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CAPÍTULO 121 — CASA DO ROBERTO

Autor: A.C. Borges
last update Data de publicação: 2026-05-02 12:34:48

POV: LENA

Acordei de madrugada com o peito pesado.

Não chamei o Vincent.

Levantei devagar, peguei a bolsa e mandei mensagem pro meu pai.

"Posso aparecer?"

Três minutos:

"Porta está destrancada."

Toquei a campainha mesmo tendo a chave. Hábito. Ele tá recomeçando, tem que respeitar isso.

Meu pai abriu de pijama velho e cabelo amassado. Estava dormindo quando eu mandei — vi nas olheiras que não chegaram a sumir. Se afastou pra eu entrar sem perguntar nada.

Entrei.

O apartamento cheirando a café fo
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  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 177 — UM CHORO

    POV: Lena | 40 semanas Chegou. Não teve música subindo. Nem sensação mágica atravessando o teto. Nem aquele instante cinematográfico em que tudo congela. Foi mais humano do que isso. Mais físico. Mais brutal. Mais bonito. Um último esforço. Meu corpo inteiro queimando. A mão de Vincent presa na minha. A médica falando alguma coisa que eu não ouvi direito. E então— um choro. O som atravessou o quarto inteiro como se tivesse mudado a estrutura do ar. Pequeno. Forte. Indignado. Vivo. Meu corpo simplesmente desmontou depois disso. Não dramaticamente. Só... soltou. Como se tivesse segurado o mundo inteiro nos músculos por horas e finalmente pudesse deixar cair. Eu estava chorando antes de perceber. Não de filme. Não bonito. Só lágrimas escapando enquanto eu tentava respirar e entender que ela existia. De verdade. A médica disse alguma coisa sorrindo. Alguém se movimentou perto da luz. Mas tudo parecia distante porque eu só conseguia ouvir ela. Chorando. Nos

  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 176 — ELARA E ROBERTO ESPERANDO

    POV: Lena | 40 semanas A madrugada já tinha outra cara. Não era mais noite inteira. Nem começo de manhã. Era aquele intervalo estranho em que tudo parece suspenso e, ao mesmo tempo, pesado demais pra continuar parado. O hospital seguia brilhando daquele jeito caro e silencioso, mas a sala de espera já não parecia espera. Parecia vigília. De algum jeito, todo mundo ali tinha perdido a noção de tempo junto comigo. Eu ainda tava dentro do quarto. Vincent também. Mas conseguia sentir a sala inteira como se ela respirasse por outra janela. A minha cabeça já não tentava mais narrar tudo. Só algumas sobras vinham em fragmentos. A poltrona cara. O vidro fosco da divisória. A luz baixa que não mudava. O som do ar condicionado quase invisível. E a sensação de que cada pessoa naquela sala tinha encontrado um jeito diferente de segurar a própria ansiedade sem precisar fazer cena. Às três e quinze da manhã Elara apareceu carregando duas marmitas e uma sacola de padaria como se alimen

  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 175 —LÁ DENTRO

    POV: Lena | 40 semanas O problema do parto é que ninguém explica direito que existe um momento em que o corpo assume a liderança da situação e a cabeça vira passageira. Até então eu ainda estava tentando organizar tudo mentalmente. Tempo. Dor. Respiração. Ambiente. As pessoas entrando e saindo. As luzes. Os sons do monitor. Mas em algum ponto — eu não sei exatamente quando — isso mudou. Meu corpo simplesmente decidiu: agora é comigo. E honestamente? Foi assustador. Porque eu sempre vivi tentando controlar as coisas antes delas me controlarem. Pensando antes. Antecipando antes. Protegendo antes. Mas não existia "antes" ali. Só durante. Outra contração veio forte o suficiente pra apagar completamente a linha de pensamento no meio. E eu já tinha parado de fingir que conseguia narrar tudo direito. No começo da noite, a cabeça ainda tentava. Isso eu lembro. Tentava organizar em ordem. Tentava colocar nome no que estava acontecendo. Tentava transformar em pensamento

  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 174 — SALA DE ESPERA

    POV: Lena | 40 semanas O hospital era silencioso do jeito que só dinheiro compra. Não o silêncio de corredor vazio. O silêncio de espaço projetado pra ser assim — ar condicionado que você não ouve, iluminação que não pisca, recepção com madeira clara e vidro fosco e nenhuma cadeira de plástico à vista. A maternidade particular que Vincent tinha escolhido com quatro meses de antecedência tinha paredes que não ecoavam e poltronas que deviam custar caro pra caramba. Eu entrei com o corpo em partes e a mão dele na minha. A lombar doía. A barriga pesava. E o mármore frio da recepção debaixo dos meus pés era a única coisa concreta que eu conseguia registrar além da contração que vinha chegando devagar, avisando que não ia ser a última. A admissão foi rápida demais pra eu conseguir registrar tudo direito. Documento. Pulseira. Pergunta. Resposta curta. Outra pergunta. Outra resposta. A enfermeira falou alguma coisa pra Vincent dar espaço, mas ele ficou encostado na parede do quart

  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 173 — NO CARRO

    POV: Lena | 40 semanas A gente saiu de casa às cinco da manhã. São Paulo ainda tava escura pela janela do carro. Não aquele escuro bonito de madrugada tranquila. Escuro de cidade indiferente. De avenida vazia, semáforo piscando amarelo, poste aceso no meio da rua como se ninguém tivesse combinado nada com ninguém. O carro de Vincent deslizou pra fora da garagem sem pressa. Lá atrás, a mala. No banco do passageiro, eu. Com a mão na barriga e a outra apertando a lateral da porta, como se isso fosse me dar alguma estabilidade emocional. Não dava. Mas eu tava sem nenhuma vontade de discutir com a lógica. A casa ficou pra trás rápido demais. Ou talvez eu que estivesse indo devagar demais por dentro. Vincent dirigia com aquela calma que irritava e acalmava ao mesmo tempo. Mão no volante. Queixo reto. Olho na pista. O homem parecia ter nascido pronto pra rota de hospital, planilha mental, trânsito vazio e qualquer catástrofe doméstica embalada em madrugada. Eu olhei pela janela. A

  • O CONTRATO DIZIA ESPOSA. ELE LEU PROPRIEDADE.   CAPÍTULO 172 — NÃO ESTA NOITE

    POV: Lena | 40 semanas A segunda noite sempre chega com mais peso. Não porque o corpo fica pior de uma vez. É pior porque ele já avisou antes. Já deixou um sinal. Já fez você passar o dia inteiro em cima da dúvida. Já te obrigou a responder perguntas que ainda não têm resposta. Eu desci pra varanda porque o quarto tinha ficado impossível. Três travesseiros. Duas posições. Uma barriga que parecia ter trocado de lugar dentro de mim. Nada encaixava. Deitada, piorava. Sentada, piorava. Virada de lado, então, nem se fala. Parecia que a Sofia tinha resolvido se ajeitar na pior posição possível só pra mostrar que agora era com ela. Vincent veio atrás sem perguntar nada. Sempre isso. Sem interrogatório. Sem cara de pânico. Só o som dos passos dele me seguindo até a varanda, como se ele já soubesse que eu não tava indo pra apreciar a noite. Eu tava indo porque precisava de espaço pra respirar. A varanda tava fria do jeito certo. A lavanda que a Elara tinha plantado lá embaixo subia

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