INICIAR SESIÓN"Este casamento é apenas uma transação corporativa. Não espere meu toque, minhas noites ou meu amor. Vou me guardar para a mulher que eu realmente escolhi." Clara amava Arthur Albuquerque em segredo desde a adolescência. Mas na noite de núpcias do casamento arranjado entre suas famílias, as palavras gélidas do implacável CEO destruíram suas ilusões. Para ele, ela era apenas uma moeda de troca burocrática; para ela, ele era o homem de sua vida. Durante dois anos, ela suportou o desprezo, a solidão e as humilhações da alta sociedade em silêncio. Até que o limite de sua dignidade é atingido quando Arthur exige o divórcio para assumir publicamente sua amante. Sem chorar ou implorar, Clara aceita assinar os papéis, mas com uma única e misteriosa condição: eles terão que viver 30 dias como um casamento real antes da separação definitiva. O que Arthur não imagina é que, ao aceitar o acordo, ele abrirá as portas para o maior arrependimento de sua vida. E que, quando o prazo terminar, o preço para recuperar o coração da esposa que ele tanto desprezou será alto demais para o seu império pagar.
Ver másO reflexo no espelho do banheiro do ateliê não mentia, embora Clara Mendes desejasse que sim. Sob a luz fria e impiedosa do teto, as suas mãos pareciam permanentemente manchadas por uma leve camada de poeira cinzenta, o resquício teimoso da argila que ela passara as últimas quatro horas a moldar. Para Clara, aquela sujeira era um distintivo de honra, a única prova tangível de que ela possuía um mundo que era exclusivamente seu. No entanto, sabendo que o jantar de gala daquela noite exigia a perfeição milimétrica de uma herdeira da dinastia Mendes, ela suspirou e abriu a torneira, observando a água levar embora os últimos vestígios da sua liberdade artística.
A mansão dos Mendes, localizada no bairro mais nobre e vigiado da capital, nunca fora um lar; era uma vitrine de poder econômico. Desde a infância, Clara compreendera a mecânica gélida daquela casa. Enquanto os seus irmãos mais velhos eram preparados para liderar os conselhos de administração e expandir o império de mineração e logística da família, a ela fora reservado o papel de ornamento polido. Ela não possuía voz nas decisões dominicais, não era consultada sobre os investimentos e, frequentemente, a sua presença nas refeições era tratada como um mero protocolo visual. Para o seu pai, o implacável patriarca Otávio Mendes, e para a sua mãe, a altiva socialite Beatriz, Clara não era uma filha com sonhos, dores ou aspirações. Ela era, puramente, uma peça de xadrez de alto valor estratégico, mantida guardada na caixa até o momento exato em que o tabuleiro exigisse o seu sacrifício em prol de uma aliança mais lucrativa. A única exceção a essa regra de gelo era a tia-avó Leonor. Leonor era o único porto seguro de Clara, a única pessoa naquele palácio de mármore que olhava para ela e enxergava a sua alma, e não o potencial do seu sobrenome. Idosa, com a saúde fragilizada pelo tempo, mas com uma lucidez e doçura que contrastavam violentamente com o restante da família, a tia-avó era quem financiava secretamente os materiais de escultura de Clara e quem lhe dedicava abraços demorados que cheiravam a alfazema. Leonor, que também fora uma jovem da alta sociedade forçada a conveniências no passado, reconhecia o brilho sufocado nos olhos da sobrinha-neta. Ela costumava segurar as mãos de Clara e sussurrar, longe dos ouvidos atentos dos empregados, que a arte a salvaria do inverno do mundo. — Clara? Estás a ouvir-me? — A voz estridente de Beatriz Mendes cortou os pensamentos da jovem, batendo na porta do ateliê com uma impaciência aristocrática. — O teu pai já está no escritório com os advogados. O anúncio será feito antes do jantar. Trata de te apressar com essa maquiagem. Não tolerarei atrasos hoje, de todas as noites. — Já vou, mãe — respondeu Clara, a voz saindo num tom baixo e submisso que ela aperfeiçoara ao longo dos anos para evitar conflitos desnecessários. Ela secou as mãos na toalha de linho e encarou o vestido de seda azul-escuro pendurado no cabide. O anúncio ao qual a sua mãe se referia não era segredo, embora os detalhes tivessem sido guardados sob sete chaves. Há semanas, o mercado financeiro sussurrava sobre a monumental fusão corporativa entre o Grupo Mendes e o Grupo Albuquerque, um conglomerado farmacêutico e de infraestrutura cujo poder rivalizava com o deles. Clara sabia, pela frieza dos olhares que o seu pai lhe lançava durante o pequeno-almoço, que a fusão não seria selada apenas com assinaturas em contratos bilionários. A outra empresa impusera uma condição inegociável, um clássico do velho mundo corporativo que ainda ditava as regras nas sombras da elite: um casamento para garantir que os interesses de ambas as famílias estivessem unidos pelo sangue e pelo patrimônio. Enquanto descia a imensa escadaria de mármore, sentindo o tecido do vestido roçar nas suas pernas, o coração de Clara batia num ritmo descompassado. Ela sabia que seria entregue a algum herdeiro arrogante, algum homem criado para a ganância que a trataria com a mesma indiferença com que o seu pai tratava a sua mãe. Ela já estava mentalmente preparada para aceitar o seu destino com a dignidade silenciosa que era a sua única defesa. Ao entrar no imenso escritório revestido de jacarandá, o cheiro de charuto e papéis timbrados invadiu os seus sentidos. Otávio Mendes estava de pé atrás da monumental mesa de trabalho, enquanto dois advogados seniores organizavam pastas de couro. O olhar do pai pousou sobre Clara, desprovido de qualquer calor paternal, avaliando-a como um avaliador examina uma obra de arte que está prestes a ser leiloada. — Senta-te, Clara — ordenou Otávio, apontando para a cadeira de veludo à frente da mesa. — Os trâmites com o conselho do Grupo Albuquerque foram finalizados. A fusão está garantida. Como sabes, o acordo exigia um vínculo familiar para estabilizar as ações no mercado internacional. Clara sentou-se, mantendo a postura ereta, as mãos cruzadas sobre o colo para ocultar o tremor dos dedos. — Sim, pai. Quem... quem é o herdeiro? — Arthur Albuquerque — respondeu o pai, sem rodeios, soltando a fumaça do charuto em direção ao teto. — Ele acabou de ser nomeado o novo presidente do grupo. O antigo patriarca Albuquerque exigiu que ele estivesse casado para assumir o controle total das ações operacionais. É um homem brilhante, focado e pragmático. O casamento ocorrerá em dois meses. O nome ecoou na mente de Clara como o estrondo de um trovão num dia de sol absoluto. O ar pareceu faltar nos seus pulmões por alguns segundos, e a sala de jacarandá pareceu girar de forma lenta. Arthur Albuquerque. Não era um estranho. Não era apenas um nome nas colunas de economia que ela lia casualmente. Era o rapaz que habitava os cantos mais protegidos e melancólicos da sua memória de adolescência. O protagonista silencioso de uma paixão platônica que ela nunca tivera a audácia de confessar a ninguém, nem mesmo à tia-avó Leonor. Imediatamente, a mente de Clara foi arrastada dez anos para o passado, para os corredores cinzentos e competitivos do renomado colégio de elite onde ambos estudaram o ensino médio. Naquela época, os Mendes e os Albuquerque já eram gigantes, mas Clara era apenas uma adolescente retraída, que preferia os cadernos de desenho aos grupos de conversas fúteis das herdeiras de marcas de luxo. Por ser calada e focar-se na sua arte, ela era frequentemente alvo de comentários maldosos e isolamento por parte das outras jovens. A memória mais nítida que guardava — aquela que acalentara durante anos de solidão — acontecera numa tarde chuvosa de outono, na quadra de esportes coberta da escola. Clara havia sido derrubada intencionalmente durante uma aula de educação física por um grupo de meninas que achavam divertido o seu jeito desajeitado. O seu caderno de esboços caíra no chão úmido, e os desenhos de esculturas em que ela trabalhara por semanas espalharam-se pelas poças de água. Enquanto as raparigas se afastavam a rir, Clara ajoelhara-se no chão de cimento frio, com as lágrimas a turvarem-lhe a visão, tentando desesperadamente salvar o que restara do seu mundo particular. Foi quando um par de sapatos desportivos brancos parou à sua frente. Arthur Albuquerque, que já naquela época se destacava pela postura imponente, pelo olhar cor de tempestade e por uma aura de liderança natural que afastava a maioria das pessoas, abaixou-se sem dizer uma palavra. Com dedos longos e firmes, ele recolheu os papéis molhados que haviam voado para mais longe. Ele não se importou em sujar o seu uniforme perfeito. Quando se levantou, estendeu a mão para Clara, ajudando-a a erguer-se do chão áspero. — Não ligues para elas, Clara — dissera ele, com uma cordialidade calma, uma voz que, embora jovem, já carregava uma firmeza reconfortante. Ele entregara os papéis secos e olhara para o esboço de uma figura moldada em argila que ela desenhara. — Os teus desenhos são muito melhores do que qualquer coisa que elas conseguiriam fazer. Continua. Eles não se tornaram melhores amigos após aquele dia. Arthur pertencia ao círculo dos alunos mais populares, o herdeiro perfeito que todos orbitavam, enquanto Clara continuava na sua periferia silenciosa. No entanto, aquele encontro estabeleceu uma dinâmica única entre os dois. Nos anos seguintes do ensino médio, sempre que se cruzavam na quadra da escola ou nos corredores antes das aulas, Arthur não a ignorava como os outros faziam. Ele a cumprimentava com um aceno de cabeça respeitoso, um sorriso breve e cordial que fazia o coração da jovem Clara disparar. Nas poucas vezes em que se sentaram nas arquibancadas da quadra para esperar o final do horário, conversavam sobre banalidades, sobre livros ou sobre o peso das expectativas familiares. Não eram confidentes, mas aquela cordialidade mútua fora o mais próximo de uma amizade genuína e desinteressada que Clara tivera antes de ingressar na faculdade de Belas Artes. Para Clara, Arthur fora o único raio de sol num ambiente escolar hostil e gélido. Com o passar do tempo, aquela gratidão juvenil transformara-se, inevitavelmente, numa paixão platônica avassaladora, que ela guardara como um tesouro secreto. E agora, o destino jogava aquela mesma peça no seu tabuleiro de xadrez. — Clara? Estás a ouvir-me ou a sonhar acordada como de costume? — A voz áspera do pai trouxe-a de volta à realidade do escritório. Otávio Mendes olhava-a com uma sobrancelha franzida, claramente impaciente com o silêncio da filha. — Estou a ouvir, pai — disse ela, engolindo em seco, tentando controlar o turbilhão de emoções que ameaçava transbordar dos seus olhos. — O Arthur... ele sabe? Ele aceitou isso de boa vontade? Otávio soltou uma risada curta e desdenhosa, cruzando os braços sobre a mesa. — De boa vontade? No nosso mundo, a boa vontade é um luxo para os fracos, Clara. O rapaz tinha uma pequena paixão insignificante, uma jovem sem posses que ele conheceu na faculdade e com quem andava a perder tempo. Mas o pai dele foi claro: ou ele se casava com uma herdeira à altura do Grupo Mendes para selar a fusão, ou o controle da presidência seria transferido para o seu primo. Arthur é um Albuquerque legítimo. Ele escolheu o poder, como qualquer homem sensato faria. Ele abriu mão da rapariga e garantiu que, por ele, o casamento pode acontecer sem problemas. Cada palavra do pai funcionou como uma pequena agulha a perfurar a esperança que acabara de nascer no peito de Clara. A imagem do Arthur gentil da quadra da escola empalideceu diante da realidade do homem que aceitara um casamento corporativo por ambição, sacrificando os seus próprios sentimentos. Ainda assim, no fundo da sua alma artística e romântica, uma pequena faísca de ilusão recusava-se a apagar. Clara pensou que, se o noivo era o mesmo Arthur que um dia estendera a mão para ajudá-la a levantar-se, talvez aquele casamento não precisasse de ser uma sentença de morte emocional. Talvez, com o tempo, com a convivência e com o amor que ela guardara por tantos anos, ela pudesse ajudá-lo a curar a ferida de ter aberto mão da sua paixão. Talvez eles pudessem construir algo real sobre as cinzas daquele negócio. Ela não sabia, enquanto olhava para o sorriso satisfeito do seu pai, que aquela pequena faísca de esperança seria a corda com a qual ela se enforcaria voluntariamente nos próximos anos da sua vida.Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava
A ambulância levou vinte e dois minutos, o que, na Rua Serra do Japi, é considerado rápido.Levaram dona Zilda para a UPA da Vila Ré, e na UPA ela ficou catorze horas num corredor, numa maca encostada na parede entre um rapaz com a mão enfaixada e uma senhora que gemia baixinho, com uma máscara de oxigênio no rosto e uma pulseira de papel no punho, e Vera Duarte ficou aquelas catorze horas de pé ao lado da maca porque não havia cadeira.Na maca da frente havia uma senhora de uns oitenta anos, sozinha, com uma pulseira igual e uma bolsa de crochê em cima da barriga.Chamava-se Aparecida. Vera soube porque a enfermeira chamava alto de duas em duas horas para conferir a pressão, e porque, por volta das quatro da manhã, a velha esticou a mão e puxou a manga dela.— Filha.— Oi, senhora.— Que horas s&atild
Vera acordou às cinco da manhã de segunda-feira e limpou a casa inteira, e passou o dia seguinte com raiva de si mesma por causa disso.Lavou o piso da sala. Tirou o pó do móvel da televisão. Trocou a fronha da mãe. Passou pano no vidro da porta da cozinha, que não era limpo desde a mudança, e no meio disso parou com o pano na mão e disse em voz alta, sozinha:— Que é isso, Vera.Terminou de limpar o vidro assim mesmo.Às oito e meia pôs a mãe sentada na cadeira da sala, a boa, a que tinha braço, com o lenço novo e a manta nas pernas, e a mãe deixou fazer tudo sem reclamar, o que era o sinal de que ela também estava querendo estar apresentável e nenhuma das duas ia admitir.Às nove em ponto tocou a campainha.---&nb
No sábado a dona Zilda amanheceu boa.Vera desconfiou na mesma hora.Ela tinha lido sobre isso num folheto da própria clínica, num daqueles corredores em que a gente lê qualquer coisa para não pensar: que às vezes, perto do fim, o doente melhora. Come. Conversa. Quer levantar. Os médicos chamam de uma coisa e as enfermeiras chamam de outra, e as enfermeiras têm razão.Às sete e meia a mãe dela pediu café com leite e bebeu a xícara inteira.Às oito perguntou pelo jogo do Corinthians.Às nove e vinte disse:— Vera, pega a caixa que está em cima do guarda-roupa.— Que caixa, mãe?— Você sabe qual.Vera sabia qual.---Er






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