INICIAR SESIÓNA internet enlouqueceu depois da coletiva.
Maytê descobriu isso quinze minutos após sair do palco, quando Elisa colocou um tablet diante dela dentro do carro. — O índice de aprovação pública do senhor Ferraresi subiu dezessete por cento. — informou calmamente. Maytê encarou a mulher. — Você fala como uma vilã extremamente organizada. — Obrigada. — Isso não foi elogio. Elisa apenas ignorou, como sempre. Maytê voltou os olhos para a tela e imediatamente se arrependeu, fotos dela e Gustavo estavam espalhadas por todos os sites possíveis. A mão dada, o olhar dele durante a coletiva, o momento em que ele puxou a cadeira para ela sentar. Tudo. Os comentários eram um caos. “ELE OLHANDO PRA ELA 😭” “Isso tá fake mas eu já shippo.” “Primeira vez que vejo Gustavo Ferraresi parecer humano.” “Ela parece assustada.” “Ele segurando a mão dela desse jeito????” Maytê desligou o tablet imediatamente. — Eu odeio a internet. Ao lado dela, Gustavo continuava respondendo e-mails no celular como se não tivesse acabado de virar o assunto mais comentado do país. Psicopata. — Você vai se acostumar. — disse calmamente. — Essa frase não tranquiliza ninguém. Ele não respondeu. O carro mergulhou no silêncio. Maytê então percebeu outra coisa estranha: Gustavo parecia ainda mais fechado depois da coletiva, mais quieto. Como se toda interação pública drenasse alguma coisa dele. Ela observou discretamente o reflexo dele na janela: postura impecável, expressão neutra, controle absoluto. Mas os dedos batiam levemente contra o celular, inquietos. Ansiedade. A descoberta pegou Maytê desprevenida. Gustavo Ferraresi não parecia o tipo de homem que sentia ansiedade, parecia o tipo de homem que causava ansiedade nos outros. — Você sempre fica assim depois de eventos? — perguntou antes de pensar. Ele nem levantou os olhos. — Assim como? — Como se quisesse desaparecer. O silêncio durou tempo demais, então ele finalmente guardou o celular. — Você observa muito. — Você responde pouco. Outra pausa. Então, inesperadamente: — Eventos sociais são cansativos. A resposta saiu seca, automática, claramente ensaiada. Maytê percebeu na mesma hora e também percebeu outra coisa: ele não estava acostumado a alguém insistindo. Ela cruzou os braços no banco. — Você parece odiar metade da própria vida. Agora ele olhou para ela, direto, intenso. — Metade? Ela sustentou o olhar por alguns segundos. — Certo. Talvez mais. Algo quase perigoso atravessou a expressão dele e então o carro parou. Maytê ergueu os olhos para o prédio diante deles e perdeu completamente a linha de raciocínio. Era absurdo. Enorme, luxuoso, intimidador. Parecia o tipo de lugar onde pessoas normais precisavam de autorização pra respirar. — Isso aqui é um prédio ou um país pequeno? — murmurou. O canto da boca dele quase se moveu, de novo aquele quase sorriso. Ela estava começando a odiar o quanto prestava atenção nisso. O elevador subiu em silêncio absoluto. Maytê segurava a própria bolsa com força enquanto observava os números aumentarem lentamente. Sessenta. Sessenta e cinco. Setenta. — Quantos andares essa porcaria tem?! — O suficiente. — Você responde perguntas como um personagem misterioso de série ruim. — E você reclama compulsivamente. — Porque estou entrando na toca de um bilionário emocionalmente problemático. Silêncio. Então: — Justo. O elevador finalmente parou, as portas se abriram diretamente dentro da cobertura e Maytê ficou imóvel, porque aquilo não parecia real. O lugar era gigantesco. Paredes de vidro revelando a cidade inteira iluminada, móveis minimalistas, arte moderna, silêncio. Muito silêncio. Tudo era bonito, perfeito, frio. A cobertura parecia uma revista cara onde ninguém realmente vivia. Maytê entrou devagar, os próprios passos ecoavam no mármore. — Meu Deus. Gustavo apenas tirou o relógio do pulso enquanto caminhava para dentro como se aquilo fosse normal, talvez fosse. — Seu quarto fica no corredor esquerdo. — informou calmamente. Ela continuou olhando ao redor: nenhuma foto, nenhum objeto pessoal, nenhuma bagunça. Nada. O lugar parecia vazio de gente. — Você mora aqui sozinho? — Sim. Maytê franziu a testa. A cobertura era enorme e silenciosa demais. Solitária demais. Aquilo não parecia casa, parecia prisão de luxo. Ela deixou a bolsa sobre o sofá lentamente. — Quantos quartos existem aqui? — Sete. Maytê virou tão rápido que quase sentiu dor no pescoço. — SETE?! — Sim. — Pra quê?! Ele deu de ombros. — Arquitetura exagerada. Ela soltou uma risada incrédula. — Você tem problemas ricos demais. Pela primeira vez desde que chegaram, algo parecido com cansaço atravessou o rosto dele. Não físico. Algo mais profundo, antigo. — Talvez. Maytê observou Gustavo em silêncio. Então percebeu. Aquele homem vivia completamente sozinho dentro de um apartamento enorme e silencioso onde não existia nenhum sinal de vida real. Sem família, sem amigos, sem qualquer tipo de afeto. Nada. Dinheiro não impedia solidão, só tornava ela mais elegante. — Você come aqui sozinho? — perguntou antes de pensar. O olhar dele encontrou o dela imediatamente, como se ninguém perguntasse coisas daquele tipo. — Geralmente. Ela mordeu o interior da bochecha. Droga. Agora estava sentindo pena do bilionário arrogante de novo, precisava parar urgentemente. — Certo. — disse rapidamente — Onde fica meu quarto? Gustavo apontou o corredor. — Segunda porta. Maytê pegou a bolsa tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito, mas antes de sair, algo chamou sua atenção. Um piano. Preto, impecável, no canto da sala. Ela piscou surpresa. — Você toca? O maxilar dele travou quase imperceptivelmente. Erro. Pergunta errada. — Não mais. A resposta saiu curta e fria demais. Maytê percebeu imediatamente que havia alguma história ali, dolorosa, mas decidiu não insistir. Ainda. Então caminhou até o corredor, o quarto era maior que o apartamento inteiro dela. Claro que era. A cama enorme, o banheiro luxuoso, o closet absurdo. Ela soltou a bolsa no chão lentamente, tudo parecia surreal, como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Maytê caminhou até a janela, a cidade brilhava lá embaixo, tão distante, pequena e pela primeira vez desde que tudo começou… o peso da decisão caiu de verdade sobre ela. Ela realmente estava morando com Gustavo Ferraresi. Casada de mentira, presa num contrato, dentro da vida de um homem que parecia incapaz de existir sem controle. O medo apertou seu peito, mas junto dele, veio outra sensação. Curiosidade, perigosa e insistente. Porque quanto mais observava Gustavo, mais Maytê percebia que existia alguma coisa profundamente triste dentro dele. Algo escondido sob ternos caros, arrogância e silêncio. Ela estava tão distraída pensando nisso que quase não ouviu o som baixo vindo da sala. Música, piano. Maytê franziu a testa imediatamente, então saiu do quarto devagar. Os acordes ecoavam baixos pela cobertura silenciosa. Bonitos, melancólicos, dolorosos. Ela seguiu o som até parar discretamente na entrada da sala e encontrou Gustavo sentado diante do piano. Os olhos fechados, as mangas da camisa dobradas, os dedos deslizando pelas teclas lentamente. Sem máscara, sem postura impecável, sem frieza. Só solidão. A música parecia triste o suficiente para quebrar alguma coisa dentro dela e naquele instante, Maytê percebeu uma verdade perigosa: talvez Gustavo Ferraresi estivesse muito mais quebrado do que o mundo imaginava.UM ANO DEPOS.A cobertura continuava a mesma: janelas enormes, vista para a cidade, cozinha moderna, mas havia uma diferença impossível de ignorar. Ela tinha vida.Uma manta esquecida sobre o sofá, livros espalhados pela mesa de centro, uma xícara de café pela metade, a lavanda na varanda estava enorme, cheia de flores roxas e, ao lado dela, um vaso de margaridas.Maytê sorriu ao abrir a janela.— Eu falei que elas iam sobreviver.— Você também falou que eu mataria a lavanda em uma semana.A voz de Gustavo veio da cozinha, ela riu.— E eu estava errada.Ele apareceu usando um avental, o mesmo que um dia usara sem saber fritar um ovo. Agora preparava panquecas enquanto cantarolava uma música qualquer.Maytê apoiou-se na bancada, observando-o, ainda achava engraçado vê-lo cozinhar.— Está olhando o quê?— Você.Ele sorriu.— Tem farinha no meu rosto?Ela aproximou-se e com o polegar, limpou um pequeno ponto branco perto da bochecha dele.— Agora não tem mais.Gustavo segurou sua mão ant
Segurar a mão de Gustavo parecia a coisa mais natural do mundo e, ao mesmo tempo, a mais assustadora.Maytê permaneceu alguns segundos parada diante do prédio, olhando para os dedos entrelaçados aos dele.Meses atrás, aquele gesto teria significado apenas carinho. Agora, significava confiança e confiança não se reconstruía de um dia para o outro.Ela respirou fundo sem soltar sua mão.— Acho que estou com medo.Gustavo não perguntou "de quê?". Nem tentou convencê-la de que não havia motivo.Apenas respondeu:— Eu também.Ela levantou os olhos, surpresa.— Você?Ele sorriu de leve.— Todos os dias.O vento balançou os cabelos de Maytê.— Medo do quê?— De fazer alguma coisa que destrua tudo outra vez.Ela apertou sua mão um pouco mais forte.— A diferença é que agora você percebe esse medo.— E não deixo mais que ele decida por mim.Ela sorriu, era exatamente isso.Naquela noite, Maytê demorou para dormir. Ficou olhando para o teto do quarto, lembrando de cada pequena mudança que vira
A chuva da noite anterior havia deixado o ar mais fresco.Maytê abriu as janelas do apartamento logo cedo, deixando o vento entrar. Colocou uma música baixa para tocar enquanto organizava a sala e regava as pequenas margaridas que Gustavo lhe dera semanas antes, as flores estavam mais abertas.Ela sorriu.— Acho que vocês resolveram florescer...O celular vibrou sobre a mesa, era uma mensagem dele.Bom dia. Espero que tenha uma ótima semana. Não precisa responder. Só queria desejar um bom dia.Maytê releu a mensagem duas vezes e depois sorriu. Não havia convite, não havia cobrança, não havia uma pergunta esperando resposta.Era apenas um bom dia, ela respondeu alguns minutos depois.Obrigada. Espero que a sua também seja boa. E não queime o arroz.A resposta chegou quase na mesma hora.Agora só queimo panquecas. Evoluí bastante.Ela riu sozinha.Naquela tarde, eles combinaram de caminhar pela praça depois que Maytê saiu da cafeteria.Sem jantar, sem encontro, sem compromisso, apenas u
Na segunda-feira, Gustavo entrou na sede do Grupo Ferraresi como fazia todas as manhãs, mas havia uma diferença.Ele já não caminhava tão depressa, cumprimentava as pessoas pelo nome, parava para ouvir, perguntava como estavam. Coisas simples. Coisas que, meses antes, pareciam impossíveis.— Bom dia, senhor Ferraresi.— Bom dia, Cláudia. Como está sua filha? Ela já começou a faculdade?A secretária sorriu, surpresa.— Começou na semana passada.— E está gostando?— Muito.— Fico feliz.Gustavo seguiu pelo corredor, assim que ele entrou no elevador, Cláudia olhou para a colega ao lado.— Você acredita que ele lembrou?A colega riu.— Acho que ninguém acredita mais.A reunião daquela manhã era importante, o conselho discutiria a compra de uma empresa internacional.Anos atrás, Gustavo teria falado durante quase toda a reunião. Interromperia apresentações, contestaria cada detalhe.Naquele dia, ele ouviu, durante quase uma hora.Quando todos terminaram, cruzou as mãos sobre a mesa.— Alg
O abraço ainda morava na memória de Maytê.Já fazia cinco dias.Cinco dias desde que ela envolvera Gustavo nos braços por vontade própria.Cinco dias desde que sentira o coração bater acelerado ao sentir o perfume dele outra vez e, desde então, sua cabeça parecia uma guerra.Ela o amava, disso nunca duvidou, mas amar não apagava o passado.Às vezes, antes de dormir, ainda se lembrava da noite em que ele escolheu a empresa em vez dela. Da sensação de ser insuficiente, da dor de fazer as malas.Essas lembranças ainda existiam, só que agora dividiam espaço com outras.O homem que fazia terapia, que aprendia a cozinhar, que esperava sem pressionar, que ria de si mesmo, que finalmente aprendera a amar e isso tornava tudo muito mais difícil.— Você está pensando nele de novo.Maytê levantou os olhos.Dona Célia limpava uma mesa enquanto a observava com um sorriso divertido.— É tão óbvio assim?— Você colocou sal no cappuccino de um cliente.Maytê arregalou os olhos.— Eu fiz o quê?As duas
A primavera finalmente chegara, as árvores da cidade estavam cobertas de flores e o vento carregava um perfume leve que parecia anunciar um novo começo.Já fazia quase dois meses que Gustavo e Maytê haviam voltado a tomar café juntos, não todos os dias, nem todas as semanas.Às vezes passavam dez dias sem se ver, às vezes se encontravam por acaso na feira ou caminhavam pela praça depois do trabalho.Não havia cobranças, promessas e nem medo de dar nome ao que estavam reconstruindo, era leve e talvez fosse justamente isso que mais assustasse Maytê.Naquela manhã, Gustavo apareceu na cafeteria pouco antes do horário de fechamento e entrou sorrindo.— Vim buscar uma encomenda.Maytê arqueou uma sobrancelha.— Encomenda?Dona Célia apareceu carregando uma caixa de papelão.— Seus pães integrais, querido.Maytê olhou da caixa para Gustavo.— Você está comprando pão aqui agora?Ele deu de ombros.— São bons.Dona Célia sorriu.— E ele vem toda sexta-feira.Maytê piscou.— Toda sexta?— Há q







