FAZER LOGINJames Nunca achei que meu retorno aos Estados Unidos terminaria com uma aliança no dedo. Na verdade, nem lembrava qual foi a última vez que coloquei algo tão pesado quanto um compromisso.
A festa terminou, e eu ainda estava tentando entender em que parte do roteiro tudo tinha saído dos trilhos. Eu vinha pra assistir um casamento — não pra ser o noivo substituto. Meus pais inventaram essa loucura de casarem meu irmão com a filha dos amigos deles. União de negócios, e de família. Nossos pais são amigos há algum tempo, e queriam unir suas empresas no ramo de alimentos para deixarem de ser concorrentes. Na verdade, ouvi dizer que os negócios do sr. Moss não iam muito bem. E meu pai queria expandir os seus. Uma coisa casaria com a outra muito bem, mas não tanto como Lilly com Christopher. Ou comigo. Achei uma completa loucura essa decisão dos nossos pais, desde que Chris me contou que se casaria com a filha do sr. Moss, que nós a chamávamos de 'recatada", porque nunca a víamos nos eventos, e até suspeitávamos que ela fosse feia, ou tivesse algo errado. Um dia Chris me disse que ela era muito bonita e que começou a sair com ela para conhecê-la melhor. Algo que eu tentei imaginar diversas vezes, como um cara curioso que sou. Mas lá estava ela. Lilly Moss Zabott. Realmente linda como Chris havia dito. Minha esposa. Duas palavras que pareciam um deboche do destino. Ela se despediu dos convidados com um sorriso educado e postura impecável, o tipo de mulher que nasceu sabendo o que é “manter as aparências”. Eu, do outro lado, fingia estar perfeitamente à vontade, enquanto pensava na quantidade de bebida que precisaria pra esquecer aquele dia. Quando o motorista anunciou que o jatinho estava pronto, só o som do salto dela contra o mármore me fez olhar. E, por um breve instante, juro que pensei que o mundo tinha parado. A mulher era um pecado embrulhado em recato. Seguimos até o avião da família — claro, Zabott Airlines, um luxo desnecessário que meu pai adorava exibir. Eu entrei primeiro, joguei o paletó no banco e me sentei, de frente pra ela. Cada um em sua poltrona, a distância exata entre o que fomos obrigados a ser. O silêncio foi o som mais alto da viagem. Ela olhava pela janela, o rosto iluminado pela luz da pista. Eu fingia estar relaxado, mas a verdade é que minha cabeça girava. A ficha ainda não tinha caído. Eu, James Zabott, o filho desgarrado, o desgosto da família, tinha acabado de casar. Com a noiva do meu irmão. Peguei o celular, pela décima vez. Disquei o número de Christopher.Escrever esta história foi, antes de tudo, um exercício de escuta. Escuta dos silêncios, das hesitações, dos medos que raramente são ditos em voz alta. James e Lilly não nasceram prontos; eles foram se formando enquanto eu escrevia, errando, recuando, insistindo, exatamente como as pessoas reais fazem. Em muitos momentos, tive a sensação de que não era eu quem conduzia a narrativa, mas eles que me puxavam pela mão, exigindo tempo, cuidado e honestidade emocional. James nunca foi o herói clássico, seguro, decidido, que sabe exatamente o que quer desde a primeira página. Ele nasceu cheio de fugas, de racionalizações elegantes para justificar seus medos, de silêncios que machucam mais do que palavras duras. Escrevê-lo foi desconfortável e necessário. Foi aceitar que o amor nem sempre vem embalado em gestos grandiosos, mas muitas vezes em tentativas imperfeitas de permanecer. Lilly, por outro lado, sempre carregou uma força silenciosa. Não aquela força romantizada da mulher que agu
James Dois anos se passaram e, ainda assim, às vezes eu olho para a cena diante de mim como quem precisa piscar para ter certeza de que não está sonhando. Estou sentado na varanda da casa de campo dos pais de Lilly, o fim de tarde dourando tudo ao redor, o ar morno carregando aquele cheiro de grama recém-cortada e comida sendo preparada na cozinha, com Jodi contando algo que arranca risadas das mulheres que ali estão. Nosso filho dorme nos meus braços, pesado e quente, com a respiração tranquila encostada no meu peito, como se o mundo inteiro fosse seguro o bastante para ele simplesmente existir ali. O cabelo fino, os cílios longos, a mãozinha fechada agarrando meu dedo com uma força que ainda me surpreende. Eu nunca imaginei que caberia tanto amor dentro de mim, nem que ele viria assim, silencioso, esmagador e absolutamente inevitável. Lilly está sentada à minha frente, rindo de alguma coisa que Janine acabou de dizer, e quando nossos olhos se encontram, ela sorri daquele
Lilly Alguns dias se passam quase sem que eu perceba, como se o tempo tivesse decidido andar em passos mais suaves. James e eu passamos a ficar juntos com mais frequência, almoçamos com meus pais, jantamos com os dele, fazemos planos pequenos, cotidianos, desses que parecem simples, mas que tem grandes significados pra mim. Ele está diferente, mais presente, mais atento, sempre o primeiro a falar do amanhã, do próximo fim de semana, do que ainda podemos fazer juntos. Mesmo assim, existe um fio de medo esticado dentro de mim, discreto, mas firme, como se em algum momento ele pudesse se romper e James voltasse para Londres, como se tudo isso fosse apenas uma pausa antes da despedida. Eu me preparo para essa possibilidade, quase como um mecanismo de defesa, ainda que esteja dando a ele a chance de tentar, de ficar, de provar que não vai fugir. Estamos em casa numa dessas noites tranquilas, sentados no sofá, um filme clássico passando na televisão, a luz baixa, o som distante da
James Entro no apartamento do Christopher quase ao mesmo tempo que ele, como se o dia tivesse nos jogado ali por coincidência ou ironia. Ele larga as chaves sobre o aparador e passa a mão pelo rosto, visivelmente exausto. — Fiquei sabendo pelos nossos pais que você e a Lilly passaram lá e jogaram a bomba.— diz, sem rodeios.— Nem me avisaram pra eu estar junto. Dou de ombros, largando minha jaqueta no encosto da cadeira. —Foi algo que... resolvemos na hora.— respondo.— Aconteceu e a gente foi. Ele solta um meio riso incrédulo. — Mamãe está eufórica.— diz.— Já está escolhendo nomes, imaginando o quarto do bebê. — Ele me encara. — O que você está fazendo aqui e não com a Lilly? Apoio as mãos na bancada, respirando fundo antes de responder. — Você já cansou de mim? Ele balança a cabeça. — Eu não me atrevo mais a prever nada sobre você. — diz. — Mais cedo, você ia voltar pra Londres. Depois não foi. Agora descubro que contou pra todo mundo que vai ser pai. Você s
Lilly O carro desliza pela rua quase vazia enquanto as luzes da cidade passam como manchas suaves pela janela. Ainda estou meio anestesiada depois do dia inteiro, das reações, dos abraços, das lágrimas contidas e das perguntas silenciosas. É quando meu telefone vibra na bolsa e o nome da Jodi aparece na tela. Atendo sabendo exatamente o que vem. — Então… — ela começa, sem rodeios. — Já fiquei sabendo. Dou um sorriso inevitável e olho de lado para o James, que dirige atento, as mãos firmes no volante. — Parece que a mamãe não aguentou segurar a notícia. — digo. — Você e o James... se acertaram? Estão juntos de novo? — Sim. Do outro lado da linha, ela quase grita. — Eu sabia! — exclama. — Estou muito feliz por vocês. Sério. Mal posso esperar pra voltar pra São Francisco e abraçar vocês dois. Minha garganta aperta. — E você? Como está? — Cansada.— ela ri.— Trabalhando demais. Mas… conheci alguém. — É mesmo? — É. — ela hesita. — Nada sério ainda. Você acha
James Ainda estou olhando para a Lilly como se ela pudesse desaparecer se eu piscar. Minha mão segura a dela com força, é o único jeito que encontro de manter tudo no lugar. Meu peito está apertado, minha cabeça confusa, o coração disparado num ritmo que não combina com nada do que eu conheço. Vou ser pai. A ideia me assusta de um jeito quase físico, como se alguém tivesse puxado o chão sob meus pés. Mas o pensamento de ficar sem a Lilly, de imaginar a vida sem ela, dói mais. Muito mais. Saber que ela quase perdeu o nosso filho e que eu não estava ao seu lado, isso me atravessa como culpa pura. — Você me aceita de volta?— pergunto, a voz saindo mais baixa do que eu gostaria. Lilly me encara em silêncio por alguns segundos que parecem minutos. — Você quer voltar por minha causa ou só pelo bebê?— pergunta.— Porque eu não quero isso. Respiro fundo, sinto o nó na garganta. —P ara de ser cabeça dura.— digo, tentando sorrir.— Comece a acreditar no que eu sinto. Eu sou péssim







