INICIAR SESIÓNAo descermos a escada de ferro, o salão do Sub-Solo parecia outro lugar. Onde antes havia quinze homens disputando minha atenção, agora restava apenas o silêncio, o cheiro de uísque envelhecido e o som do barman polindo copos de cristal. O ambiente, que antes parecia opressor, agora parecia vazio demais comparado à intensidade do que eu acabara de viver no andar de cima.
Sarah estava encostada no balcão, terminando um drink colorido. Assim que nos viu, ela abriu um sorriso que misturava alívio e uma malícia que ela nem tentava esconder.
— Ora, ora... A minha amiga desaparece por quase uma hora e volta com o homem mais difícil de Santa Branca — Sarah disse, colocando o copo de lado e caminhando em nossa direção. — Alex, eu passei a noite planejando como ia te apresentar para a Clara, mas pelo visto vocês dois resolveram pular o protocolo e as apresentações.
Alex manteve a postura impecável, o rosto voltado para Sarah com uma cortesia fria.
— Digamos que a Clara sabe como chamar a atenção para os pontos certos, Sarah — ele respondeu, a voz de barítono voltando ao tom controlado de antes, embora eu ainda pudesse sentir o calor da pele dele na ponta dos meus dedos.
— Clara, me desculpa por aquele imbecil do Victor — Sarah disse, mudando o tom para algo mais sério e segurando meu braço. — Eu juro que não sei quem o convidou. Ele não faz parte do meu círculo de confiança. Ver ele tentando te forçar a chamá-lo de "senhor" me deu náuseas.
— Está tudo bem, Sarah — respondi, tentando manter a voz firme apesar das pernas ainda um pouco bambas. — Já passou. O Alex resolveu a situação... e o resto também.
Troquei um olhar rápido com ele. Havia um segredo compartilhado entre nós agora, algo que nem a Sarah, com toda a sua intuição, conseguia mensurar completamente.
— Bom, acho melhor irmos — eu disse, querendo processar tudo no silêncio do meu capacete. — O bar já está fechando.
— Como você vai embora, Clara? — Alex perguntou, a voz soando como um comando disfarçado de gentileza. — Posso te levar.
— Eu vim de moto — apontei para a chave que eu já segurava, diferente daquela que ele me entregara minutos atrás. — E a Sarah vai pedir um Uber, já que ela mora para o lado oposto.
Houve uma hesitação no olhar dele. Alex não parecia o tipo de homem que gostava que suas mulheres dirigissem sozinhas à noite, especialmente em Santa Branca, mas ele apenas assentiu.
— Sábado, às nove — ele lembrou, a voz baixa, apenas para mim.
— Estarei pronta.
Nos despedimos de Sarah na porta do bar. Ela me deu um abraço apertado e sussurrou: "Me conta tudo amanhã ou eu morro!". Eu apenas ri, sentindo o peso da maquiagem e do cansaço começando a bater.
Alex e eu caminhamos juntos em direção ao estacionamento subterrâneo que atendia ao bar e aos prédios comerciais vizinhos. O lugar era imenso, uma caverna de concreto com luzes fluorescentes que piscavam, criando sombras longas e distorcidas entre as colunas de sustentação. O Setor Norte era movimentado, mas ali embaixo, o som do trânsito era apenas um murmúrio distante.
O carro dele, um sedã preto fosco que exalava poder, estava parado logo no início da primeira rampa. Paramos ao lado dele.
— Tem certeza de que não quer deixar a moto aqui e ir comigo? — ele insistiu, os olhos cinzas me estudando.
— Eu sei me cuidar, Alex — respondi com um meio sorriso, tentando mostrar a independência que meus pais me ensinaram a ter. — Além disso, o Banguela não perdoa atrasos para o café da manhã.
Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre nós. Por um segundo, achei que ele fosse me beijar ali mesmo, sob a luz fria do estacionamento, mas ele apenas tocou meu queixo, levantando meu rosto.
— Até sábado, Clara. Tente não pensar demais.
— Difícil pedir isso para uma arquiteta — brinquei.
Ele entrou no carro e eu caminhei em direção à minha moto, que estava estacionada alguns metros mais ao fundo, em uma vaga para veículos de duas rodas perto de uma pilastra maciça. O som dos meus saltos estalando no cimento queimado parecia alto demais, ecoando pelo espaço vazio.
Eu estava a apenas três passos da moto, já tirando o capacete do suporte, quando a sensação de segurança desapareceu.
Um movimento súbito à minha direita, vindo da sombra da pilastra, me fez estacar. Antes que eu pudesse gritar ou reagir, uma mão áspera e forte envolveu minha boca, abafando qualquer som. Outro braço circulou minha cintura com uma força bruta, me tirando do chão.
— Achou que ia se livrar de mim assim tão fácil, vadia? — O hálito de cigarro e uísque barato atingiu meu rosto, e eu reconheci a voz imediatamente.
Victor.
Com o encerramento de O Dominador de Clara, finalizamos uma história de superação onde as cicatrizes foram transformadas em ouro. Preciso fazer um agradecimento especial pela paciência e compreensão de todos; sei que, em diversos momentos, houve demora no lançamento de alguns capítulos, mas cada espera valeu a pena para entregarmos este desfecho. No entanto, o fim de um império é apenas o prefácio para o nascimento de outro, muito mais sombrio e implacável. Preparem-se para a nova obra de Lina Amar: Próximo Lançamento: Sequestrada por um Traidor O que acontece quando o seu carrasco é a única ponte para a sua coroa? Esqueça as histórias de amor convencionais. Em Sequestrada por um Traidor, entramos em um território onde a lealdade é moeda de troca e o desejo nasce do ódio mais profundo. O que esperar? Aqui, a sobrevivência não é uma escolha, é uma guerra. Prepare-se para uma narrativa visceral, onde o poder da máfia siciliana encontra a fúria de uma mulher que se recusa a se
A quietude da madrugada na cobertura foi interrompida não por um alarme ou uma ameaça, mas pelo som mais transformador que já ecoou entre aquelas paredes: o primeiro choro de uma vida que carregava nosso sangue e nossa história.O nascimento não foi apenas um evento médico; foi uma cerimônia de cura. Alex não saiu do meu lado por um único segundo. O homem que outrora buscava o controle absoluto através da força, ali, naquela sala de parto, encontrou seu poder na entrega. Suas mãos, que já haviam segurado armas e assinado contratos bilionários, tremiam ao sustentar o corpo minúsculo do nosso filho enquanto ele o entregava ao meu peito.— Ele é perfeito, Clara — Alex sussurrou, a voz embargada, enquanto nos envolvia em um abraço que selava definitivamente o nosso dest
O ateliê da cobertura, que antes era o santuário da minha arquitetura profissional, transformou-se no quartel-general do nosso projeto mais ambicioso. Sobre a grande mesa de carvalho, as plantas de edifícios corporativos deram lugar a amostras de tecidos orgânicos, paletas de cores suaves e esboços de móveis com cantos arredondados.— Quero algo que não pareça uma redoma de vidro, Alex — eu disse, riscando um detalhe no papel. — Precisa ser um espaço onde a criança possa explorar, sentir as texturas.Alex estava ao meu lado, mas não apenas como observador. Ele segurava um escalímetro e analisava a incidência de luz solar que entrava pela janela do quarto vizinho ao nosso, que havíamos escolhido para ser o berçário.— A ilumina&cce
O silêncio do banheiro da cobertura parecia amplificado pelo som da chuva batendo contra o vidro. Eu segurava o pequeno bastão de plástico com as mãos trêmulas, o coração martelando contra as costelas como se quisesse escapar. O tempo de espera indicado na embalagem parecia uma eternidade, um hiato entre a mulher que eu era e a que eu poderia me tornar.Quando os dois traços vermelhos finalmente apareceram, nítidos e incontestáveis, o mundo ao meu redor pareceu perder o peso. Não houve gritos ou lágrimas imediatas; apenas um suspiro longo, como se eu finalmente estivesse expelindo o último resquício de luto que guardava no peito.Saí do banheiro e encontrei Alex no quarto. Ele estava parado junto à janela, já vestido para o trabalho, mas não tinha saído. Ele estava
Os meses que se seguiram à nossa união na fazenda foram marcados por uma serenidade que eu, por muito tempo, julguei impossível. A vida na cobertura voltou ao seu ritmo, mas com uma nova cor. O Kintsugi florescia como escritório, e Alex aprendera a equilibrar sua intensidade natural com a leveza de um lar que não era mais uma fortaleza, mas um refúgio.No entanto, havia um silêncio que ainda ecoava nos cantos do nosso quarto durante as madrugadas. Um silêncio que tinha nome e uma dor antiga.— No que você está pensando? — Alex perguntou, sua voz vibrando contra minhas costas enquanto ele me abraçava na varanda, observando o horizonte da cidade.— No que perdemos — confessei, minha mão repousando instintivamente sobre o meu ventre. — E no que eu ainda t
As semanas que antecederam a cerimônia trouxeram uma mudança sutil, mas profunda, na nossa rotina. O Alex que eu via agora não era mais apenas o homem que exigia obediência ou que se escondia atrás de protocolos de controle. O trauma compartilhado e a superação do que enfrentamos haviam suavizado as arestas. Ele ainda era intenso, mas o domínio dera lugar a uma parceria protetora e genuína.— Não quero uma festa impessoal em um salão de festas — Alex me disse certa noite, enquanto compartilhávamos uma taça de vinho na cobertura. — Quero que este momento tenha raízes. Vamos fazer na fazenda.Eu concordei imediatamente. A ideia de oficializar nossa união sob o céu aberto, cercados pela terra que ele tanto amava, parecia o fechamento perfeito para a nossa reconstrução.No dia escolhido, o ar do campo estava fresco e perfumado. A fazenda, que geralmente era







