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CAPÍTULO 5

Autor: Euridce
last update Data de publicação: 2026-05-30 10:35:32

Alexandre Montenegro

Alexandre Montenegro não dormia direito havia anos.

Mas naquela noite foi diferente.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, não eram guerras, negócios ou sangue que ocupavam sua mente.

Era uma mulher.

Uma mulher de olhos castanhos cansados e corpo coberto de hematomas, que ele não sabia de onde vinham.

Zara Moraes.

O nome dela permanecia preso em seus pensamentos como uma obsessão silenciosa.

Aquilo o irritava profundamente.

Alexandre estava parado diante da enorme janela da cabana, observando a neve cair sobre a montanha que agora se encontrava escura.

O whisky em sua mão permanecia intacto.

Sua mente voltava repetidamente para o quarto no andar de cima onde se encontrava a sua obsessão.

Para a febre dela.

Para o jeito como o corpo pequeno estremecera sob seu toque.

Para o olhar que Zara lançou a ele poucos minutos antes.

Ela estava começando a esquecê-lo como ameaça.

Erro grave.

Muito grave.

Os olhos azuis escureceram.

Alexandre sabia exatamente o tipo de homem que era.

Violento.

Controlador.

Perigoso.

Homens como ele destruíam pessoas.

Principalmente mulheres como Zara.

Mulheres que ainda carregavam humanidade dentro de si.

Ele deveria mandá-la embora assim que a tempestade acabasse.

Deveria.

Mas a simples ideia de vê-la sair daquela cabana provocou algo brutal dentro dele.

Possessividade.

Seu maxilar travou.

Aquilo precisava parar imediatamente.

O celular vibrou sobre a mesa de madeira escura.

Alexandre atendeu sem desviar os olhos da janela.

— Fale.

Do outro lado da linha, Dante Volkov permaneceu em silêncio por dois segundos antes de responder.

— Encontramos os homens.

A expressão de Alexandre não mudou.

Mas alguma coisa mortal atravessou seu olhar.

— Quantos?

— Três.

— Vivos?

— Dois.

Alexandre levou lentamente o copo aos lábios.

Calmo.

Frio.

Controlado.

— Onde?

— A quinze quilômetros da montanha. Estavam armados e perguntando sobre uma mulher brasileira.

Os dedos dele apertaram levemente o cristal do copo.

Zara.

Mesmo longe dela, o simples pensamento daqueles homens a procurando fazia algo sombrio crescer dentro dele.

Algo violento.

— Eles disseram nomes? — perguntou.

— Não. Mas encontramos fotos dela nos celulares.

Silêncio.

A temperatura dentro da cabana pareceu cair alguns graus.

Alexandre fechou os olhos brevemente.

Quando voltou a abri-los, já não havia absolutamente nada humano neles.

— Levem os dois para o galpão.

Dante entendeu imediatamente o significado daquela ordem.

Tortura.

Interrogatório.

Dor.

— E o terceiro? — perguntou.

Alexandre terminou o whisky de uma vez.

— Mate.

A resposta veio fria.

Natural.

Como respirar.

Do outro lado da linha, Dante permaneceu quieto.

Acostumado.

Porque homens morriam todos os dias por ordens de Alexandre Montenegro.

Mas dessa vez havia algo diferente.

Pessoal.

— Ela é importante? — Dante perguntou por fim.

Os olhos azuis subiram lentamente até a escada que levava ao quarto de Zara.

Longos segundos passaram.

Então Alexandre respondeu:

— Ainda não sei.

Mas era mentira.

Ele já sabia.

E isso o deixava perigosamente irritado.

A ligação terminou.

O silêncio voltou à cabana.

Alexandre apoiou o copo vazio sobre a mesa e passou a mão lentamente pela nuca, tentando controlar a tensão crescendo dentro dele.

Não gostava daquela sensação.

Não gostava da necessidade absurda de saber se Zara estava dormindo.

Se a febre tinha diminuído.

Se ela ainda tremia.

Aquilo parecia fraqueza.

E fraqueza matava.

Seu pai havia ensinado isso cedo demais.

Alexandre se tornou poderoso justamente porque nunca permitia que emoções interferissem em suas decisões.

Nunca.

Então por que diabos aquela mulher estava bagunçando sua mente em menos de dois dias?

Ele fechou os olhos brevemente.

E viu novamente Zara olhando para ele na cama.

Assustada.

Desafiadora.

Linda demais.

Os dedos dele se fecharam lentamente.

Não.

Aquilo precisava acabar antes de se transformar em problema.

Alexandre subiu as escadas em silêncio.

Cada passo parecia mais pesado.

Quando abriu discretamente a porta do quarto, encontrou Zara dormindo.

Ou tentando.

A respiração dela ainda estava irregular.

O rosto permanecia levemente vermelho pela febre.

Alguns fios escuros caíam sobre sua pele dourada.

Ela parecia pequena naquela cama enorme.

Frágil.

Mas Alexandre sabia que fragilidade podia ser ilusão.

Sobreviventes como Zara escondiam lâminas sob cicatrizes.

Ele ficou observando em silêncio por alguns segundos.

Longos demais.

Então tomou a decisão mais perigosa que poderia tomar.

Aproximou-se da cama.

E puxou lentamente o cobertor até cobrir melhor o corpo dela.

O movimento fez Zara se mexer levemente.

Os olhos castanhos abriram devagar.

Confusos.

Sonolentos.

E pararam nele imediatamente.

O coração de Alexandre endureceu dentro do peito.

Porque havia confiança começando a nascer naquele olhar.

Um erro.

Um maldito erro.

Os dedos dele tocaram suavemente o rosto quente dela por apenas um segundo.

Depois a voz grave atravessou o silêncio do quarto:

— Essa é sua primeira ordem, Zara.

Ela piscou lentamente.

— Ordem ?

Alexandre sustentou o olhar dela sem hesitar.

Frio.

Dominante.

Possessivo.

— Enquanto estiver sob meu teto, ninguém toca em você sem passar por mim primeiro.

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Último capítulo

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    EPÍLOGO

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Dez anos depois O inverno havia voltado às montanhas. A neve cobria os telhados do Castelo Montenegro, transformando a antiga fortaleza um dia marcada por guerras, sangue e segredos em um lugar de paz. O castelo já não era conhecido como a residência do homem mais temido da Europa. Agora era lembrado como um símbolo de reconstrução, esperança e justiça. As pessoas ainda pronunciavam o sobrenome Montenegro com respeito. Mas não por medo. E sim pelo legado que Alexandre e Zara haviam construído. Hospitais, escolas, fundações e centros de acolhimento espalhavam-se por diversos países, ajudando milhares de pessoas a recomeçar. O império permanecia forte. A diferença era que seu maior patrimônio já não era o poder. Era a vida. *** Zara Às vezes, caminho pelos corredores do castelo e quase consigo enxergar os fantasmas do passado. A menina assustada. A jovem que fugia pela neve. A mulher que acreditava nunca

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 130

    Zara Moraes Montenegro e Alexandre Montenegro Zara Cinco anos. Às vezes, ainda me parece impossível que cinco anos tenham passado desde o dia em que a guerra terminou. O castelo mudou. As montanhas continuaram as mesmas. A neve ainda cobre os picos durante o inverno. As flores continuam renascendo a cada primavera. Mas nós... Nós nos transformamos. A menina que um dia correu desesperada pela floresta, fugindo da morte, agora caminhava pelos mesmos campos segurando a mão de uma pequena menina de quatro anos. Aurora. Nossa filha. Ela tinha meus cabelos escuros e os olhos azuis do pai. Era curiosa, corajosa e fazia perguntas sobre tudo. Naquele fim de tarde, corria pelo jardim perseguindo borboletas, enquanto gargalhava com uma alegria que fazia meu coração transbordar. Era exatamente a infância que eu sempre sonhei em oferecer a um filho. Livre. Segura. Feliz. --- Alexandre Durante muito tempo pensei que um homem fosse lembrado pelo tamanho

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 129

    Zara Moraes Montenegro A vida tem uma maneira curiosa de nos surpreender. Depois de sobreviver à guerra, à dor e à perda, eu acreditava que já tinha recebido tudo o que o destino poderia oferecer. Estava enganada. Às vezes, os maiores milagres chegam em silêncio. Começam com um pequeno detalhe. Um cansaço diferente. Um sorriso sem explicação. Uma esperança que cresce dentro do peito antes mesmo de receber um nome. E foi assim que nossa família começou a mudar mais uma vez. As semanas passaram tranquilas na casa da montanha. A pequena oliveira que plantáramos já exibia os primeiros brotos verdes. Todas as manhãs, Alexandre fazia questão de regá-la antes mesmo do café. Eu gostava de observá-lo pela janela. O homem que um dia comandou um império com mãos firmes agora cuidava de uma árvore com a mesma dedicação. Era impossível não sorrir. Naqueles dias, porém, comecei a notar mudanças em meu corpo. Sentia um sono incomum. Às vezes, o aroma do café, que s

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 128

    Zara Moraes Montenegro Dizem que recomeçar é voltar ao início. Eu discordo. Recomeçar não significa apagar tudo o que aconteceu. Significa continuar caminhando carregando cada lição, cada cicatriz e cada pessoa que nos ajudou a chegar até aqui. Eu não era mais a menina assustada que fugia pela neve. Alexandre já não era o homem conhecido como o Rei de Gelo. Nós não esquecemos quem fomos. Apenas escolhemos quem desejávamos ser dali em diante. E aquele dia marcou o verdadeiro início da nossa nova vida. O sol nasceu dourando as montanhas ao redor da casa. A primavera finalmente vencera o inverno. As árvores estavam cobertas por folhas verdes, e pequenas flores silvestres coloriam os caminhos de pedra. Abri as janelas do quarto e inspirei profundamente. O ar tinha cheiro de terra molhada e de flores. Pela primeira vez em muitos anos, não despertei assustada. Não havia pesadelos. Não havia medo. Apenas paz. Alexandre aproximou-se por trás de mim e envolveu minha cintura.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 127

    Alexandre Montenegro Passei anos dizendo essas palavras apenas em silêncio. Nunca tive coragem de pronunciá-las. Não porque tivesse medo de amar. Mas porque tinha medo de perder. Quando você aprende, ainda muito jovem, que tudo o que ama pode ser arrancado de você, seu coração cria muros para sobreviver. Eu construí fortalezas. Transformei o amor em distância. O cuidado em ordens. O medo em controle. Até conhecer Zara. Ela derrubou cada muro sem usar força. Apenas permanecendo. E, naquele dia, decidi dizer em voz alta aquilo que meu coração repetia desde a primeira vez que a encontrei perdida na neve. A primavera transformara completamente o Castelo Montenegro. Os jardins estavam cobertos de rosas brancas e vermelhas. As fontes voltaram a funcionar. Os corredores antes ocupados por soldados agora eram preenchidos por funcionários, crianças correndo e o aroma de flores recém-colhidas. Era difícil acreditar que aqueles mesmos muros haviam testemunhado tantas batalhas.

  • O HOMEM DOS OLHOS DE GELO    CAPÍTULO 126

    Alexandre Montenegro Passei anos acreditando que amar era perder o controle. Na minha infância, vi o amor ser interrompido pela violência. Na juventude, aprendi que qualquer demonstração de afeto podia ser usada contra mim. Quando assumi o comando da família Montenegro, enterrei tudo o que ainda restava do homem que um dia sonhou com uma vida comum. Construí um império. Conquistei respeito. Inspirei medo. Mas, todas as noites, quando o castelo mergulhava no silêncio, eu percebia que nenhuma dessas conquistas preenchia o vazio que carregava. Foi Zara quem me ensinou que um coração fechado pode proteger um homem da dor. Mas também o impede de sentir a felicidade. --- As primeiras semanas depois da promessa sob a neve passaram tranquilas. O castelo voltava lentamente à rotina. Os projetos de reconstrução avançavam. As famílias deslocadas pela guerra começavam a reconstruir suas vidas. Pela primeira vez em muitos anos, os relatórios que chegavam à minha mesa

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