FAZER LOGINNa noite em que o pergaminho deveria coroá-la como a escolhida do Alfa Kael, Eliz — Liz para os poucos que a amavam — é rejeitada diante de toda a alcateia. Humilhada por um homem cujo coração pertence secretamente a outra, ela sente o vínculo se romper como uma ferida que nenhuma loba deveria sobreviver. Ela sobrevive. Deixando para trás o pai idoso e a irmã caçula, Eliz desaparece na noite seguinte, decidida a nunca mais depender do amor de ninguém. É um filho de caçador — inimigo por natureza, protetor por escolha — quem a esconde do mundo que a rejeitou, arriscando o próprio clã para mantê-la viva. Meses depois, quando uma ameaça que nenhuma alcateia pode enfrentar sozinha volta a cruzar seu caminho com o de Kael, ele a quer de volta. Mas o vínculo que ele rompeu não se refaz com um pedido de perdão. Kael pode forçá-la a voltar. Jamais poderá obrigá-la a confiar. Desta vez, é ele quem precisa provar — com o que estiver disposto a perder — que merece ficar.
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A janela do meu quarto dava para a rua principal, e desde cedo eu já sabia que não conseguiria dormir mais naquela noite. Fiquei ali, testa quase encostada no vidro frio, vendo o vilarejo se mover como um organismo só — mulheres carregando cestos de pão fresco para o salão, homens acendendo as primeiras fogueiras mesmo sem ainda ser hora, crianças sendo chamadas para dentro de casa mais cedo do que o normal, como se a noite tivesse pressa de chegar. Do outro lado da rua, a casa do meu pai vizinha diretamente a linha onde o vilarejo terminava e a floresta começava. Eu sempre gostei disso. Gostava de saber que, se precisasse, bastava atravessar o quintal e desaparecer entre os pinheiros. Nunca imaginei que um dia aquilo deixaria de ser apenas um pensamento reconfortante. — Liz — a voz da minha irmã veio de trás, pequena e séria como só uma menina de oito anos consegue ser quando está tentando parecer mais velha. — Você vai ficar bonita hoje? Virei para ela. Maya estava sentada na cama, as pernas balançando sem alcançar o chão, os cabelos escuros — cópia exata dos meus — presos de qualquer jeito porque ela odiava que eu penteasse com cuidado demais. — Vou ficar do jeito que sempre fico — respondi, e ela fez uma careta, insatisfeita com a resposta, mas deixou pra lá. Meu pai apareceu na porta pouco depois, já com a camisa boa, aquela que só usava em cerimônias e enterros. Ele não disse nada sobre a noite. Nunca dizia. Só colocou a mão no meu ombro, um segundo, talvez dois, e saiu para ajudar a acender o fogo lá fora. Era o jeito dele de dizer que estava ali. Eu tinha aprendido, com os anos, a ouvir o silêncio dele como quem ouve uma frase inteira. Foi a batida na porta que quebrou aquilo. Nora entrou sem esperar resposta, como sempre fazia, o vestido claro já pronto para a cerimônia, o cabelo solto em ondas que ela certamente tinha passado a tarde inteira arrumando. Parou no meio do quarto e me olhou de cima a baixo com aquele jeito de quem está prestes a dizer alguma besteira. — Você ainda nem se arrumou — disse ela, escandalizada, como se isso fosse o fim do mundo. — Ainda tem tempo. — Liz. — Ela se sentou na beirada da cama, ao lado de Maya, que imediatamente se aproximou dela como fazia sempre, gostando da atenção. — Tem tempo pra quê? Pra fingir que você não está morrendo de ansiedade lá dentro? Não respondi de imediato. Fui até o armário, peguei o vestido que separara — simples, azul-escuro, nada que chamasse atenção — e comecei a vesti-lo devagar, como se isso pudesse adiar a pergunta que eu sabia que viria. — Eu não estou ansiosa — menti, ou tentei mentir, porque Nora me conhecia bem demais pra engolir aquilo. — Você ama o Kael desde os doze anos — disse ela, baixo, cuidadosa, olhando de relance para Maya como quem verifica se a menina está prestando atenção. Estava, é claro, mas fingia não estar, os olhos fixos numa boneca de pano que já não tinha mais um dos braços. — E hoje o pergaminho pode escolher você pra ele. Como assim não está ansiosa? Fechei o último botão do vestido e me virei pro espelho pequeno pendurado na parede, evitando o reflexo dos próprios olhos por um instante. — Porque não depende de mim — falei, por fim. — Nunca dependeu. O pergaminho escolhe quem ele quer escolher. Eu só vou estar lá, como todo mundo. — Mas se for você... — Nora se levantou, veio até onde eu estava, ajeitou uma mecha do meu cabelo que teimava em cair sobre o rosto. Nos olhamos pelo espelho. — Se for você, Liz, o que você vai fazer? Eu ri, baixo, sem muita vontade. — Vou aceitar. Como qualquer loba aceitaria. — Girei pra encará-la de verdade, não mais pelo reflexo. — Mas pode não ser eu, Nora. Pode ser qualquer uma. Pode ser você. Ela revirou os olhos, do jeito que só ela sabia fazer, meio brincalhona, meio genuinamente incomodada com a ideia. — Eu? Kael nem sabe que eu existo. — Isso não significa nada. O pergaminho não escolhe pelo que ele sabe ou não sabe. — Segurei as mãos dela, um gesto que fazíamos desde crianças, sempre que uma das duas precisava ouvir que estava tudo bem, mesmo quando não estava certo que estivesse. — Pode ser você essa noite. E se for, eu vou ficar feliz por você. De verdade. Ela me olhou por um longo momento, como se tentasse decidir se acreditava em mim. Acho que decidiu que sim, porque apertou minhas mãos de volta e sorriu, daquele jeito que sempre conseguia me acalmar um pouco, mesmo sem palavras. — Você é boa demais pra esse mundo, sabia? — disse ela, baixinho. Do lado de fora, os tambores começaram, distantes ainda, mas já reconhecíveis — o chamado da alcateia se reunindo. Maya levantou de um pulo, animada com o som, esquecendo por completo a boneca sem braço na cama. Eu olhei mais uma vez pela janela. O vilarejo inteiro parecia se mover em direção ao salão agora, uma corrente só, puxada pelo mesmo som. Não sabia, naquele momento, que era a última vez que olharia para aquelas ruas como alguém que ainda pertencia a elas.A primavera havia chegado de verdade. Não apenas às árvores, que agora carregavam folhas novas, nem aos campos que começavam a ganhar tons de verde depois de meses de frio. Ela havia chegado às pessoas. Vorden despertava todas as manhãs com um tipo diferente de barulho. Não eram mais ordens de soldados. Não eram gritos de alerta. Não eram passos apressados diante de alguma ameaça. Eram vozes. Portas sendo abertas. Crianças correndo pelas ruas. Comerciantes levantando as pequenas placas de madeira de suas lojas. Martelos batendo em alguma construção que ainda precisava de reparos. Risadas. Vida. Aldrich caminhava pela praça naquela manhã, carregando uma pequena sacola de frutas que alguém havia insistido em lhe entregar. Ele não parecia ter pressa. Ao seu lado caminhava uma mulher que Eliz não conhecia muito bem. Ela falava alguma coisa, e Aldrich ria enquanto balançava a cabeça. Em determinado momento, a mulher tocou de leve o braço dele para chamar sua atenção. Ald
A noite havia chegado tranquila a Vorden. Não havia reuniões. Não havia mensageiros correndo pelos corredores. Não havia guardas sendo chamados às pressas. Não havia ninguém esperando por uma nova ameaça. Pela primeira vez em muito tempo, uma noite podia simplesmente ser uma noite. Eliz estava sentada na varanda de casa, com as pernas recolhidas sobre a cadeira e uma manta sobre os ombros. À sua frente, o jardim estava iluminado apenas por algumas pequenas lanternas. As flores da primavera haviam crescido. Algumas estavam espalhadas pelo caminho. Outras começavam a tomar conta dos canteiros. Ela gostava de observar aquilo. Coisas que cresciam sem pedir permissão. Sem precisar ser escolhidas. Sem precisar provar que mereciam estar ali. Kael apareceu alguns minutos depois, trazendo duas xícaras. — Chá. Eliz ergueu os olhos. — Você fez? — Tentei. Ela pegou a xícara. — Isso não me tranquiliza. — Eu coloquei água e folhas dentro de uma panela. —
Alguns meses haviam passado. Não tantos a ponto de apagar as marcas do que acontecera, mas suficientes para que Vorden já não parecesse o mesmo lugar. A primavera chegara devagar. Primeiro, pequenas flores começaram a aparecer perto das casas. Depois, os campos ganharam novos tons de verde. As árvores que haviam permanecido silenciosas durante o inverno começaram a criar folhas outra vez. Era impossível olhar para aquilo e não perceber a semelhança. As pessoas também haviam mudado. Vorden estava mais movimentada. As ruas tinham crianças correndo, comerciantes chegando de outras regiões, trabalhadores construindo novas casas e famílias que, antes, jamais teriam dividido uma mesa, agora discutindo sobre qual receita ficava melhor. No Norte, o castelo continuava sendo transformado. As antigas salas de guerra começavam a receber outras funções. Uma delas se tornara uma sala de estudos. Outra recebera materiais para o centro de cura. No pátio, jovens do Norte e de Vorden treina
A vida na casa de Aiden começou a encontrar um ritmo. Não era um ritmo perfeito. Algumas manhãs eram silenciosas demais. Alguns jantares terminavam sem que ninguém soubesse o que dizer. Havia perguntas que ainda permaneciam sem resposta e lembranças que nenhum dos três conseguia simplesmente colocar para trás. Mas havia algo diferente. Eles já não fingiam. A mãe de Aiden percebeu isso primeiro. Durante muito tempo, naquela casa, o passado parecia uma porta que ninguém tinha coragem de abrir. Ela evitava perguntar sobre o que acontecera enquanto o filho esteve fora. Caleb evitava falar sobre a própria raiva. Aiden evitava explicar coisas que sabia que não poderiam ser justificadas. Agora, pouco a pouco, a porta permanecia aberta. Mesmo quando doía. Naquela manhã, Aiden estava no quintal consertando uma cerca. A madeira antiga estava rachada e precisava ser substituída. Ele mediu duas vezes antes de cortar. Caleb observava da varanda. — Está torto. Aiden olhou para a cer
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