INICIAR SESIÓNHelena caminhou até o banheiro, tentando não demonstrar que havia cedido. Thomas andava ao lado dela, tímido. Maria Clara os seguiu, fechando a porta atrás de si.
O banheiro era amplo e claro com uma banheira antiga de porcelana. Helena a encarou enquanto Maria Clara abria a torneira.
— E você sabe mesmo cantar? — Perguntou Helena com dúvida.
— Sei. — Maria Clara respondeu com calma. — Canto desde pequena.
O banho foi… caótico.
Mas, num instante inesperado, algo mudou.
Quando Maria Clara começou a lavar os cabelos de Helena com movimentos suaves, a menina permaneceu quieta. Não reclamou. Pelo contrário, fechou os olhos, relaxando pela primeira vez.
— Faz muito tempo que ninguém lava meu cabelo assim. — murmurou Helena, quase imperceptível.
Maria Clara suspendeu o gesto, surpresa pela franqueza repentina.
— E você gosta assim?
Helena hesitou… e deu um aceno pequeno.
— Então podemos fazer sempre que quiser. — disse Maria Clara, com ternura.
A menina abriu os olhos, ainda desconfiada daquele calor tão diferente do mundo rígido que conhecia.
Quando o banho terminou, Helena e Thomas estavam limpos, cheirosos e com roupas impecáveis.
— Agora você tem que cantar — lembrou Helena, com autoridade.
Thomas olhou apreensivo. Maria Clara sorriu, sentou-se no banco perto da janela e sinalizou para que eles se aproximassem.
— Está bem. Um combinado é um combinado.
Maria Clara encheu os pulmões e começou com uma canção suave, sua voz encheu o quarto com doçura.
Helena, que tentava manter o ar de braveza, foi cedendo. Thomas deitou a cabeça no colo de Helena que passou a afagar seus cabelos lisos e abundantes.
A música era como um afago.
Quando Maria Clara terminou, o silêncio ficou aconchegante.
Helena piscou devagar.
— Você sabe cantar bonito… mas é só uma música e você fez isso porque está aqui e é paga pra isso. — Acusou Helena, mas por dentro o coraçãozinho da menina estava sentindo um consolo que não queria admitir.
— Você está certa que é meu trabalho. — Maria Clara falou com sinceridade. — Mas eu amo o que faço. A partir do momento que entrei nesta casa, vocês passaram a fazer parte da minha vida e me dedicarei a vocês com todo carinho.
Thomas esfregou os olhos.
— Você vai amar a gente? — Perguntou ele com um fio de voz.
— Se vocês me deixarem. Agora venham aqui.
Incrivelmente os dois levantaram. Thomas primeiro a se achegar a ela e mesmo sem se aproximar, Maria Clara percebeu que ele queria um abraço. Ela se inclinou para ele e foi trazendo-o de leve para junto dela.
Helena, ainda resistente, também se aproximou e com uma das mãos trouxe Helena para junto de si e os três ficaram abraçados.
Maria Clara sentiu o peito apertar, sentia que a muito tempo aquelas crianças não recebiam um carinho ou até mesmo um abraço.
Ela passou a mão nos cabelos dos dois.
— Obrigada por confiarem em mim.
Era um gesto pequeno… era um início, mas também uma trégua, mas as crianças não iriam se render tão fácil.
****
O que Maria Clara não sabia…
…é que Álvaro estava parado no corredor, imóvel, observando pela fresta entreaberta da porta.
Ele estava preparado para encontrar bagunça e algazarra, mas encontrou outra cena.
Os filhos quietos abraçados a ela. Algo o tocou naquela cena, ele mesmo já não lembrava da última vez que abraçou seus filhos.
Ele saiu em silêncio.
*****
Na hora do jantar, as crianças sentaram-se à mesa impecavelmente arrumada, de frente para o pai e para Roberto.
Logo em seguida, Olavo deu o sinal, e os empregados começaram a servir o jantar.
Álvaro quebrou o silêncio.
— Então… o que acharam da sua nova preceptora? — perguntou, olhando para os filhos com uma serenidade, mas em tom frio
Helena e Thomas o encararam, surpresos. O pai raramente lhes dirigia a palavra durante as refeições.
— Ela é diferente das outras. — Helena deu de ombros, mas seus olhos brilharam por um instante, traindo o desinteresse. — Não é chata.
— Ela é bonita. — murmurou Thomas, baixinho, como se revelasse um segredo.
Roberto riu, divertido, inclinando-se para o pequeno.
— Concordo com você, Thomas. Desde pequeno já sabe apreciar uma mulher bonita.
Helena o corrigiu imediatamente
— Não se fala “mulher bonita”, tio Roberto. A gente fala “pessoa bonita”. — E revirou os olhos, numa mistura de inocência e superioridade infantil.
Roberto piscou para ela.
— Tem razão, minha princesa. Uma pessoa muito bonita.
Álvaro fechou a expressão e lançou um olhar gélido para o primo.
— Devo lembrá-lo que a senhorita Duarte é minha funcionária e minha responsabilidade. — Sua voz era firme, quase cortante. — Ela não é como as mulheres com quem você está acostumado. Portanto, mantenha distância e concentre-se no trabalho que veio fazer no Brasil.
Roberto sorriu de canto com um olhar divertido.
— Se eu não o conhecesse bem, diria até que está com ciúmes.
Helena ergueu o rosto, interessada.
— Papai com ciúmes? De quem? — perguntou com aquela curiosidade de criança.
— Não é ciúmes. — respondeu, num tom que não admitia réplica e olhar de alerta para Roberto. — Só estou alertando o seu tio para não incomodar a senhorita Duarte, ela foi criada num convento e está no noviciado.
Roberto se recostou, saboreando o desconforto do primo.
— Seria um desperdício uma beleza como a dela ser trancafiada num convento. E, convenhamos, Álvaro… não me diga que você não reparou que, por baixo daquelas roupas comportadas, existe uma mulher estonteante capaz de virar a cabeça de qualquer um.
Álvaro apertou a taça de vinho em sua mão.
— Se falar de novo desse jeito, vou pedir que se retire da minha casa e vá para um hotel.
— O tio disse que ela esconde… o quê? — Perguntou Thomas inocentemente.
— Nada que você precise saber. — Álvaro cortou, ríspido, antes que Roberto abrisse a boca com outra provocação. O olhar de Álvaro pousou nele como uma lâmina.
Roberto ergueu as mãos, fingindo rendição.
— Certo, certo, não vamos transformar o jantar num campo de batalha.
Álvaro respirou fundo, tentando recuperar o controle. As crianças percebendo o clima tenso, ficaram em silêncio. No restante do jantar só se ouvia o som dos talheres.
*****
Alheia a tensão na mesa da sala de jantar onde o silêncio reinava, Maria Clara conheceu os outros empregados da casa.
Depois que servirem os patrão. A refeição dos empregados foi servida a comida era mais simples, mas não mesmo saborosa.
— Não podemos negar que o conde nos trata bem. — Disse Olivia, uma das ajudantes da cozinha.
— Realmente. Já trabalhei em casa que os patrões só nos deixavam comer as sobras, mas raramente sobrava porque eles eram mesquinhos, então a gente se virava. — Foi a vez de Júlia falar, uma das arrumadeiras.
— Então você veio de um convento? — Perguntou Anastácia a cozinheira.
— Sim. Eu cresci lá. Sou órfã.
Essa revelação fez os presentes soltarem um murmúrio como que tivessem pena de Maria Clara, por isso ela sorriu.
— Tive uma infância feliz, as irmãs sempre foram boas pra mim.
Havia ainda na mesa de refeição, o motorista, que Clara ficou sabendo que se chamava Durval. O chef de cozinha Sérgio e ainda mais duas arrumadeiras, Solange e Raquel e ainda o jardineiro João e seu ajudante Matias.
Logo depois chegou Doralice que se juntou a eles. Somente Olavo e o copeiro, Avelino, permaneceram na sala de jantar para servirem o patrão e a família.
— E o que achou das crianças? — Perguntou Júlia.
— São adoráveis. — O semblante de Maria Clara mudou para séria. — Elas precisam de atenção e afeto.
Ninguém ousou comentar nada, apenas se entreolharam. Doralice foi a única que conseguiu falar algo.
— As crianças eram tão tranquilas, mas desde a morte da mãe… mas não vamos falar sobre isso.
Como se aquele assunto fosse proibido, rapidamente as conversas mudaram de rumo e Maria Clara começou a querer saber mais sobre a mãe das crianças e as circunstâncias da morte dela.
Quanto tivesse oportunidade iria conversar com Doralice, ela precisa saber para entender melhor as crianças e o comportamento frio do conde para com os filhos.
Às seis horas em ponto, os sinos da capela do solar romperam o entardecer com seu som grave anunciando o início da Missa de Ação de Graças.A luz dourada do pôr do sol atravessava os vitrais, tingindo o interior da capela com cores suaves. Aos poucos, o espaço foi sendo preenchido não apenas por pessoas, mas por histórias, reconciliações e novos começos.Os primeiros bancos estavam ocupados pela família.Teresa, a condessa mãe, mantinha o pequeno Filipe nos braços. A cena, por si só, já dizia muito, havia nela uma ternura que antes poucos tinham visto. Ao seu lado, Álvaro segurava Luiza, que, tranquila, brincava com os botões de sua camisa. Ao seu lado estava Guilherme com a esposa e o filho, integrado, presente… pertencendo àquela família. Mais atrás, os demais familiares se acomodavam, unidos como há muito tempo não se viam.No altar lateral, Helena ajustava-se diante do teclado. Já não havia nervosismo, estava acostumada a tocar nas missas que aconteciam uma vez por mês no solar.Ao
Pediram licença e foram ao encontro do casal. O cumprimento veio em forma de abraços sinceros, daqueles que carregam saudade.— Desculpem não termos vindo antes — disse Roberto, ainda segurando o ombro de Álvaro.— O importante é que vieram — respondeu Maria Clara, com um sorriso acolhedor. — As crianças perguntaram o tempo todo pelos primos.Os quatro voltaram o olhar quase ao mesmo tempo para o jardim para contemplar a cena.Helena, agora com doze anos já com traços de uma bela moça que estava se transformando, conduzia a brincadeira com uma natural autoridade. Havia nela um senso de cuidado que ia além da idade, como se se sentisse responsável por todos os menores. Thomas, aos dez, estava ao seu lado, atento, ajudando a manter a ordem com a mesma firmeza tranquila que lembrava tanto o pai.Mais à frente, Luiza segurava a mão de Eveline, filha mais velha de Roberto e Leonor. As duas, tão próximas em idade, separadas por apenas alguns meses pareciam inseparáveis. Já Jacinto, com seus
Em uma pequena capela de Milão, como tantas que guardam séculos de história e devoção, Suzana avançava pelo corredor de braços dados com o pai. Igreja era ricamente decorados por afrescos e detalhes renascentistas, criando uma atmosfera íntima e solene Ela estava elegante em um vestido cor creme, de linhas suaves, sem excessos. Nas mãos, segurava uma única rosa do mesmo tom, simples e perfeita como a escolha que a trouxera até ali.Os poucos convidados se voltaram para ela, tomados por admiração. Entre eles, algumas amigas e parentes que vieram do Brasil.Ao chegar ao altar, Samuel segurou a mão da filha com emoção e entregou-a a Lorenzo Bianchi.Lorenzo a recebeu com um sorriso sereno, mas profundamente apaixonado, aquele tipo de sentimento que não precisa se provar. Em seguida, Samuel afastou-se e foi ao encontro de Carla, que não conseguiu conter as lágrimas ao ver a filha ali, iniciando uma nova vida.Cinco anos haviam se passado desde que Suzana chegou a Milão para trabalhar com
Ao vê-la, ficou imóvel por um instante, como se o tempo tivesse parado. Seus olhos brilharam intensamente ao percorrer cada detalhe dela.— Como você é linda…Ele chegou a estender a outra taça, mas desistiu. Havia algo mais urgente no ar. Em silêncio, caminharam um ao encontro do outro.— Esperei tanto por esse momento… — murmurou ele, acariciando o rosto dela com ternura.Quando a puxou para si, o beijo que se seguiu já não tinha a mesma suavidade de antes. Tornou-se mais profundo e urgente. As mãos dele, agora mais seguras, deslizavam por ela mais exigentes para conhecer, como se quisessem memorizar cada detalhe.Marcelo ergueu o olhar por um instante, percebendo o estremecer de Sílvia a cada toque, a cada beijo depositado em seu pescoço e ombros.— Está nervosa? — perguntou, a voz rouca, mas suavizada por uma ponta de cuidado.— Tenho medo de decepcionar você…Ele sorriu, um sorriso verdadeiro, tranquilo.— Essa também é a minha primeira vez.Sílvia arregalou os olhos, surpresa.—
A pequena igreja estava adornada com flores claras e delicadas. Nada excessivo, nada grandioso, apenas elegância simples, exatamente como Sílvia desejava.Ramos de rosas brancas e folhagens suaves decoravam o corredor central. A luz da tarde atravessava os vitrais coloridos, criando reflexos suaves sobre os bancos de madeira.Os convidados conversavam em voz baixa, aguardando o início da cerimônia.Perto do altar, Marcelo aguardava. Ele tentava parecer tranquilo, mas suas mãos entrelaçadas revelavam a emoção.Ao seu lado estava o padrinho, Álvaro, impecável em um terno escuro perfeitamente ajustado.— Nervoso? — perguntou Álvaro com um leve sorriso.Marcelo soltou um suspiro.— Muito.Álvaro deu um pequeno tapinha em seu ombro.— Isso é um bom sinal.Então, ele retornou ao seu lugar de padrinho, posicionando-se ao lado de Maria Clara. Ela estava radiante em um elegante vestido de tom suave, que realçava com delicadeza a leve curvatura de sua barriga, já anunciando a vida que começava
A noite havia caído sobre Milão, trazendo consigo o brilho elegante da cidade.Luzes douradas refletiam nas vitrines das ruas e o murmúrio suave dos cafés e restaurantes preenchia o ar. O movimento era sofisticado, típico das noites milanesas, onde negócios, arte e encontros se misturavam naturalmente.Suzana estava sentada à mesa de um restaurante discreto e refinado, perto de uma grande janela. Ao longe, iluminada contra o céu escuro, erguia-se a silhueta majestosa do Duomo di Milano.Ela ainda se surpreendia com a beleza daquele lugar. À sua frente, sentado com natural elegância, estava Lorenzo Bianchi.Uma garrafa de vinho repousava entre os dois, e o jantar já estava servido. O encontro começou oficialmente como uma comemoração profissional.O projeto da casa no lago havia sido aprovado com entusiasmo. A residência ficaria em uma das encostas mais privilegiadas do Lago di Como.Suzana ainda lembrava do momento em que o cliente dissera:— É exatamente o que eu imaginei.Ela havia







