FAZER LOGINPOV: Rafael Ferraz
Puxei o nó da gravata e arranquei tudo do pescoço assim que passei pelas portas de vidro da segurança digital. — Quero todos os terminais espelhados no telão da sala de crise. Agora — ordenei, sem diminuir o passo pelo corredor. Marcelo vinha colado atrás de mim, com a pasta debaixo do braço e um ritmo calmo demais pro meu gosto. — A equipe de TI já tá isolando os servidores locais, Rafael. Não adianta atropelar o protocolo. — Protocolo não segura cotação de mercado, Marcelo — rebati, escancarando a porta da sala de monitoramento. — Faltam menos de dezesseis horas pra abertura da bolsa. O que vazou de verdade? Dois técnicos quase pularam das cadeiras quando entrei. O chefe da equipe, um cara na casa dos trinta com olheiras fundas e a camisa amassada, engoliu em seco antes de bater os dedos no teclado. O telão principal acendeu na hora, dividindo a tela em blocos de relatórios e linhas de dados. — O vazamento foi cirúrgico, senhor Ferraz — o rapaz começou. — Não teve invasão externa nem ataque hacker. Alguém compilou relatórios internos da nossa carteira de crédito entre 2019 e 2021. Mais de duzentos mil clientes de alta renda: movimentação bancária, dados fiscais, notas de auditoria interna. — São planilhas de validação que só circulavam entre a diretoria e o comitê de risco daquela época — Marcelo interveio, encostado na bancada com as mãos nos bolsos. — Se o governo provar uso indevido pra ganhar a concorrência, a suspensão vira cancelamento definitivo. E a multa rescisória come trinta por cento da nossa liquidez de cara. — Quem tinha a chave desses diretórios antigos? — exigi, dando um passo na direção do técnico. — Quero os logs de quem baixou esses pacotes nos últimos noventa dias. O garoto travou, olhando de rabo de olho pro Marcelo antes de falar. — É aí que tá o problema, senhor... Os bancos de dados anteriores à migração pra nuvem usavam autenticação local. O sistema registrava a máquina física, não o usuário. E o disco de backup com os registros de 2020 tá corrompido. Descarreguei a mão aberta no tampo de acrílico da bancada. O barulho estalou na sala. — Corrompido? Um servidor blindado não se corrompe sozinho na véspera do maior contrato da história desta empresa! — Rafael, calma — Marcelo pousou a mão no meu ombro, a voz mansa de sempre. — O sistema antigo era cheio de buracos, nós sabíamos disso quando fizemos a migração. O que importa agora não é caçar fantasma de cinco anos atrás, e sim botar uma auditoria independente na mesa antes das nove. Fiquei encarando aquela mão até ele recolher o braço devagar. — Você tá calmo demais pra quem vai sentar no banco dos réus junto comigo se isso for adiante, Marcelo. — Eu não estou calmo, Rafael. Sou o diretor financeiro. Se eu surtar como o Werner surtou lá em cima, as ações viram pó antes mesmo de o primeiro repórter assinar a matéria. Na teoria, fazia sentido. Mas o tom dele, milimetricamente ensaiado, só fez a veia da minha têmpora pulsar mais forte. Voltei a olhar pro telão. — Puxa as operações financeiras ligadas a esses clientes vazados. Quero ver pra onde foi o crédito aprovado fora do padrão. — São milhares de linhas, senhor Ferraz. Vai demorar horas pra cruzar tudo. — Você tem quinze minutos. O rapaz voltou a digitar como um louco. Linhas e mais linhas de transações começaram a correr: valores de seis e sete dígitos, contas de custódia, códigos de liquidação bancária. Cheguei mais perto do monitor, seguindo o rastro do dinheiro. Quase tudo apontava pra fundos que operavam alavancados na crise de 2020. Empréstimos com juros subsidiados que o meu pai, Augusto Ferraz, aprovava pessoalmente antes de me passar a presidência. A raiva me deu um nó na garganta. Augusto não era só o presidente de honra do conselho. Ele tinha assinado cada uma daquelas aberrações. — Para — apontei pra tela. — Congela nessa linha. Volta três. O técnico travou a rolagem. No rodapé de um contrato de cessão de crédito de quarenta e dois milhões, datado de novembro de 2020, havia uma conta de liquidação no mercado secundário. Um nome em caixa alta brilhava no meio dos números: MONTENEGRO INVESTIMENTOS S.A. Fiquei sem ar por um segundo. — O que a gestora dos Montenegro tá fazendo no meio de uma operação nossa de cinco anos atrás? — perguntei, sem desgrudar os olhos do telão. Marcelo deu um passo à frente e ajeitou os óculos, forçando uma cara de dúvida que não colou. — Pode ter sido só uma liquidação de carteira comum, Rafael. — Comum? — soltei uma risada seca, sem humor nenhum. — Daniel Montenegro não compra nem um café na nossa mão se não for pra tentar envenenar o copo. Aquele desgraçado passou os últimos dez anos nos atacando na imprensa e tentando derrubar nossas patentes na justiça. As peças da manhã começaram a bater com força na minha cabeça. Primeiro, um vazamento cirúrgico que trava a nossa maior licitação e abre a porta pro conselho me derrubar. Depois, o advogado do meu avô surge do nada com um testamento esquecido, exigindo que eu me case com a família rival pra não perder o comando. E agora, a empresa dos Montenegro aparece bem no meio da fraude financeira que tá prestes a enterrar o meu nome. Isso não era coincidência. Nunca foi. Virei o rosto pro Marcelo, a voz baixa, gelada e perigosa: — Por que os Montenegro estão nos meus arquivos de cinco anos atrás?POV: Rafael FerrazSete e vinte da manhã.Eu já estava de terno azul-marinho alinhado, sapatos engraxados e a pasta de trabalho fechada sobre a bancada da cozinha.Depois das poucas horas mal dormidas na suíte master, o meu primeiro instinto ao acordar foi restabelecer a ordem. A trégua silenciosa da madrugada, quando dividimos água gelada descalços e olhamos a cidade desarmados, precisava ser soterrada com urgência sob camadas grossas de pragmatismo.Se eu começasse a tratar Isadora Montenegro como uma parceira de verdade em vez de uma aliança de risco, o controle daquela farsa escaparia das minhas mãos antes do fim da semana.O som de saltos firmes na escada de vidro anunciou a descida dela.Isadora entrou na cozinha usando saia lápis preta, camisa de seda branca com os primeiros botões abertos e o cabelo escuro solto caindo pelos ombros. Ela não parecia nem de longe alguém que tinha passado a noite em claro; parecia pronta para tratorar o conselho inteiro da minha empresa.Caminhou
POV: Isadora MontenegroTrês e dezessete da madrugada.Eu estava deitada de olhos abertos na cama da suíte leste, encarando as sombras que a janela projetava no teto branco do quarto.Passei as últimas duas horas tentando desligar a cabeça, mas o silêncio daquela cobertura não era como o silêncio da minha antiga casa. Era um vazio pesado, pontuado apenas pelo estalo térmico do vidro blindado contra o vento da serra e pelo zumbido quase inaudível do ar-condicionado.Cada músculo do meu corpo continuava alerta.A consciência de que Rafael estava a menos de vinte metros de mim, no mesmo mezanino, funcionava como um alarme ligado na minha cabeça.A cena dele girando a chave dourada na tranca antiga do quarto da mãe e batendo a porta na minha cara não saía da minha mente. O homem que me enfrentava nos tribunais e calculava cada movimento da empresa com a frieza de uma máquina tinha uma ferida aberta no meio daquela casa. E eu agora morava dentro dela.Desisti de tentar dormir.Jog
POV: Isadora MontenegroFechei a última gaveta do closet da suíte leste com um empurrão bem firme.Minhas roupas de trabalho estavam penduradas em cabides de veludo, minhas pastas de processos organizadas sobre a escrivaninha de madeira clara e meus perfumes alinhados na bancada de mármore do banheiro. Em menos de duas horas, eu tinha tomado posse de cada centímetro daquele quarto no fim do mezanino.Mas do lado de fora daquela porta, o resto da cobertura continuava sendo território inimigo.Saí para o corredor acarpetado e apoiei as mãos no parapeito de vidro que dava para a sala de estar no piso inferior.O duplex de Rafael Ferraz não parecia a casa de um homem de trinta e quatro anos; parecia a sede de uma embaixada privada.Tudo era monumental, simétrico e estéril. Paredes em concreto polido, sofás de linho grafite e telas de arte abstrata que pareciam escolhidas por um consultor de investimentos, não por alguém que realmente gostava de pintura. Não havia uma única fotografi
POV: Isadora MontenegroOs disparos dos flashes eram tão rápidos que deixavam clarões brancos na minha vista a cada piscada.A bancada de madeira no palco do centro de convenções estava forrada por mais de vinte microfones de emissoras de televisão e portais de economia. Ao meu lado, a menos de trinta centímetros, Rafael vestia um terno sob medida cinza-chumbo, com a postura impecável de quem nasceu para comandar o mercado.— Boa tarde a todos — a voz dele ressoou limpa pelos alto-falantes, calando o burburinho na primeira fila. — Eu e a doutora Isadora Montenegro convocamos esta coletiva para oficializar o fim de todas as disputas judiciais entre os grupos Ferraz e Montenegro, e para consolidar o nosso compromisso público.Uma repórter de finanças levantou a mão no mesmo segundo:— Doutor Ferraz, o mercado foi pego de surpresa pela nota. Como fica a divisão das patentes de inteligência artificial com a unificação das duas empresas?— A transição será coordenada diretamente pela
POV: Isadora Montenegro A caixinha de veludo azul-marinho foi deixada sobre a mesa de centro com uma brusquidão que dizia mais do que qualquer palavra. Rafael deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a cara fechada na mesma expressão de quem só estava riscando o próximo item de uma lista burocrática. — A assessoria marcou a nossa primeira coletiva de imprensa para quarta-feira de manhã — avisou, a voz no piloto automático de sempre. — O mercado quer a confirmação visual do noivado. Você não pode aparecer na frente dos repórteres com a mão vazia. Fiquei encarando a caixa fechada por dois segundos antes de esticar o braço e puxar para mim. O veludo estava levemente gasto nas bordas — um detalhe antigo, discreto, que não combinava em nada com o padrão de ostentação que eu esperava de um bilionário querendo impressionar os jornais. Abri a tampa de uma vez. A peça cravada no centro não era uma daquelas joias modernas de vitrine de shopping. Era u
POV: Rafael Ferraz Larguei a pasta de couro preto no centro da bancada de mármore da cozinha da minha cobertura. A certidão de casamento assinada em cartório há menos de vinte e quatro horas repousava no bolso interno do meu paletó, mas aquele papel era só a blindagem jurídica contra o conselho. O que estava prestes a começar entre quatro paredes exigia um nível de controle muito mais rígido. Isadora entrou na cozinha puxando uma mala de mão rígida. Vestia jeans escuro, blazer cinza e sapatos baixos. Correu os olhos pelo espaço amplo, pelas janelas de pé-direito duplo com vista para a serra e, finalmente, pela pasta aberta diante de mim. — Bom dia para você também, Rafael — disse, soltando a mala perto da ilha central. — Já imprimiu o organograma da nossa vida de casados? Ignorei o deboche, empurrando a folha com as diretrizes na direção dela. — O caminhão com as suas caixas chega às duas da tarde com a transportadora que contratei. A portaria já cadastrou o seu reconhecim





