INICIAR SESIÓNMia
Eu ainda sentia o calor do toque dele no meu pulso quando me sentei novamente. Meu coração batia rápido demais, como se meu corpo soubesse algo que eu ainda não tinha percebido. Ele estava ali, olhando para mim com uma atenção tão focada que parecia impossível que eu tivesse acabado de confundi-lo com um agiota. — Certo… — soltei um suspiro e tentei reunir coragem — acho que o mínimo que posso fazer depois dessa vergonha é me apresentar. Eu sou Mia. — Mia… — ele repetiu meu nome devagar, como se estivesse experimentando o som. Um leve sorriso surgiu no canto da boca. — Eu sou Elijah. Só isso. Nenhum sobrenome. Nenhum "sou isso ou aquilo". Apenas Elijah. E, ainda assim, parecia suficiente. Forte. Atraente. Carregado de algo que eu não sabia nomear. Eu limpei a garganta. — Ok… acho que deveria saber por que eu entrei aqui implorando dinheiro para a pessoa errada — falei, tentando fazer humor com minha própria tragédia. E então tudo saiu. Sem filtro. — Eu perdi o emprego hoje. Não era nada demais, só atendente de loja… mas era meu único salário. E desde que minha mãe morreu, eu não tenho ninguém. Nenhum parente, nenhum lugar pra cair se eu escorregar. Eu tentei arrumar outro trabalho, mas ninguém está contratando. Nem como garçonete. Meu aluguel está atrasado e… eu estava desesperada. Ele não tirou os olhos de mim. Não interrompeu. Não fez cara de pena. Mas parecia ouvir de verdade. — Então você pensou que a melhor opção era… um agiota? — ele perguntou com um humor suave que me fez suspirar. — A pior. Mas também a única — respondi, sem conseguir evitar o aperto no peito. Ele assentiu devagar, como se estivesse encaixando cada peça dentro da cabeça. — Mia… — seu tom mudou, mais profundo — você não merecia estar passando por isso sozinha. A frase me atingiu como um golpe inesperado. Eu quase esqueci como respirar. Ninguém falava assim comigo. Ninguém se importava assim comigo. — É a vida — murmurei. — Ela não pergunta se a gente aguenta. Só j**a mais peso. Ele apoiou um braço sobre a mesa, inclinado na minha direção. — Você sempre enfrenta tudo desse jeito? Sozinha? Sim. Mas a resposta doeu. — Eu aprendi a não esperar nada de ninguém — confessei. — É mais seguro assim. Elijah me analisou por alguns segundos, e senti como se estivesse me vendo além do que eu mostrava. — Entendo — disse por fim. — Mas… talvez você não precise continuar assim. — O que quer dizer? — franzi o cenho, desconfiada. Ele soltou um suspiro leve, como quem toma uma decisão. — Você… — seus olhos percorreram meu rosto com um interesse que fez meu estômago dar um nó — você toparia fazer uma entrevista? Eu pisquei. — Entrevista? Como assim? Ele apoiou os dedos no queixo, pensativo. — Para um trabalho — explicou calmamente. — Não posso te prometer nada agora. Mas conheço pessoas. Pessoas que precisam de alguém responsável, sincera… alguém como você. Meu coração se acelerou. Entrevista. Trabalho. Aquilo era melhor que qualquer empréstimo. Mas, ao mesmo tempo… — Você mal me conhece — falei devagar. — Nem sabe se eu sou boa funcionária, ou se não estou inventando tudo isso. Ele ergueu uma sobrancelha, como se minha dúvida fosse engraçada. — Eu sei que você é honesta — respondeu sem hesitar. — Ninguém inventaria aquele discurso tão desesperadamente espontâneo. Você foi… real. E isso vale mais do que muita coisa. Eu não esperava aquela resposta. — E além disso… — ele inclinou a cabeça com um sorriso que fez minhas pernas formigarem — eu gosto da forma como você fala. Sem máscaras. Sem tentar impressionar. Eu aprecio isso. Eu senti o rosto esquentar. Ele não estava flertando. Estava? Se estava, era tão sutil que eu podia estar imaginando. — Mas… — continuei, tentando manter o controle — que tipo de entrevista é essa? Para quê? Ele deu de ombros, evasivo. — Nada ilegal, eu prometo — disse com humor. Levantando a mão como um escoteiro — Só… deixe-me fazer algumas ligações amanhã. Eu posso abrir uma porta para você. Uma chance. E você decide se quer entrar. Fiquei em silêncio. Aquilo não parecia real. Eu saí de casa para pedir dinheiro emprestado a um agiota… e agora um estranho — um homem lindo, misterioso, de presença avassaladora — estava me oferecendo uma chance de recomeçar. — Por quê? — perguntei, a voz falhando sem querer. — Por que faria isso por mim? Ele manteve o olhar sobre o meu, firme, intenso. — Porque quando alguém está caindo — disse com calma — às vezes tudo o que precisa é de uma mão. Só isso. Uma mão. E hoje… — seu sorriso foi quase imperceptível, mas real — eu decidi que posso ser essa mão. Meu peito se apertou. Eu não sabia se queria chorar ou rir. Ou os dois. — Então? — Elijah perguntou, apoiando o corpo na cadeira, sem desviar os olhos. — Aceita uma chance? Mesmo que venha da pessoa errada, no momento certo? Meu coração respondeu antes de mim. — Aceito. Ele sorriu. E naquele instante, foi impossível não pensar que, por algum motivo estranho… eu tinha acabado de dizer sim para algo muito maior do que um simples trabalho.MiaO som do mar não era mais um rugido ameaçador, como as tempestades que enfrentamos no passado. Hoje, ele era uma sinfonia. A areia branca da nossa enseada particular estava decorada com pétalas de rosas brancas e velas que flutuavam dentro de globos de vidro, criando um caminho de luz que levava diretamente ao altar improvisado de madeira clara, de frente para a imensidão do Atlântico.Eu me olhei no espelho da casa de vidro uma última vez. Eu não usava um vestido de noiva tradicional, rígido e sufocante como o primeiro. Desta vez, eu vestia uma seda fluida, cor de marfim, que dançava com a brisa marinha. Meus pés estavam descalços, prontos para sentir a terra que agora era verdadeiramente nossa.Ao sair para o terraço, vi a cena que aqueceria minha alma para sempre. Gael e Ethan, agora com um ano, corriam desajeitados pela areia com seus terninhos de linho minúsculos, rindo enquanto tentavam perseguir uma gaivota sob o olhar atento e babão de Julian e Arthur Ver os dois avôs, out
Mia O tempo tem uma maneira peculiar de se comportar quando finalmente estamos felizes: ele não corre, ele voa. Um ano se passou desde que as sombras dos Sinclair foram dissipadas e a paz foi selada naquele jardim em casa. Um ano desde que Gael e Ethan começaram a transformar nossa mansão em um campo de descobertas, risadas e primeiros passos hesitantes. Hoje, a Hale Enterprise não era apenas o coração financeiro da cidade; era o nosso campo de jogo. Elijah e eu dividíamos o comando, e embora muitos duvidassem que dois tubarões pudessem nadar no mesmo tanque sem se devorarem, nós provamos que a nossa sinergia era imbatível. Mas, como toda sexta-feira, o caos foi o protagonista. Reuniões de última hora, oscilações no mercado asiático e uma pilha de contratos que pareciam brotar do chão. Eram quase seis da tarde. O andar da diretoria já estava mergulhado naquele silêncio sepulcral de fim de expediente. Os funcionários já haviam partido para seus drinks de happy hour, mas eu sabia que
MiaO escritório de Elijah em nossa casa sempre foi um santuário de ordem e poder, mas naquela noite, sob a luz âmbar dos abajures de bronze, ele parecia o cenário de um confessionário necessário. O ar estava denso, carregado com o peso de décadas de silêncio e ressentimentos mal resolvidos. Arthur Hale estava sentado na poltrona de couro, a bengala de jacarandá repousando contra o joelho, observando as chamas na lareira como se pudesse ler nelas os pecados que carregou por tanto tempo.Elijah estava de pé, ao lado da janela, a silhueta rígida contra a escuridão. Eu me posicionei ao lado dele, sentindo a tensão emanar de seu corpo. Minha mão buscou a dele, entrelaçando nossos dedos em um sinal silencioso de apoio.— Você disse que havia uma última conta a ser paga, pai — a voz de Elijah era baixa, quase um sussurro, mas cortante. — Do que se trata exatamente? O que os Sinclair têm a ver com cada cicatriz que carregamos?Arthur suspirou, um som que pareceu ecoar por toda a sala. Ele ol
MiaTrinta dias. Setecentas e vinte horas. Milhares de fraldas, centenas de banhos e uma quantidade de amor que desafia as leis da biologia. Hoje, o calendário marcava o primeiro mesversário de Gael e Ethan, e olhando para o espelho enquanto ajustava um brinco de pérola, eu mal conseguia reconhecer a Mia que, há pouco tempo, fugia de sombras.A casa estava respirando harmonia. O aroma de alecrim e carne assada vindo da cozinha se misturava ao perfume das flores frescas que Jana — agora oficialmente coabitando com Samuel — havia enviado logo cedo.— Você está deslumbrante, Furacão. Mas, se me permite a observação técnica, esse vestido vai dificultar a sua logística de amamentação em aproximadamente trinta minutos — a voz de Elijah ecoou do portal do closet.Virei-me e sorri. Ele estava impecável em uma camisa de linho azul-claro, com os botões superiores abertos. Havia uma serenidade em seu rosto que só os filhos conseguiram imprimir.— É um sacrifício pela estética do primeiro evento
Jana Sair da mansão dos Hale sempre me deixava com uma mistura de sentimentos. Por um lado, meu coração transbordava de alegria por ver Mia tão realizada, segurando Gael e Ethan como se fossem as joias mais preciosas do universo. Por outro, ver o nível de segurança e a vida "adulta" deles me fazia sentir que, de alguma forma, todos nós tínhamos cruzado uma linha sem retorno. O caos das boates e das noites mal dormidas tinha sido substituído por cronogramas de amamentação e discussões sobre o melhor sistema de filtragem de ar para bebês. Mas, enquanto atravessávamos os portões de ferro da casa dos nossos amigos no carro de Samuel, eu percebi que o meu próprio "caos" estava apenas mudando de endereço. Olhei para o lado e vi o perfil de Samuel. Ele dirigia com aquela concentração silenciosa que me dava vontade de gritar ou de beijá-lo até ele perder o fôlego — geralmente as duas coisas ao mesmo tempo. Ele era o oposto de tudo o que eu achei que queria, e exatamente tudo o que eu pr
MiaO tempo em casa já não era medido por horas, mas por ciclos de amamentação, o aroma suave de lavanda e o som rítmico da respiração de dois pequenos seres que haviam sequestrado completamente as nossas vidas. As semanas haviam voado. O outono começava a pintar as copas das árvores do jardim com tons de cobre e ouro, e a luz do final de semana entrava pelas imensas janelas da mansão com uma suavidade que parecia abençoar a nossa nova rotina.Eu estava sentada no tapete macio do quarto dos meninos, observando Ethan tentar focar seus olhos em um móbile de estrelas de prata, enquanto Gael, sempre mais impaciente, chutava o ar com vigor. Elijah estava ao meu lado, fingindo ler um relatório de mercado, mas eu sabia que seus olhos não saíam dos filhos por mais de dez segundos.A paz era absoluta, até que o som do interfone quebrou o silêncio.— Sr. Hale, Lady Elizabeth está no portão — a voz de Miller soou, discreta, mas carregada de significado.Senti Elijah tensionar imediatamente. O re







