INICIAR SESIÓNDez anos se passaram desde o nascimento de Alice, e a vida de Elisa e Gael D'Avila se transformara em algo que nenhum dos dois poderia ter imaginado quando se conheceram — uma mistura perfeita de amor profundo, família barulhenta e propósito que transcendia o sucesso material.A D'Avila Health AI era agora uma das maiores empresas de tecnologia médica do mundo. A IA oncológica, que começara como um sonho de Elisa em uma sala pequena de coworking, salvava milhões de vidas anualmente em mais de 50 países. Patentes protegidas, parcerias com governos e ONGs, e um fundo filantrópico que levava a tecnologia gratuitamente para comunidades carentes. Elisa e Gael dividiam a liderança, mas já falavam em transição: Alice, aos 15 anos, cursava ensino médio com foco em ciência da computação e design, sonhando em assumir a empresa no futuro. “Quero fazer a IA salvar mais vidas que a mamãe salvou”, dizia ela, orgulhosa.A família crescera. Após Alice, vieram os gêmeos: Theo e Luna, nascidos dois anos
Sofia ficou mais três semanas em São Paulo após a conversa na varanda. Durante esse tempo, ela se integrou devagar à rotina da família. Ajudava Elisa com Alice quando Gael estava em reuniões, levava a menina ao parquinho do prédio (sempre com supervisão), e até cozinhava pratos gaúchos que Alice adorava — feijoada light, arroz carreteiro sem gordura, tudo adaptado para a gravidez. Aos poucos, o ciúme inicial de Alice diminuiu: ela começou a chamar Sofia de “tia Sofia” sem torcer o nariz, pedia para a tia trançar seu cabelo e até dormia no colo dela durante as sonecas da tarde.Elisa observava tudo com o coração dividido. Sofia era gentil, quieta, nunca pedia nada além de companhia. Mas as dívidas da mãe dela — tratamentos de câncer, contas atrasadas, aluguel — pairavam como uma nuvem. Sofia mencionara o valor uma vez, em conversa casual: cerca de 80 mil reais. Elisa e Gael conversaram à noite, na cama, com Alice dormindo no berço ao lado.— Ela não pede diretamente — disse Elisa, voz
Marina sempre fora a tia divertida, a que chegava com desenhos, histórias e energia para entreter Alice. Mas nos últimos meses, algo mudara. Ela passava mais tempo no apartamento de Elisa e Gael — oficialmente para ajudar com Alice e o planejamento do quarto da bebê, mas também porque o escritório da D'Avila Health AI ficava a poucos quarteirões dali, e Pedro, o CTO, começara a dar carona para ela nos dias de reunião.Pedro Oliveira era o oposto de Marina em muitos sentidos: sério, metódico, falava pouco fora do trabalho, mas tinha um sorriso tímido que aparecia só quando ele relaxava. Aos 32 anos, ele era o braço direito de Elisa desde os tempos da Beaumont Tech, o gênio por trás da infraestrutura técnica que permitia a IA escalar sem cair. Marina o conhecera no primeiro dia de estágio — ele a recebera com um aperto de mão formal e um “bem-vinda ao time” que soara seco, mas genuíno.No começo, era só profissionalismo. Marina entregava layouts, Pedro aprovava ou pedia ajustes. Mas aos
A chegada de Sofia Oliveira a São Paulo trouxe uma mistura de curiosidade e tensão ao apartamento dos D'Avila. A meia-irmã de Elisa, com seus 25 anos e sotaque gaúcho suave, instalou-se no quarto de hóspedes por tempo indeterminado. Ela era educada, ajudava na cozinha lavando pratos após as refeições e contava histórias de Porto Alegre para Alice, que a ouvia fascinada, mas com uma ponta de desconfiança nos olhos infantis. Na primeira semana, tudo pareceu fluir bem. Sofia trabalhava remotamente como atendente de cafeteria (uma adaptação que o chefe dela permitira), estudava administração online e se oferecia para brincar com Alice enquanto Elisa e Gael cuidavam de reuniões virtuais da empresa. Alice, aos 5 anos, aceitava os desenhos que Sofia fazia para ela — princesas e castelos com toques gaúchos, como chimarrão nas mãos das fadas — mas sempre corria para o colo da mãe ou do pai logo depois. — Tia Sofia desenhou uma princesa com bombacha! — dizia Alice, mostrando o papel para Eli
A busca por Sofia Oliveira começou discretamente, como Gael prometera. Ele contratou um investigador particular — um homem discreto chamado Roberto, ex-policial com contatos em Porto Alegre — que trabalhou rápido. Em menos de uma semana, Roberto enviou um relatório completo: Sofia tinha 25 anos, morava em um apartamento simples no bairro Bom Fim, trabalhava como atendente em uma cafeteria e estudava administração à noite em uma faculdade pública. Mãe falecida há dois anos de câncer, pai registrado como Pierre Beaumont no cartório, mas sem contato. Sem antecedentes criminais, vida modesta, mas com uma rede de amigos leais.Elisa leu o relatório na varanda do apartamento, Alice brincando aos pés dela com blocos de montar.— Ela parece... normal — disse Elisa, voz baixa. — Trabalha, estuda. Não parece uma oportunista.Gael, ao lado dela com uma xícara de café, assentiu.— Roberto disse que ela é reservada. Não fala do pai pra ninguém. Talvez nem saiba de você.Alice ergueu a cabeça, curi
O apartamento em Moema era um lar cheio de vida, mas como qualquer casa antiga, tinha seus cantinhos escondidos. Naquela tarde de domingo preguiçosa, Alice brincava no sótão — um espaço que Gael usava para guardar caixas velhas de documentos da empresa e itens da infância de Elisa que ela trouxera de Porto Alegre anos atrás. Elisa permitira que a filha explorasse ali, desde que com supervisão, mas Alice, curiosa como sempre, escapulira enquanto os pais cochilavam no sofá após o almoço. — Olha isso! — gritou Alice de repente, voz ecoando pelo apartamento. Elisa acordou sobressaltada, tocando a barriga instintivamente — um hábito que nunca perdera, mesmo anos após a gravidez. Gael já estava de pé, correndo para o sótão. — Alice? O que você achou? — perguntou ele, subindo as escadas de madeira rangente. Elisa seguiu mais devagar, sentindo uma leve pontada de fadiga — os anos não perdoavam, e o trabalho na empresa ainda a deixava cansada nos fins de semana. No sótão, Alice estava se







