INICIAR SESIÓNJADE
Na segunda semana, os vídeos explodiram.
Não foi gradual. Foi do tipo que você dorme com quarenta mil views e acorda com dois milhões, e o I*******m fica lento de tantas notificações chegando ao mesmo tempo, e você fica olhando pra tela pensando que o número vai parar de subir e ele não para.
Jade estava na cozinha com o café quando viu. Ficou parada com a xícara na mão até o café esfriar.
180 mil seguidores viraram 300 mil em quatro dias.
Marcas que tinham ignorado três e-mails seguidos começaram a mandar mensagem perguntando disponibilidade. Uma agência de talentos pediu reunião. O algoritmo empurrou os vídeos dela pra qualquer pessoa que tivesse assistido conteúdo sobre aposta, renda extra, dinheiro rápido, “como ganhar online”.
Rayssa apareceu atrás dela na manhã do terceiro dia e olhou os números por cima do ombro.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Caralho... você tá em todo canto agora.
— É.
Jade fechou o notebook
Rayssa ainda ficou olhando pra ela por um segundo.
— Tá feliz?
— Tô.
Mentiu.
Mas dessa vez a mentira saiu mais pesada.
Ela percebeu isso imediatamente.
RAFAEL
Os números chegaram no relatório das 7h.
Igor colocou o tablet na mesa do terraço ao lado da xícara branca de sempre, sem dizer nada. Rafael olhou os gráficos enquanto terminava o café.
Curva de crescimento acima do projetado.
Taxa de conversão maior que a dos últimos seis influenciadores.
Oitenta mil cliques no link em quarenta e oito horas.
Funcionava. Era isso que tinha que fazer.
— Ela respondeu a mensagem — Igor comentou, acendendo o cigarro.
Rafael levantou os olhos do tablet.
— Qual mensagem?
Igor tragou antes de responder. Sempre fazia isso quando queria medir o peso da informação antes de entregar.
— A enviada por um dos perfis de monitoramento.
Virou o celular na direção dele.
A DM ainda estava aberta.
"Você sabe que aqueles vídeos são falsos?"
E abaixo, a resposta dela, enviada às 23h14: "Quem é você?"
Rafael leu uma vez.
Depois devolveu o celular.
— Ela bloqueou antes da resposta?
— Sim.
— Então não é problema.
Igor guardou o aparelho no bolso do paletó. Não disse mais nada — o que significava que havia mais alguma coisa.
Rafael percebeu antes mesmo de perguntar
— O que foi?
— Ela criou conta no aplicativo ontem à noite. Chegou até a tela de depósito. Mas não colocou dinehiro.
Rafael ficou olhando pra cidade lá embaixo por alguns segundos.
O céu de São Paulo ainda estava naquele cinza lavado das sete da manhã. Carro demais. Gente demais. Tudo funcionando cedo demais.
— Liga pro advogado.
Igor esperou o resto da frase.
— Lembrete de rotina.
JADE
O advogado ligou às 8h43.
Jade reconheceu o número antes mesmo de atender.
— Sra. Moraes. Percebo que criou uma conta no aplicativo ontem à noite.
Ela ficou parada no meio da cozinha.
— Atividade pessoal na plataforma não é vedada pelo contrato — ele continuou, com a mesma voz calma e polida de sempre. — Apenas um lembrete de rotina.
Jade apertou o celular contra a orelha.
— Certo.
— Ah, e mais uma coisa.
O tom não mudou.
O que piorava tudo.
— Notei que respondeu a uma mensagem anônima ontem. As pessoas nem sempre são quem parecem, Sra. Moraes. Sugiro cautela.
A ligação encerrou antes que ela respondesse.
Jade continuou imóvel por alguns segundos.
Eles sabiam da conta. Sabiam da mensagem. Sabiam que ela tinha respondido antes de bloquear.
Ela foi pro quarto, abriu o notebook e digitou: "Tigrinho reclamações" no G****e.
Fóruns. Denúncias. Prints. Depoimentos. "Perdi R$4.000 em dois dias." "O saque nunca chega." "A conta some depois que você tenta cancelar." E em três threads diferentes, a mesma expressão: conta demo. Os vídeos usam conta demo. O dinheiro não é real.
Jade já sabia disso. Sabia desde o primeiro dia no estúdio. Desde o celular que não era dela. Desde o saldo falso piscando na tela. Desde Henrique rindo quando ela disse que nunca tinha apostado.
Ela sabia.
Mas saber e ter a palavra escrita por outra pessoa numa tela são coisas diferentes.
Ela tinha 300 mil seguidores. E cada um deles tinha visto o vídeo.
Fechou o notebook.
Ficou sentada na beira da cama. Pegou o celular. Abriu o I*******m. Achou a DM da conta bloqueada, ainda aparecia no histórico, mas sem foto de perfil.
"Você sabe que aqueles vídeos são falsos?"
Tinha bloqueado sem responder. Tinha sido o certo a fazer.
Criou um perfil descartável. Sem foto, sem nome real. Entrou no histórico e mandou mensagem pro número de origem da conta bloqueada.
"Você disse 'vídeos'. No plural. Quando eu só tinha postado um. Como você sabia que viria mais?"
Mandou.
Ficou olhando pra tela. Mensagem entregue. Um tique — não lida.
Foi fazer almoço. Voltou. Ainda um tique.
Foi tomar banho. Voltou. Dois tiques.
Lida.
Sem resposta.
Às seis da tarde, a notificação chegou, não pelo I*******m. Por e-mail, remetente do escritório de advocacia, assunto: Lembrete contratual — comunicação com terceiros.
O corpo do e-mail tinha duas linhas.
Conforme cláusula 12, qualquer comunicação relativa às operações da contratante com terceiros não identificados configura infração passível de multa. Este é o primeiro aviso formal.
Primeiro.
Jade ficou olhando pra palavra.
Primeiro.
O celular vibrou. Notificação automática do Tiger Bet: segunda rodada de conteúdo confirmada para sexta-feira. Roteiro em anexo.
Ela olhou pro e-mail. Olhou pra notificação.
Tinha mandado a mensagem às duas da tarde. O aviso chegou às seis.
Quatro horas.
Alguém tinha visto a conversa em tempo real. E repassado pro advogado antes mesmo de responder.
Jade abriu o roteiro de sexta.
E pela primeira vez desde que assinou o contrato, sentiu medo antes de curiosidade.
POV: JADEO apartamento que compramos juntos, seis meses depois do casamento, tinha uma varanda pequena de frente para o quintal comum do condomínio. Não era o terraço do Itaim Bibi. Não era nenhuma cobertura que tivesse feito parte da nossa história. Era só um apartamento de casal comum, num bairro comum, com vizinhos que não sabiam nada sobre Malta Ventures, Tiger Bet ou o resto do passado que a gente tinha deixado pra trás.Estava na mesa da cozinha, numa quinta-feira comum, com o notebook aberto na minha frente, quando Rafael entrou trazendo dois envelopes que tinham chegado pelo correio naquela tarde.— Um é seu — ele disse, entregando o primeiro, um envelope grosso com o timbre do Ministério Público. — E o outro é nosso.Abri o meu primeiro. Era a confirmação oficial: o Cláusula Doze tinha sido convidado a se tornar parceiro permanente da nova secretaria de proteção ao consumidor digital, com financiamento público garantido pelos próximos três anos.— Rafael — falei, a voz trava
POV: RAFAEL O casamento aconteceu num sítio pequeno na Serra da Cantareira, longe o suficiente de qualquer prédio corporativo pra parecer outro mundo, perto o suficiente pra todo mundo chegar em menos de uma hora de carro. Não convidamos imprensa, não fizemos anúncio nas redes do Cláusula Doze, não avisamos ninguém do conselho de Valletta além do estritamente necessário pra logística de segurança discreta. Era um dia nosso, dos poucos que conseguíamos manter completamente livres de holofote depois de tudo que tínhamos atravessado em público. Fiquei parado debaixo do arco de flores brancas improvisado, ajustando a gravata pela décima vez, enquanto Igor, ao meu lado como padrinho, revirava os olhos. — Você sobreviveu a tiroteio em Santos sem suar essa quantidade — ele comentou, baixo. — Relaxa, chefe. — Isso é diferente — respondi, sentindo o coração bater mais forte do que em qualquer confronto armado que já tinha enfrentado. — É — Igor concordou, o tom ficando sério por um segun
POV: JADE Um ano depois, o estúdio da Vila Madalena já tinha dobrado de tamanho, ocupando o andar inteiro do prédio que antes dividíamos com uma produtora de podcast que nunca decolou de verdade. O Cláusula Doze empregava seis pessoas agora, incluindo dois advogados de plantão e uma equipe de moderação que filtrava as centenas de mensagens que chegavam todo dia. Estava sentada na minha mesa, revisando o roteiro de uma nova série de vídeos sobre contratos de afiliados digitais, quando Rayssa bateu na porta do escritório, um envelope grande na mão. — Chegou pelo correio — ela disse, entregando o envelope. — Parece oficial. Abri, encontrando um convite formal do Ministério Público, convocando o Cláusula Doze pra participar como parceiro técnico numa nova comissão parlamentar, dessa vez focada em regulamentação de contratos de influenciadores digitais em nível nacional. — Eles querem a gente lá — falei, sentindo o peso bom daquela frase. — Oficialmente, como consultoria. — Faz senti
POV: RAFAEL O telefone tocou durante o jantar, um número que eu não reconhecia imediatamente, mas que trazia o prefixo internacional que já tinha aprendido a associar com más notícias ou revelações inesperadas. — Pode ser importante — falei, me levantando da mesa, Jade continuando a comer o risoto que eu tinha preparado, os olhos me acompanhando com curiosidade discreta. Atendi, saindo pra varanda pequena do apartamento novo. — Rafael Lima — a voz do outro lado era formal, com um sotaque que eu reconheci depois de alguns segundos como policial internacional, talvez Interpol. — Meu nome é agente Ferreira, ligando a pedido do Lorenzo Valchiera. Preciso confirmar uma informação com o senhor. — Pode falar — respondi, o corpo tenso apesar de tudo. — Localizamos um corpo na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, próximo a Ponta Porã, há três dias. As digitais conferem com o registro internacional de um indivíduo conhecido pelo codinome "o Russo", associado à estrutura da Malta Venture
POV: JADE Quatro meses depois da sentença, o estúdio que eu tinha alugado na Vila Madalena parecia impossivelmente diferente daquele quartinho apertado da Consolação onde Henrique costumava gravar meus vídeos de propaganda disfarçada. Paredes brancas, iluminação profissional, um fundo neutro que eu tinha escolhido justamente pra não distrair de nada além do conteúdo. Ajeitei o microfone lapela, checando o enquadramento na tela do notebook conectado à câmera. — Nervosa? — Rayssa perguntou, sentada num banco alto ao lado do tripé, ajudando a controlar os comentários que já começavam a se acumular na live de pré-lançamento. — Um pouco — admiti, sentindo o estômago revirar do jeito bom, não do jeito que eu tinha aprendido a temer nos últimos meses. — É diferente de gravar escondida atrás de uma parede de concreto em Juquitiba. — Pra melhor — ela completou, sorrindo. O contador regressivo na tela chegou a zero, e a live foi ao ar. — Oi, gente — comecei, a voz mais firme do que eu es
POV: RAFAEL O avião pousou em Fortaleza sem nenhuma urgência dessa vez, sem prazo correndo, sem viatura esperando na pista, sem infiltrado documentando rota. Só eu e Jade, malas de mão, e um fim de semana livre que ela tinha insistido em reservar assim que o projeto Cláusula Doze permitiu a primeira pausa real em meses. O calor bateu diferente quando saímos do aeroporto. Não era o calor tenso da corrida contra o relógio da última vez. Era só calor de verdade, úmido, pesado, o tipo que nao pede pressa nenhuma. Dona Célia esperava na porta de casa quando o táxi parou. O cabelo estava mais cheio do que da última vez, a pele com uma cor que eu ainda não tinha visto nela — sinal de que a quimioterapia finalmente parecia funcionar de verdade, não só empurrar o problema por mais um ciclo. — Minha filha. — Ela abraçou Jade com força, os olhos já marejados antes mesmo de soltar. — Oi, mãe — Jade respondeu, a voz embargada. Dona Célia me olhou por cima do ombro dela, com aquela curiosidad