INICIAR SESIÓNPOV: Isadora Montenegro
Fechei a pasta do embargo de patentes e larguei a caneta na mesa. — Três a zero para mim, doutor Ferraz — murmurei para a tela do computador, onde a decisão do juiz confirmava a terceira derrota consecutiva da Ferraz Nexus. O interfone tocou duas vezes antes que eu conseguisse levantar para pegar um café. — Doutora Isadora? — A voz da minha secretária soou tensa. — O gabinete da presidência da Ferraz Nexus acabou de enviar um portador especial com uma notificação lacrada. Não passou pelo contencioso. Foi entregue direto em mãos para o seu pai. Travei a mão na xícara. — Para o meu pai? — Sim. E ele pediu para a senhora ir até a sala dele. Agora. A Ferraz Nexus não usava portadores para falar com a Montenegro Investimentos há quase dez anos. As duas famílias só conversavam por meio de intimação judicial, recurso em segunda instância e alfinetada na imprensa de negócios. Qualquer coisa fora desse script cheirava a armadilha. Caminhei a passos largos pelo corredor do décimo quarto andar. Cruzei a antessala e abri a porta do gabinete da presidência sem me dar ao trabalho de bater. Meu pai estava de pé diante da janela panorâmica, de costas para a porta. Segurava uma folha de papel timbrado com a postura rígida de quem tentava, a todo custo, disfarçar o nervosismo por trás daquele terno impecável. — O que a Ferraz Nexus quer, pai? — fui direto até a mesa. — Se for outra proposta de acordo extrajudicial para liberar as licenças de software, a resposta é não. O parecer do meu compliance é indiscutível: a tecnologia foi desenvolvida com o nosso dinheiro antes da cisão. Daniel Montenegro virou devagar. Ele dobrou a folha ao meio antes de me encarar, com um vinco fundo entre as sobrancelhas. — Não é sobre as patentes, Isadora. Puxei a cadeira de couro e me sentei, cruzando as pernas. — Então é sobre o vazamento de dados que estourou nas redações de Brasília nesta manhã. Eu vi as prévias. A Ferraz Nexus tá com a corda no pescoço na licitação do governo. Eles querem que a gente retire os processos para não respingar no nosso nome? Meu pai soltou uma risada curta, sem um pingo de graça, e caminhou até a mesa. — Você sempre pensa rápido demais. Mas não é tão simples. — Nada entre os Montenegro e os Ferraz é simples há trinta anos — rebati, apoiando os cotovelos nos braços da cadeira. — O que eles escreveram nessa notificação para você ficar com essa cara de quem viu um fantasma? Meu pai colocou o papel dobrado sobre a mesa, mas manteve a palma da mão espalmada em cima, escondendo o texto. — É uma proposta de conciliação ampla. Fim de todas as disputas na justiça, divisão dos lucros das patentes e acesso irrestrito aos relatórios de governança da holding deles. Arqueei a sobrancelha, sem acreditar em uma única palavra. — A Ferraz Nexus tá oferecendo abrir a contabilidade para a gente? Por quê? O conselho deles nos odeia. O Augusto Ferraz preferia tocar fogo naquele prédio a dar uma cadeira para a nossa família. — O Augusto tá doente — meu pai respondeu, baixando o tom de voz. — E o homem que tá sentado naquela presidência agora não j**a o mesmo jogo que o pai j**ava. Fiquei alerta na mesma hora. Eu sabia muito bem de quem ele estava falando. Eu já tinha cruzado com Rafael Ferraz em duas audiências de conciliação em São Paulo. Ele não era do tipo que mandava emissário para pedir trégua. Um metro e noventa de puro cinismo, ombros largos e uma frieza cortante no olhar que parecia calcular o preço de cada pessoa na sala antes do primeiro aperto de mão. Ele não gritava, não ameaçava; simplesmente asfixiava os adversários pelo caixa até a empresa pedir arrego. Se aquele desgraçado estava recuando e oferecendo mundos e fundos, a faca no pescoço dele era muito mais afiada do que a imprensa noticiava. — O Rafael não dá um passo sem segundas intenções, pai — avisei, inclinando o corpo para a frente. — Qual é a pegadinha? O que ele exigiu em troca desse pacote de bondades? Daniel hesitou. Tirou a mão de cima da folha, mas não a empurrou na minha direção. — Tem uma pendência antiga, filha. Coisas da época em que eu e o velho Horácio rompemos a sociedade. Acordos amarrados em cartório que estão vindo à tona agora por causa dessa crise da bolsa. — Não me venha com rodeios — cortei, endurecendo a voz. — Eu sou a diretora jurídica desta empresa. Se tem um passivo podre estourando no nosso colo, eu preciso saber agora. O que o Rafael quer de você? — De mim, nada — meu pai finalmente soltou o papel e o empurrou pelo vidro da mesa. — Ele quer você. Franzi a testa e peguei a folha timbrada. Meus olhos correram pelas linhas impressas em papel pesado, terminando na assinatura arrogante e angulosa de Rafael Ferraz no rodapé. O texto era formal, conciso e assustadoramente direto. Não pedia reunião de diretoria. Não propunha fusão entre as duas empresas. Exigia a formalização de uma união civil irrevogável entre o diretor-presidente da Ferraz Nexus e a única herdeira de Daniel Montenegro, sob pena de execução fiduciária de ações. Li a cláusula duas vezes para ter certeza de que não era um delírio ou uma piada jurídica de péssimo gosto. Levantei os olhos para o meu pai, com um sorriso incrédulo travado na boca: — Ele quer que eu faça o quê?!POV: Rafael FerrazSete e vinte da manhã.Eu já estava de terno azul-marinho alinhado, sapatos engraxados e a pasta de trabalho fechada sobre a bancada da cozinha.Depois das poucas horas mal dormidas na suíte master, o meu primeiro instinto ao acordar foi restabelecer a ordem. A trégua silenciosa da madrugada, quando dividimos água gelada descalços e olhamos a cidade desarmados, precisava ser soterrada com urgência sob camadas grossas de pragmatismo.Se eu começasse a tratar Isadora Montenegro como uma parceira de verdade em vez de uma aliança de risco, o controle daquela farsa escaparia das minhas mãos antes do fim da semana.O som de saltos firmes na escada de vidro anunciou a descida dela.Isadora entrou na cozinha usando saia lápis preta, camisa de seda branca com os primeiros botões abertos e o cabelo escuro solto caindo pelos ombros. Ela não parecia nem de longe alguém que tinha passado a noite em claro; parecia pronta para tratorar o conselho inteiro da minha empresa.Caminhou
POV: Isadora MontenegroTrês e dezessete da madrugada.Eu estava deitada de olhos abertos na cama da suíte leste, encarando as sombras que a janela projetava no teto branco do quarto.Passei as últimas duas horas tentando desligar a cabeça, mas o silêncio daquela cobertura não era como o silêncio da minha antiga casa. Era um vazio pesado, pontuado apenas pelo estalo térmico do vidro blindado contra o vento da serra e pelo zumbido quase inaudível do ar-condicionado.Cada músculo do meu corpo continuava alerta.A consciência de que Rafael estava a menos de vinte metros de mim, no mesmo mezanino, funcionava como um alarme ligado na minha cabeça.A cena dele girando a chave dourada na tranca antiga do quarto da mãe e batendo a porta na minha cara não saía da minha mente. O homem que me enfrentava nos tribunais e calculava cada movimento da empresa com a frieza de uma máquina tinha uma ferida aberta no meio daquela casa. E eu agora morava dentro dela.Desisti de tentar dormir.Jog
POV: Isadora MontenegroFechei a última gaveta do closet da suíte leste com um empurrão bem firme.Minhas roupas de trabalho estavam penduradas em cabides de veludo, minhas pastas de processos organizadas sobre a escrivaninha de madeira clara e meus perfumes alinhados na bancada de mármore do banheiro. Em menos de duas horas, eu tinha tomado posse de cada centímetro daquele quarto no fim do mezanino.Mas do lado de fora daquela porta, o resto da cobertura continuava sendo território inimigo.Saí para o corredor acarpetado e apoiei as mãos no parapeito de vidro que dava para a sala de estar no piso inferior.O duplex de Rafael Ferraz não parecia a casa de um homem de trinta e quatro anos; parecia a sede de uma embaixada privada.Tudo era monumental, simétrico e estéril. Paredes em concreto polido, sofás de linho grafite e telas de arte abstrata que pareciam escolhidas por um consultor de investimentos, não por alguém que realmente gostava de pintura. Não havia uma única fotografi
POV: Isadora MontenegroOs disparos dos flashes eram tão rápidos que deixavam clarões brancos na minha vista a cada piscada.A bancada de madeira no palco do centro de convenções estava forrada por mais de vinte microfones de emissoras de televisão e portais de economia. Ao meu lado, a menos de trinta centímetros, Rafael vestia um terno sob medida cinza-chumbo, com a postura impecável de quem nasceu para comandar o mercado.— Boa tarde a todos — a voz dele ressoou limpa pelos alto-falantes, calando o burburinho na primeira fila. — Eu e a doutora Isadora Montenegro convocamos esta coletiva para oficializar o fim de todas as disputas judiciais entre os grupos Ferraz e Montenegro, e para consolidar o nosso compromisso público.Uma repórter de finanças levantou a mão no mesmo segundo:— Doutor Ferraz, o mercado foi pego de surpresa pela nota. Como fica a divisão das patentes de inteligência artificial com a unificação das duas empresas?— A transição será coordenada diretamente pela
POV: Isadora Montenegro A caixinha de veludo azul-marinho foi deixada sobre a mesa de centro com uma brusquidão que dizia mais do que qualquer palavra. Rafael deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a cara fechada na mesma expressão de quem só estava riscando o próximo item de uma lista burocrática. — A assessoria marcou a nossa primeira coletiva de imprensa para quarta-feira de manhã — avisou, a voz no piloto automático de sempre. — O mercado quer a confirmação visual do noivado. Você não pode aparecer na frente dos repórteres com a mão vazia. Fiquei encarando a caixa fechada por dois segundos antes de esticar o braço e puxar para mim. O veludo estava levemente gasto nas bordas — um detalhe antigo, discreto, que não combinava em nada com o padrão de ostentação que eu esperava de um bilionário querendo impressionar os jornais. Abri a tampa de uma vez. A peça cravada no centro não era uma daquelas joias modernas de vitrine de shopping. Era u
POV: Rafael Ferraz Larguei a pasta de couro preto no centro da bancada de mármore da cozinha da minha cobertura. A certidão de casamento assinada em cartório há menos de vinte e quatro horas repousava no bolso interno do meu paletó, mas aquele papel era só a blindagem jurídica contra o conselho. O que estava prestes a começar entre quatro paredes exigia um nível de controle muito mais rígido. Isadora entrou na cozinha puxando uma mala de mão rígida. Vestia jeans escuro, blazer cinza e sapatos baixos. Correu os olhos pelo espaço amplo, pelas janelas de pé-direito duplo com vista para a serra e, finalmente, pela pasta aberta diante de mim. — Bom dia para você também, Rafael — disse, soltando a mala perto da ilha central. — Já imprimiu o organograma da nossa vida de casados? Ignorei o deboche, empurrando a folha com as diretrizes na direção dela. — O caminhão com as suas caixas chega às duas da tarde com a transportadora que contratei. A portaria já cadastrou o seu reconhecim





