MasukAnnaO som seco da porta batendo e o estalo da chave girando na fechadura pesada deixaram para trás um silêncio sufocante, cortado apenas pelo zumbido distante do vento batendo nas telhas daquele casarão abandonado. Por longos segundos, permaneci com os olhos cravados na madeira gasta da porta, sentindo o eco das palavras de Mário reverberando na minha mente como um veneno corrosivo.— Anna... — a voz de Sônia quebrou o silêncio do cativeiro, soando baixa, mas firme o suficiente para me puxar de volta à realidade.Virei o rosto com dificuldade, olhando para a minha amiga e segurança na penumbra do quarto. Apesar de estar amarrada àquela cadeira, com os pulsos presos para trás e o cabelo colado na testa suada, Sônia exalava uma determinação feroz.— Ele é um monstro, Sônia... — sussurrei, sentindo a voz tremer de puro ódio e impotência. — Ele não vai hesitar em fazer o que disse.— Ei, olha para mim — Sônia me cortou, exigindo foco com o olhar cortante. — Não deixa ele entrar na sua ca
AnnaCerca de uma hora dentro daquele carro sufocante, senti o balanço do veículo mudar drasticamente. O asfalto liso deu lugar aos solavancos secos de uma estrada de cascalho e terra batida. Percorremos esse trajeto por mais uns quinze minutos, balançando de um lado para o outro, até que o motor roncou mais alto e o carro finalmente parou por completo.A porta ao meu lado foi aberta com violência. Antes que eu pudesse respirar ou tentar entender o que estava acontecendo, fui arrancada do banco de trás pelos braços por dois homens grandes, com a mesma brutalidade de quem manuseia um objeto pesado.— Anda, levanta! — rosnou um deles, empurrando-me para a frente.Senti o chão irregular sob os meus sapatos enquanto éramos conduzidas para o interior de um espaço que parecia ser uma casa antiga e isolada. O som de passos ecoava pelo piso de madeira rangente. Fomos empurradas para dentro de um cômodo abafado e frio. Em seguida, os capangas nos forçaram a sentar em cadeiras de madeira e amar
AnnaO meu dia tinha começado a mil por hora, em um ritmo frenético que parecia tentar compensar a calmaria dos últimos meses. Logo cedo, quando o Matteo me deixou na porta da agência, Sônia já estava me esperando no saguão com aquela postura discreta, mas impecável, que denunciava o seu treinamento militar rigoroso.Eu havia aceitado a imposição do Matteo sobre a segurança pessoal, mas fiz questão de impor uma cláusula inegociável: ela não podia parecer um segurança clássico de filme de ação. Nada de terno preto formal, óculos escuros dentro de recinto fechado ou fone auricular visível. Resultado? Sônia — ou melhor, Soninha, como eu passei a chamá-la para provocá-la — vestia uma calça alfaiataria estilizada, uma blusa de seda moderna e um blazer leve, parecendo muito mais uma executiva chique do que uma guarda-costas.Com o passar das semanas, acabamos nos tornando muito mais do que patroa e funcionária; criamos uma amizade genuína baseada em confidências e trocas de olhares divertid
MatteoQuando aquelas palavras finalmente cruzaram os lábios do Mário, o chão debaixo dos meus pés pareceu sumir, e o meu mundo inteiro desabou em uma fração de segundo.— Então, sobrinho... — disse ele, ajeitando a lapela do paletó amassado com uma calma asquerosa, enquanto o sangue ainda secava no canto da sua boca. — Me leve até a sua sala. Vamos conversar como dois cavalheiros.Eu permaneci estático, com os punhos cerrados com tanta força que os nós dos meus dedos doíam. A minha mente girava em um turbilhão violento, incapaz de processar a dimensão daquela crueldade. Como ele tinha tido coragem? Como o Mário conseguiu chegar até a Anna bem debaixo do meu nariz?Em poucas horas, eu a havia deixado na agência. E a segurança dela — Sônia, a profissional de elite que eu contratei pessoalmente para proteger cada passo da Anna quando eu não estivesse, especialista em gestão de riscos — simplesmente não havia me ligado. Como diabos aquilo aconteceu? Como a Sônia permitiu que a Anna fosse
MatteoQuatro meses. Cento e vinte dias.Se alguém me dissesse há um ano que eu estaria vivendo em uma espécie de transe doméstico pacífico, com um Golden Retriever dormindo aos pés da minha cama e uma mulher que virou o meu mundo do avesso compartilhando a minha rotina, eu riria na cara da pessoa. Mas a verdade é que o meu relacionamento com a Anna não podia estar melhor. Nós construímos a nossa própria bolha de felicidade, blindada contra o caos corporativo e as cobranças externas. Ela tinha o espaço dela, eu tinha o meu, e o fim de semana na minha cobertura tinha se tornado o nosso refúgio favorito. No nosso pequeno universo, tudo parecia ter finalmente encontrado o seu eixo.No entanto, a paz completa é um luxo que os homens com o meu sobrenome raramente conseguem desfrutar por muito tempo.E o que estava me incomodando profundamente nos últimos dias — além da tensão iminente dos tribunais — era o estado absolutamente deplorável em que o Lorenzo tinha afundado. O meu amigo parecia
AnnaO silêncio que se instalou na sala depois de tudo o que Matteo revelou não era pesado, mas denso de um alívio quase doloroso. Toda a raiva, a angústia sufocante e a sensação de impotência que vinham corroendo meu peito ao longo daquele dia derreteram como neve ao sol. Em seu lugar, uma onda avassaladora de amor e c compreensão inundou cada célula do meu corpo.Apertei meus braços ao redor do pescoço dele com força, afundando o rosto na curva quente da sua pele e inalando o perfume amadeirado que era a minha maior fraqueza e o meu único porto seguro. Sentir o peito dele inflar contra o meu, o bater acelerado do seu coração se alinhando perfeitamente ao ritmo do meu, me trouxe uma paz que eu não experimentava há meses.— Eu te amo, Matteo... — murmurei contra a pele da garganta dele, sentindo os braços dele se fecharam ao redor da minha cintura com um aperto quase desesperado, como se quisesse garantir que eu não sumiria dali.Matteo afastou suavemente o rosto apenas o suficiente p







