INICIAR SESIÓN— Eu vou desmaiar.
Maytê falou aquilo no instante em que as portas do elevador se fecharam e os flashes desapareceram. Os jornalistas haviam ficado para trás e o silêncio finalmente caiu. Mesmo assim, seu coração continuava disparado.
Ela levou a mão ao peito tentando respirar normalmente enquanto encarava o reflexo dourado das paredes do elevador.
— Isso definitivamente vai virar matéria: “Mulher misteriosa morre antes da coletiva.”
Ao lado dela, Gustavo permaneceu imóvel, calmo demais. Como se multidões gritando seu nome fossem apenas parte da rotina, provavelmente eram.
— Você não vai desmaiar. — ele respondeu.
— Ah, claro. — sorriu, irônica — Obrigada, doutor arrogância.
O canto da boca dele quase se moveu, quase. Maytê apontou imediatamente.
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— Esse quase sorriso psicopata, confunde as pessoas.
Agora ele realmente pareceu minimamente divertido, inacreditável.
O elevador finalmente parou no último andar e assim que as portas se abriram, Maytê viu movimento por toda parte. Assessores, seguranças, maquiadores, pessoas falando ao telefone. Parecia uma operação militar e no centro do caos, uma enorme parede com o símbolo do Grupo Ferraresi preparada para a coletiva. Microfones, luzes, câmeras.
Maytê parou abruptamente.
— Não.
Gustavo olhou para ela.
— Não?
— Eu achei que coletiva fosse uma palavra simbólica.
— Geralmente não é assim que palavras funcionam.
Ela lançou um olhar mortal na direção dele.
— Você é irritante em níveis alarmantes.
— E você reclama demais.
— Porque minha vida virou um episódio ruim de escândalo corporativo.
Antes que ele pudesse responder, Elisa apareceu rapidamente. Elegante, organizada e assustadora como sempre.
— Senhor Ferraresi, a imprensa está pronta.
Maytê sentiu o estômago despencar. Pronta. Ótimo, ela definitivamente não estava. Elisa então virou para ela segurando uma pequena bolsa.
— Trouxe isso para a senhorita.
Maytê pegou automaticamente e dentro havia maquiagem, escova, perfume, até um salto novo.
— Isso é… estranho.
— Eficiência. — Elisa respondeu calmamente.
Claro. Pessoas ricas chamavam invasão de privacidade de eficiência.
— Temos vinte minutos. — Elisa continuou — A equipe está esperando.
Maytê virou lentamente para Gustavo.
— Existe equipe?
— Sim.
— Você contratou pessoas pra transformar isso num relacionamento convincente?
— Tecnicamente, sim.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Meu Deus. Isso é assustador.
Gustavo apenas sustentou o olhar dela e então respondeu:
— Bem-vinda à minha vida.
A frase saiu simples, sem ironia e pela primeira vez desde que chegara ali, Maytê percebeu que talvez aquele homem realmente vivesse assim o tempo inteiro. Performance. Controle. Imagem. Tudo calculado e artificial. Que vida horrível.
Vinte minutos depois, Maytê quase não se reconhecia. O cabelo estava alinhado, a maquiagem leve escondia o cansaço, o vestido preto elegante parecia caro demais para alguém que ainda devia aluguel.
Ela encarou o próprio reflexo em silêncio. Estranho. Parecia outra pessoa, talvez fosse exatamente isso que assustava.
A porta atrás dela abriu, Maytê encontrou Gustavo parado ali. E infelizmente o homem parecia ter sido desenhado especificamente para destruir estabilidade emocional feminina. Terno preto, relógio caro, postura impecável. Mas o olhar… o olhar estava preso nela, intenso e silencioso demais.
Maytê cruzou os braços imediatamente.
— O quê?
Ele demorou dois segundos para responder, longos demais.
— Você limpa bem.
Ela arregalou os olhos.
— Isso foi um elogio ou uma análise de produto?
Algo perigoso atravessou a expressão dele.
— Ainda estou decidindo.
O estômago dela fez uma coisa estranha e irritante, definitivamente irritante.
Maytê pegou a bolsa rapidamente.
— Certo. Vamos acabar logo com isso.
Mas quando tentou passar por ele, Gustavo segurou suavemente seu braço. Ela congelou instantaneamente, porque aquele era o primeiro toque real entre eles. Sem fotógrafos, sem atuação, sem necessidade. Apenas a mão dele na pele dela. Quente, firme, perigosa.
Os olhos dos dois se encontraram automaticamente e Maytê odiou a mudança no ar entre eles: pesada, elétrica, estranha. Gustavo soltou o braço dela imediatamente, como se tivesse percebido também.
— Tem uma coisa importante. — disse em voz baixa.
Ela tentou ignorar o próprio coração acelerado.
— O quê?
— Não importa o que perguntem… não demonstre medo.
Maytê franziu a testa.
— Isso foi surpreendentemente específico.
O olhar dele endureceu discretamente.
— A imprensa sente medo e destrói pessoas vulneráveis.
Silêncio.
Então ela percebeu, ele não estava falando só dela, estava falando dele também.
Antes que pudesse responder, Elisa apareceu outra vez.
— Está na hora.
E foi naquele momento que Maytê percebeu: não existia mais volta.
As luzes quase cegavam, os flashes explodiam sem parar, as vozes se misturavam e os jornalistas praticamente avançavam sobre o palco. Maytê sentiu o pânico subir instantaneamente.
Era gente demais, olhares demais, pressão demais. Ela quase parou de andar, quase. Mas então, os dedos de Gustavo encontraram os dela, entrelaçando suas mãos naturalmente. Como se fosse automático, como se ele tivesse percebido o exato segundo em que ela começou a entrar em colapso.
Maytê prendeu a respiração, porque a mão dele era absurdamente quente e segura. Grande o suficiente para envolver a dela completamente. Os flashes aumentaram imediatamente ao perceberem o gesto.
— Gustavo!
— Desde quando estão juntos? — O casamento já tem data? — Maytê, você ama o senhor Ferraresi?Ela quase tropeçou.
Ama? Meu Deus!
Gustavo apertou discretamente sua mão, pequeno, sutil, mas firme. Então puxou a cadeira para ela sentar antes de ocupar o lugar ao lado, controle absoluto, ele nascera para aquilo.
Maytê percebeu imediatamente, aquela era a arena dele e talvez fosse por isso que parecia tão perigoso diante das câmeras. Porque Gustavo Ferraresi sabia exatamente como sobreviver ali.
Os jornalistas continuavam disparando perguntas sem parar.
Até que um deles perguntou:
— Senhor Ferraresi, esse noivado surgiu convenientemente após as acusações contra sua imagem. O relacionamento é real?
O ambiente inteiro ficou silencioso, tenso. Maytê sentiu o corpo travar. Ali estava, a pergunta.
Gustavo permaneceu imóvel por um segundo, então virou lentamente o rosto para Maytê, o olhar encontrou o dela. Calmo, seguro e de repente, ela entendeu. Ele estava dando escolha. Ela podia recuar, negar, fugir, mesmo agora.
O coração dela disparou, porque ninguém nunca dava escolhas reais para Maytê. Ninguém.
Então, antes que pudesse pensar demais, ela apertou levemente a mão dele de volta. Gesto pequeno, mas suficiente. O olhar de Gustavo mudou por um instante, algo quase vulnerável atravessou sua expressão e então desapareceu.
Ele voltou-se para os jornalistas.
— Meu relacionamento com Maytê não começou por causa da imprensa. — respondeu firme, grave, controlado — Mas talvez ela tenha sido a primeira coisa verdadeira que aconteceu comigo em muito tempo.
O mundo pareceu parar.
Os jornalistas enlouqueceram imediatamente: perguntas, flashes, movimento. Mas Maytê não conseguia ouvir nada, porque ainda estava olhando para Gustavo Ferraresi.
E pela primeira vez, ela não conseguiu distinguir atuação de verdade.
UM ANO DEPOS.A cobertura continuava a mesma: janelas enormes, vista para a cidade, cozinha moderna, mas havia uma diferença impossível de ignorar. Ela tinha vida.Uma manta esquecida sobre o sofá, livros espalhados pela mesa de centro, uma xícara de café pela metade, a lavanda na varanda estava enorme, cheia de flores roxas e, ao lado dela, um vaso de margaridas.Maytê sorriu ao abrir a janela.— Eu falei que elas iam sobreviver.— Você também falou que eu mataria a lavanda em uma semana.A voz de Gustavo veio da cozinha, ela riu.— E eu estava errada.Ele apareceu usando um avental, o mesmo que um dia usara sem saber fritar um ovo. Agora preparava panquecas enquanto cantarolava uma música qualquer.Maytê apoiou-se na bancada, observando-o, ainda achava engraçado vê-lo cozinhar.— Está olhando o quê?— Você.Ele sorriu.— Tem farinha no meu rosto?Ela aproximou-se e com o polegar, limpou um pequeno ponto branco perto da bochecha dele.— Agora não tem mais.Gustavo segurou sua mão ant
Segurar a mão de Gustavo parecia a coisa mais natural do mundo e, ao mesmo tempo, a mais assustadora.Maytê permaneceu alguns segundos parada diante do prédio, olhando para os dedos entrelaçados aos dele.Meses atrás, aquele gesto teria significado apenas carinho. Agora, significava confiança e confiança não se reconstruía de um dia para o outro.Ela respirou fundo sem soltar sua mão.— Acho que estou com medo.Gustavo não perguntou "de quê?". Nem tentou convencê-la de que não havia motivo.Apenas respondeu:— Eu também.Ela levantou os olhos, surpresa.— Você?Ele sorriu de leve.— Todos os dias.O vento balançou os cabelos de Maytê.— Medo do quê?— De fazer alguma coisa que destrua tudo outra vez.Ela apertou sua mão um pouco mais forte.— A diferença é que agora você percebe esse medo.— E não deixo mais que ele decida por mim.Ela sorriu, era exatamente isso.Naquela noite, Maytê demorou para dormir. Ficou olhando para o teto do quarto, lembrando de cada pequena mudança que vira
A chuva da noite anterior havia deixado o ar mais fresco.Maytê abriu as janelas do apartamento logo cedo, deixando o vento entrar. Colocou uma música baixa para tocar enquanto organizava a sala e regava as pequenas margaridas que Gustavo lhe dera semanas antes, as flores estavam mais abertas.Ela sorriu.— Acho que vocês resolveram florescer...O celular vibrou sobre a mesa, era uma mensagem dele.Bom dia. Espero que tenha uma ótima semana. Não precisa responder. Só queria desejar um bom dia.Maytê releu a mensagem duas vezes e depois sorriu. Não havia convite, não havia cobrança, não havia uma pergunta esperando resposta.Era apenas um bom dia, ela respondeu alguns minutos depois.Obrigada. Espero que a sua também seja boa. E não queime o arroz.A resposta chegou quase na mesma hora.Agora só queimo panquecas. Evoluí bastante.Ela riu sozinha.Naquela tarde, eles combinaram de caminhar pela praça depois que Maytê saiu da cafeteria.Sem jantar, sem encontro, sem compromisso, apenas u
Na segunda-feira, Gustavo entrou na sede do Grupo Ferraresi como fazia todas as manhãs, mas havia uma diferença.Ele já não caminhava tão depressa, cumprimentava as pessoas pelo nome, parava para ouvir, perguntava como estavam. Coisas simples. Coisas que, meses antes, pareciam impossíveis.— Bom dia, senhor Ferraresi.— Bom dia, Cláudia. Como está sua filha? Ela já começou a faculdade?A secretária sorriu, surpresa.— Começou na semana passada.— E está gostando?— Muito.— Fico feliz.Gustavo seguiu pelo corredor, assim que ele entrou no elevador, Cláudia olhou para a colega ao lado.— Você acredita que ele lembrou?A colega riu.— Acho que ninguém acredita mais.A reunião daquela manhã era importante, o conselho discutiria a compra de uma empresa internacional.Anos atrás, Gustavo teria falado durante quase toda a reunião. Interromperia apresentações, contestaria cada detalhe.Naquele dia, ele ouviu, durante quase uma hora.Quando todos terminaram, cruzou as mãos sobre a mesa.— Alg
O abraço ainda morava na memória de Maytê.Já fazia cinco dias.Cinco dias desde que ela envolvera Gustavo nos braços por vontade própria.Cinco dias desde que sentira o coração bater acelerado ao sentir o perfume dele outra vez e, desde então, sua cabeça parecia uma guerra.Ela o amava, disso nunca duvidou, mas amar não apagava o passado.Às vezes, antes de dormir, ainda se lembrava da noite em que ele escolheu a empresa em vez dela. Da sensação de ser insuficiente, da dor de fazer as malas.Essas lembranças ainda existiam, só que agora dividiam espaço com outras.O homem que fazia terapia, que aprendia a cozinhar, que esperava sem pressionar, que ria de si mesmo, que finalmente aprendera a amar e isso tornava tudo muito mais difícil.— Você está pensando nele de novo.Maytê levantou os olhos.Dona Célia limpava uma mesa enquanto a observava com um sorriso divertido.— É tão óbvio assim?— Você colocou sal no cappuccino de um cliente.Maytê arregalou os olhos.— Eu fiz o quê?As duas
A primavera finalmente chegara, as árvores da cidade estavam cobertas de flores e o vento carregava um perfume leve que parecia anunciar um novo começo.Já fazia quase dois meses que Gustavo e Maytê haviam voltado a tomar café juntos, não todos os dias, nem todas as semanas.Às vezes passavam dez dias sem se ver, às vezes se encontravam por acaso na feira ou caminhavam pela praça depois do trabalho.Não havia cobranças, promessas e nem medo de dar nome ao que estavam reconstruindo, era leve e talvez fosse justamente isso que mais assustasse Maytê.Naquela manhã, Gustavo apareceu na cafeteria pouco antes do horário de fechamento e entrou sorrindo.— Vim buscar uma encomenda.Maytê arqueou uma sobrancelha.— Encomenda?Dona Célia apareceu carregando uma caixa de papelão.— Seus pães integrais, querido.Maytê olhou da caixa para Gustavo.— Você está comprando pão aqui agora?Ele deu de ombros.— São bons.Dona Célia sorriu.— E ele vem toda sexta-feira.Maytê piscou.— Toda sexta?— Há q







