Mag-log inSeraphiel Asterion entrou na sala de audiência escoltado por dois guardas.Mesmo depois de semanas sob custódia, mantinha a postura rígida e a expressão controlada. Vestia roupas escuras e caminhava como se ainda tivesse autoridade sobre todos os presentes.Kael o observou em silêncio.Ao seu lado, Elara mantinha as mãos apoiadas sobre a mesa. Aldren e Tomás estavam algumas cadeiras atrás, acompanhados de Rafael Varyn.A magistrada Verena aguardou até que Seraphiel se sentasse com seu defensor.— Esta audiência complementar tratará da administração não autorizada dos compostos N-17 e A-09 em Helena Varyn, das restrições ao atendimento médico e das providências adotadas para ocultar a intervenção.Seraphiel não demonstrou surpresa.— Já prestei esclarecimentos sobre o procedimento.Verena abriu a pasta.— Na ocasião, o senhor afirmou que a intervenção era uma medida de contenção autorizada. Agora temos provas de que foi administrada uma substância adicional, não registrada na requisiçã
O resultado preliminar da análise do frasco A-09 chegou à propriedade Draven pouco depois das nove horas.Kael estava na estufa com Elara quando Tomás apareceu à porta.— A magistrada Verena convocou uma reunião extraordinária. Os peritos identificaram duas substâncias diferentes no recipiente encontrado com Damião.Kael deixou a ferramenta sobre a bancada.— O N-17 e o A-09?— O N-17 foi confirmado. Quanto ao segundo composto, os resíduos correspondem a marcadores químicos descritos nos registros da linha experimental A-09. Ainda estão realizando a confirmação independente.Elara se aproximou.— Encontraram os mesmos marcadores na amostra de Helena?Tomás hesitou.— Encontraram sinais compatíveis, mas a concentração é pequena e o material ficou armazenado durante muitos anos. Os especialistas querem confrontar os resultados antes de concluir.Kael assentiu.— Então não vamos anunciar nada até termos a confirmação.Tomás guardou o transmissor.— Há outro motivo para a convocação. A ma
Kael entrou na sala de audiência com a mão entrelaçada à de Elara.Do outro lado da mesa estava Damião Voss.O homem parecia mais velho do que nas fotografias encontradas nos arquivos do Conselho. Tinha os cabelos grisalhos, o rosto magro e as mãos inquietas.Durante dezessete anos, Damião havia vivido sob outra identidade, recebendo pagamentos de uma fundação criada em nome da mulher cuja morte ajudara a ocultar.Agora estava diante do filho dela.Kael não se sentou imediatamente.Observou o homem por alguns segundos.Damião desviou os olhos.— Sente-se, por favor — pediu a magistrada Verena.Kael obedeceu.Elara percebeu a tensão em seus ombros e apertou discretamente sua mão.A audiência começou.— Damião Voss, o senhor reconhece ter participado de um procedimento médico não autorizado em Helena Varyn? — perguntou Verena.O homem olhou para seu defensor antes de responder.— Reconheço.Kael permaneceu imóvel.— Qual era sua função?— Administrar a substância preparada por Cássio Ve
Kael permaneceu diante da porta do antigo quarto de Helena por quase dez minutos antes de entrar.Não era a investigação que o impedia de atravessar aquele corredor. Também não era o medo de encontrar outro documento comprometedor.Era a lembrança de uma noite que havia passado dezessete anos tentando compreender.Na véspera, Damião Voss fora localizado. A magistrada Verena autorizara seu interrogatório, e os peritos examinavam as anotações encontradas com ele. Pela manhã, Kael recebera uma cópia do relatório de Marta Velk, a funcionária que vira Helena sendo conduzida à enfermaria.Havia uma frase que não conseguia esquecer.Ela perguntou pelo filho.Kael abriu a porta.O quarto permanecia quase como Helena o deixara. As cortinas claras, a penteadeira de madeira e a pequena poltrona próxima à janela haviam sido preservadas por ordem de Augusto.Durante anos, Kael interpretara aquilo como uma demonstração de amor.Agora não sabia se o pai conservara os objetos por saudade, culpa ou in
Kael examinou novamente a transcrição da conversa entre Leôncio Marvek e Seraphiel Asterion.Havia algo que o incomodava desde a audiência.A gravação mostrava que Seraphiel ordenara que Cássio Veyr fosse impedido de entrar na enfermaria. Entretanto, a investigação já havia demonstrado que o Conselho controlava boa parte dos sistemas de comunicação da residência naquela noite.Por que uma conversa tão comprometedora teria sido preservada?E, sobretudo, como Tomás conseguira recuperá-la tantos anos depois?Kael fechou a pasta.— Antes de utilizarmos essa gravação contra Seraphiel, quero entender exatamente de onde ela veio.Tomás ergueu os olhos.— A perícia já verificou o arquivo.— Verificar o conteúdo não é suficiente. Quero saber quem o gravou, onde ficou armazenado e por que não foi destruído junto com os outros registros.Elara, sentada ao lado dele, assentiu.— Seraphiel sabia como apagar informações. Se essa conversa sobreviveu, precisamos de uma explicação que resista ao quest
Kael encontrou uma contradição nos depoimentos sobre a morte de Helena.Cássio Veyr afirmara que tentara examiná-la quando soube da reação à substância N-17, mas fora impedido por Leôncio Marvek. Entretanto, Marta Velk relatara que Seraphiel discutira com Leôncio no corredor, enquanto Damião Voss permanecera próximo da enfermaria.Quem, afinal, havia impedido Cássio de prestar atendimento?E quem dera a ordem?Na manhã seguinte, Kael reuniu Tomás, Aldren e Elara na biblioteca.— Não quero mais respostas baseadas apenas em lembranças — declarou. — Precisamos reconstruir os movimentos de cada pessoa naquela noite.Tomás colocou três documentos sobre a mesa.— Temos o depoimento de Cássio, o registro de circulação de Damião e as comunicações internas da residência.Elara aproximou-se.— Então vamos comparar os horários.Aldren assentiu.— E separar quem executou a ordem de quem a autorizou.O depoimento de Cássio indicava que Damião o procurara por volta das vinte e uma horas e trinta e







