INICIAR SESIÓNMavie Castelhano
Era madrugada quando Miguel voltou a passar mal no hospital. Eu acordei com o som baixo e irregular da sua respiração e, por alguns segundos, fiquei imóvel ao lado do sofá, tentando convencer a mim mesma de que não era nada, que era apenas um pesadelo meu. Mas então ele se mexeu, soltando um gemido abafado. Levei a mão imediatamente ao seu peito. Seu coração batia rápido demais, acelerado como um pequeno pássaro enjaulado. — Meu amor... — Minha voz saiu trêmula, quase um sopro no quarto escuro. Miguel abriu os olhos por um instante, mas parecia exausto, cansado demais até para chorar. Aquela apatia foi o sinal definitivo. Eu me levantei de uma vez, jogando o cobertor para longe. Uma enfermeira entrou no quarto, e começou a examinar ele. Logo outros enfermeiros e médicos estavam em volta de Miguel. — Senhora Castelhano, espere fora do quarto. — Eu quero ficar com ele! Por favor! — Precisamos estabilizá-lo primeiro. A porta pesada se fechou bem na minha frente, bloqueando minha visão. E então começou a pior parte. A espera. Minutos pareciam se arrastar como horas naquela recepção fria e iluminada por lâmpadas fluorescentes que pareciam zumbir na minha cabeça. Eu andava de um lado para o outro no corredor estreito, abraçando o próprio corpo com força, tentando conter os tremores e não desabar ali mesmo. O que eu vou fazer? — me perguntava em silêncio, sentindo o desespero apertar minha garganta. Eu não podia perder o meu bebê. Ele era a única razão de eu ainda estar de pé. Quando finalmente o médico de Miguel apareceu na porta, empurrando devagar, eu soube a resposta antes mesmo que ele abrisse a boca. Conhecia aquela expressão. Aquela maldita expressão de pesar que os médicos guardam para as piores notícias. Ele se aproximou devagar, limpando as mãos em um papel toalha descartável. — Mavie... - Meu estômago afundou, despencando para os meus pés. — Como ele está? — perguntei, a voz saindo num fio quase inaudível. O médico respirou fundo, desviando o olhar por um segundo antes de me encarar de novo. — Conseguimos estabilizar ele por enquanto. — Por enquanto? — A palavra ecoou na minha mente como um alarme. Ele abaixou os olhos. — O coração dele está cada vez mais sobrecarregado. O músculo está cedendo, Mavie. Meu corpo inteiro ficou tenso, a respiração presa nos pulmões. — Mas ele vai ficar bem, não vai? Vamos aumentar a medicação, fazer o de sempre... O silêncio pesado dele respondeu antes de sua boca se mover. — Miguel precisa da cirurgia. O tratamento paliativo esgotou o que podia. Senti meus olhos arderem, as lágrimas ameaçando transbordar. — Deus... — Minha voz quase não saiu, esmagada pela culpa. — Eu sei, doutor. — Não, Mavie. Você precisa entender que agora não podemos mais adiar por nenhum dia. Doutor Vance se aproximou um pouco mais, falando em tom baixo, direto, sem anestesia. — Ele não tem mais tempo. - Aquelas palavras atravessaram meu peito como lâminas afiadas. — Doutor Vance, por favor... — minha voz saiu embargada, rasgada pelo choro silencioso que eu vinha contendo há dias. — O Miguel não pode esperar mais. Eu juro que consigo o restante do dinheiro! Eu vendo tudo o que me resta, faço hora extra, pego empréstimo com agiota, o que for! Deixe a equipe operar o coração dele primeiro, eu assino qualquer termo de responsabilidade! O médico, um senhor de cabelos grisalhos e olhar profundamente cansado, balançou a cabeça em negativa, suspirando com um misto de pena e rigidez profissional. — Mavie, você sabe como o hospital funciona. Os insumos para essa cirurgia cardíaca custam uma fortuna, e a direção não vai autorizar o procedimento sem a quitação prévia de boa parte do valor. Eu sinto muito. Sem o pagamento, não há cirurgia. Fechei os olhos com força, sentindo as lágrimas quentes despencarem pelo meu rosto. Recuei alguns passos, tonta, com a calculadora do meu celular aberta na tela tremida. Comecei a somar mentalmente cada centavo que me restava na conta: o pouco da rescisão da demissão injusta, o dinheiro da venda da televisão antiga, a economia de meses em centavos... faltava uma quantia absurda. Uma quantia que uma ex-funcionária desempregada jamais conseguiria levantar a tempo. O som da voz do Doutor Vance ainda ecoava nas paredes frias do corredor como uma sentença irrevogável: “Sem o pagamento, não há cirurgia.” A rescisão injusta, a venda da velha televisão, as economias esgotadas... faltava uma quantia absurda. Uma muralha intransponível entre o meu filho e a vida. Desesperada, sem saber mais a quem recorrer, joguei os dedos contra a tela do celular, discando com pressa para os únicos números que restavam na minha lista de contatos. A primeira ligação chamou até cair na caixa postal. Tentei de novo. — Alô? — a voz do outro lado soou seca, impaciente. — Tio Carlos, por favor... é o Miguel. Ele precisa de uma cirurgia urgente, o hospital não vai operar sem uma entrada alta... o senhor pode me emprestar? Qualquer valor, eu juro que pago de volta... — Olha, Mavie, você sabe como as coisas estão apertadas por aqui. Eu não tenho como tirar esse dinheiro do bolso agora. Boa sorte com o garoto. — E a linha ficou muda. O estômago despencou. O choro travou na minha garganta. Disquei para o número seguinte, uma ex-colega de trabalho, alguém que um dia chamou de amiga. — Amiga, poxa... bem que eu queria, mas estou endividada até o pescoço. Sinto muito mesmo. Tentei mais dois nomes. Familiares distantes, conhecidos antigos. Respostas evasivas, desculpas frias, silêncios constrangedores. Não posso. Não tenho. Se vira. Desliguei o telefone com força, sentindo o aparelho escorregar da minha mão trêmula. Meus pais já tinham esgotado tudo que tinham, eles não poderiam me ajudar. Ainda mais quando eles me avisaram tanto sobre Sebastian, eles nunca gostaram dele, e eu teimosa vim com a cara e a coragem. Encostei as costas na parede gelada do corredor da UTI e escorreguei até o chão, abraçando os próprios joelhos enquanto o choro contido finalmente explodia em soluços silenciosos. Eu estava completamente sozinha. Sem dinheiro, sem apoio, sem saída. O meu filho estava morrendo bem diante dos meus olhos e o mundo inteiro havia fechado as portas para nós. — O que eu vou fazer... meu Deus, o que eu vou fazer? — sussurrei para o vazio, balançando o corpo para frente e para trás, esmagada pela mais pura impotência. Foi então que o silêncio do corredor foi quebrado por passos firmes, decididos e imponentes que pareciam ignorar a dor e o caos ao redor. Ergui o rosto lentamente, com os olhos vermelhos e inchados pelas lágrimas, limpando o nariz com as costas da mão. Sérgio Ramos estava ali. Impecável em seu terno cinza-chumbo, com as mãos enfiadas nos bolsos e uma expressão de gélido desinteresse que escondia um cálculo milimétrico. Ele vinha em minha direção... Porque ele estava aqui? Ou melhor, porque ele me olhava como se eu devesse a minha alma para ele?Sérgio Ramos O coquetel de gala não seria em um salão fechado de hotel, como a imprensa e os colunistas sociais tanto especularam, mas nas terras particulares de Domênico, um dos acionistas mais influentes, venenosos e ardilosos da alta sociedade espanhola. A propriedade ficava a apenas vinte minutos da nossa mansão, cobrindo colinas inteiras com uma iluminação cênica impecável e milimetricamente planejada. O vinhedo dele era o puro suco do luxo ostentativo: fontes de mármore esculpido, garçons servindo safras raríssimas em taças de cristal lapidado e uma multidão de empresários, banqueiros, políticos e especuladores de mercado — o tipo exato de gente superficial e nojenta que Mavie claramente desprezava à primeira vista.No carro, o silêncio entre minha mãe e Catalina tinha sido constrangedor, quase insuportável. Dona Cecília e minha irmã ainda se sentiam profundamente culpadas pelo desastre de mais cedo no quarto, quando tiveram a infeliz e desastrosa ideia de oferecer a Mavie o
Mavie Ramos O reflexo no espelho do provador me mostrava uma mulher que eu quase não reconhecia. O vestido de cetim vermelho-sangue desenhava cada curva do meu corpo com uma ousadia que eu mesma me espantava em possuir; o cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros e a maquiagem nos olhos escuros dava o tom exato de quem não estava ali para pedir desculpas ou abaixar a cabeça. Eu me sentia poderosa, intocável, armada até os dentes com a minha própria marra, pronta para enfrentar qualquer olhar torto ou julgamento velado que a alta sociedade de Sevilha pudesse lançar sobre mim naquela noite.Até a porta do quarto se abrir com um rangido suave e Dona Cecília entrar acompanhada por Catalina, carregando nos braços uma caixinha de veludo escuro que parecia pesar séculos de tradição.— Querida, você está simplesmente deslumbrante — minha sogra elogiou, com aquela suavidade aristocrática que parecia vir natural a quem nasceu dono de meio mundo. Ela caminhou com passos firmes até a pente
Sérgio Ramos A luz do sol de sexta-feira entrou rasgando pelas frestas das cortinas de linho pesado do quarto, anunciando que o dia do julgamento — ou melhor, do coquetel de gala — finalmente havia chegado. Abri os olhos sentindo uma leve dor de cabeça latejar nas têmporas, consequência direta do uísque da véspera e das horas mal dormidas pensando na mulher que dormia a poucos centímetros de mim. Virei o rosto no travesseiro. O lado da cama de Mavie já estava vazio. O lençol amassado e o cheiro suave de jasmim e baunilha que impregnava o travesseiro dela eram os únicos vestígios de que ela havia estado ali. Levantei sem pressa, fiz a minha rotina matinal e desci para o escritório particular que mantinha na ala oeste da mansão. O dia seria uma maratona infernal: reuniões com os acionistas majoritários pela manhã, alinhamento com a diretoria de marketing da holding à tarde e, para coroar a insanidade, a apresentação oficial da minha esposa e do meu herdeiro à alta sociedade de Se
Sérgio Ramos — Você está bêbado, Sérgio. Vá tomar um banho — a voz de Mavie cortou o ar do corredor com uma clareza cortante, zombeteira e absolutamente imune ao feitiço do beijo que acabamos de compartilhar.Antes que eu pudesse formular qualquer argumento ou puxá-la de volta para o meu abraço, ela se soltou dos meus braços com uma agilidade irritante. Suas mãos ágeis ajeitaram o tecido da roupa de dormir com um puxão rápido, alinhando a blusa e endireitando a postura como se nada — absolutamente nada — tivesse acabado de acontecer entre nós.— Vou fazer um café para curar essa sua ressaca — ela acrescentou por cima do ombro, virando-se de costas e caminhando a passos firmes em direção à escada.E assim, com a mesma facilidade com que um juiz bate o martelo e encerra uma sessão, ela me deixou plantado sozinho no meio do corredor mal iluminado.Fiquei estático por três segundos, olhando para o espaço vazio onde o corpo dela estava colado ao meu segundo. Passei a mão pelos lábios, sen
Mavie Ramos — Cuidado com o que você fala, Mavie! — ele rosnou, a voz grave descendo uma oitava, vibrando perigosamente no corredor escuro. — Você não sabe absolutamente nada sobre onde eu estive ou o que eu fiz! — Ah, claro que eu não sei! — disse rindo — Eu sou apenas a sua esposa de fachada, a galinha dos ovos de ouro que garante o seu herdeiro! Enquanto você sai para fechar contratos de mentira de dia, de noite você tem total liberdade para ir para a cama com quem quiser, não é?! Mas espere... o contrato não dizia que nós tínhamos que manter as aparências de decência? Ou a sua moral de homem intocável só vale para exigir recato de mim? Eu nem lembrava se tinha uma cláusula assim, mas queria provocar o homem há minha frente. Eu realmente não tinha medo da morte. Sérgio fechou o espaço entre nós com uma rapidez assustadora. Ele não me deu tempo de recuar; segurou firmemente nos meus dois braços, afastando a xícara de chá das minhas mãos para que ela não caísse no chão, e
Mavie Ramos O trajeto de volta para a mansão foi feito em um silêncio tão denso que parecia sólido. No carro, Sérgio não disse uma única palavra. Ele manteve os olhos fixos na estrada à nossa frente, as mãos firmes no volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse pilotando um avião em rota de colisão. Ele pagou a conta do restaurante com a mesma frieza de quem executava uma transação comercial hostil e me deixou na porta da mansão como se eu tivesse acabado com o dia dele — o que, pensando bem, era exatamente o que havia acontecido. Assim que os meus pés tocaram o piso da entrada e fechei a porta do carro, a SUV blindada de Sérgio arrancou com tanta violência que os pneus cantaram no asfalto, ganhando a estrada mais rápido do que eu consegui subir os primeiros degraus da escadaria de mármore do hall principal. Ele fugiu. Fugiu da própria frustração, fugiu do fogo que ele mesmo tinha acendido e, acima de tudo, fugiu de mim. Quando entrei na sa







