FAZER LOGINSentado atrás da enorme mesa de mogno, olhando-a com um misto de surpresa e divertimento, estava ele.
O mendigo, o morador de rua. Os olhos dele, agora friamente calculistas, a encararam com um leve toque de diversão — quase desdém. Havia algo de diferente nele agora… não apenas o terno perfeitamente alinhado, ou o corte de cabelo impecável. Era o modo como ele a olhava. Como se tivesse vencido algum tipo de jogo que ela nem sabia que estava jogando. — Senhorita Bernardes… — ele murmurou, cruzando os dedos sobre a mesa. — Que coincidência interessante. Celina engoliu em seco, tentando disfarçar o choque. O que ele estava fazendo ali? Mais importante: o que ele sabia sobre ela? Celina ainda sentia o impacto da surpresa enquanto se sentava na cadeira de couro à frente da enorme mesa de mogno. O choque de o encontrar naquele escritório luxuoso, o homem daquela noite, o mendigo, a deixou sem palavras por alguns instantes. Ele estava ali, à sua frente, como seu possível chefe. Thor Miller a olhava fixamente, os olhos intensos examinando cada detalhe de sua expressão. Como se estivesse se divertindo com a situação. Ele não parecia surpreso em vê-la, e isso só a deixava ainda mais nervosa. — Senhorita Bernardes — ele começou, a voz grave e carregada de uma calma irritante. — Por favor, fique à vontade. Celina engoliu em seco e tentou recuperar o controle de si mesma. Endireitou a postura e tentou parecer profissional. — Obrigada! — sua voz saiu quase um sussurro. Thor se recostou na cadeira, sem desviar o olhar. — Antes de começarmos, vou me apresentar. Sou Thor Miller, CEO da Miller Holdings. Meu avô, Thor Miller, e meu pai, Raul Miller, construíram esse império, e agora eu estou no comando. Sou presidente da T&R Enterprises e estou pessoalmente conduzindo essa entrevista porque a vaga é para ser minha secretária-executiva. Celina assentiu, sentindo o peso do nome Miller. Aquele sobrenome era gigantesco no mundo dos negócios. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Trabalhar diretamente para ele? Seu coração acelerou. — Faço questão de selecionar pessoalmente quem ocupará esse cargo — ele continuou. Celina engoliu em seco, tentando se concentrar. — Entendo — respondeu. Ele recostou-se na cadeira, os olhos semicerrados, estudando cada traço dela. — Você tem um perfil interessante… São qualidades raras. E valorizadas. A entonação dele carregava um duplo sentido. Celina sentiu a tensão crescer, mas não desviou o olhar, sustentava a postura profissional, mas sentia um peso esmagador no peito. Ela pensava se ele realmente não ia mencionar nada sobre a noite que tiveram. Mesmo assim se manteve firme, sabendo que ele estava testando-a. — A vaga exige discrição absoluta. Situações inesperadas surgem o tempo todo quando se trabalha diretamente comigo. Ela assentiu em silêncio. Era um aviso, ou uma provocação? Thor, parecia fazer questão de agir como se nunca a tivesse visto antes. Em um determinado momento, ele desviou os olhos para o vidro panorâmico atrás dela e, por um segundo, sua mente o traiu. Ele se lembrou da noite no hotel. Do corpo dela sob o seu, dos gemidos abafados pelo travesseiro, do cheiro doce que impregnava sua pele… Uma onda de excitação percorreu seu corpo, mas ele tinha controle demais sobre si mesmo para deixar transparecer. Endureceu a expressão e disfarçou com naturalidade, retomando a conversa sem qualquer alteração em sua postura. Celina notou quando os dedos dele deslizaram sutilmente sobre a borda do notebook. Foi rápido, quase imperceptível. Mas ela sabia o que aquilo significava. Ele estava lembrando. Tentando se manter firme, Celina cruzou as pernas e ajeitou as mãos no colo. — Agora, me diga… — Thor voltou a falar com a voz carregada de uma nota sutil de ironia. — Depois de cinco anos fora do mercado, o que a fez buscar essa oportunidade? Celina hesitou. — Estou me divorciando — ela respondeu, baixinho. Thor ergueu uma sobrancelha e voltou a olhar para o currículo no notebook. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. Ele deslizou os olhos pelas informações e seu tom ganhou um traço irônico. — Interessante — murmurou, com um tom carregado de sarcasmo. — Aqui não menciona que você é casada. Então, não é senhorita… é senhora Bernardes. Os olhos dele se fixaram nos dela Celina sentiu seu corpo travar. O sangue subiu para o rosto, e suas bochechas arderam. — Achei irrelevante colocar. Thor sorriu de lado, como se soubesse que aquilo a incomodava. Ele fechou o notebook e cruzou os braços. — Se está se divorciando, não seria mais fácil simplesmente viver da pensão do seu marido? — perguntou, com um tom levemente provocativo. — Digo, pelos seus trajes e postura, é notório que você é uma dama da alta sociedade. Celina sentiu o sangue ferver. Com a voz firme, respondeu sem hesitar: — Eu preferia morrer a depender de um homem. Thor arqueou as sobrancelhas, surpreso pela resposta. — Orgulho ferido? — ele rebateu, desafiador. Celina sustentou o olhar dele. — Não. Apenas quero recomeçar minha vida. Thor ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando-a. — Entendi — disse ele, finalmente. Mas algo ainda o incomodava. — Seu divórcio já foi finalizado? Celina franziu a testa, começando a se incomodar com o rumo da conversa. — Ainda não. Thor inclinou-se um pouco para frente. — Preciso de alguém que tenha disponibilidade para viagens e, inevitavelmente, você terá que viajar sozinha comigo, seu chefe. Isso não vai ser um problema com seu marido? Celina engoliu em seco ao ouvir aquilo. A ideia de estar sozinha com Thor em viagens a fez sentir-se desconfortável, mas sua situação não lhe permitia hesitação. — Ex-marido — corrigiu, séria. — E não, isso não será um problema. Thor observou-a mais uma vez, como se quisesse ter certeza de que a decisão dela era definitiva. — Já tivemos uma comunicação profunda e ardente antes, e você me deixou uma impressão abrangente e marcante. Então estou totalmente tranquilo em entregar a você o trabalho de secretária executiva. Só ainda tenho algumas perguntas que precisam de suas respostas. Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu abruptamente. — Amor! — uma voz manhosa preencheu a sala.O celebrante então leu algo preparado. — Thor, quando lhe perguntei o que mais admira em Celina, você disse muitas coisas. Mas duas me marcaram. A primeira foi o olhar dela. Você disse que se perde nele, que foi a primeira coisa que te atraiu, que ele tem um magnetismo impossível de conter. Que não é à toa que uma de suas filhas se chama Safira, porque depois de conhecer Celina a cor verde se tornou a sua favorita. Thor sorriu, emocionado, enquanto passava o polegar sobre a mão da esposa. — A segunda — continuou o celebrante — foram os cabelos dela. Você confessou que é viciado em dormir sentindo o cheiro deles. Que, depois de um dia difícil, seu remédio é tê-la nos braços, acariciando seus fios. Que ali você encontra paz. Celina não conteve as lágrimas. — É exatamente assim… — murmurou ela, a voz embargada. O celebrante voltou-se então para ela. — Celina, você também disse muitas coisas sobre Thor. Mas duas me tocaram. A primeira é que ele foi o homem que a fez se sentir única,
A empresa dos dois prosperava, agora com uma filial no Canadá. E havia outra novidade que muitos comentavam com alegria: Luzia, mãe de Gabriel, havia se casado com um americano viúvo e sem filhos, encontrando ao lado dele uma nova chance de amor.Isabela e Felipe também estavam ali, acompanhados dos filhos adotivos, Lorenzo, de dez anos, e Larissa, de seis. O gesto de acolher irmãos para não separá-los mostrava quem eles haviam se tornado: uma família que escolhia o amor todos os dias. Isabela seguia administrando a ONG com dedicação, rodava o país dando palestras inspiradoras. Publicou vários livros e ainda encontrava tempo para cursar um mestrado. Felipe, agora juiz, equilibrava sua rotina com sua pós-graduação e se mostrava sereno, maduro, um homem completamente realizado. A mansão que haviam comprado não era apenas uma casa confortável: era um lar pensado para as crianças e para a mãe de Isabela, onde a vida recomeçava diariamente em harmonia.Sabrina e Maurício estavam com os gêm
Mais tarde, enquanto Antonella e Safira acompanhavam Celina e Emma ao SPA para uma tarde de cuidados antes da festa, Ravi ficou em casa com o pai e James.— Pai, você acha que um dia eu vou ser como o senhor? — perguntou o adolescente, enquanto ajudava Thor a escolher o terno.Thor sorriu.— Você vai ser melhor que eu, meu filho.— Mas eu quero ser forte igual o senhor e cuidar da minha família igual o senhor cuida, pai.Thor olhando nos olhos do filho, falou.— A força não está aqui — mostrou o braço. — Está aqui dentro. — Apontou para o coração do filho. — E isso você já tem.Ravi abriu um sorriso satisfeito, sentindo-se grande demais para sua idade.James, que observava a cena em silêncio, aproximou-se e completou com a voz grave e serena:— Ouça bem, Ravi… um homem se mede pelo amor que entrega. Se você aprender a amar e respeitar como seu pai ama e respeita sua mãe, vai ser não apenas como ele… mas um exemplo ainda maior para quem vier depois de você.O adolescente ficou em silên
Ficaram ali, trocando palavras baixas, lembranças e risadas cúmplices. Até que, quando Celina já quase se rendia ao sono, Thor a cutucou de leve.— Ei, nada de dormir ainda. Vamos tomar um banho e nos vestir. Você sabe que quando o dia clarear, o nosso trio vai invadir o quarto com o café da manhã deles. — Ele riu. — E eu não abro mão da segunda rodada debaixo do chuveiro.Celina gemeu, manhosa. — Você continua insaciável, Thor Miller.Ele segurou o queixo dela, fitando-a com intensidade. — O fogo que você tem me faz ser assim. — Sorriu malicioso. — Você pode enganar o mundo com esse jeito doce… mas entre quatro paredes, você é uma diabinha, e eu amo isso. Nada de recatada.Celina corou, batendo de leve no peito dele, mas acabou rindo. — Seu atrevido.— Meu. — Ele a corrigiu, antes de envolvê-la nos braços.Num gesto firme, Thor a pegou no colo e a levou até o banheiro. O chuveiro se abriu, e ali dentro eles se amaram outra vez, rindo, provocando, entregues como adolescentes apaixon
Em São Paulo, do alto da cobertura de Thor, o mundo parecia pequeno, como se aquela cidade que nunca dormia estivesse ali apenas para assistir à história deles.Era meia-noite. Quinze anos de casamento. Quinze anos de amor, de superações, de lágrimas e vitórias. Todos os anos, sem falhar, Thor tinha o mesmo ritual: começava a comemoração à meia-noite. Era o momento sagrado do casal, o instante em que o tempo parecia voltar para o início de tudo, apenas os dois, longe de qualquer testemunha.Naquela noite não seria diferente.Thor entrou no quarto sem fazer barulho, fechou a porta atrás de si e girou a chave, trancando. Nas mãos, duas bolsas e um olhar travesso. Celina, já deitada, folheava um livro, mas levantou os olhos ao sentir a presença dele.— Amor… — ela sorriu, fechando o livro. — O que você está aprontando?— Nada que você não vá gostar. — A voz grave soou carregada de desejo.Ele deixou as bolsas sobre a mesa de cabeceira, aproximou-se devagar e apoiou um joelho no colchão.
Naquela manhã, seguiram para Ouro Preto, onde o casarão colonial e as ladeiras estreitas compunham um cenário digno de cartão-postal. Felipe, animado, mostrava a ela a Igreja de São Francisco de Assis, obra-prima de Aleijadinho, enquanto Isabela se encantava com os detalhes dourados do barroco mineiro.— É lindo… — disse ela, observando a grandiosidade da construção. — Parece que o tempo parou aqui. Felipe sorriu, orgulhoso.— Minas é isso, amor. História em cada canto.Na parte da tarde, seguiram de carro até a Praça Tiradentes, onde turistas tiravam fotos e vendedores ambulantes ofereciam doces de leite caseiro. O semáforo fechou, e Felipe parou o carro. Isabela, distraída, olhou para o lado. Seu coração disparou.A poucos metros dali, sentada na calçada, estava uma mulher magra, com roupas rasgadas, os cabelos desgrenhados e os olhos perdidos. Mas havia algo inconfundível naquele rosto envelhecido antes do tempo.— Mãe… — o sussurro escapou de seus lábios como um grito preso por a







