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CAPÍTULO 3

Autor: Euridce
last update Data de publicação: 2026-05-30 10:25:00

Zara Morais

Imagens surgiram em sua mente,um computador desbloqueado, nomes, transferências bancárias, fotos, armas, e corpos.

Muitos corpos.

Ela engoliu seco.

— Pessoas morreram.

O silêncio dentro da cabana ficou ainda mais pesado.

A lareira crepitava atrás deles enquanto a tempestade continuava violenta do lado de fora.

Alexandre ficou observando Zara por alguns segundos longos demais.

Como se estivesse analisando cada detalhe dela.

Cada reação.

Cada mentira.

Então ele perguntou:

— Você matou alguém?

Ela ergueu os olhos rapidamente.

— Não.

Pela primeira vez, algo diferente atravessou o olhar dele.

Alívio.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Mas Zara viu.

E aquilo a confundiu.

Porque por que aquele homem se importaria?

Alexandre se aproximou novamente.

Devagar.

Controlado.

Ainda assim, Zara sentiu o corpo inteiro entrar em alerta.

Ele parou tão perto que ela conseguia sentir o calor vindo dele.

Os olhos azuis desceram lentamente até os lábios dela antes de subir novamente.

— Você está tremenda.

— Estou com frio.

— Não.

A voz dele ficou mais baixa.

Mais perigosa.

— Você está com medo.

Zara sustentou o olhar dele dessa vez.

— Talvez eu tenha motivos.

Os cantos da boca de Alexandre quase se moveram.

Quase.

— Tem razão.

Um arrepio percorreu sua nuca.

Porque ele não negou.

Não fingiu ser alguém bom.

E isso era pior.

Muito pior.

Zara percebeu então algo perturbador, Alexandre Montenegro parecia completamente confortável sendo um monstro.

Ela tentou ignorar a tensão crescente entre os dois.

Tentou ignorar o modo como aqueles olhos frios percorriam seu rosto como se quisessem decorar cada detalhe.

Tentou ignorar o fato de que seu corpo reagia à presença dele de forma absurda.

Mas falhou.

Completamente.

— Por que está me ajudando? — perguntou num sussurro.

Alexandre inclinou levemente a cabeça.

Silêncio.

Então respondeu:

— Ainda estou decidindo se isso é ajuda.

O coração dela tropeçou dentro do peito.

Aquela resposta deveria fazê-la fugir.

Mas, estranhamente.

Foi naquele momento que Zara percebeu a verdade mais perigosa de todas,

Parte dela queria ficar.

******

Zara não dormiu naquela noite.

Mesmo enrolada nos cobertores grossos da cama enorme, o corpo permanecia tenso, incapaz de relaxar de verdade.

A tempestade continuava rugindo do lado de fora.

O vento batia contra as janelas da cabana como se quisesse entrar.

Mas não era a neve que a mantinha acordada.

Era ele.

Alexandre Montenegro.

O homem dos olhos de gelo.

Ela fechou os olhos por alguns segundos, tentando afastar a imagem dele da mente.

Falhou imediatamente.

A forma como ele a observava era perturbadora.

Intensa demais.

Como se enxergasse coisas que ninguém jamais havia enxergado nela.

E aquilo era perigoso.

Muito perigoso.

Zara aprendeu cedo que homens poderosos nunca faziam nada sem motivo.

Principalmente homens como Alexandre.

Homens frios.

Controladores.

Violentos.

Ela já conhecia aquele tipo de olhar.

Não exatamente igual ao dele… mas parecido.

Olhares que transformavam pessoas em posse.

Em propriedade.

Em algo que podia ser mantido preso.

Seu peito apertou.

Não.

Ela não cometeria o mesmo erro duas vezes.

Mesmo que Alexandre tivesse salvado sua vida.

Mesmo que parte dela se sentisse estranhamente segura naquela cabana.

Segurança podia ser uma ilusão.

E ilusões destruíam pessoas.

Zara se levantou silenciosamente da cama e caminhou até a janela.

A neve cobria tudo do lado de fora, tornando impossível distinguir onde a floresta começava ou terminava.

Ela precisava ir embora assim que amanhecesse.

Precisava desaparecer antes que aqueles homens a encontrassem.

Antes que Alexandre descobrisse demais.

Ou pior…

Antes que ela começasse a confiar nele.

O simples pensamento já parecia absurdo.

Ela soltou uma respiração lenta e virou o rosto.

Congelou imediatamente.

Alexandre estava parado na porta do quarto.

Silencioso.

Imóvel.

Observando.

O coração dela disparou tão forte que chegou a doer.

— Você tem o hábito irritante de aparecer sem fazer barulho? — perguntou, tentando esconder o nervosismo.

Ele continuou parado.

Vestia uma camisa preta de mangas dobradas até os antebraços, revelando tatuagens escuras marcando sua pele.

Os cabelos loiros estavam levemente bagunçados, dando a ele uma aparência ainda mais perigosa.

Os olhos azuis desceram lentamente até os pés descalços dela.

Depois subiram outra vez.

— Você deveria estar descansando.

A voz grave percorreu o corpo dela como um arrepio.

Zara cruzou os braços.

— E você deveria parar de entrar no quarto das pessoas sem avisar.

Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.

Então, inesperadamente, os cantos da boca dele se moveram minimamente.

Quase um sorriso.

Quase.

E aquilo foi ainda mais perturbador.

Porque um homem como Alexandre Montenegro sorrindo parecia algo errado.

Perigoso.

— Esta é minha cabana, Zara.

Ela odiou a forma como ele pronunciou seu nome.

Calmo.

Possessivo.

Como se gostasse do som.

— Mesmo assim, educação existe.

Alexandre entrou no quarto lentamente.

Cada passo parecia calculado para deixá-la nervosa.

Funcionava.

— Você não tem medo de me provocar? — perguntou baixo.

Zara ergueu o queixo.

— Tenho medo de homens que fingem ser bons. Você não finge.

Os olhos dele ficaram presos nela por alguns segundos.

Longos demais.

Então Alexandre respondeu:

— Isso é inteligente da sua parte.

Ela engoliu seco.

Porque havia sinceridade naquela resposta.

Brutal e fria.

O silêncio voltou.

A tensão entre os dois parecia viva.

Pesada.

Quente apesar do frio.

Alexandre parou perto o suficiente para Zara sentir novamente o perfume dele madeira, whisky e algo perigosamente masculino.

O coração dela acelerou quando os olhos azuis percorreram seu rosto.

— Você deveria confiar mais nos seus instintos — ele disse.

Ela franziu a testa.

— O que quer dizer?

A expressão dele escureceu levemente.

— Eles estão dizendo para você não confiar em mim.

Um arrepio percorreu a espinha dela.

Porque era exatamente isso.

Desde o momento em que abriu os olhos naquela cabana, algo dentro dela gritava perigo.

Mas havia outro problema.

Algo ainda pior.

Outra parte dela

Não conseguia parar de olhar para ele.

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Último capítulo

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    EPÍLOGO

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Dez anos depois O inverno havia voltado às montanhas. A neve cobria os telhados do Castelo Montenegro, transformando a antiga fortaleza um dia marcada por guerras, sangue e segredos em um lugar de paz. O castelo já não era conhecido como a residência do homem mais temido da Europa. Agora era lembrado como um símbolo de reconstrução, esperança e justiça. As pessoas ainda pronunciavam o sobrenome Montenegro com respeito. Mas não por medo. E sim pelo legado que Alexandre e Zara haviam construído. Hospitais, escolas, fundações e centros de acolhimento espalhavam-se por diversos países, ajudando milhares de pessoas a recomeçar. O império permanecia forte. A diferença era que seu maior patrimônio já não era o poder. Era a vida. *** Zara Às vezes, caminho pelos corredores do castelo e quase consigo enxergar os fantasmas do passado. A menina assustada. A jovem que fugia pela neve. A mulher que acreditava nunca

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 130

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Zara Cinco anos. Às vezes, ainda me parece impossível que cinco anos tenham passado desde o dia em que a guerra terminou. O castelo mudou. As montanhas continuaram as mesmas. A neve ainda cobre os picos durante o inverno. As flores continuam renascendo a cada primavera. Mas nós... Nós nos transformamos. A menina que um dia correu desesperada pela floresta, fugindo da morte, agora caminhava pelos mesmos campos segurando a mão de uma pequena menina de quatro anos. Aurora. Nossa filha. Ela tinha meus cabelos escuros e os olhos azuis do pai. Era curiosa, corajosa e fazia perguntas sobre tudo. Naquele fim de tarde, corria pelo jardim perseguindo borboletas, enquanto gargalhava com uma alegria que fazia meu coração transbordar. Era exatamente a infância que eu sempre sonhei em oferecer a um filho. Livre. Segura. Feliz. --- Alexandre Durante muito tempo pensei que um homem fosse lembrado pelo tamanho

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 129

    Zara Moraes Montenegro A vida tem uma maneira curiosa de nos surpreender. Depois de sobreviver à guerra, à dor e à perda, eu acreditava que já tinha recebido tudo o que o destino poderia oferecer. Estava enganada. Às vezes, os maiores milagres chegam em silêncio. Começam com um pequeno detalhe. Um cansaço diferente. Um sorriso sem explicação. Uma esperança que cresce dentro do peito antes mesmo de receber um nome. E foi assim que nossa família começou a mudar mais uma vez. As semanas passaram tranquilas na casa da montanha. A pequena oliveira que plantáramos já exibia os primeiros brotos verdes. Todas as manhãs, Alexandre fazia questão de regá-la antes mesmo do café. Eu gostava de observá-lo pela janela. O homem que um dia comandou um império com mãos firmes agora cuidava de uma árvore com a mesma dedicação. Era impossível não sorrir. Naqueles dias, porém, comecei a notar mudanças em meu corpo. Sentia um sono incomum. Às vezes, o aroma do café, que s

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 128

    Zara Moraes Montenegro Dizem que recomeçar é voltar ao início. Eu discordo. Recomeçar não significa apagar tudo o que aconteceu. Significa continuar caminhando carregando cada lição, cada cicatriz e cada pessoa que nos ajudou a chegar até aqui. Eu não era mais a menina assustada que fugia pela neve. Alexandre já não era o homem conhecido como o Rei de Gelo. Nós não esquecemos quem fomos. Apenas escolhemos quem desejávamos ser dali em diante. E aquele dia marcou o verdadeiro início da nossa nova vida. O sol nasceu dourando as montanhas ao redor da casa. A primavera finalmente vencera o inverno. As árvores estavam cobertas por folhas verdes, e pequenas flores silvestres coloriam os caminhos de pedra. Abri as janelas do quarto e inspirei profundamente. O ar tinha cheiro de terra molhada e de flores. Pela primeira vez em muitos anos, não despertei assustada. Não havia pesadelos. Não havia medo. Apenas paz. Alexandre aproximou-se por trás de mim e envolveu minha cintura.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 127

    Alexandre Montenegro Passei anos dizendo essas palavras apenas em silêncio. Nunca tive coragem de pronunciá-las. Não porque tivesse medo de amar. Mas porque tinha medo de perder. Quando você aprende, ainda muito jovem, que tudo o que ama pode ser arrancado de você, seu coração cria muros para sobreviver. Eu construí fortalezas. Transformei o amor em distância. O cuidado em ordens. O medo em controle. Até conhecer Zara. Ela derrubou cada muro sem usar força. Apenas permanecendo. E, naquele dia, decidi dizer em voz alta aquilo que meu coração repetia desde a primeira vez que a encontrei perdida na neve. A primavera transformara completamente o Castelo Montenegro. Os jardins estavam cobertos de rosas brancas e vermelhas. As fontes voltaram a funcionar. Os corredores antes ocupados por soldados agora eram preenchidos por funcionários, crianças correndo e o aroma de flores recém-colhidas. Era difícil acreditar que aqueles mesmos muros haviam testemunhado tantas batalhas.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 126

    Alexandre Montenegro Passei anos acreditando que amar era perder o controle. Na minha infância, vi o amor ser interrompido pela violência. Na juventude, aprendi que qualquer demonstração de afeto podia ser usada contra mim. Quando assumi o comando da família Montenegro, enterrei tudo o que ainda restava do homem que um dia sonhou com uma vida comum. Construí um império. Conquistei respeito. Inspirei medo. Mas, todas as noites, quando o castelo mergulhava no silêncio, eu percebia que nenhuma dessas conquistas preenchia o vazio que carregava. Foi Zara quem me ensinou que um coração fechado pode proteger um homem da dor. Mas também o impede de sentir a felicidade. --- As primeiras semanas depois da promessa sob a neve passaram tranquilas. O castelo voltava lentamente à rotina. Os projetos de reconstrução avançavam. As famílias deslocadas pela guerra começavam a reconstruir suas vidas. Pela primeira vez em muitos anos, os relatórios que chegavam à minha mesa

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