Compartir

Capítulo 1

last update Fecha de publicación: 2022-12-27 10:52:41

Clara

Sabe aqueles dias em que você precisa acordar cedo, mas resolve dormir só às três da manhã porque ficou vendo série até tarde? Pois é. Bem-vinda à minha vida.

Se eu tivesse um mínimo de controle sobre as minhas vontades, não faria isso. Ainda mais sabendo que tinha que trabalhar cedo. Mas, aparentemente, eu sou do tipo de pessoa que gosta de brincar com a sorte. Resultado: estou correndo feito uma lunática pela calçada, sem café da manhã e com a dignidade em frangalhos. Definitivamente, não nasci para madrugar.

E, claro, para completar: como sempre que chego atrasada, tenho que passar na cafeteria. Não é suborno, juro. Talvez só um pouquinho. Um café pro Marcos costuma amenizar a bronca que me espera. Além disso, eu precisava desesperadamente de cafeína.

Apertei o passo e empurrei a porta de vidro com força, sem olhar. Um erro.

O impacto foi imediato. Esbarrei em alguém do outro lado e perdi o equilíbrio, indo direto ao chão. Protagonista de comédia romântica… só que sem trilha sonora e com café espalhado pela roupa.

— Você está bem?

A voz veio de cima. Grave, firme, com um sotaque leve que eu não consegui identificar de imediato. O tipo de voz que, em outras circunstâncias, faria meu coração saltar de empolgação. Mas naquele momento, só me fez pensar: Por favor, não seja bonito. Por favor, não seja bonito.

Levantei o olhar.

Ele era bonito.

Claro que era.

Ele parecia saído de um sonho de verão. Alto, corpo marcado pelo sol, músculos definidos sem exagero, como se tivesse sido esculpido na areia e endurecido pelo vento do mar. Os cabelos loiros, ligeiramente ondulados, caíam de forma displicente sobre a testa.

E os olhos… havia algo neles que me deixou sem ar. Azul profundo, quase translúcido, como o reflexo do céu sobre a água. Não eram apenas bonitos, eram intensos demais. O tipo de olhar que fazia você esquecer por um instante de onde estava, como se estivesse sendo despida sem que ele sequer estendesse a mão.

Estava olhando diretamente pra mim.

E eu ali, no chão, com calça manchada de café e zero glamour. Maravilha.

— Oh meu Deus, sinto muito! Eu não vi você aí e acabei derrubando todo o seu café!

Ele já estava ajoelhado ao meu lado, um joelho no chão, como se fosse me pedir em casamento ou me aplicar primeiros socorros. Sinceramente, não sei qual seria mais estranho.

— Você se queimou? — perguntou, sério demais para o acidente bobo que foi.

— Não. Talvez. Possivelmente sim. — Ótimo, minha boca decidiu ser sarcástica agora.

Um sorriso surgiu, o que só piorou tudo. Um daqueles sorrisos meio tortos, meio contidos, que parecia vir de alguém que não sorria com frequência. Ou seja: ainda mais atraente. Porque o universo me odeia.

— Posso ver? — Ele apontou para a minha perna. Antes que eu protestasse, já examinava a mancha na calça, os dedos roçando perto da minha coxa.

Arfei.

— Acho que o tecido protegeu. Ou talvez eu já tenha me tornado insensível à dor. Trauma acumulado.

Ele ergueu uma sobrancelha, avaliando. O olhar demorou mais do que o necessário.

— Você sempre responde com sarcasmo mesmo quando está ferida?

— Não sei. É a primeira vez que derramo café quente na frente de um estranho elegante.

Ele soltou uma risada breve, quase involuntária. Mas os olhos não riram junto.

— Tem uma farmácia aqui perto. Posso comprar pomada. Ou… você pode manter a marca como lembrança do nosso encontro.

Meus olhos se estreitaram.

— Isso foi... uma cantada?

— Eu sou péssimo com cantadas — confessou levantando-se e me oferecendo a mão.

Toquei os dedos dele com hesitação. Mãos grandes, firmes, com veias marcadas e calor suficiente para derreter qualquer neurônio funcional que eu ainda tivesse.

Ele me ajudou a levantar. E foi então que percebi que a ardência na perna era real. E que ele estava muito perto.

— Eu sou Dante.

— Clara.

— Nome forte. Significa “brilhante”, sabia?

Revirei os olhos, tentando não sorrir.

— E o seu significa “inferno”. Combinação promissora, não acha?

Dante arqueou a sobrancelha novamente. Claramente um homem de poucas palavras e muitas expressões.

— Você tem respostas afiadas.

— Eu tenho ansiedade social e zero filtros. Parece charme, mas é só desespero bem disfarçado.

Dessa vez Dante riu. Um som baixo, contido, quase… ensaiado. Olhou em volta e apontou para uma mesa próxima, no cantinho da cafeteria.

— Posso te pagar um café.

— Só se vier com uma compressa de gelo grátis.

— Feito.

— Na verdade, vou querer dois. Eu vou querer um café expresso do maior que tiver e um capuccino, se não for pedir demais.

— Pode deixar comigo.

— Obrigada!

Minutos depois, ele voltou com três copos. Colocou dois na minha frente com solenidade, como se fosse vinho.

— Cappuccino Italiano, com açúcar e canela. Acertei?

Arregalei os olhos.

— Você leu minha mente?

— Você tem “viciada em cappuccino” escrito na testa.

Ri. Nervosa. Estranhamente confortável e desconfortável ao mesmo tempo.

— E você? — perguntei, apontando para o copo dele. — O que um cara com você bebe?

— Espresso duplo. Puro. Sem alma.

Assenti.

— Combina com o nome. Dante. Parece que você deveria estar andando por corredores sombrios com uma espada ou... assombrando sonhos femininos.

Ele arqueou a sobrancelha. De novo. Estava virando marca registrada.

— Isso foi uma cantada?

Mordi o lábio.

— Eu sou péssima com cantadas.

Ele sorriu de verdade agora. Mas havia algo no fundo daquele sorriso, uma sombra, um peso.

Meu celular vibrou freneticamente.

Maria: “CLARA. A reunião começa em DOIS MINUTOS. O Marcos está perguntando de você.”

Ah, droga.

Levantei num pulo, quase derrubando tudo outra vez.

— Trabalho? — perguntou, ainda calmo demais.

— Inferno pessoal. Mas com planilhas.

Ele se levantou também, alto e tranquilo. O tipo de presença que ficava gravada mesmo quando você tentava ir embora.

— Você vem sempre aqui?

Parei por um instante na porta.

— Quase sempre.

Ele sorriu, como se aquilo fosse exatamente o que queria ouvir. Eu me virei antes que meu rosto entregasse que eu também queria.

— Então talvez a gente se encontre de novo.

Não sei o que me deixou mais nervosa: a ideia de reencontrá-lo, ou a certeza de que eu queria isso.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Não diga que me Ama   Capítulo 43

    Assassino Consegui. Ah, como consegui. Um susto digno, daqueles que deixam o coração batendo descompassado e a respiração presa na garganta. Faz algum tempo que descobri o pequeno detalhe sobre minha Clara: ela não sabe nadar. Inocente demais, frágil demais… perfeita demais para que eu não usasse isso a meu favor. Foi só esperar. Ela já andava debilitada — culpa, medo, insônia… um banquete emocional que eu mesmo preparei, passo a passo. Bastou colocar o toque final: um pozinho quase imperceptível no suco gelado que Sérgio entregou. E então… a mágica aconteceu. Vocês não fazem ideia do prazer que é assistir. Não apenas o ato, mas a reação. O instante exato em que os olhos dela perdem o foco, o corpo fraqueja, e ela desaba… Ver o pânico tomar conta de Marcos foi delicioso. Denis, tentando parecer calmo, mas com os dedos trêmulos. Ah… aquele desespero deles foi como música para mim. Sim, ela demorou a recobrar a consciência. Admito: por um segundo, apenas um mísero segundo, conside

  • Não diga que me Ama   Capítulo 42

    Marcos Estou conversando com Denis quando Sérgio aparece sozinho. — Onde está Clara? — pergunto. — Na beira da piscina tomando suco. — Você deixou, ela sozinha? — Marcos, a casa está cercada por policiais armados, nada pode acontecer a ela. — diz Denis. — Não é isso que me preocupa, e sim o fato dela estar sempre passando mal e estar na beira da piscina sendo que ela não sabe nadar. O som foi tão baixo que quase passou despercebido. Um plof abafado, como algo pesado caindo na água. No começo, pensei que fosse algum pássaro, sempre tem desses momentos. Mas então percebi que o som não vinha de lá. Era da piscina. Meu corpo se moveu antes mesmo de a mente processar. Larguei a pasta de documentos que estava folheando com Denis e corri. A visão me atingiu como um soco no estômago. Clara. Afundando. — Droga! — o grito saiu preso na garganta. Pulei sem pensar. A água gelada mordeu minha pele, mas não senti. Só conseguia ver o contorno do corpo dela, vestido leve grudado, os cabe

  • Não diga que me Ama   Capítulo 41 (parte 2)

    Depois daquela conversa com Marcos, pensei que as coisas ficariam menos sufocantes. Mas não ficaram. Depois desta última morte, muitas outras vieram em poucas semanas. Em menos de um mês e meio, o assassino já havia matado dez mulheres. Dez. E, de alguma forma, eu sabia que cada uma delas era um recado direto para mim. Um aviso cruel de que ele estava se aproximando. Denis fechou a pasta com fotos das vítimas. Seus olhos ficaram presos em uma delas por tempo demais. Sem dizer nada, ele passou a mão pelo rosto e olhou para mim pela janela. — “Não vai acontecer de novo.” — murmurou para si mesmo, mas eu ouvi. Não era só um juramento, era um peso que ele se recusava a deixar cair sobre mim. Um aviso do assassino era cruel e estava se aproximando. A cada nova notícia, algo em mim se partia. Não conseguia mais comer direito, e quando comia, meu estômago simplesmente rejeitava. Era como se meu corpo tivesse decidido viver em constante estado de alerta. Em vez de engordar, como era esp

  • Não diga que me Ama   Capítulo 41 (parte 1)

    Clara O barulho da porta rangendo me acorda. Ainda sonolenta, viro para o lado e vejo a cama vazia. Marcos não estava ali quando adormeci, e pelo jeito acabou de chegar. A luz fraca do abajur da sala invade o corredor por alguns segundos antes de ele fechá-la devagar, como se quisesse não me acordar. Finjo que ainda durmo, mas escuto seus passos. Lentos. Pesados. E, principalmente, silenciosos demais para alguém que não tem nada a esconder. Ele entra no quarto, o cheiro de rua e de noite fria vindo junto. O colchão afunda quando ele se senta na beira da cama. Sua mão pousou na minha perna, quase num carinho mecânico, mas sem calor. — Você estava onde? — minha voz quebra o silêncio. Marcos congela, e eu sei que o peguei de surpresa. Ele demora alguns segundos para responder. — Coisa de trabalho. — Trabalho a ponto de voltar com essa cara? — me ergo, apoiando nos cotovelos. — Não tenta disfarçar, Marcos. Você está tenso. — Não quero te preocupar, Clara. — Ele suspira, massageando

  • Não diga que me Ama   Capítulo 40

    Marcos A estrada sempre parece mais longa à noite. Não importa quantas vezes eu a percorra. O farol corta a escuridão à frente, revelando apenas pequenos trechos do asfalto, mas não dissipa o peso que se acumula no meu peito a cada quilômetro. O silêncio dentro do carro é opressor, quebrado apenas pelo som do motor e pelos meus próprios pensamentos, que se atropelam. Sérgio não usaria aquele tom urgente se não fosse algo sério. Ele me conhece há tempo demais para dramatizar sem motivo. E, se for o que eu estou pensando, então as coisas acabaram de escalar para um nível que não consigo mais manter distante de Clara. Um nível que invade, contamina, destrói qualquer ilusão de controle. Chegamos ao perímetro isolado pouco depois. As luzes giratórias das viaturas pintam a noite de vermelho e azul, criando sombras distorcidas entre as árvores. A cena parece retirada de um pesadelo repetido vezes demais. Assim que desço do carro, o cheiro metálico de sangue me atinge em cheio, forte, incon

  • Não diga que me Ama   Capítulo 39

    Clara Abro os olhos no escuro. O quarto está silencioso, exceto pelo som suave da respiração de Marcos ao meu lado. Uma réstia de luz prateada entra pela fresta da cortina, desenhando um traço fino no chão. Meu coração está acelerado e não é por causa de um pesadelo é pelas palavras de Sérgio. “Ela tinha o direito de saber.” Ecoa na minha mente como um sussurro incômodo, um lembrete de que algo grave está acontecendo bem mais perto de mim do que imaginam. Viro para o lado, observando o contorno de Marcos na penumbra. Ele parece tão tranquilo, mas sei que não está. Quando penso no jeito que me tirou do quarto mais cedo, percebo que havia mais medo nos olhos dele do que raiva. Sento-me devagar, abraçando os joelhos. Meus pensamentos voltam ao bilhete que vi na mão dele. As frases frias, quase debochadas. “Estou louco para te reencontrar.” O pior é que ele falava como se já me conhecesse… intimamente. Meus dedos formigam. E se Sérgio tiver razão? E se eu estiver vivendo numa bolha de

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status