FAZER LOGINMaya narrando
Hoje o dia começou estranho. Quando cheguei à cafeteria, havia um arranjo de orquídeas brancas tão grande em cima do balcão que quase não se via a máquina de café. Não havia cartão, mas eu não precisava de um para saber quem as enviou. O perfume era caro, opressor... era a cara dele. — Ele não desiste, não é? — perguntou a Chloe, minha colega de trabalho, dando uma cotovelada amigável no meu braço enquanto ajeitava os fones no balcão. — Maya, o homem é um deus grego e está literalmente jogando dinheiro aos seus pés. O que você está esperando? — Não estou esperando nada — respondi, pegando o arranjo pesado e colocando-o no chão, atrás do balcão. — Flores são bonitas, Chloe, mas não compram o meu tempo. Eu me sentia inquieta. Arthur é como uma tempestade que você vê chegando ao longe: é hipnotizante, mas você sabe que deve procurar abrigo. Eu sinto uma atração por ele, um calor que sobe pelo meu pescoço toda vez que ele entra aqui, mas não é amor. É... uma curiosidade perigosa. No fim do meu turno, a chuva caiu pesada sobre as ruas da cidade. Eu estava na calçada, tentando abrir meu guarda-chuva quebrado sob o temporal, quando o esportivo preto e imponente parou exatamente na minha frente. O vidro fumado baixou lentamente, revelando os olhos gélidos dele. — Entre, Maya. Eu te levo em casa. — Eu posso ir de ônibus, Arthur. É só uma chuva — eu disse, lutando com o arame do guarda-chuva que insistia em vergar. Sem dizer uma palavra, ele desligou o motor e saiu do carro. Sem guarda-chuva, sem pressa, demonstrando uma elegância simples e natural, deixando a água molhar o seu terno caro enquanto caminhava firmemente até mim. Ele não parecia importar-se com o luxo material; o seu foco era apenas um. Com um movimento frio, ele tirou o objeto partido das minhas mãos e deitou-o na lixeira próxima. — Você não vai de ônibus. Entre no carro. — A voz dele não era um pedido. Era uma ordem. Eu respirei fundo, sentindo meu sangue ferver de indignação. — Você não pode simplesmente jogar minhas coisas fora e decidir como eu vou para casa! — Eu posso e eu fiz — ele deu um passo para mais perto, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele, uma mistura de chuva e perfume amadeirado, me embriagou por um segundo. — Por que você luta tanto contra o óbvio, Maya? Eu só quero cuidar de você. — Eu sei cuidar de mim mesma . — retruquei, mas meus pés não se moviam. Meus olhos encontraram os dele, e por um momento, a intensidade daquele azul me fez perder o fôlego. Arthur narrando Ela é tão teimosa que chega a ser adorável. Mas a teimosia dela também me consome. Ver Maya misturada na multidão daquela paragem, debaixo de uma tempestade, mexe com os meus instintos mais primitivos. A beleza dela — a pele retinta molhada pela chuva, o topo do seu cabelo crespo a reter pequenas gotas de água como se fossem diamantes — destaca-se tanto naquele cenário cinzento que me recuso a deixá-la ali. Ela não pertence àquela massa comum. Ela pertence ao meu mundo. Não sou um homem que ostenta ou que precisa humilhar os outros para se sentir grande; a minha riqueza é apenas uma ferramenta de eficiência. Mas com ela, viro um ditador. Dentro do meu esportivo, o silêncio é tenso. Ela está sentada o mais longe possível de mim, encostada à porta de couro, olhando fixamente para os relâmpagos lá fora. A proximidade do seu corpo faz o sangue pulsar com força no meu baixo ventre, uma rigidez pesada que o cinto de segurança mal consegue conter. — Onde você mora? — perguntei com a voz rouca, embora eu já soubesse o endereço exato, o número do apartamento e até o valor do aluguel dela. Ela olhou-me de lado, desconfiada, e deu-me o endereço de forma seca. — Como você soube que meu turno acabava às seis hoje? Eu mudei o horário com a gerente. Eu dei um meio sorriso, mantendo os meus olhos fixos na estrada molhada, conduzindo com precisão. — Eu sei de tudo o que me interessa, Maya. E, no momento, você é a única coisa que me interessa no mundo. Vi pelo canto do olho os seus dedos apertarem a alça da bolsa com força. Ela está assustada? Talvez um pouco. Mas há um brilho de desafio naqueles olhos castanhos que me diz que ela ainda aceita o jogo. — Isso é assustador, Arthur. Não é romântico — ela disse, com a voz firme, tentando ditar uma barreira entre nós. — O romance é para homens fracos, Maya. Eu sou um homem de resultados. E o meu resultado final é ter você. Travei o esportivo em frente ao prédio simples onde ela mora. Eu não desprezo o lugar por ser humilde, mas odeio-o porque é inseguro para ela. Não há guardas, não há controlo. Eu já tinha em mente três coberturas exclusivas que combinariam muito mais com a realeza da sua presença. — Boa noite, Arthur. E por favor, não jogue mais minhas coisas no lixo — ela disse, abrindo a porta e saindo antes que eu pudesse impedir. Fiquei no carro, observando-a entrar e trancar a porta principal. Ela acha genuinamente que pode colocar limites e cercas entre nós. Mal sabe ela que o meu advogado fechou o contrato de compra deste edifício inteiro há duas horas. Logo, até o chão que ela pisa será meu. E ela não terá para onde fugir.Maya narrando Dez anos. Parece que foi ontem que segurei dois pequenos embrulhos nos braços enquanto o mundo à nossa volta desabava, mas o tempo encarregou-se de provar que a tempestade passou para nunca mais voltar. O som das ondas a quebrar suavemente na areia branca da nossa ilha privada nas Caraíbas mistura-se com as gargalhadas altas que vêm da praia. Da varanda da casa de praia — uma estrutura espetacular de madeira nobre e vidros panorâmicos que Arthur mandou erguer para o nosso refúgio de verão —, contemplo a imagem perfeita da nossa família. Aarav e Zuria já têm dez anos. Lá embaixo, na borda da água, o meu filho corre com a mesma postura firme e o olhar analítico do pai, tentando ensinar o tio Theo e o tio Victor a montar uma prancha de surf. Ao lado deles, Zuria surge como a verdadeira miniatura de uma rainha: dona de um cabelo crespo volumoso e lindo, risonha, mas com uma autoridade natural que faz o avô Thomas e a avó Eleonor realizarem todos os seus desejos sem h
Maya narrando O som das risadas infantis ecoando pelos corredores de mármore e pé-direito duplo da nossa nova mansão é a música mais bonita que já ouvi na vida. Um ano se passou desde o dia em que o nosso milagre se consolidou, e os últimos doze meses serviram para apagar qualquer resquício de dor do passado. Arthur não se limitou a reformar a nossa antiga cobertura em Manhattan. Quando os gémeos completaram seis meses e começaram a engatinhar, o seu instinto possessivo e territorial exigiu um verdadeiro refúgio. Ele comprou uma propriedade cinematográfica em Long Island: uma mansão de arquitetura neoclássica cercada por dez hectares de floresta privada, colunas de pedra esculpidas à mão, vidros do chão ao teto com vista para o oceano e um sistema de segurança blindado que transformou o local numa fortaleza inexpugnável. Cada detalhe da casa foi pensado para o meu conforto e da minha família — desde as galerias de arte iluminadas até ao jardim de orquídeas e aos acabamentos em made
Maya narrando Alguns meses se passaram desde o dia monumental em que cruzamos as portas da catedral sob a chuva de aplausos de Manhattan. Hoje, o sol da manhã entra pelas imensas vidraças da cobertura, iluminando a sala de marfim onde a nossa nova vida pulsa no ritmo mais perfeito. As linhas escuras das minhas cicatrizes na pele negra continua ali, mas agora ela é apenas uma marca antiga de uma guerra que vencemos por completo. O meu temperamento forte e a minha dignidade de rainha comandam cada centímetro da vida do Arthur . Olho para o imenso tapete felpudo da sala e a doçura maravilhosa da minha alma transborda ao ver o cenário diante de mim. Aarav e Zuria, estão descobrindo o mundo com passos firmes. Aarav caminha em direção ao pai, segurando um pequeno carrinho de metal. Ele herdou os fios loiros espetados e aqueles olhos azuis intensos e paranoicos que analisam tudo ao redor, idêntico ao Arthur. Já a minha pequena Zuria corre na minha direção, os seus fios crespos volumo
Maya narrando Os sinos da catedral ainda ecoavam pelas avenidas de Manhattan quando o nosso sedã blindado estacionou diante do salão de festas do clã, onde o banquete de casamento foi preparado para a alta sociedade. O cerco invisível de segurança montado por Arthur e Klaus controlava rigorosamente o perímetro, mas dentro do salão, o clima era de pura opulência. Ao entrar no recinto, de braços dados com o meu marido, sou recebida por uma ovação de palmas. Caminho com a postura firme do meu temperamento forte , sentindo o peso maravilhoso da cauda do meu vestido de renda francesa arrastar-se com imponência pelo chão de mármore. O penteado meio preso, adornado com fios de ouro e pérolas, mantinha-se perfeitamente intacto, coroando os meus fios crespos que reluziam sob os imensos lustres de cristal. Nós nos dirigimos à mesa de honra, onde duas cadeiras de marfim em formato de trono nos aguardavam. Alinhados ao nosso lado estavam os berços de madeira nobre dos nossos gêmeos de cinc
Maya narrando Cinco meses se passaram voando sob o céu de Manhattan. Tempo suficiente para que a rotina da cobertura se transformasse em um caos perfeitamente coreografado pelo controle doente do Arthur. Meus bebês já não são aqueles recém-nascidos frágeis da UTI neonatal; agora, com quase meio ano de vida, Aarav e Zuria transbordam saúde, enchendo os corredores de marfim com risadas que afugentaram de vez as últimas sombras do passado.Hoje é o dia do nosso grande casamento. Um evento grandioso que Manhattan esperou por meses para assistir.Estou sentada na suíte presidencial de um hotel de luxo próximo à catedral, cercada por uma equipe de elite de estilistas, cabeleireiros e maquiadores que Arthur contratou para me preparar. O clima é de pura efervescência. A equipe trabalha com uma sincronia impecável. O foco principal é o meu cabelo: o cabeleireiro esculpe os meus fios crespos com uma delicadeza artística, criando um penteado bem bonito, meio preso, adornado com pequenas pérolas
Maya narrando A névoa da anestesia ainda pesa nos meus ombros, e as dores agudas dos novos pontos na minha barriga lembram-me de cada segundo do inferno que enfrentei naquela mesa de cirurgia. Mas o alívio que corre nas minhas veias é mais forte que qualquer analgésico. A febre passou. O meu corpo está limpo, e a sala de recuperação do hospital transformou-se no nosso verdadeiro santuário. A porta dupla do quarto se abre com um farfalhar suave. A enfermeira-chefe entra acompanhada por um cerco de segurança, empurrando os dois pequenos berços acrílicos da UTI neonatal. — É a hora da primeira mamada, Sra. Valmont — a enfermeira anuncia com um sorriso respeitoso. — Eles estão estáveis, famintos e prontos. O meu coração falha uma batida. Olho para o lado e vejo o Arthur postado como uma estatua de ferro ao pé da minha cama. O terno preto está amassado, os olhos azuis carregam veias vermelhas de quem não dorme há dias, mas a postura dele é a de um predador pronto para rasgar a garganta







