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O HOMEM DOS OLHOS DE GELO
O HOMEM DOS OLHOS DE GELO
Autor: Euridce

CAPÍTULO 1

Autor: Euridce
last update Data de publicação: 2026-05-30 10:11:05

A neve caía tão forte que Zara Moraes já não conseguia enxergar mais do que alguns metros à frente.

Pois se encontrava muito fraca e cansada, e a intensidade na lhe ajudava muito.

O vento atravessava suas roupas rasgadas como facas geladas, queimando sua pele, roubando lentamente suas forças.

Cada passo afundava na neve até os joelhos, tornando a caminhada mais difícil, mais lenta, mais desesperadora.

Mas ela não podia parar.

Atrás dela existia algo pior que a morte.

Seu peito subia e descia rapidamente enquanto corria entre as árvores cobertas de gelo.

Os galhos secos arranhavam seus braços, prendiam seus cabelos, rasgavam ainda mais o tecido fino do casaco.

O sangue em sua testa já havia secado.

Ela nem lembrava quando tinha se machucado.

As últimas horas eram apenas flashes desconexos, de tudo que acabou de acontecer com ela na casa da tia.

Os gritos, vidro quebrando, o gosto de sangue na boca, homens correndo atrás dela, e aquele nome repetido como uma sentença.

— Peguem ela!

Zara apertou os olhos com força.

Não.

Ela não seria pega.

Mesmo que morresse naquela montanha.

Um trovão ecoou ao longe, misturando-se ao som brutal da tempestade.

A floresta parecia viva ao redor dela, escura e ameaçadora.

Ela tropeçou.

Seu corpo bateu violentamente contra a neve.

Por alguns segundos, não conseguiu levantar.

O frio estava começando a vencê-la.

Os dedos dormentes tremiam enquanto ela tentava respirar.

Sua visão ficava embaçada, O corpo inteiro doía.

Talvez fosse o fim.

Talvez aquela montanha se tornasse seu túmulo.

Uma lágrima silenciosa deslizou pelo rosto congelado.

Então ela viu algo, como uma esperança acesso.

Uma luz.

Fraca, Distante mais era uma luz.

Zara ergueu lentamente a cabeça.

Lá no alto da montanha, parcialmente escondida entre os pinheiros cobertos de neve, havia uma cabana.

Com uma única luz acesa que brilhava na janela.

Esperança.

Seu coração disparou.

Com as últimas forças que ainda possuía, Zara se levantou cambaleando.

As pernas quase não obedeciam mais, mas ela continuou andando.

Um passo.

Depois outro.

E outro.

A neve batia contra seu rosto enquanto ela subia a pequena trilha cercada pela floresta escura.

Quanto mais se aproximava da cabana, mais uma sensação estranha crescia dentro dela.

Aquele lugar parecia, perigoso.

Silencioso demais.

Como se algo observasse cada movimento dela.

Zara engoliu seco.

Talvez fosse loucura entrar ali.

Mas o frio já estava destruindo seu corpo.

Ela morreria do lado de fora.

Ao alcançar a varanda de madeira escura, suas pernas fraquejaram novamente.

A cabana era enorme, muito mais luxuosa do que parecia à distância.

As janelas altas refletiam a tempestade lá fora.

Quem morava ali certamente não era um homem comum.

Ela bateu na porta.

Nenhuma resposta.

A respiração saiu trêmula.

Bateu novamente, mais forte dessa vez.

Silêncio.

O medo começou a apertar seu peito.

Quando levantou a mão pela terceira vez.

A porta se abriu lentamente.

E o mundo inteiro pareceu parar.

O homem diante dela era o próprio inverno.

Alto.

Imóvel.

Perigosamente bonito.

Os cabelos loiros caíam levemente sobre a testa, e os olhos azuis eram tão frios que fizeram Zara esquecer o próprio frio da tempestade.

Ele usava roupas negras, elegantes, como se estivesse completamente desconectado do caos do lado de fora.

Mas não era a beleza dele que assustava.

Era a presença.

A violência silenciosa escondida naquele olhar.

O homem a observou de cima a baixo sem dizer uma palavra.

As roupas rasgadas.

O sangue.

O desespero.

Os olhos dele ficaram ainda mais escuros.

— Quem fez isso com você?

A voz grave atravessou Zara como um arrepio.

Ela tentou responder.

Mas o corpo finalmente desistiu.

As pernas cederam.

Tudo ficou escuro.

No instante em que começou a cair, braços fortes a seguraram antes que atingisse o chão.

E, pela primeira vez em muitos anos.

Alexandre Montenegro sentiu algo quebrar dentro dele.

O calor foi a primeira coisa que Zara sentiu.

Quente.

Intenso.

Quase doloroso depois de tanto frio.

Seu corpo inteiro latejava enquanto ela tentava abrir os olhos lentamente.

A cabeça pesava.

Os músculos pareciam destruídos.

Um cheiro de madeira queimada e café forte preenchia o ar.

Ela franziu a testa.

Onde estava?

O teto acima dela era de madeira escura, iluminado pela luz dourada de uma lareira acesa no canto do quarto.

O som da tempestade ainda podia ser ouvido do lado de fora, mas agora distante, abafado.

Zara puxou o ar lentamente.

Cama macia.

Cobertores pesados.

Silêncio.

Então o medo veio.

Ela se levantou rápido demais.

Uma pontada atravessou sua costela, arrancando um gemido baixo de seus lábios.

A mão subiu imediatamente para o lado machucado enquanto seus olhos percorriam o quarto desconhecido.

Grande.

Luxuoso.

Frio apesar do fogo.

Havia móveis antigos, livros organizados perfeitamente nas estantes e uma janela enorme mostrando apenas neve e pinheiros cobertos de gelo.

Sua respiração acelerou.

Ela precisava sair dali.

Agora.

Zara afastou os cobertores, mas congelou ao perceber que estava usando roupas diferentes.

Alguém havia trocado suas roupas.

Seu coração disparou violentamente.

— Merda.

Ela tentou se levantar da cama, ignorando a dor no corpo.

As pernas ainda tremiam quando seus pés tocaram o chão de madeira.

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Último capítulo

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    EPÍLOGO

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Dez anos depois O inverno havia voltado às montanhas. A neve cobria os telhados do Castelo Montenegro, transformando a antiga fortaleza um dia marcada por guerras, sangue e segredos em um lugar de paz. O castelo já não era conhecido como a residência do homem mais temido da Europa. Agora era lembrado como um símbolo de reconstrução, esperança e justiça. As pessoas ainda pronunciavam o sobrenome Montenegro com respeito. Mas não por medo. E sim pelo legado que Alexandre e Zara haviam construído. Hospitais, escolas, fundações e centros de acolhimento espalhavam-se por diversos países, ajudando milhares de pessoas a recomeçar. O império permanecia forte. A diferença era que seu maior patrimônio já não era o poder. Era a vida. *** Zara Às vezes, caminho pelos corredores do castelo e quase consigo enxergar os fantasmas do passado. A menina assustada. A jovem que fugia pela neve. A mulher que acreditava nunca

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 130

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Zara Cinco anos. Às vezes, ainda me parece impossível que cinco anos tenham passado desde o dia em que a guerra terminou. O castelo mudou. As montanhas continuaram as mesmas. A neve ainda cobre os picos durante o inverno. As flores continuam renascendo a cada primavera. Mas nós... Nós nos transformamos. A menina que um dia correu desesperada pela floresta, fugindo da morte, agora caminhava pelos mesmos campos segurando a mão de uma pequena menina de quatro anos. Aurora. Nossa filha. Ela tinha meus cabelos escuros e os olhos azuis do pai. Era curiosa, corajosa e fazia perguntas sobre tudo. Naquele fim de tarde, corria pelo jardim perseguindo borboletas, enquanto gargalhava com uma alegria que fazia meu coração transbordar. Era exatamente a infância que eu sempre sonhei em oferecer a um filho. Livre. Segura. Feliz. --- Alexandre Durante muito tempo pensei que um homem fosse lembrado pelo tamanho

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 129

    Zara Moraes Montenegro A vida tem uma maneira curiosa de nos surpreender. Depois de sobreviver à guerra, à dor e à perda, eu acreditava que já tinha recebido tudo o que o destino poderia oferecer. Estava enganada. Às vezes, os maiores milagres chegam em silêncio. Começam com um pequeno detalhe. Um cansaço diferente. Um sorriso sem explicação. Uma esperança que cresce dentro do peito antes mesmo de receber um nome. E foi assim que nossa família começou a mudar mais uma vez. As semanas passaram tranquilas na casa da montanha. A pequena oliveira que plantáramos já exibia os primeiros brotos verdes. Todas as manhãs, Alexandre fazia questão de regá-la antes mesmo do café. Eu gostava de observá-lo pela janela. O homem que um dia comandou um império com mãos firmes agora cuidava de uma árvore com a mesma dedicação. Era impossível não sorrir. Naqueles dias, porém, comecei a notar mudanças em meu corpo. Sentia um sono incomum. Às vezes, o aroma do café, que s

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 128

    Zara Moraes Montenegro Dizem que recomeçar é voltar ao início. Eu discordo. Recomeçar não significa apagar tudo o que aconteceu. Significa continuar caminhando carregando cada lição, cada cicatriz e cada pessoa que nos ajudou a chegar até aqui. Eu não era mais a menina assustada que fugia pela neve. Alexandre já não era o homem conhecido como o Rei de Gelo. Nós não esquecemos quem fomos. Apenas escolhemos quem desejávamos ser dali em diante. E aquele dia marcou o verdadeiro início da nossa nova vida. O sol nasceu dourando as montanhas ao redor da casa. A primavera finalmente vencera o inverno. As árvores estavam cobertas por folhas verdes, e pequenas flores silvestres coloriam os caminhos de pedra. Abri as janelas do quarto e inspirei profundamente. O ar tinha cheiro de terra molhada e de flores. Pela primeira vez em muitos anos, não despertei assustada. Não havia pesadelos. Não havia medo. Apenas paz. Alexandre aproximou-se por trás de mim e envolveu minha cintura.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 127

    Alexandre Montenegro Passei anos dizendo essas palavras apenas em silêncio. Nunca tive coragem de pronunciá-las. Não porque tivesse medo de amar. Mas porque tinha medo de perder. Quando você aprende, ainda muito jovem, que tudo o que ama pode ser arrancado de você, seu coração cria muros para sobreviver. Eu construí fortalezas. Transformei o amor em distância. O cuidado em ordens. O medo em controle. Até conhecer Zara. Ela derrubou cada muro sem usar força. Apenas permanecendo. E, naquele dia, decidi dizer em voz alta aquilo que meu coração repetia desde a primeira vez que a encontrei perdida na neve. A primavera transformara completamente o Castelo Montenegro. Os jardins estavam cobertos de rosas brancas e vermelhas. As fontes voltaram a funcionar. Os corredores antes ocupados por soldados agora eram preenchidos por funcionários, crianças correndo e o aroma de flores recém-colhidas. Era difícil acreditar que aqueles mesmos muros haviam testemunhado tantas batalhas.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 126

    Alexandre Montenegro Passei anos acreditando que amar era perder o controle. Na minha infância, vi o amor ser interrompido pela violência. Na juventude, aprendi que qualquer demonstração de afeto podia ser usada contra mim. Quando assumi o comando da família Montenegro, enterrei tudo o que ainda restava do homem que um dia sonhou com uma vida comum. Construí um império. Conquistei respeito. Inspirei medo. Mas, todas as noites, quando o castelo mergulhava no silêncio, eu percebia que nenhuma dessas conquistas preenchia o vazio que carregava. Foi Zara quem me ensinou que um coração fechado pode proteger um homem da dor. Mas também o impede de sentir a felicidade. --- As primeiras semanas depois da promessa sob a neve passaram tranquilas. O castelo voltava lentamente à rotina. Os projetos de reconstrução avançavam. As famílias deslocadas pela guerra começavam a reconstruir suas vidas. Pela primeira vez em muitos anos, os relatórios que chegavam à minha mesa

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