FAZER LOGINAlina ainda estava parada no centro do quarto quando bateram na porta.
Três toques firmes.
Precisos.
Sem hesitação.
Ela não respondeu de imediato.
Respirou fundo.
Endireitou a postura.
E só então disse:
— Entre.
A porta se abriu.
E, com ela, um pequeno exército.
Uma mulher elegante entrou primeiro, seguida por dois assistentes carregando araras com roupas, caixas organizadas e maletas de maquiagem.
— Senhorita Verone — disse a mulher, com um sorriso profissional. — Sou Helena Ardent. Responsável pela sua imagem a partir de agora.
“Imagem.”
A palavra soou estranha.
Fria.
Mas adequada.
Alina apenas assentiu.
— Não pedi isso.
Helena não se abalou.
— Eu sei. Mas agora faz parte da sua posição.
Posição.
Outra palavra que não lhe pertencia… ainda.
— Temos pouco tempo — continuou Helena, já avaliando o ambiente com um olhar clínico. — E muita coisa a ajustar.
Alina cruzou os braços.
— Ajustar?
Helena finalmente voltou a encará-la.
— Transformar.
Silêncio.
Mas não era ofensivo.
Era… objetivo.
Alina sustentou o olhar por alguns segundos.
E então disse:
— Não vou ser moldada.
Helena sorriu levemente.
— Ótimo.
Uma pausa.
— Porque eu não trabalho com bonecas.
Isso fez Alina arquear a sobrancelha.
— Então com o que você trabalha?
— Com potencial.
Helena deu um passo à frente.
— E você tem muito.
Aquilo não foi um elogio.
Foi uma constatação.
E, pela primeira vez desde que aquela equipe entrou, Alina se permitiu… observar.
As roupas.
Os tecidos.
Os cortes.
Tudo sofisticado.
Elegante.
Mas não exagerado.
— O evento de hoje não é apenas um anúncio — Helena continuou. — É uma declaração.
— De quê?
— De posição.
Ela pegou um vestido da arara.
Preto.
Longo.
Fluido.
Com um corte impecável que equilibrava força e feminilidade sem esforço.
— Você não pode entrar lá como alguém que foi escolhida — disse Helena.
Uma pausa.
— Você entra como alguém que decidiu estar ali.
Silêncio.
A frase ficou.
Forte.
Direta.
E fez sentido.
Alina descruzou os braços.
— Certo.
Helena sorriu de leve.
— Vamos começar.
—
O processo não foi rápido.
Nem superficial.
Cada detalhe foi pensado.
Cada escolha… estratégica.
O cabelo, preso em um coque elegante, com alguns fios soltos apenas o suficiente para suavizar a expressão sem tirar a firmeza.
A maquiagem, marcada nos pontos certos, valorizando o olhar sem exagero.
A pele impecável.
Os lábios definidos.
Nada gritava.
Mas tudo… impactava.
Alina observava o próprio reflexo enquanto a transformação acontecia.
Não como alguém que se perdia ali.
Mas como alguém que estava… sendo revelada.
— Você não precisa parecer forte — disse Helena, ajustando um detalhe no vestido. — Você já é.
Alina não respondeu.
Mas absorveu.
—
Quando finalmente se levantou…
o silêncio tomou conta do quarto.
Até os assistentes pareceram parar por um instante.
O vestido caía perfeitamente no corpo dela.
Elegante.
Imponente.
Sem excessos.
Sem esforço.
Os saltos aumentavam sua altura o suficiente para impor presença.
Mas era o olhar…
que mudava tudo.
Alina se aproximou do espelho.
Devagar.
Observando.
A mulher refletida ali não era a mesma que tinha entrado naquela mansão.
Ainda era ela.
Mas…
mais definida.
Mais consciente.
Mais perigosa.
— Agora — disse Helena, ao lado dela — eles vão olhar.
Uma pausa.
— E não vão saber exatamente por quê.
Alina inclinou levemente a cabeça.
— Ótimo.
—
Minutos depois, a porta se abriu novamente.
Mas dessa vez…
não foi Helena.
Foi ele.
Dante Volkov.
Ele parou na entrada.
E, por um breve instante…
ficou em silêncio.
Os olhos dele percorreram cada detalhe.
Lento.
Calculado.
Mas havia algo diferente ali.
Algo que não estava antes.
Alina percebeu.
E não desviou o olhar.
— Pronta? — ele perguntou.
Mas o tom não era o mesmo de antes.
Havia algo mais baixo.
Mais contido.
— Sempre estive — ela respondeu.
Dante deu alguns passos para dentro.
Parou diante dela.
A distância entre os dois era mínima.
Mas suficiente para manter o controle.
Ou quase.
— Você entendeu rápido — disse ele.
— Eu não gosto de parecer despreparada.
— Nem de parecer inferior.
Ela sustentou o olhar.
— Eu não sou.
Silêncio.
Mas agora…
carregado.
Dante estendeu a mão.
Não como comando.
Como convite.
— Então vamos mostrar isso.
Alina olhou para a mão dele.
Por um segundo.
Dois.
E então…
segurou.
O toque foi firme.
Seguro.
Sem tremor.
Mas havia algo ali.
Algo que nenhum contrato previa.
Algo que nenhum dos dois mencionaria.
Eles caminharam juntos até a saída.
E, naquele instante…
não parecia mais apenas uma encenação.
Parecia…
um início.
—
Do lado de fora, o carro já os aguardava.
Mas dessa vez…
não havia anonimato.
Havia expectativa.
Câmeras.
Luzes.
O mundo pronto para ver.
Dante abriu a porta para ela.
Alina entrou.
Sem hesitar.
Sem olhar para trás.
Porque, naquele momento…
ela não era mais a filha esquecida dos Verone.
Ela era…
a mulher ao lado de Dante Volkov.
E, mais importante ainda…
era alguém que tinha escolhido estar ali.
O cartório civil central estava silencioso naquela manhã.Não vazio.Nunca vazio.Havia pessoas sentadas com pastas no colo, crianças inquietas, funcionários chamando senhas, casais tentando esconder o nervosismo e famílias aguardando documentos que mudariam alguma coisa em suas vidas.Mas, para Alina, aquele lugar nunca seria comum.Não depois de tudo.Ela ficou parada diante da escadaria por alguns segundos, sentindo o vento leve mover a barra do vestido claro que usava. Não era um vestido de noiva. Não naquele dia. Era simples, elegante, sem exageros. Ainda assim, quando Gael a viu descendo do carro, ficou imóvel por tempo suficiente para fazê-la sorrir.Ele estava ao lado dela agora, usando um terno escuro e segurando sua mão como se aquele gesto ainda tivesse o poder de salvá-lo de alguma coisa.Talvez tivesse.Alina olhou para os dedos entrelaçados aos dele.A aliança brilhava de forma discreta.Não como troféu.Como escolha.— Você está quieto — ela disse.Gael virou o rosto pa
O tempo não curou tudo.Alina descobriu isso nos meses que vieram depois.Havia feridas que não fechavam apenas porque os culpados tinham sido presos, porque os arquivos tinham sido recuperados ou porque o nome Helix finalmente começava a aparecer em investigações oficiais, reportagens e depoimentos protegidos.Algumas dores continuavam ali.Silenciosas.Teimosas.Gael ainda acordava em certas noites com a respiração presa, como se uma parte dele tivesse voltado para a sala branca onde ensinaram um menino a ter vergonha de pedir afeto. Às vezes, bastava um som no corredor, uma palavra mal colocada em uma reportagem, uma ligação de número desconhecido. O corpo dele reagia antes da razão.E, nessas noites, Alina aprendia a não tentar resolver tudo.No começo, sua vontade era fazer planos. Acionar segurança. Revisar câmeras. Ligar para Dante. Mapear riscos. Destruir qualquer ameaça antes que encostasse nele.Mas Gael não precisava apenas de estratégia.Precisava dela.Então Alina aprende
Octavio Verone não foi encontrado em uma mansão, nem em um escritório blindado, nem em uma sala cercada por advogados.Foi encontrado tentando sair da cidade.Sozinho.Sem Lavínia.Sem aliados.Sem o império que sempre acreditou obedecer ao seu sobrenome.A notícia chegou a Gael ainda no pátio do Armazém Brenner, enquanto paramédicos insistiam em avaliar seu ferimento e Alina permanecia ao lado dele como se qualquer distância fosse uma afronta pessoal.Dante recebeu a ligação, ouviu em silêncio e depois olhou para os dois.— Encontraram Octavio.Gael ficou imóvel.A mão dele, que estava entrelaçada à de Alina, apertou a dela por instinto.Alina sentiu.Não disse nada.Aquele momento não pertencia a ela.Pertencia a ele.— Onde? — perguntou Gael.A voz saiu baixa.Mais cansada do que furiosa.— Em um hangar privado. Tentando embarcar com documentos falsos e parte dos registros financeiros que ainda conseguiu mover.Gael soltou uma risada curta, sem humor.— Claro.Octavio fugia como se
A fumaça subia pela entrada lateral do Armazém Brenner como um aviso.Fina.Clara.Controlada.Não era incêndio comum.Era destruição planejada.Alina sentiu o corpo inteiro entrar em alerta antes mesmo de Dante frear completamente. A porta do carro mal terminou de abrir e ela já estava do lado de fora, encarando o prédio com a garganta apertada.Ali dentro estavam as provas.Os nomes.Os protocolos.As dores transformadas em arquivos.E, entre tudo aquilo, estavam também as partes da história de Gael que a Helix ainda acreditava possuir.Gael saiu logo depois, mais lento por causa do ferimento, mas com o olhar firme. Alina percebeu o esforço dele e sentiu o impulso de mandar que ficasse no carro. Engoliu a ordem antes que ela nascesse.Ao lado.Ele tinha pedido isso.E ela tinha prometido.Dante correu até a grade, analisando a fechadura e as câmeras.Ivar chegou ofegante, pálido, olhando para a fumaça como quem reconhecia um erro antigo voltando para cobrar.— Eles começaram pelo su
A entrada da promotora mudou a temperatura da sala.Selene ainda estava de pé, impecável, mas agora a elegância parecia menos armadura e mais máscara. A presença de agentes oficiais, da jornalista com a pasta nas mãos e de Ivar disposto a falar criava algo que ela não controlava mais.Registro.Testemunha.Consequência.Alina sentiu a mão de Gael na sua. Forte. Quente. Ainda um pouco trêmula, mas firme o bastante para permanecer.A promotora aproximou-se da mesa sem pressa.— Quem aqui é Ivar Soren?Ivar ergueu o rosto.— Eu.— A jornalista disse que o senhor tem informações sobre a estrutura conhecida como Helix.Selene soltou uma risada baixa.— Estrutura conhecida por quem, exatamente? Por uma jornalista desesperada, uma herdeira emocionalmente instável e um homem tentando se redimir tarde demais?Alina deu um passo à frente, mas Dante ergueu discretamente a mão.Não agora.A promotora não pareceu se abalar.— Senhora Arvoth, a senhora terá oportunidade de falar. Por enquanto, eu f
A presença de Ivar na sala mudou tudo.Selene não se moveu por alguns segundos. O rosto permaneceu elegante, quase intacto, mas os olhos entregaram o golpe. Não era medo comum. Era cálculo quebrando antes de encontrar nova forma.Alina percebeu.Dante também.Gael apertou a mão dela, e aquele toque silencioso bastou para lembrá-la de respirar.Ivar entrou devagar, como alguém atravessando não apenas uma sala, mas anos de obediência. Ele não parecia vitorioso. Parecia cansado. Talvez porque escolher o lado certo depois de tanto tempo no lado errado não tivesse gosto de triunfo. Tinha gosto de dívida.Selene virou o rosto para ele.— Você sempre foi mais fraco do que acreditava.Ivar não reagiu de imediato.A jornalista se levantou um pouco, atenta, a caneta parada sobre o bloco.— Fraco? — Ivar repetiu, com voz baixa. — Talvez. Durante muito tempo, confundi covardia com disciplina.Selene sorriu sem humor.— E agora confunde culpa com redenção.— Não. Redenção seria fácil demais para o







