INICIAR SESIÓNFim de evento, galera! O leão de hoje matamos, que venha o de amanhã!", falei, brincando, enquanto tomávamos um vinho no salão do evento. A sensação de dever cumprido era boa, e o vinho, levemente refrescante, parecia selar a vitória do dia.
"— Amanhã vai ser o dia, galera!", falou Juliano, insinuando que seria ainda mais cansativo que hoje. "— Quando chegar no hotel só quero dormir", falou Cleo, já cansada. A exaustão dela era visível, mas a minha, por outro lado, era mais interna. "— Vamos, galera, que a Helena também precisa descansar para amanhã. Ela não se sentiu bem o dia inteiro", falou Fagner, sempre cuidadoso, me entregando um copo de água. Juliano se prontificou a pedir o táxi, e eu agradeci, aliviada com a ideia de poder me deitar. Mas, no meio da correria, Cleo me olhou de uma forma curiosa, com um misto de preocupação e suspeita no olhar. Era um olhar que eu conhecia bem, um olhar que dizia: "Eu te conheço, e sei que tem algo errado". O olhar dela me deixou inquieta, mas decidi não dar importância. Apenas sorri, agradecendo a preocupação. No quarto, tirei a roupa e fui direto para o banheiro. O chuveiro, o único lugar onde eu podia ter um mínimo de privacidade, parecia um refúgio. Enquanto a água caía, Cleo, do outro lado do box, tirava a maquiagem. — Amiga, eu estou preocupada com você. Esses mal-estares não são normais. Não seria melhor irmos a um médico? Amanhã e domingo vão ser bem puxados — a voz dela vinha abafada pela água, mas a preocupação era nítida. — Relaxa, amiga. Foi só um mal-estar da viagem e eu também devo ter comido alguma porcaria — tentei soar convincente, mas a verdade é que as minhas palavras soavam vazias até para mim mesma. — Amiga, será que... — Cleo parou. O silêncio repentino e a pausa na sua fala foram suficientes para que a pergunta, não dita, se formasse na minha mente. Entendi o que ela queria dizer. A preocupação que eu vinha tentando ignorar percorreu meu corpo como um choque. Me enxuguei rapidamente, peguei a toalha e forcei um sorriso. — Não, amiga. Não tem nem perigo — falei, rindo, mas por dentro, a preocupação estava me consumindo. Meus pensamentos voltaram para a noite com Léo. A nossa noite sem preservatimos. O abraço. O bilhete. A notícia. O mal-estar. As náuseas. A mente, que antes estava tão focada no trabalho, agora girava em torno de uma única pergunta: "Será?". E o medo, o pânico, se instalou. Saí do banheiro, ainda meio cambaleante, e vesti uma roupa velha e confortável que tinha na mala. Me joguei na cama, a dúvida de Cleo ecoando em minha cabeça, misturando-se com o enjoo persistente. O sono veio, pesado, mas não durou muito. Fui acordada por um enjoo ainda mais forte, e mal tive tempo de chegar ao banheiro antes de vomitar. "Foi o vinho que tomei no salão do evento", disse a mim mesma, tentando soar convincente, mas a voz tremia. Graças a Deus, Cleo não escutou nada. Escovei os dentes com pressa, o gosto amargo na boca parecia uma lembrança constante do mal-estar. Voltei para a cama, já era quase dia. Peguei o celular, a mente ainda meio confusa, e comecei a rolar as notícias. E lá estava ele. Léo Montenegro. A foto mostrava-o em uma feira de vinhos, apresentando seu mais novo trabalho. Meu coração errou as batidas, a imagem dele ali, tão imponente, tão... inatingível. A raiva voltou. Aquele canalha não teve nem a decência de me dar um bom dia, mas era tão lindo. As palavras de Bruna voltaram à minha mente: "Quem é o Andrey perto de quem dormiu com o magnata do Léo Montenegro?". Eu ri, mas o riso era amargo. A história se repetia, mas com uma intensidade diferente. Andrey me traiu, me desiludiu. Léo me usou, me deixou com um bilhete. E eu, por mais que tentasse me convencer de que era só cansaço, não conseguia ignorar o mal-estar, a náusea, o cheiro de comida que me enjoava. Aquela feira de vinhos. Era tão Léo. Os olhos dele na foto, o sorriso de canto, me trouxeram de volta àquela noite. O beijo.Nossos corpos entrelaçados. O vinho. O abraço. E a pergunta de Cleo, "Será que?". Sim, a dúvida pairava no ar, e eu não conseguia mais ignorar. O medo, o pânico, eram reais. E a cada segundo, a probabilidade daquela dúvida ser uma realidade ficava mais forte. O dia amanheceu, e com ele, a promessa de mais trabalho. Descemos para tomar café, e meu celular tocou. Era Bruna. "— Amiga, cheguei em SP!", a voz dela soava alegre, um bálsamo em meio à minha inquietação. Ela me contou que agora dividiria o quarto comigo e com a Cleo. Alguns minutos depois, ela chegou. Assim que subimos para o quarto, Cleo precisou sair para resolver umas coisas com Fagner e Juliano, o que me deu a oportunidade perfeita para conversar com Bruna a sós. Tranquei a porta, o coração batendo forte, e comecei a despejar tudo. Contei sobre os mal-estares, os enjoos, o vômito da madrugada. Falei da dúvida, do medo que a pergunta de Cleo tinha despertado em mim. Bruna me ouviu, com a atenção que só uma amiga verdadeira pode dar. Quando terminei, ela me olhou, os olhos arregalados, e disse, com a voz baixa: "— Meu Deus, Helena... É do Léo." Eu desviei o olhar, sentindo um nó na garganta. "Se realmente for o que estou pensando, sim, amiga, é dele", eu disse, a voz embargada. "Até porque, desde o Andrey, não fiquei com mais ninguém." A confissão era um alívio e um terror ao mesmo tempo. E a ficha, que antes estava apenas balançando, agora caía com toda a força. Eu estava, possivelmente, grávida. E o pai era o magnata que tinha me abandonado com um bilhete.Na manhã seguinte, quando abri os olhos, encontrei um bilhete repousando ao lado da cama:> “Bom dia, meu amor. Seria um pecado te acordar. Estou na vinha com Alessandro, volto para o almoço.”Sorri, sentindo o coração aquecer. Por um breve instante, lembrei do abandono no Milani — do bilhete e das flores deixados para trás —, mas me recusei a permitir que aquela lembrança ofuscasse o presente. Isso fazia parte de um passado distante, e além do mais, Léo já havia me contado sobre o medo que sentiu de se envolver novamente depois do rompimento com Maire.Ela havia desaparecido desde o dia em que sabotou a moto de Léo, provocando o acidente em Águeda. Depois que seus pais conseguiram tirá-la da prisão — graças à influência do senhor Francesco —, a família a enviou para a Inglaterra. O próprio Francesco deixara claro que não aceitaria mais nenhuma ameaça contra os Montenegro.Meus pensamentos foram interrompidos por leves batidas à porta.— Entre — falei.Era Maria, trazendo Lucca nos br
Os dias foram se passando. Léo seguia na rotina, sempre ocupado com os negócios das vinhas. Alessandro o ajudava nas reuniões em que ele não podia comparecer, e algumas delas aconteciam no escritório da própria propriedade.O vinho que Léo havia criado em minha homenagem — o Santa Helena — tornara-se um sucesso. Ele até recebeu convites para participar de alguns campeonatos de motocross, mas recusava todos. Sabia que, para mim, seria uma tortura vê-lo correr novamente depois do acidente em Águeda. Mesmo amando o esporte, ele escolhia ficar.Eu já estava com oito meses de gestação. Era fim de novembro, e o Natal se aproximava. As contrações de treinamento já mostravam que meu corpo começava a se preparar. Tentava descansar, mas Lucca, esperto e curioso, estava sempre por perto, encantado com as borboletas dos jardins.Maria continuava sendo uma grande ajuda e companhia. Passávamos boa parte dos dias juntas, enquanto Léo se dividia entre compromissos e decisões importantes à frente dos
Léo foi ao escritório enquanto eu me vestia. Escolhi um vestido branco que desenhava suavemente a minha barriga e deixei os cabelos soltos.Desci as escadas com cuidado, indo até o escritório onde ele estava.Léo permanecia concentrado diante do notebook. Sobre a mesa, uma foto antiga — eu grávida de Lucca, entre as vinhas da serra gaúcha. Quando me aproximei, ele percebeu minha presença e levantou os olhos.— Meu amor, vamos? — disse, levantando-se da cadeira.Ele me abraçou, a mão acariciando com ternura a minha barriga.— Você está linda — murmurou, deslizando os dedos sobre o tecido do vestido.Saímos de casa logo em seguida. Achei melhor deixar Lucca com Maria na propriedade; não sabíamos a hora em que voltaríamos.No carro, Léo dirigia como se levasse o mundo inteiro dentro dele. De tempos em tempos, desviava o olhar da estrada para mim.— Está tudo bem? — perguntava, sempre com aquela preocupação que lhe era tão própria.Quando chegamos à casa de Fellipe e Camille, Léo respirou
Acordei com o sol atravessando as cortinas e o canto suave dos pássaros lá fora. Os peões já trabalhavam nas vinhas, o som distante das vozes e das ferramentas misturando-se ao vento da manhã.Vesti-me e desci. O quarto de Lucca já estava vazio. Na sala de jantar, encontrei Maria à mesa, servindo o café ao meu pequeno.— Como dormiu, senhora? — perguntou Emma, com seu sorriso acolhedor.— Bem, Emma. Acho que o cansaço venceu. Assim que deitei, apaguei. Nem percebi se Léo ligou — respondi, sentando-me à mesa.Tomamos café juntas. Lucca estava encantado com o jardim da propriedade — talvez pelas borboletas que dançavam entre as flores.Depois, Maria o levou para brincar, enquanto eu ficava conversando com Emma, que organizava algumas coisas na cozinha.Ela me falava sobre Léo, quando ainda era criança, e o quanto sofreu com a morte de dona Clarice.— Eles tinham uma conexão muito bonita, senhora — disse Emma, com ternura. — Depois que ele nasceu, dona Leonor quase não vinha mais aqui. A
Acordei no meio da madrugada com um enjoo terrível — talvez algo do jantar não tivesse me caído bem. Corri para o banheiro e, quanto mais vomitava, mais parecia que meu corpo queria expulsar o mundo inteiro de dentro de mim.Escovei os dentes para tirar aquele gosto amargo da boca e fui até a varanda do quarto em busca de ar fresco. O vento da manhã roçava suavemente o meu rosto, e, aos poucos, a náusea foi cedendo. Levei um copo d’água aos lábios e, ao erguer o olhar, vi o horizonte clareando.O sol nascia, tingindo de dourado as fileiras de videiras que se estendiam até onde a vista alcançava. O orvalho ainda brilhava sobre as folhas, e os primeiros trabalhadores caminhavam pelas vinhas com seus chapéus de palha, carregando cestos e ferramentas. O canto dos pássaros se misturava ao som distante das rodas dos tratores, e por um instante, senti-me dentro de um filme — desses em que a vida parece perfeita, mesmo nos detalhes simples.Quando o sol já estava alto, desci as escadas devaga
A manhã nasceu mansa, e o claro invadiu nosso quarto como um convite à saudade. Os pássaros cantavam do lado de fora, enquanto o murmúrio dos trabalhadores ecoava nos vinhedos, trazendo vida à propriedade.Léo tomou um banho demorado, o vapor cobrindo o espelho e seu perfume espalhando-se pelo ar. Quando saiu, já trazia uma pequena mala nas mãos — a mesma que havia deixado pronta na noite anterior.Descemos juntos. Lucca ainda dormia, o rostinho tranquilo, e Léo não teve coragem de despertá-lo.Na cozinha, Emma havia preparado pães e bolo fresco. O cheiro era acolhedor, mas Léo estava apressado. Limitou-se a um café preto, enquanto eu o observava em silêncio, tentando gravar cada detalhe seu — o modo como dobrava as mangas da camisa, o olhar firme, o sorriso breve antes de partir.Nos despedimos à porta. Ele entrou no carro e seguiu pela estrada que levava ao hangar.Talvez fossem os hormônios, mas as lágrimas vieram sem que eu pudesse conter.Era estranho estar ali, na França, sem Lé







