INICIAR SESIÓNDuda
Já era de se esperar a reação da Clara. Ela sempre reage assim. Sempre no modo protetora maternal nível cem. Às vezes parece que, desde a morte dos pais dela, ela se obrigou a assumir um papel que nunca pediu, mãe, guia, bússola, tudo ao mesmo tempo. Não a culpo. Ela viu tudo. Ela e o Marcos estavam lá. Viram a vida desmoronar em segundos. Eu não gosto de falar sobre isso. Não porque quero evitar o assunto, mas porque… não sei o que dizer. Que sinto muito? Eu sinto. Mas o que posso realmente entender de uma dor dessas? Desde aquele dia, a Clara desenvolveu esse talento especial de me tratar como uma versão menor e mais desastrada dela mesma. E talvez, eu seja mesmo. Mas isso não quer dizer que não posso tomar minhas próprias decisões, inclusive quando se trata de caras potencialmente idiotas. E sim, o histórico comprova: eu tenho um talento especial para me apaixonar por desastre. Troco de namorado como quem troca de roupa. Mas não porque sou volúvel. É porque eles são. Prometem o mundo e entregam o caos. Me conquistam com mensagens bonitinhas, playlists fofas e, quando percebo, estou sozinha tentando juntar os cacos de mais um final que não pedi. Só que Johne… ele parece diferente. Ele não me manda só mensagens fofinhas ou playlists baratas. Ele tem um jeito de olhar, de falar, que faz parecer que eu sou a única pessoa no mundo que importa naquele instante. Quando sorri… ah, aquele sorriso. É como se o caos que eu carrego dentro de mim finalmente se calasse por alguns segundos. Clara não confia nele. Claro que não. Ela já não confia em ninguém que se aproxime de mim com intenções românticas. Mas, dessa vez, quero acreditar que ela está errada. Preciso acreditar. Porque, se não estiver… o que sobra de mim? Pego o batom vermelho, meu amuleto de coragem, e passo com firmeza. Jeans de cintura alta, top de renda branca e maquiagem leve. Pronto. Versão melhorada de mim mesma. A versão que não vacila. Antes de sair, passo no quarto da Clara. Ela dorme tranquila, os traços serenos, como se o peso do mundo finalmente tivesse lhe dado uma trégua. Entro devagar. Me inclino e beijo sua testa. Um gesto pequeno, mas cheio do que eu nunca consigo dizer em voz alta: sem você, eu já teria me perdido. Fecho a porta devagar e corro para o táxi. Senhor Óscar, vulgo meu pai, confiscou meu carro por “uso indevido do cartão de crédito” e “atentado contra as leis de trânsito”. Exagerado, como sempre. Quem nunca gastou demais ou dirigiu como se o sinal vermelho fosse sugestão? Talvez eu tenha um problema com autoridade. Rebelde, dramática, um pouco inconsequente. Ou talvez seja só meu jeito de gritar para o mundo que ainda estou viva. Desço, entro no carro e peço para o motorista seguir para o um barzinho famoso. Minutos depois, o local aparece diante de mim com suas luzes âmbar e som abafado. É um daqueles lugares que parece elegante demais por fora, mas onde todos os casais do mundo parecem dar certo... pelo menos por uma noite. No bar, Johne já me espera. Luz âmbar, música abafada, casais rindo, copos tilintando. O cenário perfeito para acreditar que finais felizes existem. Ele se levanta quando me vê, camisa branca, jeans escuro, sorriso que faria qualquer terapeuta me dar alta só para não assistir ao desastre que eu estava prestes a causar. — Você está linda. — Obrigada! — sorrio, fingindo não derreter por dentro. A noite é leve. Dançamos, rimos, bebemos, nos beijamos. Como se fôssemos personagens de uma história que não pode dar errado. Mas, por volta das três da manhã, quando ele se oferece para me levar pra casa, vem aquele fiozinho incômodo. No carro, ele solta de repente, com uma naturalidade gelada: — Relacionamento? — Ele ri baixo, sem humor. — Isso é só uma ilusão. Uma mentira inventada para que as pessoas não precisem encarar o vazio de estarem sozinhas. Olha pra mim. Olha fundo. Como se quisesse medir minha reação, dissecar meus pensamentos. — Eu vi de perto o que o “amor” faz. É manipulação, traição, mentira. Prometem eternidade, entregam abandono. Eu não quero isso. Nunca quis. — Um sorriso frio curva seus lábios. — Podemos ficar sem compromisso. A frase pesa no ar. Como fumaça que entra pelos pulmões e sufoca. Por um instante, minha mente grita: corre, Duda. Mas meu coração, meu tolo e faminto coração, só consegue pensar: ele está ferido. Talvez eu possa curá-lo. Talvez eu seja a exceção. Talvez ele tenha se machucado no passado. Talvez ele precise de alguém que prove que nem todo amor termina em dor. E talvez... esse alguém possa ser eu. *** Chegamos em casa. O beijo que ele me dá é quente, quase possessivo, e por um segundo eu penso em convidá-lo a subir. Mas engulo o impulso. Sinto que, se ceder agora, não vou ter como voltar atrás. Entro no prédio, tiro os sapatos, me esgueiro até meu quarto. O baby doll desliza pela pele cansada, mas minha mente não desacelera. Fico pensando nele. No sorriso, nas palavras, no abismo escondido atrás daquele olhar bonito. E adormeço com uma certeza teimosa queimando dentro de mim: Vou provar pra ele que amar não é destruição. Que amar pode ser seguro. Mas, no fundo, algo em mim já sabe. Algumas pessoas não amam… porque nunca aprenderam a parar de destruir.Assassino Consegui. Ah, como consegui. Um susto digno, daqueles que deixam o coração batendo descompassado e a respiração presa na garganta. Faz algum tempo que descobri o pequeno detalhe sobre minha Clara: ela não sabe nadar. Inocente demais, frágil demais… perfeita demais para que eu não usasse isso a meu favor. Foi só esperar. Ela já andava debilitada — culpa, medo, insônia… um banquete emocional que eu mesmo preparei, passo a passo. Bastou colocar o toque final: um pozinho quase imperceptível no suco gelado que Sérgio entregou. E então… a mágica aconteceu. Vocês não fazem ideia do prazer que é assistir. Não apenas o ato, mas a reação. O instante exato em que os olhos dela perdem o foco, o corpo fraqueja, e ela desaba… Ver o pânico tomar conta de Marcos foi delicioso. Denis, tentando parecer calmo, mas com os dedos trêmulos. Ah… aquele desespero deles foi como música para mim. Sim, ela demorou a recobrar a consciência. Admito: por um segundo, apenas um mísero segundo, conside
Marcos Estou conversando com Denis quando Sérgio aparece sozinho. — Onde está Clara? — pergunto. — Na beira da piscina tomando suco. — Você deixou, ela sozinha? — Marcos, a casa está cercada por policiais armados, nada pode acontecer a ela. — diz Denis. — Não é isso que me preocupa, e sim o fato dela estar sempre passando mal e estar na beira da piscina sendo que ela não sabe nadar. O som foi tão baixo que quase passou despercebido. Um plof abafado, como algo pesado caindo na água. No começo, pensei que fosse algum pássaro, sempre tem desses momentos. Mas então percebi que o som não vinha de lá. Era da piscina. Meu corpo se moveu antes mesmo de a mente processar. Larguei a pasta de documentos que estava folheando com Denis e corri. A visão me atingiu como um soco no estômago. Clara. Afundando. — Droga! — o grito saiu preso na garganta. Pulei sem pensar. A água gelada mordeu minha pele, mas não senti. Só conseguia ver o contorno do corpo dela, vestido leve grudado, os cabe
Depois daquela conversa com Marcos, pensei que as coisas ficariam menos sufocantes. Mas não ficaram. Depois desta última morte, muitas outras vieram em poucas semanas. Em menos de um mês e meio, o assassino já havia matado dez mulheres. Dez. E, de alguma forma, eu sabia que cada uma delas era um recado direto para mim. Um aviso cruel de que ele estava se aproximando. Denis fechou a pasta com fotos das vítimas. Seus olhos ficaram presos em uma delas por tempo demais. Sem dizer nada, ele passou a mão pelo rosto e olhou para mim pela janela. — “Não vai acontecer de novo.” — murmurou para si mesmo, mas eu ouvi. Não era só um juramento, era um peso que ele se recusava a deixar cair sobre mim. Um aviso do assassino era cruel e estava se aproximando. A cada nova notícia, algo em mim se partia. Não conseguia mais comer direito, e quando comia, meu estômago simplesmente rejeitava. Era como se meu corpo tivesse decidido viver em constante estado de alerta. Em vez de engordar, como era esp
Clara O barulho da porta rangendo me acorda. Ainda sonolenta, viro para o lado e vejo a cama vazia. Marcos não estava ali quando adormeci, e pelo jeito acabou de chegar. A luz fraca do abajur da sala invade o corredor por alguns segundos antes de ele fechá-la devagar, como se quisesse não me acordar. Finjo que ainda durmo, mas escuto seus passos. Lentos. Pesados. E, principalmente, silenciosos demais para alguém que não tem nada a esconder. Ele entra no quarto, o cheiro de rua e de noite fria vindo junto. O colchão afunda quando ele se senta na beira da cama. Sua mão pousou na minha perna, quase num carinho mecânico, mas sem calor. — Você estava onde? — minha voz quebra o silêncio. Marcos congela, e eu sei que o peguei de surpresa. Ele demora alguns segundos para responder. — Coisa de trabalho. — Trabalho a ponto de voltar com essa cara? — me ergo, apoiando nos cotovelos. — Não tenta disfarçar, Marcos. Você está tenso. — Não quero te preocupar, Clara. — Ele suspira, massageando
Marcos A estrada sempre parece mais longa à noite. Não importa quantas vezes eu a percorra. O farol corta a escuridão à frente, revelando apenas pequenos trechos do asfalto, mas não dissipa o peso que se acumula no meu peito a cada quilômetro. O silêncio dentro do carro é opressor, quebrado apenas pelo som do motor e pelos meus próprios pensamentos, que se atropelam. Sérgio não usaria aquele tom urgente se não fosse algo sério. Ele me conhece há tempo demais para dramatizar sem motivo. E, se for o que eu estou pensando, então as coisas acabaram de escalar para um nível que não consigo mais manter distante de Clara. Um nível que invade, contamina, destrói qualquer ilusão de controle. Chegamos ao perímetro isolado pouco depois. As luzes giratórias das viaturas pintam a noite de vermelho e azul, criando sombras distorcidas entre as árvores. A cena parece retirada de um pesadelo repetido vezes demais. Assim que desço do carro, o cheiro metálico de sangue me atinge em cheio, forte, incon
Clara Abro os olhos no escuro. O quarto está silencioso, exceto pelo som suave da respiração de Marcos ao meu lado. Uma réstia de luz prateada entra pela fresta da cortina, desenhando um traço fino no chão. Meu coração está acelerado e não é por causa de um pesadelo é pelas palavras de Sérgio. “Ela tinha o direito de saber.” Ecoa na minha mente como um sussurro incômodo, um lembrete de que algo grave está acontecendo bem mais perto de mim do que imaginam. Viro para o lado, observando o contorno de Marcos na penumbra. Ele parece tão tranquilo, mas sei que não está. Quando penso no jeito que me tirou do quarto mais cedo, percebo que havia mais medo nos olhos dele do que raiva. Sento-me devagar, abraçando os joelhos. Meus pensamentos voltam ao bilhete que vi na mão dele. As frases frias, quase debochadas. “Estou louco para te reencontrar.” O pior é que ele falava como se já me conhecesse… intimamente. Meus dedos formigam. E se Sérgio tiver razão? E se eu estiver vivendo numa bolha de