INICIAR SESIÓNO cemitério estava silencioso, com bancos de madeira dispostos sob as árvores. O pastor falava palavras sobre vida eterna, mas eu não conseguia processar.
Me sentei na última fileira, longe deles que estavam na frente, ao redor do caixão. Ricardo ainda não havia chegado. Até que senti o perfume dele. Aquele amadeirado que impregnava meus lençóis e minha alma. Olhei para o lado e vi meu filho. — Meu amor... você está aqui... o puxei para o meu colo, buscando todo o conforto que o universo me negava nos braços pequenos dele. — O vovô foi para o céu, mamãe? A vovó Márcia disse que ele virou um anjo. Henry sussurrou. — Sim, meu amor. Mas ele continua vivo aqui... coloquei a mão no coraçãozinho dele. — Sempre vai estar. Levei ele para sentar ao meu lado e meu coração saltou quando Ricardo, em vez de seguir para a frente onde seus pais e a minha família estavam, sentou-se ao meu lado. Fiquei sufocada. As palavras do pastor faziam minhas lágrimas caírem finalmente, mas meus olhos estavam fixos no nada. Eu não tinha mais ninguém além do meu menino. Quando terminou, as pessoas começaram a se levantar. — Paloma? a voz de Ricardo era baixa. Limpei o rosto rapidamente e me Levantei com Henry pela mão e caminhei atrás da multidão. Já não aguentava mais ficar perto dele, sentindo o seu perfume que tanto amava. — Vem filho... Vem com a mamãe. Talvez seu ato de piedade fosse apenas remorso, só pena, eu não queria a pena dele, depois de todo o conforto que ele deu a Clarisse ou o que veio depois da hora que eu sair daquele hospital. Tinha muitas pessoas nos dando os pêsames, cercando a todos mais a ela, o círculo era maior. Agora ela era a garota que perdeu os dois pais, "sozinha" no mundo. Mas ela nunca esteve só, tudo sempre foi sobre ela. De longe, vi Ricardo se aproximar da minha mãe para ajudá-la, mas logo seus braços estavam ocupados novamente. Era nossa última despedida. — Vem filho, vamos deixar a flor pra ele. Fui pra frente daquele caixão, não por mim mas pelo meu menino que tinha lembranças boas com ele, dentre seus seis anos de vida. Porque eu sei que ele e o amor, mesmo me odiando ele amou meu filho como Neto. Ele deixou a flor em cima do caixão. — Adeus vovô... Acenei levemente trazendo ele para trás de novo. Clarice foi para frente do caixão E como sempre fez tudo ser sobre ela. — Aí meu paizinho.. meu paizinho. Se debruçou sobre o caixão. Não duvidava do seu amor por ele ou por todas as suas lembranças, porque agora ela não tinha mais os seus pais, mas não conseguia não pensar que aquilo era culpa. Ela o deixou e alegou que a culpa era minha por não voltar todos esses anos. Mas ela não se importava com ele. E então três pontos para enterrar aquele sentimento que eu ainda sentia, Ricardo a consolou na frente de todos, acabando com o resto que existia em mim. Clarisse chorava desolada e se pendurou nele. Ele a acolheu, o braço firme em volta dela enquanto o caixão era descido. Minha mãe abraçada o Maik. Ricardo abraçado a Clarisse. E eu, segurando a mão do meu filho no meio das lápides frias. Ali, vendo a terra cobrir o homem que me deu um nome, eu decidi que não podia mais ser sugada por eles. Clarisse voltou para me resumir a nada, para me machucar até eu não sobrar nada de mim. Olhei para o meu filho e para o homem que eu estava perdendo de vez para o passado. Eu não podia mais ficar ali. Eu precisava de um lugar onde eu não fosse apenas a sombra de um erro. Onde talvez, em algum momento fosse amada de verdade.. .... Já não aguentava mais ficar naquele lugar. Era sufocante, esmagador. Ser obrigada a ver eles dois juntos, sentir todos os olhares em mim como se esperasse uma reação minha, como uma régua de julgamento que nunca seria ao meu favor. Ao me virar para sair com Henry, senti a primeira barreira. Os pais de Ricardo, que sempre me olharam como um acidente de percurso na vida do filho, se colocaram no caminho. — Onde pensa que vai com o menino, Paloma? a mãe dele perguntou, a voz polida, mas carregada de uma autoridade que me fazia sentir minúscula. — Henry está no fim de semana com o pai. Um nó se apertou na minha garganta. Olhei para o lado e vi Ricardo. Ele não estava vindo até nós; ele estava ocupado demais segurando o mundo de Clarisse nos braços. A visão era como uma brasa encostada na minha pele. — Ricardo está ocupado demais consolando a nora que vocês tanto queriam. Respondi, e a ironia saiu da minha boca com um gosto de bile. — Ele não vai se importar se eu levar nosso filho. — Isso quem decide é ele. Você não pode simplesmente tomar uma decisão dessas. o pai dele rebateu, dando um passo à frente, quase me cercando. Apertei a mão de Henry. Senti o suor frio nas minhas palmas. O medo subiu pela minha espinha como uma descarga elétrica. Eles tinham o dinheiro, os contatos, o sobrenome que abria portas. E eu? Eu era uma enfermeira que acabou de assinar um papel abrindo mão de metade de uma vida. .....Depois, ficamos ali, abraçados, sentindo o suor esfriar e os corações voltarem ao ritmo normal. Ela estava deitada no meu peito, com aquele sorriso pleno de quem finalmente encontrou a paz. — Eu te amo. ela sussurrou, quase dormindo. — Eu te amo mais que a minha vida. respondi, nos cobrindo. A lua de mel não precisava de hotéis de luxo ou viagens longas. Ela estava ali, naquela entrega, no cheiro da vida juntos e na certeza de que, debaixo daquele teto, o ódio nunca mais encontraria morada. Porque eu destruiria antes mesmo de se criar. Tudo aqui era meu, sempre foi e sempre será... Meu! ... O céu sobre o cemitério estava pesado, de um cinza carregado que parecia combinar com o silêncio das lápides. O vento soprava com uma umidade fria, bem diferente do calor habitual, balançando as copas das árvores secas. Ricardo estacionou o carro e desligou o motor, mas não me deixou sair imediatamente. Ele olhou para mim, os olhos cheios de um cuidado que o tempo não tinh
.. Os meses voaram entre risos e preparativos. O parto de Cecília foi um evento de cura, no momento em que ela foi colocada no meu peito, a última sombra daquela pista pareceu se dissipar. Ela tinha os olhos do pai e a calma que eu precisava para entender que o ciclo de dor havia acabado. Agora, o espelho refletia uma imagem que eu esperei quase um ano para ver. O vestido branco de renda abraçava minhas curvas de mãe, e o véu caía como uma cascata sobre meus ombros. — Pronta? Maik apareceu na porta. Ele seria meu par até o altar, um gesto de perdão e união que selava a nossa nova família. — Mais do que nunca. A cerimônia foi pequena, no jardim da nossa casa, sob a luz do pôr do sol. Quando as portas se abriram, vi o Ricardo no altar. Ele segurava a Cecília no colo, que usava um vestidinho idêntico ao meu, enquanto o Henry, impecável de suspensórios, guardava as alianças com um orgulho gigante no rosto. Caminhei em direção a eles sentindo que cada passo era uma
PALOMA O clima na casa havia mudado. Onde antes morava o medo e o cheiro de hospital, agora reinava o perfume de madeira serrada e tinta fresca. Ricardo levava a sério cada detalhe do ninho de Cecília. Ele estava ali, sem camisa, o suor brilhando sobre os músculos tensos enquanto fixava a última prateleira de nichos brancos na parede lavanda. Cada movimento dele era preciso, o corpo grande e perfeito se curvando sob o esforço, as veias dos braços saltadas. Estava sentada na poltrona de amamentação, as mãos espalmadas sobre a curva agora nítida da minha barriga de seis meses. Cecília deu um chute vigoroso, como se aprovasse a decoração. — Está tão lindo... sussurrei, observando ele, cada movimento do seus músculos das costas larga, o suor que desvia por eles. — Você leva jeito para isso. Ele se virou, limpando a testa com o antebraço, um sorriso de satisfação no rosto ao ver o estado do meu olhar. O olhar dele desceu para o meu ventre e depois subiu para os
As semanas seguintes passaram como um borrão de cuidados e silêncios confortáveis. O medo, que antes era uma sombra constante, começou a dar lugar a uma expectativa ansiosa. O dia da ultrassonografia morfológica chegou, finamente poderia sair de casa. O trajeto até a clínica não tinha mais o peso do hospital. Agora.. voltar era mais do que expectativa, era nosso sonho. Ricardo segurava minha mão enquanto esperávamos, o polegar dele acariciando minha pele em um ritmo calmo que me dizia que, independentemente do que acontecesse, estaríamos juntos. Dentro da sala escura, o cheiro de gel era o mesmo, mas a energia era outra. O médico deslizou o transdutor sobre o meu ventre, que agora já ostentava uma pequena e orgulhosa curva. De repente, o som do monitor preencheu o quarto. Aquele som rítmico, o coraçãozinho que sobreviveu, estava mais forte do que nunca. Olhei para a tela e vi os contornos, a coluna, os bracinhos se mexendo, meu Deus.. meu nenezinho. — Tudo parece
O inspetor de polícia precisava do meu depoimento final para encerrar o inquérito do atropelamento e da morte da Clarisse. Ricardo tentou impedir, mais uma vez, disse que eu não estava pronta, mas eu insisti. Só queria que tudo aquilo a acabasse. — Eu preciso fechar essa porta, Ricardo. Por mim e por eles. Ele apertou minha mão, um aviso silencioso de que estaria ali. Quando o inspetor entrou no quarto, acompanhado de uma escrivã, o ar pareceu ficar mais denso. Ricardo puxou uma cadeira para ele, mas não se sentou. Ficou de pé ao meu lado, com a mão pousada no meu ombro, como um escudo. — Dona Paloma, eu lamento ter que fazer isso em sua casa e nesse estado. o inspetor começou, abrindo uma pasta de couro. — mas precisamos encerrar o inquérito. O depoimento do seu noivo e das testemunhas na rua são claros, mas preciso da sua versão do momento exato da colisão. Engoli em seco, sentindo a pontada na costela. — Tudo bem. Eu só quero que isso acabe. — A senhora lembr
Os dias que se seguiram foram uma mistura de alívio e uma vigilância constante. O Ricardo não saía do meu lado, e cada vez que eu fechava os olhos, sentia a mão dele buscando a minha, como se precisasse conferir se eu ainda era real. Recebi alta sob uma lista interminável de recomendações: repouso absoluto, nada de estresse e monitoramento rigoroso da gravidez. Sair daquele hospital foi como atravessar um portal. O ar da rua parecia diferente, mais pesado e, ao mesmo tempo, mais vivo. Chegar em casa foi um choque. O silêncio das paredes parecia guardar o eco de tudo o que aconteceu antes da pista. Ainda era nossa casa, nossa vida juntos e a nossa família. Ele me carregou no colo até o nosso quarto, me acomodando entre as almofadas como se eu fosse feita de vidro. — Pronto... em casa, finalmente... ele sussurrou, beijando o topo da minha cabeça. — Está confortável assim? — Está... Ele sentou do meu lado pondo meus cabelos atrás da orelha, olhando os ematomas







