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capítulo 04

last update Fecha de publicación: 2026-04-09 06:03:52

— Não precisava vim até aqui pra deixar isso, o advogado traria pra mim ou devia ter entregado a Letícia.

ele respondeu frio.

— quando assinei o papel do nosso casamento, eu fiz com você Ricardo, eu só queria deixar diretamente para você.

— Claro, você não perderia a oportunidade de vim me atrapalhar, no meu trabalho.

Enchi o peito de ar, estava tão cansada disso.

— Eu, não vou mais atrapalhar seu trabalho.

Girei os calcanhares pra sair daquela sala, daquela empresa e de perto daquele homem que nunca conheci de verdade, esperando nunca mais precisar cruzar aquela porta.

Mas sua voz chamou mais uma vez minha atenção.

— Onde está o Henry?

ele perguntou, sem sequer comentar sobre o fim oficial do nosso casamento.

— Na escola.

— Não precisa ir buscá-lo. Eu vou pegá-lo para passar o fim de semana comigo.

Senti um aperto no peito. Henry era minha única âncora, o único amor que não era feito de restos.

— Ricardo, ele tem uma rotina. Você pode pegá-lo amanhã à tarde, me deixe ao menos prepará-lo...

— Nosso acordo foi de guarda compartilhada, Paloma.

ele me interrompeu, a voz desprovida de qualquer emoção.

— Eu não preciso de autorização para ver meu filho. Já deixei metade de tudo o que é meu para você, você assinou o acordo. Não dificulte as coisas.

— Por favor...

minha voz falhou.

— Me deixe pegá-lo na escola hoje. Eu o ajeito em casa e você o busca à noite. Só hoje.

Ele suspirou, olhando para o relógio como se eu fosse um compromisso atrasado.

— Está bem. Às dezenove horas eu passo lá. Já terminou? Tenho muita coisa para resolver.

Saí dali derrotada, me sentindo minúscula.

Por tanto tempo eu tentei me acostumar com aquele jeito dele, me acostumar com a sua frieza, entender que era só aquilo que ele tinha oferecer para mim, já que ele era tão diferente para os outros.

Por muito tempo tentei fazer aquilo ser suficiente, porque eu amava, mas hoje vejo quanto eu fui tola.

Dirigi até a escola em um transe de dor.

Quando Henry apareceu, com seu sorriso largo e os olhinhos brilhando, meu mundo parou de sangrar por um segundo.

— Mamãe!

O abracei com todo meu amor.

— vamos passar no parque hoje? Você prometeu.

Coloquei ele no carro, fivelando seu cinto, o pequeno me olhou curioso.

— Mamãe, por que você não vai com o papai?

— A gente já conversou sobre isso, amor. Eu e seu pai não estamos mais juntos.

— Então ele não vai mais morar mais com a gente?

— Não, meu bem. Ele vai morar na casa dos vovôs por enquanto. Obedeça a ele, está bem?

O silêncio do meu filho doeu mais que qualquer grito, porque eu sei que ele sentia.

Nenhuma separação é fácil pra criança e tudo que eu menos queria era que meu filho sentisse o que eu sempre senti na vida.

Fiz tudo como sempre faço, dei banho, a refeição, ajeitei a mochila pra ele levar com roupas e sua manta favorita.

Pouco depois, o som da buzina cortou o ar da tarde.

Ricardo havia chegado. Peguei a mochila de Henry e o levei até a porta. Eu me abaixei, ficando na altura dele, e beijei sua testa.

— Eu te amo.

sussurrei.

— Também te amo, mamãe. Muito?

ele perguntou, nossa rotina de todos os dias.

— Muito. I love forever.

— I love forever.

ele repetiu, sorrindo. Era o nosso código, a única coisa pura que me restava.

Ricardo desceu do carro. Henry correu para os seus braços. Tentei entregar a bolsa com as roupas favoritas do menino, mas Ricardo apenas balançou a cabeça.

— Não precisa de nada, Paloma. Eu já comprei tudo o que ele vai precisar lá.

Aquelas palavras foram como uma faca. Ele estava apagando meus rastros da vida do meu filho, provando que até na maternidade ele podia me tornar desnecessária.

— Que horas você o traz no domingo?

perguntei, tentando manter a voz firme.

— Eu vejo isso no domingo.

ele respondeu, fechando a porta do carro.

Enquanto ele acomodava Henry, meu celular tocou. Olhei a tela e meu coração parou. Maik. Meu irmão mais novo, que me desprezava há sete anos, o mesmo que Clarisse convenceu a me odiar.

O mesmo que quando foi expulsa de casa, desejou que eu me destruísse, tudo porque sua irmã favorita Não Era Eu.

Ele nunca me ligava, nunca.

Desde o dia em que foi taxada de traidora por amar... Ele me desprezou, me humilhou como todos os outros.

A dor no meu coração foi tanta, mas sabia que se ele estava me ligando é porque algo tinha acontecido.

Atendi em silêncio esperando sua voz.

— Paloma?

a voz dele estava embargada e eu senti um grande fisgar no meu coração.

— A mãe mandou te ligar. O pai... ele teve um ataque cardíaco. Ele está no hospital. Você precisa vir agora.

O aparelho escorregou da minha mão, batendo no asfalto.

O homem que me amou como filha e depois me jogou no exílio da sua indiferença estava morrendo.

Ricardo viu o celular no chão e franziu o cenho, se aproximando.

— O que aconteceu?

— Meu pai...

eu mal conseguia respirar.

— Ele está no hospital. Sofreu um ataque cardíaco. Preciso ir para lá agora.

— Vá. Eu vou assim que deixar o Henry com meus pais.

Ricardo disse, e pela primeira vez em anos, vi um lampejo de algo que não era frieza em seus olhos, mas eu não tinha tempo para decifrar.

Entrei no meu carro e dirigi como se minha vida dependesse disso.

Ao chegar ao hospital, o ar era pesado, carregado de uma despedida que eu não estava pronta para ter.

Eu queria pedir perdão, queria dizer que nunca quis trair ninguém, que apenas me apaixonei e que o erro me deu o maior tesouro do mundo.

Mas a resposta que recebi no corredor foi o silêncio e os olhos vermelhos de Maik e a notícia do médico:

"ele não resistiu".

O homem que me criou se foi...

E no meio da dor dilacerante, um pensamento sombrio me atingiu: com a morte dele, ela voltaria.

Clarisse, a mulher que Ricardo verdadeiramente amava, retornaria para reivindicar o lugar que eu tentei, inutilmente, preencher por sete anos.

Ela voltaria pro que sempre foi dela...

...

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