MasukQuando minha irmã e eu nascemos, nossos pais fizeram questão de consultar um vidente. Ele previu que minha excelência levaria minha irmã a uma depressão profunda. Depois que saísse o resultado do vestibular, ela se jogaria do terraço da escola e acabaria com a própria vida. Para salvá-la, nossos pais passaram dezoito anos me reprimindo e me humilhando. No dia do vestibular, chegaram a esconder meu documento de identidade. Eu me ajoelhei e implorei, batendo a testa com força contra o piso. Meu pai me chutou para dentro da câmara frigorífica e trancou a porta pelo lado de fora. — Você sabe que sua irmã vai morrer por sua causa e ainda quer fazer a prova? Quer mesmo levar ela à morte? A temperatura lá dentro era de 30 graus negativos. Eu vestia apenas uma camiseta de manga curta. Desesperada, comecei a esmurrar a porta: — Mãe, está muito frio aqui! Por favor, me tirem daqui! — Pare de fingir! A voz da minha mãe soou estridente e impaciente. — A refrigeração nem está ligada! Só falta este último passo para sua irmã se livrar daquela profecia, mas você continua pensando apenas em si mesma! Os passos deles se afastaram. O sangue escorria sem parar da minha testa, pingava sobre a camiseta e logo congelava. Encolhi meu corpo em um canto. Pouco a pouco, meu corpo ficou completamente rígido...
Lihat lebih banyakNaquela noite, Ana adormeceu ajoelhada junto a um dos bancos da capela, com a cabeça apoiada nos braços.Entrei em seu sonho.Desde minha morte, foi a primeira vez que ela conseguiu me ver.Eu vestia meu uniforme da escola, limpo e impecável.Não havia sangue na minha testa nem gelo no meu rosto.Eu parecia exatamente como era quando estava viva, parada em meio a uma luz intensa e radiante.Ana ficou imóvel.Então correu até mim e me apertou com toda a força:— Sofi!Ela tocou meu rosto, como se precisasse ter certeza de que eu era real:— Sofi, me perdoe. Eu não consegui proteger você. Tive tantas chances de insistir até nossos pais abrirem aquela porta.— Você ainda sente frio?Sorri e balancei a cabeça:— Ana, faz tempo que não sinto mais frio. Não fique triste.Ela me abraçou e chorou tanto que mal conseguia falar.Quando finalmente recuperou a voz, disse: — A culpa foi minha. Eu já desconfiava que havia algo errado. Não devia ter recuado. Devia ter sido mais corajosa e continuado
A partir daquele dia, Lucas perdeu completamente a razão.O resultado dele no ENEM foi divulgado.850 pontos.Uma nota alta o bastante para entrar em qualquer universidade que quisesse.Mas Lucas rasgou a folha em que havia imprimido o resultado.Todos os dias, ele ia até minha casa e batia repetidamente na porta fechada da câmara frigorífica:— Sofi, abra a porta.— Eu sei que você está aí dentro.— Pare com isso e saia, por favor. Nós não combinamos que estudaríamos na mesma universidade?Em meio às lágrimas, a mãe dele tentou explicar que eu já tinha morrido.Lucas agiu como se não tivesse ouvido.No dia seguinte, voltou.Dessa vez, agachou-se diante da porta e pegou o celular:— Sofi, vou ligar agora mesmo para seus pais e pedir que tirem você daí.— Não tenha medo.— Eu vou ligar. Vou ligar agora mesmo.Ele encostou o celular no ouvido e esperou por muito tempo.Ninguém atendeu.Ainda segurando o aparelho, Lucas ficou sentado diante da porta durante toda a tarde.Mais tarde, os pa
Minha mãe começou a ler as anotações, uma por uma.A primeira dizia:"Hoje saíram as notas das provas, mas não consigo ficar feliz. Tirei uma nota maior que a Ana e estou com medo de voltar para casa. Não sei o que vou dizer quando a mamãe perguntar. Tenho tanto medo de que ela me tranque na câmara frigorífica outra vez."A segunda:"Como eu imaginava, fui trancada lá de novo. A mamãe me deu vários tapas e perguntou sem parar por que eu queria prejudicar a Ana. Estou tão triste... Eu juro que não fiz de propósito. A câmara frigorífica está tão gelada, e estou morrendo de fome. Ainda bem que a Ana escondeu alguns chocolates dentro do meu ursinho. Talvez um pouco de doce tire esse gosto amargo do meu coração."A terceira:"Primeiro dia de aula. A professora quis que eu fosse a representante da turma, mas recusei. Não tive coragem. Da última vez que fui escolhida como representante de uma matéria, a mamãe ficou três dias sem falar comigo. Eu não posso ser melhor que a Ana. Mas não entendo
O que aconteceu comigo logo chamou a atenção dos vizinhos.Alguém chamou a polícia.Meia hora depois, os policiais chegaram e isolaram a casa.Meu corpo foi colocado em uma maca.O perito legista examinou meu cadáver minuciosamente.Quando o laudo pericial foi entregue aos meus pais, eles leram aquelas palavras várias vezes."Vítima: Sofia. Causa da morte: hipotermia. Óbito ocorrido há aproximadamente cinco dias."— Cinco dias atrás... foi o primeiro dia do vestibular.A voz do meu pai mal passava de um sussurro.Ele fitou aquela frase com o olhar vazio, enquanto as lembranças daquela manhã voltavam à sua mente.Então, seus ombros começaram a tremer violentamente:— Naquela manhã, ela se ajoelhou e implorou para que eu devolvesse o documento de identidade. Bateu tanto a testa no chão que chegou a sangrar.— Fui eu... Fui eu que a chutei para dentro da câmara e mandei que ficasse lá refletindo sobre o que tinha feito.Nesse momento, minha mãe soltou um gemido desesperado ao lado dele:—






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