FAZER LOGINJanete tremia.
Não era um tremor de medo, mas sim de uma fúria antiga e sufocante. Cada insulto proferido pelo dono da lanchonete atravessava seu orgulho como uma lâmina em carne viva, mas ela suportava tudo, dia após dia, por um único motivo: proteger a filha. Forçando o ar a entrar em seus pulmões, ela engoliu o próprio sangue, abaixou a cabeça diante do homem gordo e fingiu submissão.
— Senhor... peço perdão pela impertinência da minha filha — Janete disse, a voz controlada a duras penas. — Eu mesma a punirei por esse atrevimento.
Enquanto falava, ela deu um passo à frente, tentando usar o próprio corpo como escudo. Aria, no entanto, permanecia imóvel. Seus punhos estavam tão cerrados que as juntas dos dedos estavam brancas. O sorriso de escárnio no rosto do velho fazia seu sangue ferver.
— O que é isso, mãe? Esse velho nojento não pode falar assim com você...
Antes que a filha terminasse a frase, Janete cravou os dedos no braço de Aria com uma força surpreendente.
— Fique quieta, Aria! — ordenou, os olhos faiscando em um aviso silencioso e desesperado.
Sem dar tempo para reações, Janete praticamente a arrastou para longe dali. Elas não saíram pela porta da frente. Atravessaram os fundos da lanchonete, cruzando um corredor úmido, de paredes frias e mofadas, que terminava direto na mata fechada, aos pés das colinas canadenses.
Assim que as árvores as cobriram e ela teve certeza de que estavam sozinhas, Janete soltou o braço de Aria abruptamente e se virou.
— O que você pensa que estava fazendo?!—Tem ideia do que pode acontecer por desrespeitar aquele homem?Ele podia me fazer perder o emprego... ou coisa muito pior!
A bronca, no entanto, morreu congelada em sua garganta.
Um aroma cortou o vento frio da noite. Um cheiro diferente, denso e terrivelmente familiar atingiu o olfato de Janete. Dentro de seu peito, sua loba interior — adormecida à força por dezoito anos — despertou em um solavanco, arranhando sua mente em puro pânico.
Perigo.
Janete deu um passo para trás, avaliando Aria pela primeira vez desde que ela entrara na lanchonete. Só então os detalhes saltaram aos seus olhos. O vestido branco. O batom. Os cabelos loiro-perolados cuidadosamente arrumados, brilhando sob o luar.
— Que roupa é essa, minha filha? — a voz de Janete saiu em um sopro, quase um sussurro de morte.
— Mãe... eu... eu fui até o centro. Até a praça... — As palavras de Aria morreram quando ela viu o rosto de Janete perder completamente a cor.
Janete não precisava ouvir o resto. O olfato apurado de sua raça não mentia. Impregnado no tecido daquele vestido branco, misturado ao suor de pânico, estava o aroma opressor de pinho queimado e terra molhada.
Kaelen Sterling. O Alfa de Squamish. Ele as havia encontrado.
— Não... — Janete cambaleou, as pernas vacilando como se o chão tivesse sumido. — Você não fez isso...
Aria franziu a testa, o peito apertado ao ver o terror absoluto nos olhos da mãe.
— Mãe, por que você nunca me contou a verdade? Como aquele monstro pôde dizer que meu pai... que eu pertenço a ele?
Janete olhou freneticamente para os lados, perscrutando as sombras da floresta. O tempo havia acabado.
— Venha — ela segurou o braço da filha de novo, mas dessa vez com um aperto trêmulo. — Precisamos sair daqui agora. Você não está mais segura neste território.
— Mãe, espera! Aonde estamos indo?
— Ele virá buscar você, Aria! — Janete aumentou o passo, praticamente correndo entre as raízes e pedras.
— Calma! Eu consegui fugir dele! — Aria tentou argumentar, puxando o braço de volta. — Ele nem é tudo isso, eu consegui despistá-lo nos corredores!
Janete parou abruptamente. Quando se virou, seus olhos não eram mais humanos; uma linha amarelada e selvagem brilhava em suas pupilas, tomadas pelo pavor.
— Não diga uma estupidez dessas! — A voz dela quebrou, embargada. — Eu sabia que isso aconteceria... A culpa é minha. Eu deveria ter contado tudo antes... ou ter mantido você ainda mais escondida.
Aria abaixou a cabeça, o peso da culpa caindo sobre seus ombros.
— Me desculpa... — murmurou, mas logo ergueu os olhos azuis. — Mas se a senhora tivesse confiado em mim, nada disso teria acontecido! Além disso, ele está na praça comemorando com a alcateia. Estamos longe.
As palmas geladas da mãe seguraram o rosto da filha.
— Escute bem, Aria. Você realmente acredita que um Alfa predador permitiria que sua presa fugisse... se ele não quisesse? Você nunca esteve fugindo, Filha...
Janete fechou os olhos por um segundo.
— Você estava conduzindo o predador até a toca.
O mundo de Aria girou. A náusea a atingiu com força total. Ela não havia fugido. Ela havia sido o cão de caça de Kaelen. Ela havia conduzido o monstro direto até a sua mãe.
A mulher a puxou com violência, quebrando o transe.
— Precisamos atravessar esta floresta. No alto das colinas existe uma ponte que cruza o Grande Abismo de Squamish. Se conseguirmos cruzar aquela linha, estaremos no território da alcateia Sombras de Ônix, em Vancouver. Um Alfa jamais invade o território de outro sem declarar uma guerra de sangue. Kaelen não ousará cruzar.
Um uivo cortou a escuridão da floresta canadense.
Longo. Profundo. Predatório. O som fez a terra vibrar sob seus pés.
— Ele chegou... — Janete sussurrou.
Capítulo 96 O silêncio na sala restrita era pesado o suficiente para sufocar. Rayzel sentiu o sangue ferver nas veias, as mãos fechando-se em punhos tão firmes que os nós dos dedos ficaram brancos. Quem esse idiota pensa que é?Ele soltou o braço de Lisi abruptamente e deu passos largos até parar bem em frente a Tony, invadindo o espaço pessoal do outro homem com uma imponência agressiva. Tony engoliu em seco, recuando um passo involuntário diante da aura furiosa e dominante que irradiava de Rayzel.— Repete o que acabou de dizer — exigiu Rayzel, a voz um sussurro letal.Apoiando-se na própria marra, Tony sustentou o olhar do beta, embora os ombros estivessem tensos:— Eu disse que Lisi é minha namorada, e ela não precisa que você fique vigiando cada passo dela. Se o Luke descobrir sobre a gente, eu assumo as consequências. Não preciso de babá.Rayzel soltou uma risada fria e cortante, um som carregado de puro desdém. Ele mediu Tony de cima a baixo com o olhar.— Olha para você
Capítulo 96O ambiente do nightclub pulsava com o grave pesado da música e a luz neon fraca que mal cortava a fumaça no ar. Alheios ao movimento na pista, Rayzel Mason e Ethan caminhavam a passos firmes em direção ao corredor privado, onde ficava a sala do Alfa.Ao cruzarem a porta de madeira maciça, encontraram Hulio em pé ao lado da mesa de mogno. Ele segurava um copo de uísque com os nós dos dedos brancos de tão tensionados. Sem nem esperar que os dois se acomodassem, os olhos escuros do Alfa cravaram neles com uma exigência afiada:— Quem está cuidando da segurança da Ária? — a voz saiu grave, carregada de uma autoridade que não aceitava falhas.— Fica tranquilo — Mason respondeu de pronto, mantendo a postura ereta. — Dante e Luke estão de olho nela. Nada passa por eles.Hulio soltou o ar devagar, embora o maxilar continuasse rígido. Rayzel deu um passo à frente, cruzando os braços sobre o peito enquanto soltava a informação que os fizera ir até ali:— Alguns membros do Cons
Capítulo 95Raimonte permanecia em silêncio atrás da pesada escrivaninha de mogno em seu escritório. Seus dedos tamborilavam num ritmo lento e calculado sobre a madeira escura enquanto ele observava a chama oscilante de uma vela quase no fim. A tranquilidade do cômodo, no entanto, foi partida ao meio quando a porta dupla se abriu bruscamente sem qualquer cerimônia.Três membros sêniores do Conselho dos Anciãos cruzaram o umbral. O ar no ambiente instantaneamente ficou denso, impregnado com a impaciência e a desconfiança que vinham acumulando ao longo de todo o dia.— Precisamos de respostas, Raimonte — declarou o Ancião Vane, batendo a ponta de sua bengala de madeira contra o chão de pedra com um som seco que ecoou pelas paredes. A mandíbula do velho estava rígida, e suas sobrancelhas grisalhas se franziam em um vinco profundo. — Há uma aberração vivendo sob o mesmo teto que a nossa alcateia e você parece perfeitamente confortável com isso.Raimonte não se alterou. Ele encostou as
Capítulo 94As palavras de Kili continuavam ecoando na mente de Ária como um eco insistente, fazendo seu peito apertar a cada batida do coração. E se ela estivesse certa? E se Hulio realmente sentisse algo por ela? O pensamento parecia uma tentação perigosa, mas a imagem daquela manhã voltava para esmagar qualquer faísca de esperança. Se havia mesmo algum sentimento, por que ele faria aquilo? Por que beijar Rania com tanta frieza e naturalidade diante dos seus olhos, como se Ária não passasse de um estraçalhado nada?Uma lágrima teimosa ameaçou escorrer, mas Ária a enxugou com as costas da mão antes que caísse.— Amiga, não fica remoendo isso agora. Só vai te machucar mais — aconselhou Lisi, aproximando-se com passos suaves. Ela colocou a mão espalmada sobre o ombro de Ária, apertando-o de leve em um gesto de conforto. — Foca em se recuperar. Seu corpo passou por um impacto enorme.— Eu já estou bem — declarou Ária.Sua voz saiu mais firme do que esperava. Sem dar tempo para que
Capítulo 93A luz suave do entardecer atravessava as cortinas do quarto, criando um clima acolhedor que contrastava com o nó apertado no peito de Ária.Lisi sentou-se na beirada da maca e puxou Ária para um abraço apertado e protetor. Quando se afastaram, Lisi colocou com delicadeza uma mecha de cabelo de Ária atrás da orelha dela, analisando seu rosto cansado.— Como você está se sentindo? — perguntou em um tom suave.— Eu não sei dizer... — Ária suspirou, fitando as próprias mãos trêmulas. — Hulio disse que minha loba despertou, mas eu não sinto nada!— Você não teve uma transformação completa, talvez por isso... — ponderou Lisi. — Na verdade, nenhuma de nós sabe ao certo o que aconteceu. Você não teve uma metamorfose normal, Ária. Seus olhos ficaram totalmente brancos e, por alguns segundos, o cheiro que emanava de você era diferente de tudo o que já vimos. Carregava um poder antigo, esmagador... E então sumiu. Além do Hulio, ninguém mais consegue sentir agora.Ária franziu a
Capítulo 92Hulio continuou segurando os dedos de Aria por mais alguns instantes, sentindo o pulso acelerado dela desacelerar aos poucos. Ele ergueu o corpo devagar e virou-se para o grupo, o tórax subindo e descendo em arfadas pesadas.— Saiam todos — a voz de Hulio saiu num murmúrio rouco, mas o tom não dava espaço para contestação. — Preciso falar com ela a sós.Lisi travou no lugar, a mandíbula pálida e os olhos cravados no Alfa, exalando uma desconfiança quase palpável. Rayzel, no entanto, deu um passo à frente e tocou levemente o ombro da garota, puxando-a com gentileza. Um a um, os rapazes foram deixando o cômodo em silêncio. Lisi lançou um último olhar por cima do ombro, os lábios comprimidos numa linha fina de preocupação, antes que a porta de carvalho se fechasse com um baque seco.Aria tentou se ajeitar sobre o colchão. Suas costas estalaram e uma careta de dor cortou seu rosto. Ela levou a mão ao peito, a respiração entrecortada enquanto encarava os olhos heterocromáticos







