às sete e um, qualquer atraso recebia uma advertência discreta, mas cortante. Andréas não precisava levantar a voz. Sua presença bastava. Não elogiava facilmente, mas quando seus olhos castanhos se fixavam em alguém, era impossível não sentir o peso — e, de forma perturbadora, o fascínio — daquela atenção.
Tudo precisava ser perfeito: reuniões no segundo exato, documentos organizados na ordem precisa, o café na temperatura ideal. Até o silêncio da sala seguia regras invisíveis. Naquela primeira semana, eu mal sentei. A cada cinco minutos, Andréas encontrava uma nova tarefa. — Ana, arquive esses contratos. Cinco minutos depois: — Atualize minha agenda. Mais três: — Ligue para a filial de Londres. Logo em seguida: — Cadê o relatório financeiro? — Na sua mesa, senhor. — Quero outro impresso. Respirei fundo. — Sim, senhor. As outras secretárias me olhavam com uma mistura de pena e cumplicidade. Uma delas comentou no corredor: — Você ainda está de pé? Sorri sem graça. — Por enquanto. — Isso passa — ela riu. — Ele faz isso com todo secretário novo. É um teste. Para ver quem aguenta. Voltei para a sala com outra pilha de documentos. Andréas assinava contratos sem levantar os olhos, sua voz grave e controlada. — Faça reservas para sexta. Cancele a reunião das três. Ligue para Nova York. Depois organize esses arquivos. Olhei para a montanha de pastas. — Todos? Ele ergueu uma sobrancelha, com um leve sorriso de canto que não chegava aos olhos. — Você está vendo mais alguém aqui? Engoli seco. Ele as vezes dá cada patada. — Não, senhor. Passei a manhã inteira andando de um lado para o outro. Quando o relógio marcou meio-dia, meu estômago roncou alto. Antes que eu pudesse escapar: — Ana. Fechei os olhos por um segundo. — Sim? — Meu café. Fui até a copa, preparei o café na xícara preta que ele sempre usava e voltei pelo corredor. No momento em que entrei na sala, um funcionário abriu a porta ao mesmo tempo. O impacto foi leve, mas suficiente. A xícara escorregou, o café quente virou inteiro sobre a camisa branca impecável de Andréas. Os documentos sobre a mesa também ficaram encharcados. O silêncio foi ensurdecedor. Mas que droga... o que acabei de fazer? Ele se levantou devagar, imponente. Olhou para a própria roupa, depois para mim. Seus olhos frios carregavam mais decepção do que raiva — e, estranhamente, um brilho de desafio que fez meu estômago revirar. — Você tem ideia do que acabou de fazer? — Foi um acidente, senhor... — Acidente? — A voz dele, baixa e controlada, ainda assim encheu a sala. — Você chama isso de acidente? Ele pegou um dos contratos molhados e o jogou sobre a mesa. — Esse documento estava pronto para assinatura. Agora serve para quê? Permaneci calada, o rosto queimando. — Responda. — Não serve... — Exatamente. Andréas passou a mão pelo terno caro, o tecido agora manchado, e suspirou com uma mistura de irritação e algo que quase parecia diversão cruel. — Você conseguiu estragar documentos importantes, meu café e um terno que custa mais do que muita gente ganha em um ano. Na entrevista você parecia eficiente. Estou começando a achar que foi sorte. As palavras doeram. Ainda assim, havia algo na maneira como ele me olhava — intensa, direta, quase íntima — que tornava impossível desviar o olhar completamente. — Senhor, eu posso providenciar novos documentos... — Claro que pode — interrompeu ele, dando um passo à frente. Sua altura e presença pareciam ocupar todo o espaço. — Porque você vai refazer tudo. Cada contrato. Cada assinatura. Cada reunião remarcada. Ele se aproximou mais, a voz baixando um tom. — E outra coisa: nunca mais entre nesta sala carregando algo sem prestar atenção onde pisa. Se não consegue levar uma simples xícara de café, imagine decisões importantes. As palavras atingiram. Quis explicar que a porta havia me atingido, mas sabia que qualquer justificativa só pioraria. Ele apontou para a saída. — Vá trocar esses documentos. Saí da sala sob olhares discretos. Uma funcionária se aproximou. — Você está bem? Não liga... Ele é assim, principalmente quando está estressado. — Estou tentando, mas ele é muito difícil. — Tenha calma, talvez seja por isso que todas as secretárias dele pedem demissão. Engoli seco e recolhi os documentos molhados, imprimi tudo novamente, revisei página por página e voltei. Entreguei a nova pasta com as mãos ainda trêmulas. Andréas folheou devagar, conferindo cada página. Por um instante, achei que tivesse terminado. Então ele ergueu o olhar, um pequeno sorriso provocador surgindo no canto da boca — o tipo de sorriso que fazia o ar parecer mais rarefeito. — Você tirou cópias? — Não... imprimi novamente do sistema. Sem dizer uma palavra, ele abriu a lixeira ao lado da mesa e jogou toda a pasta dentro. Meu estômago afundou. — Agora você vai recuperar tudo de novo. — Mas... — Algum problema? — perguntou ele, cruzando os braços, a postura elegante e dominante. Explicou, com aquela voz grave e calma que parecia feita para comandar: — Secretárias inteligentes sempre fazem cópias de documentos importantes antes de entregá-los. Como você ainda não aprendeu isso... vai abrir cada documento, mandar para o seu e-mail. Cem vezes. — Cem vezes? — Exatamente. Assim talvez você memorize que nunca mais deve derramar café em mim ou colocar documentos importantes em risco. Sentei diante do computador e comecei a tarefa humilhante. As horas se arrastaram. Quando o andar já estava vazio, Andréas se levantou, vestiu o paletó com movimentos fluidos e elegantes, e caminhou até a porta. — Ainda falta bastante? — perguntou, sem olhar para trás. — Sim. — Então continue. Você só sai quando terminar. — A porta se fechou. Fiquei sozinha até depois das dez da noite. Quando finalmente terminei, saí para a noite fria de Nova York, dirigindo meu carro velho até o pequeno apartamento no Queens. Lá, sozinha, as lágrimas vieram. A humilhação do dia — os olhares, a pasta no lixo, a punição — voltou com força. Chorei por alguns minutos, depois enxuguei o rosto e peguei meus livros de Direito. Faltava pouco para me formar. Eu estava ali por mim, pelo futuro que queria construir. Não por Andréas Albuquerque. Ainda assim, enquanto repetia mentalmente suas palavras, aquele homem era arrogante, exigente e cruelmente carismático. Dinheiro podia comprar ilhas, foguetes e ternos caros, mas ainda não inventaram um cartão que comprasse caráter. E, contra minha vontade, uma parte de mim já se perguntava quanto tempo eu aguentaria aquele sujeito.Eu esperei que ele viesse.Durante a tarde inteira, mesmo sem admitir em voz alta, fiquei atenta ao corredor, à escada, a qualquer som de passos. A mala continuava no chão do quarto, intacta, como um ultimato mudo. A trégua frágil do “só hoje” ainda estava no ar. Em algum momento ele ia bater na porta. Ia tentar de novo. Ia falar demais, explicar demais, pedir demais.Não bateu.No final da tarde, desci e encontrei a casa funcionando como se nada tivesse rachado. Café feito. Silêncio organizado demais. Andréas estava no escritório de baixo, a porta aberta, o notebook à frente, a expressão fechada de quem tinha voltado para dentro de si e trancado tudo por dentro.Parei no batente.— Você sumiu.Ele nem levantou o olhar na hora. Continuou digitando por mais uns segundos, como se eu fosse só mais um barulho da casa.— Estou trabalhando.— Desde quando “trabalhar” inclui fingir que eu não existo no andar de cima?Aí ele olhou. E o que eu vi não foi a urgência de antes. Não foi o homem da
*AnaNo meio da manhã, cansada do corredor em silêncio e do café servido em turnos para não nos encontrarmos, eu comecei a colocar dentro dela roupa, carregador, o necessário para alguns dias na casa da minha mãe.Não era fuga e sim sobrevivência. Eu estava no quarto fechando o zíper quando a porta se abriu sem batida. Andréas parou no batente. Os olhos desceram da minha cara para a mala, voltaram, e alguma coisa no rosto dele endureceu de verdade.— Você vai embora.Não era pergunta.— Vou ficar alguns dias com a minha mãe.— Sem falar comigo?— A gente não está falando, Andréas. A gente está coexistindo.Ele entrou. Fechou a porta com cuidado demais para o que vinha no olhar.— Então você resolve na base do sumiço? É isso?— Eu resolvo na base do que ainda me mantém inteira. Agora me dá licença.Segurei a mala. Ele não bloqueou o caminho com o corpo, mas também não se afastou. O ar no quarto ficou estreito.— Ela não foi convidada — disse, direto. — E eu posso provar.Eu soltei uma
* AnaO carro parou na frente da mansão e eu demorei um segundo a mais do que o necessário para abrir a porta.Já estava mal no caminho. O riso do bar tinha durado só até a primeira avenida. Depois sobrou o silêncio, o banco escuro e a certeza de que, do outro lado daquela entrada, existia uma casa grande demais para duas pessoas que não sabiam mais como ocupar o mesmo espaço.Entrei.A luz do hall estava acesa. Baixa. Andréas estava na sala de estar, sentado no sofá, o notebook aberto sobre a mesa de centro e claramente abandonado há horas. Quando a porta se fechou atrás de mim, ele levantou o olhar na hora. Como se tivesse contado os minutos.Eu senti o corpo inteiro travar.— Chegou — disse ele, a voz baixa, sem nenhuma pretensão de leveza.Não era pergunta. Também não era carinho. Era só o reconhecimento tenso de quem estava esperando há tempo demais e já não sabia se ainda tinha o direito de esperar.— Cheguei.Deixei a bolsa no aparador com mais força do que pretendia. Não tirei
* AnaEu não dormi direito. Fiquei deitada no escuro com o celular virado para baixo, o peito apertado e a imagem daquela mulher descendo a escada repetindo sem piedade. Toda vez que fechava os olhos, voltava o mesmo quadro: o casaco comprido, a certeza no passo dela, o susto no rosto de Andréas.Em algum momento da madrugada, ouvi passos no corredor.Depois, a batida leve na porta.— Ana.A voz dele saiu baixa. Contida. Perto demais da madeira.— Por favor. Só um minuto.Eu virei para a parede e puxei o cobertor até o ombro. Não respondi. Os segundos se arrastaram. Ele ainda tentou uma vez:— Eu mandei ela embora. Eu juro.— Está tudo bem, Andréas... você não me deve nada, aí me deixa dormir.— Eu devo sim, somos casados e você é... importante pra mim, Ana.— Me deixa dormir, Andréas. Por favor!— Tudo bem... quando quiser me ouvir, estarei aqui.Depois de um tempo, os passos se afastaram. Só então o choro veio de verdade — quieto, feio, engasgado no travesseiro. Não era só ciúme. Er


















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