INICIAR SESIÓNAurora Mancini
Dizem que sucesso é saber o que você quer e não desviar os olhos até conseguir. Eu sei o que quero. E, se tentam me distrair, eu aprendo a olhar por cima das mãos que se levantam no caminho. — Aurora, a Vogue quer exclusividade para o drop de inverno. — diz Luiza, minha assistente, entrando com o tablet e passos medidos. — Diga que não. Exclusividade é um vestido sob medida, eu escolho para quem costuro. — respondo, sem erguer a voz. Ela hesita apenas um segundo, tempo suficiente para o vidro do meu escritório refletir meus próprios olhos… batom impecável, cabelo preso com precisão, terno que corta o corpo na medida exata. O skyline de Milão atrás de mim parece um colar de diamantes. — O conselho também pediu adiantamento da apresentação financeira… — Luiza morde o lábio — Reúna todos na sala 3 às onze. Sem celulares. Quero números, não opiniões. — digo, e fecho a agenda. Ser temida economiza tempo. Ser respeitada economiza guerras. Eu escolhi as duas coisas. A sala 3 é meu anfiteatro. Onze da manhã, o CFO apresenta gráficos enquanto conselheiros trocam sussurros. Interrompo no terceiro slide. — Essa curva está bonita demais para ser verdade. — falo, apontando — Quem maquiou o CAC? — Ninguém maquiou, Aurora. — arrisca o CFO. — Então prove. Agora. Silêncio. Teclados clicam, planilhas abrem como pássaros em revoada. O número “corrigido” surge e me olha de volta, meio ponto acima do tolerável. Eu sorrio sem mostrar os dentes. — Bonito assim só joalheria. Na próxima vez, tragam o bruto. Gosto de lapidar eu mesma. Risos nervosos. Encerramos em trinta e cinco minutos. Quando todos saem, Chiara entra como se fosse dona da sala. Ela é minha amiga desde a escola, trabalha no marketing, e é a única pessoa no prédio que me chama pelo sobrenome só para me irritar. — Mancini, você coleciona CFOs como coleciona taças de Barolo. — provoca, jogando-se na cadeira de frente. — O problema dos homens não é a matemática, é a coragem. — respondo. — Ou a sua mania de exigir o impossível. — O impossível costumo guardar para a noite. Ela me estuda em silêncio. Chiara tem olhos gentis, e isso me desarma mais do que qualquer pergunta. — Você tem dormido? — Durmo quando o mundo cala. — respondo. — E quando o mundo cala? — Quase nunca. Trabalho me serve de armadura. Mas armaduras pesam. Cinco anos atrás, eu usava vestidos mais leves. Tinha um anel no dedo e um calendário com flores. Lembro da sensação do metal frio quando tirei a aliança um dia antes do casamento, e do calor da raiva quando abri o celular dele numa madrugada. — Você mentiu pra mim esse tempo todo? — perguntei, com a voz tão calma que me assustei. Ele respirou fundo, sempre teatral. — Eu… precisava de algo que você não me dava. — Honestidade? — Eu precisava me sentir homem, Aurora. Você dominava tudo. Eu ri. E foi um som sem humor. — A masculinidade frágil do meu noivo me traiu com duas mulheres e um homem. Parabéns… tripla certificação. — falei, devolvendo o telefone — Você não precisava se sentir homem. Precisava se sentir vivo. Eu não ressuscito cadáver moral. Não gritei. Não chorei na frente dele. Fechei a porta e aprendi a fechar outras coisas também. O coração foi a primeira. A partir dali, parei de aceitar flores e comecei a desenhar regras. Os jantares românticos foram substituídos por jantares com fornecedores. As promessas, por contratos. E, quando a noite pedia um idioma que o dia não fala, eu descia uma escada de pedra, deixava o elevador da cobertura no térreo e entrava por uma porta sem nome. Lembro da primeira vez que pisei na masmorra elegante, de luz baixa e couro polido. Um homem estava de joelhos, alto, bonito, olhos ansiosos, as mãos apoiadas no chão. Meu salto ecoou e a sala prendeu a respiração. — Safeword? — perguntei. — “Âmbar”, Senhora. — respondeu. — Você me obedece por quê? — Porque confio que a senhora sabe o que fazer comigo. Eu sorri. Uma parte de mim, silenciosa desde a traição, respirou de novo. O poder ali não era brutalidade, era consentimento. Era contrato. E, no contrato, eu voltei a existir. Entre reuniões e ordens, construí uma rotina dupla. De manhã, café curto, italiano forte, contratos de sete zeros, prova de tecido que não perdoa costura torta. À tarde, casting de modelos, revisão de campanha, uma ligação ríspida para um fotógrafo que resolveu ser artista quando eu pedi produto. À noite, batom vermelho, luvas na altura do cotovelo, comandos que não precisam ser repetidos. — A Vogue insistiu. — Luiza reaparece à porta no fim do dia. — Diga que mando um lookbook de dez páginas. Nada além. — E o conselho? — Já entenderam. A conta b**e. Ela sorri, aliviada. — Você é um monstro, Aurora. — Monstros não usam seda italiana. — digo, levantando da cadeira — Eles só vencem. Quando o elevador da cobertura se abre, o apartamento me engole com seu silêncio caro. As janelas enormes mostram a cidade como um jogo, e por um momento eu mesma me sinto peça, a rainha que se move na diagonal e a todos corta. Tiro os sapatos, deixo o corpo afundar no sofá e olho para as mãos: firmes, precisas, solitárias. O celular vibra. Chiara: — “Jantar amanhã? Sem pauta, juro.” Respondo: — Se eu sobreviver ao dia. Ela: — “Você sempre sobrevive.” Sorrio de canto. Sobreviver é fácil quando a gente aprende a não morrer por dentro. Caminho até o quarto de dominação. Abro a gaveta onde guardo a caixa de couro: algemas, coleiras, chicotes cuidadosamente alinhados. Passo os dedos sobre cada peça como quem lê uma história em braille. Não é violência. É tradução. É o idioma em que eu mando sem pedir desculpas. Fecho a caixa. Amanhã, eu penso, o mundo volta a me chamar de senhora. E eu direi “sim” com a cabeça e “não” com os termos. Até lá, sou apenas eu, a mulher que transformou cinzas em coroa e descobriu que coroa pesa, mas combina com tudo. Os eventos de moda são vitrines e arenas ao mesmo tempo. Eu caminho por eles como quem desfila um poder invisível. Os fotógrafos sabem que não sou modelo, mas sempre pedem foto. Eu deixo, porque imagem é moeda. Naquela noite, enquanto brindava com investidores franceses, senti um arrepio que nada tinha a ver com champanhe. O ex. Ainda tão arrogante quanto antes, mesmo com as olheiras mal disfarçadas. Aproximou-se como se eu fosse uma lembrança que ele tinha direito de revisitar. — Você parece ótima, Aurora. Dei um gole demorado no cristal antes de responder. — E você parece exatamente o mesmo canalha de sempre. Ele riu, desconfortável. — Ainda guarda rancor? — Não. Guardo lições. — Inclinei a cabeça, firme — E a principal é nunca mais perder tempo com homens como você. Ele tentou recuperar o charme. — Eu te amava, sabe. Só… precisava de coisas que você não me dava. — Dignidade, talvez? — cortei, sem levantar a voz. — Eu precisava me sentir homem. Você mandava demais. Meu sorriso virou arma. — Hoje eu tenho homens que se ajoelham por escolha. E nenhum deles precisa me trair para provar masculinidade. Deixei-o com o riso preso na garganta, e o som da minha taça marcando o passo até a saída foi o epitáfio do nosso passado. Chiara me esperava do lado de fora, sempre no papel de amiga que lê meu silêncio. — Preciso nem perguntar se deu confusão. — disse ela. — Nenhuma confusão. Só um funeral em vida. Rimos juntas, mas por dentro a cicatriz ardeu. De volta à cobertura, sentei-me à mesa de vidro com vista para a cidade. As luzes da cidade se espalhavam como constelações artificiais. A cada andar iluminado, uma história. A minha parecia grandiosa para quem via de fora… império de luxo, dominadora nas sombras, milionária de renome. Mas o copo de vinho estava sozinho na mesa. Os lençóis de seda estavam frios no quarto. A caixa de couro no closet, fechada. Peguei o celular. Uma mensagem piscava de Chiara: — “Um dia, você vai permitir que alguém fique. Eu só espero estar viva para ver.” Apoiei o queixo na mão e digitei de volta: — Alguém já ficou. Só não soube. — Não enviei. Apaguei. Levantei-me e fui até a janela. A cidade refletia no vidro, e por um segundo me vi ali: salto agulha, batom vermelho, postura ereta. Uma rainha. Mas rainhas também governam ruínas. — Sou a dona do meu império. — sussurrei para mim mesma — A senhora do desejo. A Rainha das Cinzas. E nesse eco, entendi o peso que ainda carrego, o corpo sempre saciado em jogos de poder, mas o coração… ainda em silêncio.Aurora Mancini Os dias seguintes viram ouro reluzindo sobre as pequenas coisas. Há fraldas, há banho, há o choro acordando a casa de madrugada. Há uma cantiga que eu não sabia que sabia. A voz sai macia sem aula nenhuma. Talvez venha das mulheres da minha família. Talvez venha da versão de mim que viveu há séculos e que agora ri, reconhecendo-se em cada gesto que faço. Eu balanço o berço e canto baixinho. Aleksei encosta na parede e me olha como se olhar fosse devoção.Klaus se revela um mestre do colo. Diz que aprendeu observando aldeias no interior há muitas décadas. Matteo faz o papel do tio barulhento que compra presentes em exagero. Às vezes, quando todos estão ocupados, eu caminho pela casa e sinto a mansão inteira se organizando ao redor de um coração do tamanho de uma mão pequena.No meu escritório, os contratos esperam. Eu os reviso com o bebê dormindo no meu peito. Sou Ceo. Sou mãe. Sou esposa. Sou dominadora quando quero. Sou submissa àquilo que escolhi que me domine. T
Aurora ManciniA vida aprendeu um novo ritmo dentro de mim. Primeiro era um sussurro. Depois virou batida. Agora, meses depois do fim do Círculo, é um tambor que dita meus dias e minhas noites. Eu caminho pela mansão e sinto a casa interagir comigo. O chão já não é frio. As janelas não parecem muralhas. Há plantas, há risos, há cheiro de pão vindo da cozinha porque Klaus insiste em assar toda manhã, dizendo que o aroma humano ajuda a espantar tristezas antigas mesmo que não precisemos comer. Matteo finge implicar, mas sempre é o primeiro a roubar um pedaço ainda quente só para fingir humanidade.Eu e Aleksei vivemos uma rotina que nunca pensei desejar. Ele me acompanha em reuniões por vídeo, silencioso, sentado no sofá do escritório. Às vezes só me olha. Outras vezes aponta com o queixo um contrato que merece ser lido pela segunda vez. Quando desligo, ele me puxa para perto e eu apoio a cabeça no peito dele. O coração lento marca o tempo de um jeito que me acalma. É como contar maré
Aleksei VasilievO galpão cheirava a fumaça, pólvora e medo. O Círculo nos cercava como hienas, mas não era o exército deles que importava. Era Andrei. Sempre ele. Um fantasma do século XIX, um traidor que escolheu a faca de prata em vez da irmandade.— De novo, Vasiliev. — disse, a voz carregada de desprezo — Sempre trazendo mulheres para a morte. É tão prazeroso te ver sangrar por um amor.Aurora, ao meu lado, segurava a faca como se tivesse nascido para ela. Havia sangue no rosto, suor nos olhos, mas firmeza no corpo. Ela não vacilou.— Eu não sou “mulheres”. Eu sou Aurora Mancini Vasiliev. E não vou morrer pelas mãos de ninguém.Eu avancei. Andrei era rápido, mas eu era mais. O choque de nossos corpos ecoou como trovão. Ele puxou correntes banhadas em prata, queimando a pele dos meus braços quando me prendeu por segundos. A dor era fogo vivo. Eu rugi e parti o ferro com as próprias mãos.Aurora atacou por trás, cortando a coxa dele. Andrei gritou, o som mais humano que já fez em s
Aurora ManciniA mansão estava silenciosa, mas dentro de mim o barulho era ensurdecedor. A noite se aproximava como um aviso. O cerco não era mais metáfora, era realidade. Andrei Sokolov e o Círculo já estavam em movimento.No salão principal, Aleksei me esperava. O corpo dele parecia esculpido na penumbra, imponente, mas os olhos denunciavam algo que raramente vi: medo. Não dele. Medo por mim.— Você não vai lutar. — ele disse, sem rodeios.Cruzei os braços, firme.— Eu vou.— Aurora… — sua voz quebrou por um segundo — se algo te acontecer…— Se algo me acontecer, você continua. — retruquei — Foi isso que você me disse no terraço, lembra? Agora, devolvo a mesma moeda.Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse uma lâmina contra a própria pele. Klaus e Matteo se aproximaram, observando à distância, mas não interferiram. Sabiam que aquela batalha não era apenas contra o Círculo. Era também contra os nossos medos.Aleksei tentou um último apelo.— Você não entende o que significa es
Aleksei VasilievAurora já não era apenas a Ceo feroz ou a dominadora que me fez curvar os joelhos pela primeira vez em séculos.Agora ela era minha companheira de eternidade. Minha esposa.Ainda soa estranho, mesmo para alguém que caminhou entre impérios e revoluções: esposa. Uma palavra simples que carregava mais força do que todos os títulos que um vampiro pode acumular.Naquela manhã, os papéis foram assinados no cartório. Nada de igrejas, nem de véus. Apenas sua mão firme segurando a minha, seu olhar queimando como brasas, e a frase que me arrancou um sorriso:— Agora não há cláusula de contrato que te livre de mim.Sorri de volta, e meus caninos roçaram o lábio por dentro.— Eu nunca quis cláusulas. Só você.Ela revirou os olhos como sempre, mas o rubor em sua pele denunciou o quanto aquelas palavras a tocavam.Deixamos o prédio sob chuva fina. Ela segurava a bolsa como quem segura um troféu. Eu carregava dentro de mim uma certeza: Andrei Sokolov já sabia. O Círculo sentiria o c
Aurora ManciniEu sempre pensei que conhecia os limites do meu corpo. Conhecia os limites da dor, do prazer, do controle. Sempre fui senhora de mim mesma, e nos clubes, nas masmorras, nos contratos, essa era minha coroa invisível: o poder de decidir. Mas quando olhei para Aleksei naquela noite, senti que pela primeira vez não havia contrato, não havia teatro, não havia máscaras. Só a eternidade esperando que eu dissesse sim.Ele estava diante de mim com os olhos escuros, profundos, como se guardassem um século inteiro em cada piscada contida. O silêncio entre nós era uma afronta à falta de toque. Eu já tinha dito. Eu já tinha pedido. Agora restava a ele acreditar e me dar o que sempre segurou com os dentes.Aproximei-me. Toquei o peito dele. A pele fria, o coração batendo lento demais, como se o tempo fosse refém.— Aleksei… — minha voz falhou, mas insisti — eu quero.Ele fechou os olhos por um instante, e foi como se segurasse o peso do mundo. Quando os abriu, não havia mais dúvidas