LOGINRafael Ferraz tem 30 dias para se casar com uma Montenegro ou perde 35% da própria empresa. O problema é que os Montenegro são os maiores rivais da família Ferraz há três décadas. E a única mulher elegível pela cláusula do testamento é Isadora Montenegro, diretora jurídica, especialista em fraudes corporativas... e a mulher que pode acabar descobrindo que o pai dele escondeu um segredo capaz de destruir os dois clãs. Isadora não quer o dinheiro de Rafael. Ela quer acesso aos documentos que provam que o próprio pai não é o corrupto que todos dizem que é. Os dois assinam o contrato por interesse. Um casamento de fachada, regras claras, zero sentimento. Até a primeira noite dividindo o mesmo teto. Até o primeiro toque que nenhum dos dois planejou. Até Isadora descobrir uma prova que pode destruir Rafael e escolher guardar segredo por ele. Quando o escândalo estoura e o contrato vira manchete, Isadora percebe que foi usada. Rafael percebe que pode perder a única pessoa que nunca se curvou diante do seu sobrenome. Entre traição, vingança e um segredo prestes a explodir, os dois vão descobrir que o amor verdadeiro nunca esteve escrito no contrato.
View MorePOV: Rafael Ferraz
— Amanhã, às dez da manhã, Rafael, a presidência da Ferraz Nexus deixa de ser sua. O conselheiro à minha esquerda arremessou o tablet na mesa. O aparelho derrapou na madeira e parou a dois dedos da minha mão, com a tela estilhaçada exibindo a manchete que tentávamos abafar. Nem pisquei. Continuei sentado na cabeceira, encarando os doze engravatados que mal conseguiam sustentar o meu olhar. — A matéria não saiu — respondi, sem alterar o tom. — Ainda — Theo soltou do canto da sala, encostado na parede, de braços cruzados, com aquele sorrisinho cínico de quem já se via na minha cadeira. — O rascunho caiu em três redações financeiras de madrugada. Fraude em contratos antigos, vazamento de dados, licitação do governo suspensa preventivamente. Quatro bilhões travados antes da abertura da bolsa de amanhã. — Ninguém provou nada do que tá escrito aí — cortei, seco. — Quem vazou esse lixo escolheu a véspera da assembleia de propósito, pra derrubar as ações. É golpe manjado pra forçar uma compra hostil. Se o conselho amarelar agora, entrega o controle de bandeja. — Bloqueamos as movimentações suspeitas logo cedo — Marcelo Duarte interveio, ajeitando os óculos com a calma de quem trabalha com a família há quinze anos. — Temos caixa de sobra pra segurar o tranco na abertura do mercado. O que a gente precisa agora é de cabeça fria. — Cabeça fria não segura acionista em pânico, Marcelo! — Werner esbravejou, enxugando o suor da testa com o lenço. — Os minoritários já estão fechando com um fundo de fora. Se baterem a cota amanhã, a gente vota a destituição da diretoria executiva. Você é a cara da empresa, Rafael. Se o barco afundar, você afunda junto. Encarei os doze rostos ao redor da mesa, medindo quem ainda estava do meu lado e quem já fazia as contas de uma nova gestão. Virei o rosto para o homem sentado à minha direita. Meu pai, Augusto Ferraz, não dizia um pio. As mãos pálidas tremiam sobre a mesa, num ritmo quase invisível. O homem que mandou naquele império com mão de ferro por trinta anos parecia incapaz de levantar a cabeça. A covardia dele me dava mais ódio do que o chilique do conselho. Ele sabia de onde vinha o golpe. Sabia muito bem qual conta do passado tinha chegado pra cobrar a fatura. — Tem outra saída, Rafael — Theo soltou baixinho, um brilho de deboche escondido atrás da voz preocupada. — Só que você não vai gostar dela. Encarei o meu irmão por um segundo mais longo do que devia. Havia algo naquele tom, não era a provocação de sempre. Era certeza. Ele sempre gostou de brincar com fogo perto da minha cadeira, mas daquela vez havia um cálculo por trás do sorriso que eu não consegui decifrar. Theo sabia de alguma coisa que eu ainda não sabia, e isso me incomodou mais do que toda a manchete da madrugada. — Ninguém me tira desta cadeira enquanto eu estiver respirando — avisei, apoiando os punhos na mesa e me levantando devagar. A sala inteira parou. — O conselho não tem voto suficiente pra derrubar a presidência sem o bloco familiar. E o bloco familiar sou eu. — Isso se o bloco familiar ainda valer alguma coisa amanhã — uma voz seca cortou a sala. As portas duplas se abriram. O Dr. Silveira, advogado do espólio do meu avô e guardião dos documentos mais antigos da empresa, entrou a passos firmes, com uma pasta preta de couro debaixo do braço. O silêncio que ele impôs só de atravessar a porta valia mais do que qualquer discurso do conselho. Theo perdeu o deboche na hora e desencostou da parede. — O que é isso, Silveira? A reunião é fechada pra diretoria. — Esta reunião é sobre quem manda nesta empresa — Silveira rebateu, sem nem olhar na cara dele. Parou ao meu lado e bateu a pasta na mesa. — E antes que os senhores percam tempo com votação inútil, é bom saberem que o controle da Ferraz Nexus não pertence a quem gritar mais alto. — Vá direto ao ponto, Silveira — Werner bufou, impaciente. — Estou falando do testamento de Horácio Ferraz. — O advogado abriu a pasta e tirou uma única folha com selo de cartório. — Quando o seu avô estruturou o contrato social, sabia que uma crise dessas podia acontecer. Por isso, incluiu uma cláusula de proteção sucessória com execução imediata. O ar sumiu da sala. Meu pai fechou os olhos com força e afundou na cadeira, como quem finalmente escuta a própria sentença. — Que cláusula? — perguntei, cravando os olhos no papel. Silveira sustentou o olhar, frio como gelo: — Uma aliança societária irrevogável, Rafael. Se a governança for ameaçada por um escândalo público na véspera da assembleia, a blindagem das suas ações só continua valendo sob uma condição. Senti o corpo inteiro travar antes mesmo de ele terminar a frase. Alguma coisa no jeito como o Silveira media as palavras me disse que aquela condição não tinha nada a ver com dinheiro. — Fala logo, Silveira — mandei, com o maxilar trincado. O advogado não piscou: — A cláusula do seu avô pode ser acionada contra você a qualquer minuto, Rafael. E pra garantir a sua permanência definitiva no comando, a escritura exige a união imediata com a família Montenegro. A sala congelou. Theo arregalou os olhos, sem reação. Os conselheiros começaram a se entreolhar, em choque. Os Montenegro eram os nossos piores inimigos há três décadas, uma guerra comercial que quase destruiu as duas famílias. Fiquei parado, o coração batendo um compasso estranho que eu não soube nomear na hora, nem raiva, nem pânico. Alguma coisa mais fria e mais funda do que as duas coisas juntas. Silveira fechou a pasta com um estalo seco e cravou os olhos nos meus: — Você sabe muito bem o que isso significa, Rafael.POV: Rafael FerrazO celular na minha mesa não parava de vibrar há quarenta minutos.Eram oito horas da manhã de segunda-feira. Antes que eu pudesse abrir a primeira pasta de auditoria do dia, Marcelo empurrou a porta do meu gabinete com o tablet nas mãos e um meio sorriso que raramente deixava escapar em horário de expediente.— Você já abriu as notícias hoje, Rafael?— Eu trabalho com infraestrutura e tecnologia, Marcelo, não com entretenimento — respondi, sem desgrudar os olhos do monitor. — Se for outra matéria do Nogueira sobre a assembleia, mande o jurídico despachar uma notificação extrajudicial.— Não é o Nogueira — Marcelo colocou o tablet sobre a mesa, deslizando a tela com o polegar. — É a coluna social do Estadão e o feed dos três maiores portais de finanças. Alguém na mansão do seu pai tirou uma foto durante o jantar de sábado e vazou para os bastidores do mercado.Puxei o aparelho para perto, os ombros tensos, esperando ver algum flagrante embaraçoso de desentendimento o
POV: Isadora MontenegroO eco dos passos de Rafael se afastando pelo corredor deixou a sala de jantar em um silêncio opressor.Helena Ferraz não se mexeu. Continuou apoiada no encosto da cadeira onde o irmão estivera sentado segundos antes, girando a taça de vinho pela haste com uma elegância preguiçosa. Só os olhos permaneciam imóveis, cravados em mim.— Você joga bem, Isadora — a voz dela saiu suave, cortando o ar da sala. — Na coletiva de imprensa, você parecia a advogada perfeita defendendo uma união histórica. Aqui nesta mesa, engoliu o veneno do meu pai sem piscar uma única vez. É uma performance impressionante para quem está noiva há menos de uma semana.Apoiei os braços no assento da cadeira, sem desviar os olhos dos dela.— Não é performance, Helena. É compostura. Uma habilidade básica para quem precisa lidar com conselhos de administração e homens que adoram testar a paciência alheia.Helena soltou uma risada curta, girando o líquido escuro na taça antes de dar mais um gole.
POV: Isadora MontenegroA sala de jantar da residência dos Ferraz parecia o cenário de um interrogatório de altíssimo padrão.O lustre de cristal maciço sobre a mesa de vinte lugares iluminava a prataria antiga da família, as taças lapidadas e os rostos das sete pessoas que fingiam estar ali apenas para brindar a um noivado promissor.Eu estava sentada à direita de Rafael, usando um vestido midi verde-esmeralda de corte reto e fechado, com o solitário de platina da mãe dele posicionado de forma impecável sobre a toalha de linho cru.Ao meu lado, Rafael mantinha a postura milimétrica de sempre: o paletó escuro ajustado, a mão esquerda apoiada ao lado do prato e o olhar atento a cada respiração ao redor da mesa.Na cabeceira, Augusto Ferraz presidia o jantar.O patriarca da família parecia ainda mais debilitado do que na reunião da crise: a pele acinzentada, a respiração curta e as mãos manchadas pela idade. Mas os olhos dele continuavam afiados como bisturis. Uma bengala de ébano com c
POV: Isadora MontenegroO técnico de redes guardou as ferramentas na maleta e conferiu o painel uma última vez.— Conexão criptografada ponto a ponto estabelecida com a rede da Montenegro Investimentos, doutora. Totalmente segregada da rede doméstica do apartamento.— Excelente. Muito obrigada, Tiago.Acompanhei o rapaz até o elevador e voltei para a biblioteca, onde a mesa de jacarandá — que antes abrigava só uma luminária de design italiano e compêndios intocados de economia — agora acomodava dois monitores, meu notebook blindado e as primeiras pastas de governança da Ferraz Nexus.Eu não estava naquela cobertura para ser uma presença decorativa. Ocupar a biblioteca era estratégia pura, e alinhei o resto com Neusa em cinco minutos: manutenção só às terças e sextas, sempre comigo no apartamento; café da manhã sem horário fixo. A governanta assentiu sem perguntar por quê — vinte anos cuidando da casa de Rafael tinham ensinado a ela quando uma ordem não precisava de justificativa.Enqu






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