FAZER LOGINCapítulo 4
Lara Oliveira O carro deslizava pela avenida com o ronco suave do motor, mas dentro dele o silêncio era ensurdecedor. Eu estava sentada no meio do banco traseiro, espremida entre Alex e Loke. O espaço parecia pequeno demais para tudo que eu carregava dentro de mim. Meu coração batia tão forte que eu jurava que eles conseguiam ouvir cada batida desesperada. Meu corpo ainda doía. Uma dor profunda, íntima, que ia da pele até os ossos. Entre as pernas, uma sensibilidade latejante me lembrava de cada toque da noite anterior. Nos pulsos, marcas leves de dedos que apertaram com desejo. Na alma, algo muito mais pesado. Eu não conseguia olhar diretamente para eles. Mantinha os olhos baixos, fixos nas minhas mãos trêmulas no colo. O vestido de noiva amassado ainda cheirava a igreja, flores e suor frio. Que ironia cruel. Alex, à minha esquerda, estava tenso. Seu corpo irradiava uma energia contida, como uma tempestade prestes a explodir. Loke, à direita, era mais calmo, mas sua presença era igualmente intensa. O braço dele descansava no encosto atrás de mim, os dedos roçando de leve meu ombro. — Eu vou perguntar mais uma vez — disse Alex, a voz baixa, rouca e perigosa. — Quem te bateu, Lara? O tom dele me fez encolher. Engoli em seco, sentindo a garganta seca. O carro passou por um buraco e meu corpo inteiro estremeceu. Loke percebeu. Sua mão desceu até a minha, entrelaçando nossos dedos com cuidado. — Alex... — murmurou ele, um aviso suave. Mas Alex não recuou. Seus olhos escuros me perfuravam pelo reflexo do retrovisor. — Eu preciso saber. Agora. Respirei fundo, reunindo coragem. Não adiantava mais mentir. Eles já tinham visto o hematoma roxo na minha maçã do rosto, mesmo com a maquiagem borrada. — Foi meu pai — sussurrei. O ar dentro do carro pareceu congelar. Senti Loke enrijecer ao meu lado. Alex soltou o ar devagar, como se estivesse se segurando para não bater em algo. — Ele estava me esperando quando cheguei em casa — continuei, a voz falhando a cada palavra. — Eu tinha saído do hotel de vocês na ponta dos pés, ainda com o cheiro dos dois na pele, o corpo marcado, a mente confusa. Cheguei na mansão como uma ladra, rezando para subir pro quarto sem ser vista. Mas ele estava lá. Sentado no sofá da sala, no escuro. Assim que entrei, os olhos dele caíram direto nas marcas roxas no meu pescoço. Fechei os olhos, revivendo a cena. — “Com quem você estava, sua puta?” — foi a primeira coisa que ele gritou. Tentei inventar uma mentira qualquer, disse que tinha ficado na casa da Carla. A desculpa mal saiu da boca e ele já estava em cima de mim. Me chamou de vagabunda, mentirosa, desgraçada, vergonha da família. O soco veio fechado, forte, estalando na minha maçã do rosto. Caí no chão da sala, atordoada. Minha mãe correu para me defender e levou dois t***s só por tentar. Ele berrou que eu era assim, sem-vergonha, porque ela tinha me criado fraca e vadia. Minha voz morreu. As lágrimas quentes escorreram pelo rosto, borrando o resto da maquiagem. — Cada palavra ainda ecoa na minha cabeça — murmurei. — Eu passei a noite inteira sendo tocada por vocês dois, me sentindo viva, desejada... e poucas horas depois levei um soco do homem que deveria me proteger. Alex praguejou baixinho. Sua mão livre apertou o próprio joelho com força. — Aquele velho arrombado... Vou destruir os negócios dele. Devagar. Pra ele sentir cada pedaço. Loke, ao contrário, manteve a calma. Ele puxou minha cabeça gentilmente para seu ombro, beijando meus cabelos. — Respira, princesa. Você não está mais lá. Está aqui com a gente. Segura. Eu levantei o olhar devagar, o peito apertado de medo e um estranho alívio. — Vocês não acham que ele tem razão? — perguntei, a voz quase sumindo. — Depois de tudo que eu fiz... sair com dois desconhecidos na véspera do meu casamento? Alex virou o corpo inteiro para mim, ofendido. — Claro que não. Que tipo de homem você acha que a gente é? Seu pai é um covarde que b**e em mulher pra se sentir poderoso. Isso não tem nada a ver com você. Loke apertou minha mão, o polegar fazendo carinho lento. — O que rolou ontem foi entre nós três. Foi real. Foi intenso. E foi consensual. Não justifica porra nenhuma do que aquele homem fez. Fiquei em silêncio por alguns segundos, mordendo o lábio inferior. O carro atravessava agora uma região mais arborizada da cidade, as luzes dos postes passando como borrões dourados pela janela. — Eu sempre vivi assim — confessei. — Nunca fui cuidada. Nem pelo meu noivo. André nunca me quis de verdade. Preferia minha irmã. Só me via como um cifrão, uma forma de unir as famílias e salvar os negócios do meu pai. Eu era só... um objeto. — Aquele moleque é outro babaca — rosnou Alex. — E nem parece do nosso sangue. Eu pisquei, confusa. — Então vocês são realmente parentes dele? Vocês são primos do André? Alex soltou uma risada seca, sem humor. — Tios. Infelizmente. O pai dele, Max Farias, é nosso irmão mais velho. A gente mal se fala por conta do trabalho, mas ele é gente boa, ao contrário do filho, que puxou o avô que é nosso pai no caráter. Zero. Só aparecemos em eventos quando tem interesse comercial. Nunca imaginamos que a noiva dele seria você. — Eu juro que não sabia — disse rápido, desesperada. — Ontem eu só precisava sentir alguma coisa que não fosse medo. Quando vi vocês dois no bar, eu me senti desejada pela primeira vez em muito tempo. Viva. Desejada de verdade. E agora descubro que vocês são tios do meu ex-noivo... Meu Deus, que merda completa. — Shhh... — Alex suavizou a voz, segurando meu queixo com delicadeza. — Tudo bem, princesa. Nós também não sabíamos. Não muda o que sentimos ontem. Não muda o que estamos sentindo agora. Loke virou meu rosto para ele, os olhos calmos e intensos. — Você não é suja. Não é vadia. Você é uma mulher que passou anos sendo sufocada, controlada e machucada. Ontem você resolveu respirar. Resolveu sentir prazer. Não tem vergonha nenhuma nisso. As lágrimas voltaram com força. Meu corpo tremia entre os dois. — Mas vocês me viram... nua, gemendo, implorando por mais. Eu me entreguei completamente. E agora sabem de toda a minha bagunça familiar, das surras, da humilhação... Eu me sinto tão perdida. Ao mesmo tempo, com vocês eu me senti segura pela primeira vez em anos. Quando me tocaram, eu esqueci do André. Esqueci do meu pai. Esqueci do mundo. Só existia o prazer. E agora... eu não sei mais quem eu sou. Alex se aproximou, encostando a testa na minha por um momento. — Então a gente vai te ajudar a descobrir. Sem pressa. Sem julgamento. Você não está mais sozinha nisso, Lara. Loke beijou minha têmpora, murmurando contra minha pele: — Pode desabar. Pode chorar. Pode ficar com raiva. A gente segura tudo. Depois a gente reconstrói. O carro continuou seguindo, afastando-me cada vez mais daquele inferno. Pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia completamente perdida. Entre aqueles dois homens que eu mal conhecia e, ao mesmo tempo, já conhecia tão intimamente, eu sentia algo novo nascendo. Esperança. E, talvez, o começo de algo perigoso e irresistível.Oito meses depois Dulce Farias A luz da manhã entrava macia pela cortina da cobertura. Eu estava sentada no tapete do quarto dos meninos, ainda de pijama, o cabelo preso de qualquer jeito. Enzo engatinhava em minha direção com aquela determinação séria de quem acabou de descobrir que o mundo tem chão. Nando, do outro lado, batia palminhas e soltava aquela risadinha aguda que derretia qualquer um. Oito meses. Parecia ontem que eu os tinha sentido mexer pela primeira vez. Parecia uma vida. — Mamãe está aqui — murmurei, puxando Enzo para o colo. Ele imediatamente puxou meu colar com a mãozinha gorducha. Nando se arrastou até a minha perna e se agarrou nela, exigindo atenção também. Eu ri. A porta se abriu. Fernando entrou primeiro, cabelo molhado, camiseta preta colada no corpo. Lorenzo vinha logo atrás, ainda secando as mãos numa toalha, o cabelo loiro bagunçado. Os dois pararam na soleira e só olharam. Aquele olhar. O mesmo de sempre. Como se eu e os meninos fôssemos a melhor c
Capítulo 37 último capítulo Fernando Gonçalves A dor começou de madrugada.Dulce acordou com um gemido baixo, a mão apertando a barriga. Eu liguei a luz na hora. Lorenzo já estava do outro lado da cama, os olhos arregalados. — Está começando — ela falou entre os dentes. — Acho que está começando. Não perdemos tempo. Eu dirigi. Lorenzo ia no banco de trás segurando a mão dela. Cada contração fazia o corpo dela se curvar. Eu apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos doíam. No hospital, tudo aconteceu rápido. Ela foi levada para a sala de parto. O médico fez o exame de toque. Eu estava do lado dela, Lorenzo do outro, quando o homem ergueu o olhar sério. — Não tem passagem suficiente. Os bebês estão bem, mas ela não vai conseguir dar a luz por via normal. Precisamos fazer uma cesárea de emergência agora. O mundo parou por um segundo. Dulce apertou minha mão com força. Os olhos dela estavam cheios de medo e determinação. — Vai dar certo — ela sussurrou. — Vocês fica
Penúltimo Capítulo 36 Enzo e Nando Dulce Farias O salão de festas da Eclipse Prime estava irreconhecível. Luzes quentes, arranjos de flores brancas e douradas, cadeiras forradas de seda. Um mês tinha passado desde a nossa volta. Eu estava de quatro meses, a barriga já redonda o suficiente para o vestido off-white marcar a curva. O tecido fluía leve sobre o corpo. Fernando e Lorenzo usavam ternos pretos sob medida. Os dois estavam lindos demais. E nervosos demais. Era um casamento simbólico. Sem papel. Sem juiz. Só a gente, a família e a promessa. Minha mãe estava na primeira fileira, os olhos já vermelhos. Israel e Rafael ao lado dela. Os avós, Alex Farias, Loke Farias e Lara Farias, tinham vindo de Milão especialmente. Alex Loke e Esmeralda também. Jade, de vestidinho, segurava uma cestinha de pétalas com seriedade de quem carregava o mundo.e também a irmã gêmea da minha mãe , tia Sofia, e os dois maridos, Murilo e Miguel, meu primo, Alex Neto, o tio pietro e a duas espos
capítulo 35 Fernando Gonçalves A cobertura cheirava a luxo.Madeira nobre, roupa de cama cara recém-trocada, um toque sutil de âmbar e baunilha no ar. As luzes estavam baixas de propósito. Flores brancas na mesa de centro. As janelas abertas deixavam entrar o vento quente da noite de São Paulo, mas o cheiro de dentro era inconfundível: dinheiro bem gasto e casa preparada para receber alguém importante. Dulce parou no limiar quando a porta se abriu. Eu vi o corpo dela reagir. Os ombros desceram um pouco. O olhar caminhou pela sala como quem reconhecia o lugar e, ao mesmo tempo, o via pela primeira vez de verdade. Eu fechei a porta atrás de nós. Lorenzo pousou a mão na cintura dela. — Bem-vinda para casa — ele murmurou. Eu me aproximei por trás e beijei o ombro nu que o vestido deixava à mostra. A pele dela estava quente. O cheiro do shampoo de Milão ainda misturado com o dela. Não falamos muito no começo. Só nos olhamos. Três meses de distância pesavam no ar como umidade
Capítulo 34 Dulce Farias O jatinho tocou a pista no fim da tarde. Eu olhei pela janela e o peito apertou com força. Rio de Janeiro, se espalhava embaixo, cinza e dourada. Três meses. Parecia uma vida inteira. Fernando segurou minha mão no segundo em que as rodas tocaram o asfalto. Lorenzo estava do outro lado, o polegar desenhando círculos lentos na minha pele. — Pronta? — Fernando perguntou, a voz rouca de cansaço e emoção. — Não — respondi com honestidade. — Mas eu quero. O ar quente e pesado da cidade me recebeu quando descemos a escada. Cheiro de pista, de casa, de tudo que eu tinha deixado para trás. O carro da família já esperava. No caminho até o prédio da Eclipse Prime Brasil, quase ninguém falou. Eu ficava com a mão na barriga, sentindo os dois meninos, ainda discretos, mas presentes. A cobertura da minha mãe ficava no mesmo prédio da empresa, no andar mais alto. O elevador privativo subiu em silêncio. Quando as portas se abriram, minha mãe já estava no hall. C
Capítulo 33 Dois meninos Dulce Farias Uma semana depois, o envelope estava na minha bolsa. O resultado do exame de sangue tinha chegado naquela manhã. Eu abri no hotel, com Fernando de um lado e Lorenzo do outro. As palavras estavam ali, claras, em italiano e em português: dois fetos masculinos. Confirmado. Dois meninos. Eu chorei. Eles também. Agora o carro parava em frente à casa de Alex Loke. O portão já estava aberto. Fernando segurou minha mão o caminho inteiro. Lorenzo carregava a pasta com as fotos do ultrassom e o laudo. Eu respirei fundo antes de descer. A casa cheirava a comida. Muita comida. Eu reconheci o aroma do molho que a avó Lara fazia desde que eu era criança. Jade correu até a porta assim que nos viu, o unicórnio roxo balançando no braço. — Tia Dulce! Eu me abaixei e a peguei no colo. O cheiro de xampu infantil me acalmou um pouco. Alex Loke apareceu atrás dela, Esmeralda ao lado. Os três avós, Alex Farias, Loke Farias e Lara, estavam na sala, já sentados







