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O salão de festas do hotel mais exclusivo de Madri exibia um luxo sufocante. Lustres de cristal pendiam do teto alto, refletindo centenas de pequenos pontos dourados sobre as paredes. Uma orquestra tocava música clássica em algum lugar próximo, enquanto garçons circulavam entre os convidados carregando bandejas de champanhe. Homens de ternos impecáveis conversavam sobre investimentos. Mulheres cobertas de joias sorriam para fotógrafos. Executivos trocavam cartões de visita. Era o tipo de lugar onde eu jamais deveria estar. E, naquela noite, eu tinha invadido exatamente aquele lugar porque não tinha mais nada a perder. A festa era uma recepção para o novo CEO da holding, uma noite de gala. Sérgio Ramos. O homem que havia acabado de comprar o El Diario de Sevilha. O mesmo que, poucas horas antes, havia destruído o sustento de várias famílias, inclusive a minha. Fechei os olhos por um segundo, apertei a pasta contra o corpo. Dentro dela estavam meus melhores trabalhos. Tudo o que pudesse provar que eu não era descartável. Que meu trabalho tinha valor, e que aquele homem reconsiderasse. Eu só precisava de cinco minutos. Foi então que o vi. Sérgio Ramos. Estava próximo à varanda principal, conversando com dois diretores executivos. Era ainda mais imponente pessoalmente do que nas fotografias. Era um homem alto, ombros largos, cabelos escuros salpicados por fios grisalhos. Terno perfeitamente ajustado. Uma expressão que parecia ter sido esculpida em pedra. Ele não sorria. Não parecia precisar sorrir. As pessoas ao redor simplesmente se esforçavam para agradá-lo. Observei por alguns segundos. Então respirei fundo. Vai, Mavie. Atravessei o salão, cada passo parecia mais pesado que o anterior. Quando cheguei perto o suficiente, parei. — Senhor Ramos? - Ele interrompeu a conversa. Virou-se lentamente com seus olhos escuros pousando sobre mim. Primeiro no meu rosto, depois no vestido simples, e por fim na pasta. Ele me analisou em silêncio. Um dos diretores franziu a testa. — Quem é ela? - Engoli em seco. — Meu nome é Mavie Castelhano. - Os olhos de Sérgio estreitaram-se. — Senhorita Castelhano, então... - Meu coração disparou. - O que faz aqui? - Sua voz era grossa e potente. Abri a pasta. — Eu trabalho para o El Diario de Sevilha. Ou trabalhava. Recebi hoje a notificação de demissão e... — Agora entendi sua ousadia... - As palavras me fizeram parar. — O quê? O senhor... — Você foi desligada? - Engoli em seco. - Fui notificada essa manhã... Mas saiba que houve um erro. Um dos diretores soltou uma pequena risada, e Sérgio permaneceu imóvel. — Um erro? - Ele me olhava como se fosse nada além de um encômodo. — Sim. - Estendi alguns documentos. — Eu tenho os índices das minhas contribuições para a editora... o crescimento da leitura dos autores. O número de assinaturas dos autores. Eu posso continuar trabalhando. Posso assumir outras funções. Posso revisar, editar, escrever mais... Ele nem olhou para os papéis. — Senhorita Castelhano... — Eu só preciso de uma oportunidade. - Minha voz falhou. Respirei fundo. — Cinco minutos. - Ele continuou me encarando. — Eu preciso desse emprego. — Todos os funcionários demitidos precisam. - A frase me atingiu. - Não se sinta a única injustiçada. — Não é a mesma coisa. - Disse com uma pontada de raiva. — Não? - Tinha desdém na sua voz. — Não. - Minha mão apertou a pasta. — Meu filho está doente. O salão pareceu ficar mais silencioso dentro da minha cabeça. No entanto, aquele grupinho que estava à nossa volta ficou calado. — Ele precisa de uma cirurgia. - Sérgio não demonstrou reação, ele somente me olhava como se tentasse saber se valia a pena continuar essa conversa. — E eu sinto muito. - Aquelas quatro palavras não continham absolutamente nada. Nenhum sentimento, ou compaixão. Nada! — Mas isso não muda uma decisão empresarial. — Eu não estou pedindo que o senhor pague a cirurgia. - Olhei diretamente para ele. — Estou pedindo meu trabalho de volta. - Ele cruzou os braços. — A senhora invadiu um evento privado para discutir uma decisão administrativa? O que acha que estamos fazendo aqui? Brincando ou fazendo nada? — O senhor não me entenda mal... Estou aqui porque não consegui falar com ninguém... - Ele me cortou. — Isso não justifica seu comportamento, Senhorita Castelhano. — Talvez não. - Minha voz tremia. — Mas eu não tenho outra alternativa. - Ele inclinou levemente a cabeça. — Sempre existem alternativas, Senhora Castelhano. - Eu quase ri. — Para quem tem dinheiro, talvez. - Os olhos dele escureceram. — Cuidado com as palavras. - Sua voz agora era tensa. — Cuidado com o quê? - As palavras saíram antes que eu pudesse impedir. — Com a verdade? - Um dos homens ao lado dele se afastou discretamente. Eu já tinha ultrapassado qualquer limite, mas naquele momento não me importava. — O senhor pode mandar centenas de pessoas embora e chamar isso de reestruturação. Pode olhar para números e fingir que não existem famílias por trás deles. Mas eu não posso fazer isso. Eu preciso lutar pelo meu filho. Sérgio deu um passo na minha direção. — A senhora está fazendo uma cena. E estou tentando ser educado, porque eu preciso zelar pela minha imagem. — Estou tentando salvar meu filho. - Disse com um tom de desespero. Me desculpa se o Senhor só vê números e bônus trimestrais. Silêncio. Dessa vez, até senti o peso das minhas próprias palavras. Por um segundo, os olhos dele mudaram. Foi rápido. Quase imperceptível. Mas eu vi. Então desapareceu. — Senhorita Castelhano, minha gestão não será conduzida por chantagem emocional. Não é assim que eu trabalho. Esse homem tinha gelo no lugar do sangue. — Isso não é chantagem. — Então o que é? Você invade um evento vestindo isso... - Aponta para a minha roupa com um olhar de desprezo. - Está aqui questionando uma decisão que não está na sua alçada. Minha garganta apertou. — Desespero. Isso é desespero. - Ele ficou em silêncio. A palavra pareceu pairar entre nós, eu estendi novamente a pasta. — Olhe os números. - Ele não pegou. — Meu trabalho fala por mim. — Se fosse indispensável, você ainda estaria empregado.- Senti o golpe. Meu rosto queimou em carne viva. — O senhor nem olhou. — Não preciso. - Frio e consistente. — Precisa, sim. - Minha voz subiu. Algumas pessoas começaram a nos observar. A conversa estava saindo da bolha que se formou em nossa volta. — Porque o senhor acabou de comprar uma empresa que não conhece. Não conhece os leitores. Não conhece os autores. Não conhece os profissionais. Não conhece o mercado. E está demitindo pessoas sem sequer olhar para o trabalho delas. Os olhos dele endureceram. — Basta! — Eu só preciso de uma chance. - Implorei. — Sua demissão está mantida. - Senti meu peito apertar. — Por favor... Aquela foi a primeira vez naquela noite que minha voz saiu realmente fraca. — Eu posso fazer qualquer coisa. Posso trabalhar dobrado. Posso aceitar menos salário. Posso trabalhar de casa. Só não tire isso de mim. - Sérgio me encarou. E então falou: — Não confunda sua situação pessoal com o funcionamento de uma empresa. - Eu fiquei imóvel. - Se eu pensasse com o coração não estaria onde estou, e você não estaria onde está. Era como se ele tivesse acabado de arrancar a última coisa que ainda me mantinha de pé. — O senhor é um monstro. - As palavras escaparam dos meus lábios. Algumas pessoas ao redor ficaram em silêncio. Sérgio não piscou. — Talvez. - Minha mão apertou a pasta. — Mas um dia o senhor vai descobrir que pessoas não são números. Ele respondeu friamente: — E talvez a senhora descubra que empresas não são instituições de caridade. - Aquilo acabou comigo. Fechei a pasta. — Espero que nunca precise descobrir como é perder tudo. Ele me encarou. — Eu já perdi. - A resposta saiu tão baixa que quase não ouvi. Por um instante, nossos olhos permaneceram presos. Havia alguma coisa naquela frase, mas eu não tinha forças para perguntar. Virei-me. Comecei a caminhar em direção à saída, não correria. Não choraria diante deles, jamais daria àquelas pessoas o prazer de me ver quebrar. Mantive a cabeça erguida. Mesmo quando as lágrimas começaram a cair. Atravessei o salão, a porta. E só quando cheguei ao corredor vazio permiti que um soluço escapasse. Eu mal havia conseguido atravessar alguns metros quando murmurei, sem acreditar no que acabara de acontecer: — Meu Deus... - Minha voz saiu trêmula, quase inaudível. Eu havia ido até ali disposta a implorar por uma oportunidade. Não dinheiro. Não favores. Apenas o meu trabalho. O meu emprego. A única coisa que poderia me dar condições de continuar pagando o teto do meu filho. E, ainda assim, Sérgio Ramos havia conseguido me fazer sentir como se eu fosse lixo. Parei por um instante, tentando respirar e engolir o nó que apertava minha garganta. Foi quando ouvi passos atrás de mim. — Senhorita Castelhano. - Virei-me e encontrei dois seguranças se aproximando. — O que aconteceu? - Um deles não respondeu. Apenas segurou meu braço. — Ei! Solte-me! Tentei me desvencilhar, mas o outro se posicionou ao meu lado, bloqueando qualquer possibilidade de recuo. — Ordens do senhor Ramos — disse ele, com uma frieza assustadora. Meu estômago se revirou. — Eu já estou indo embora! — Então facilite as coisas. — Não precisa me tratar assim! Minha voz se perdeu entre a música elegante, as conversas e as risadas dos convidados que continuavam completamente alheios àquela humilhação. Eles me conduziram pelo corredor de serviço. Eu tropecei uma vez, depois outra, tentando acompanhar o passo deles. — Eu consigo andar sozinha! - Ninguém pareceu se importar. A porta dos fundos se abriu e, no segundo seguinte, fui praticamente empurrada para a calçada. O ar frio da noite bateu contra o meu rosto. Fiquei alguns segundos parada, tentando compreender que aquilo realmente tinha acontecido. Eu tinha acabado de ser expulsa. Como uma criminosa. Como alguém que não merecia sequer estar no mesmo ambiente que aquelas pessoas. Um dos seguranças ainda saiu atrás de mim. — E é melhor a senhorita entender uma coisa. - Olhei para ele. — O quê? — Não volte a procurar o senhor Sérgio Ramos. - Meu peito apertou. — Eu só queria... - Ele deu um passo na minha direção. — Se voltar a tentar entrar, procurar o senhor Ramos ou causar qualquer problema, não seremos tão educados. Engoli em seco. Os dois voltaram para dentro e a porta se fechou atrás deles. Com o orgulho destruído, os olhos ardendo e uma pasta apertada contra o peito contendo os únicos documentos que eu tinha levado para provar que ainda merecia aquela vaga. Naquele momento, alguma coisa dentro de mim mudou. Meu coração, que já estava cansado de sofrer, simplesmente se fechou. Sérgio Ramos não era apenas o homem que havia acabado com o meu emprego. Era o homem que havia olhado para o meu desespero e escolhido pisar nele. Eu odiava aquele homem. Odiava com todas as forças que ainda me restavam. E, enquanto caminhava de volta para casa, uma única certeza se formou dentro de mim: Eu nunca mais imploraria nada a Sérgio Ramos.Sérgio Ramos O coquetel de gala não seria em um salão fechado de hotel, como a imprensa e os colunistas sociais tanto especularam, mas nas terras particulares de Domênico, um dos acionistas mais influentes, venenosos e ardilosos da alta sociedade espanhola. A propriedade ficava a apenas vinte minutos da nossa mansão, cobrindo colinas inteiras com uma iluminação cênica impecável e milimetricamente planejada. O vinhedo dele era o puro suco do luxo ostentativo: fontes de mármore esculpido, garçons servindo safras raríssimas em taças de cristal lapidado e uma multidão de empresários, banqueiros, políticos e especuladores de mercado — o tipo exato de gente superficial e nojenta que Mavie claramente desprezava à primeira vista.No carro, o silêncio entre minha mãe e Catalina tinha sido constrangedor, quase insuportável. Dona Cecília e minha irmã ainda se sentiam profundamente culpadas pelo desastre de mais cedo no quarto, quando tiveram a infeliz e desastrosa ideia de oferecer a Mavie o
Mavie Ramos O reflexo no espelho do provador me mostrava uma mulher que eu quase não reconhecia. O vestido de cetim vermelho-sangue desenhava cada curva do meu corpo com uma ousadia que eu mesma me espantava em possuir; o cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros e a maquiagem nos olhos escuros dava o tom exato de quem não estava ali para pedir desculpas ou abaixar a cabeça. Eu me sentia poderosa, intocável, armada até os dentes com a minha própria marra, pronta para enfrentar qualquer olhar torto ou julgamento velado que a alta sociedade de Sevilha pudesse lançar sobre mim naquela noite.Até a porta do quarto se abrir com um rangido suave e Dona Cecília entrar acompanhada por Catalina, carregando nos braços uma caixinha de veludo escuro que parecia pesar séculos de tradição.— Querida, você está simplesmente deslumbrante — minha sogra elogiou, com aquela suavidade aristocrática que parecia vir natural a quem nasceu dono de meio mundo. Ela caminhou com passos firmes até a pente
Sérgio Ramos A luz do sol de sexta-feira entrou rasgando pelas frestas das cortinas de linho pesado do quarto, anunciando que o dia do julgamento — ou melhor, do coquetel de gala — finalmente havia chegado. Abri os olhos sentindo uma leve dor de cabeça latejar nas têmporas, consequência direta do uísque da véspera e das horas mal dormidas pensando na mulher que dormia a poucos centímetros de mim. Virei o rosto no travesseiro. O lado da cama de Mavie já estava vazio. O lençol amassado e o cheiro suave de jasmim e baunilha que impregnava o travesseiro dela eram os únicos vestígios de que ela havia estado ali. Levantei sem pressa, fiz a minha rotina matinal e desci para o escritório particular que mantinha na ala oeste da mansão. O dia seria uma maratona infernal: reuniões com os acionistas majoritários pela manhã, alinhamento com a diretoria de marketing da holding à tarde e, para coroar a insanidade, a apresentação oficial da minha esposa e do meu herdeiro à alta sociedade de Se
Sérgio Ramos — Você está bêbado, Sérgio. Vá tomar um banho — a voz de Mavie cortou o ar do corredor com uma clareza cortante, zombeteira e absolutamente imune ao feitiço do beijo que acabamos de compartilhar.Antes que eu pudesse formular qualquer argumento ou puxá-la de volta para o meu abraço, ela se soltou dos meus braços com uma agilidade irritante. Suas mãos ágeis ajeitaram o tecido da roupa de dormir com um puxão rápido, alinhando a blusa e endireitando a postura como se nada — absolutamente nada — tivesse acabado de acontecer entre nós.— Vou fazer um café para curar essa sua ressaca — ela acrescentou por cima do ombro, virando-se de costas e caminhando a passos firmes em direção à escada.E assim, com a mesma facilidade com que um juiz bate o martelo e encerra uma sessão, ela me deixou plantado sozinho no meio do corredor mal iluminado.Fiquei estático por três segundos, olhando para o espaço vazio onde o corpo dela estava colado ao meu segundo. Passei a mão pelos lábios, sen
Mavie Ramos — Cuidado com o que você fala, Mavie! — ele rosnou, a voz grave descendo uma oitava, vibrando perigosamente no corredor escuro. — Você não sabe absolutamente nada sobre onde eu estive ou o que eu fiz! — Ah, claro que eu não sei! — disse rindo — Eu sou apenas a sua esposa de fachada, a galinha dos ovos de ouro que garante o seu herdeiro! Enquanto você sai para fechar contratos de mentira de dia, de noite você tem total liberdade para ir para a cama com quem quiser, não é?! Mas espere... o contrato não dizia que nós tínhamos que manter as aparências de decência? Ou a sua moral de homem intocável só vale para exigir recato de mim? Eu nem lembrava se tinha uma cláusula assim, mas queria provocar o homem há minha frente. Eu realmente não tinha medo da morte. Sérgio fechou o espaço entre nós com uma rapidez assustadora. Ele não me deu tempo de recuar; segurou firmemente nos meus dois braços, afastando a xícara de chá das minhas mãos para que ela não caísse no chão, e
Mavie Ramos O trajeto de volta para a mansão foi feito em um silêncio tão denso que parecia sólido. No carro, Sérgio não disse uma única palavra. Ele manteve os olhos fixos na estrada à nossa frente, as mãos firmes no volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse pilotando um avião em rota de colisão. Ele pagou a conta do restaurante com a mesma frieza de quem executava uma transação comercial hostil e me deixou na porta da mansão como se eu tivesse acabado com o dia dele — o que, pensando bem, era exatamente o que havia acontecido. Assim que os meus pés tocaram o piso da entrada e fechei a porta do carro, a SUV blindada de Sérgio arrancou com tanta violência que os pneus cantaram no asfalto, ganhando a estrada mais rápido do que eu consegui subir os primeiros degraus da escadaria de mármore do hall principal. Ele fugiu. Fugiu da própria frustração, fugiu do fogo que ele mesmo tinha acendido e, acima de tudo, fugiu de mim. Quando entrei na sa







