FAZER LOGINEstou jogada no sofá esperando Daniele chegar em casa. Já são nove horas da noite, e a TV exibe um episódio qualquer de Bob Esponja que mal registro. Bocejo pela milionésima vez quando a campainha toca, insistente e irritante.
Levanto-me com um resmungo e me arrasto até a porta. — Já vai! — grito, mas a campainha continua a tocar sem trégua. — Eu disse que já vai! — minha voz sobe mais um tom, com a irritação crescendo. — Porra, será que pode esperar um segundo? — grito, abrindo a porta com um puxão brusco. E então congelo. Lá está ele. Padre André, com seus cachos bagunçados e um sorriso quase... malicioso no rosto. Ele é um paradoxo personificado: tão sagrado quanto pecaminoso. Se vergonha matasse, já estaria no inferno. — Padre... o que faz aqui? — pergunto, tentando disfarçar a onda de calor que sobe pelo meu corpo. — Não vai me convidar para entrar? — Ele arqueia uma sobrancelha, a voz grave carregada de algo que não deveria estar ali. Padres podem ser maliciosos assim? — Ah... Claro. Entre! — respondo, um pouco ofegante, abrindo espaço para que ele passe. Ele caminha para dentro como se tivesse todo o tempo do mundo, os passos firmes e seguros. Quando se senta no sofá, parece se acomodar de um jeito que faz o ambiente inteiro orbitar ao seu redor. — Então... Em que posso ajudá-lo? — minha voz sai mais aguda do que eu gostaria. — Não vai sentar? — Ele pergunta, com as sobrancelhas arqueadas em um gesto de falsa inocência. — Estou bem de pé. — Tento soar confiante, mas minhas pernas parecem gelatina. Sentar ao lado dele não seria uma boa ideia. Não com aquele cheiro de colônia fresca misturado com algo puramente masculino que parece invadir todos os meus sentidos. — Não se preocupe, eu também posso ficar de pé. — Ele começa a se levantar, mas eu o empurro de volta no sofá. — Não! Não precisa! — digo rapidamente, sentindo meu rosto queimar. — Nesse caso... Vamos sentar. — Antes que eu possa reagir, ele segura minha mão e me puxa para baixo, direto para o seu colo. Meu coração dispara, e por um momento, tudo o que consigo fazer é encará-lo. Seus olhos castanhos me prendem, profundos, intensos, e impossíveis de decifrar. — Não acha que assim é melhor? — Ele murmura, a voz baixa e cheia de algo que faz minha pele arrepiar. — Eu... — começo, mas as palavras morrem nos meus lábios quando os dele encontram os meus. O beijo é firme, intenso, mas ao mesmo tempo tão incrivelmente macio que me faz esquecer de tudo. Minha cabeça gira, e antes que perceba, meus braços estão ao redor de seu pescoço, meus dedos enterrados nos cachos macios. Seus lábios se movem com uma habilidade que eu não sabia ser possível. Padres deveriam beijar assim? Ele morde meu lábio inferior, e um gemido suave escapa da minha garganta. Ele ri contra meus lábios, uma risada baixa e rouca que envia um arrepio pela minha espinha. Suas mãos sobem pela lateral do meu corpo, firmes e ao mesmo tempo cuidadosas, até chegarem aos meus seios. — Você é...simplesmente deliciosa. — Ele sussurra, os lábios agora no meu pescoço, mordiscando e beijando com uma intensidade que me deixa sem ar. Sinto sua mão firme na minha cintura enquanto ele me posiciona mais confortavelmente em seu colo, as mãos grandes apertando minhas coxas. — Padre André... — tento protestar, mas minha voz soa como um suspiro. — Angel... Você me provoca sem nem perceber. — Ele sussurra no meu ouvido, a respiração quente e cheia de desejo. Rebolo em seu colo, sentindo a resposta imediata dele, e meu corpo inteiro se aquece. Ele segura meus quadris, os dedos pressionando a pele exposta, e um sorriso torto surge em seus lábios. — Não me provoque. — Ele avisa, a voz baixa e cheia de perigo. — E se eu quiser? — Desafio, a coragem surgindo de algum lugar que não reconheço. Ele não responde com palavras, apenas com outro beijo, dessa vez mais voraz, mais urgente. De repente, uma voz corta o ar: — Angel, que porra é essa? Abro os olhos, o coração disparado, e dou de cara com Daniele me encarando com uma mistura de choque e diversão. — Ai, meu Deus! Daniele! — exclamo, tentando me afastar dela, mas caio da cama. Levo um segundo para entender o que está acontecendo. Foi só um sonho. — Que susto! Por que você me acordou? — pergunto, ainda indignada, ao ver que são seis da manhã. — Porque, caso você tenha esquecido, amiga querida, eu moro com você. E você fala enquanto dorme! — Daniele responde, com um sorriso malicioso. — E daí? — pergunto, sentindo o rosto queimar. — E daí que você ficava repetindo: "Padre, por favor! Padree……!" — Ela imita minha voz de um jeito exagerado. — Eu não falo assim! — Claro que fala. — Ela ri, e eu me viro para o outro lado, tentando voltar ao sonho interrompido. — Me deixa dormir, Daniele. — Calma, eu achei que você estivesse tendo um pesadelo! — Ela diz, divertida. — Mas não estava. — Respondo, um pouco grosseira, ainda frustrada por ela ter estragado meu sonho maravilhoso. — Nossa! — Ela finge ofensa, mas está se divertindo às minhas custas. — Desculpa. — Resmungo, me cobrindo com o lençol. — Tudo bem. Mas, Angel, se isso é o que você sonha... Boa sorte, viu? — Vá a merda!— resmungo jogando um travesseiro nela. — Me empresta seu celular? — Daniele pergunta, e eu me viro para ela. — Pode pegar! — digo, apontando para o meu iPhone preto em cima do criado-mudo. — Não sei por que não compra um. — Acrescento, observando-a pegar o aparelho. — Celular é coisa do diabo! — ela responde, concentrada enquanto disca. — Então pode dizer ao "diabo" aqui pra quem está ligando? — provoco, com um sorriso de canto. — Hoje é meu dia de ajudar o padre André, mas não vou poder. Vou ligar pra Sônia e perguntar se ela pode ir. — Ela fala casualmente, já com o celular na orelha. O nome dele ecoa na minha mente como uma música tentadora. O padre André. O dono daqueles cachos e daquele olhar profundo que invadiu meus pensamentos de forma inconveniente nos últimos dias. — Padre André é o da missa da semana passada? — pergunto, tentando soar desinteressada. — É, por quê? Sem pensar muito, arranco o celular da mão dela e aperto o botão para desligar. — O que foi isso? — Daniele me olha como se eu tivesse perdido a cabeça. — Eu vou! — falo com firmeza, já arquitetando meu plano. — Vai aonde, criatura de Deus? — Ajudar o gost... digo, o padre! — Ajudar o padre? — Ela franze a testa, visivelmente confusa. — É! — insisto, tentando parecer convincente. — Por quê? Você nem gosta da igreja! Nem de religião! E muito menos de padres! Ah, mas esse padre... ele é uma exceção divina. — Resolvi que você estava certa — minto descaradamente, forçando um sorriso. Daniele sempre foi a certinha. Religiosa, devota, cheia de opiniões sobre o que é certo e errado. Eu? Nem tanto. Ela acha que eu deveria me arrepender dos "pecados" da juventude e buscar redenção. Eu nunca liguei para isso. Mas agora... bom, agora eu tenho uma motivação divina. Ou melhor, pecaminosamente humana. — Jura?! — ela pergunta, seus olhos azuis brilhando de empolgação. — Sim! — Que maravilha! Vou avisar ao padre! — Ela pega o celular da minha mão com a pressa de quem acabou de ouvir um milagre. Tão doce e ingênua. Mal sabe ela que não é pela fé que quero me redimir, mas por aquele sorriso e aqueles olhos castanhos que já me tiraram o sono. — O padre tem celular? — pergunto, casualmente curiosa. — Não. Mas tem um telefone na igreja — ela explica, já começando a discar novamente. — Ué, na igreja tem coisas do diabo? — brinco, e ela revira os olhos antes de me lançar um travesseiro. Rindo, vou para o banheiro. Ligo o chuveiro, e enquanto a água quente desliza pela minha pele, minha mente é tomada pela imagem dele. O jeito que ele fala, a voz suave que, ainda assim, carrega uma força indescritível. E aqueles lábios... Tenho que estar perfeita. Cheirosa, impecável, irresistível. Porque amanhã…..amanhã meu pecado favorito será uma oportunidade divina.POV: André Eu não devia ter tanta pressa. Passei seis meses morrendo de sede no deserto, e agora que tinha a fonte bem diante de mim, precisava saborear cada gota antes de me afogar. Eu passei tempo demais alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim. Mas a verdade que ela me entregou mudou tudo. Ela tinha se sacrificado. E agora, trancados naquele quarto, longe de Vila Nova e do fantasma do Thiago, tudo o que importava era reaver o que era meu. Afastei-me ligeiramente, o suficiente para diminuir o ritmo frenético da minha própria respiração, mas sem perder o contato visual. Angel estava deitada no meio do colchão, o cabelo ruivo espalhado como uma auréola profana contra o lençol gasto. Os olhos dela injetados de luxúria, acompanhavam cada movimento meu. — André... — ela sussurrou, a voz manhosa, os quadris se elevando sutilmente em um convite mudo. — Espera — ordenei, a voz saindo baixa, arr
POV: Angel A claridade cinzenta da manhã começou a invadir as frestas da janela de madeira, trazendo consigo a realidade que eu tanto temia encarar. Mas, pela primeira vez em seis meses, o peso no meu peito parecia miligramas mais leve. Quando abri os olhos, ainda estava aninhada entre as pernas de André, sentindo o calor do corpo dele nos meus ombros e o ritmo calmo da sua respiração. Partimos de volta para Ponte Negra bem cedo. Juntar minhas poucas coisas naquele quartinho não levou mais do que cinco minutos. Deixar Vila Nova para trás, ver a silhueta daquele letreiro luminoso do bordel sumir pelo retrovisor do carro, foi como ver um fantasma se dissipar na neblina da estrada. Eu ainda não sabia o que iria acontecer. A ameaça de Thiago continuava pairando sobre as nossas cabeças como uma lâmina afiada, e a ideia de como superaríamos aquela extorsão e o roubo do cofre parecia um quebra-cabeça impossível de resolver. Mas estar ali, sentada ao lado dele, sabendo que ele me entendia
POV: AndréAs lágrimas dela, que antes pareciam uma barreira de segredos, agora lavavam toda a mentira que nos afastou. Segurei seus braços com uma delicadeza que eu temia quebrar, mas Angel não resistiu. O olhar cansado e profundo que ela me direcionou foi o estopim para que suas defesas finalmente desabassem por completo. Ela caiu aos prantos, um choro ruidoso, dolorido, daqueles que estavam guardados no fundo da alma há seis meses.Puxei o corpo dela para o meu peito. Envolvi-a com força, afundando meus dedos em seus cabelos. Ela escondeu o rosto no meu pescoço, soluçando tão alto que o som parecia ecoar nas paredes nuas daquele quarto miserável.— Eu sinto muito... Meu Deus, eu sinto muito — sussurrei contra os seus cabelos, sentindo minhas próprias lágrimas quentes molharem a pele dela. A culpa me esmagava. Como eu pude ser tão cego? Como pude odiá-la? — Eu vou resolver tudo isso, tá? Tudo vai ficar bem, Angel. Eu prometo.Afastei-a levemente, apenas o suficiente para segurar seu
POV: AndréO silêncio do cômodo só era quebrado pelo ruído irritante e metálico daquela geladeira velha. Dei mais um passo para o centro do quarto, sentindo o ar faltar nos meus pulmões. Meus olhos iam de um canto a outro, registrando cada detalhe daquele lugar miserável, e a cada segundo uma pontada de culpa e incredulidade me atingia no peito.O colchão afundado na cama de solteiro. O fogão de duas bocas sem nenhuma panela em cima. A ausência quase total de comida.Eu passei os últimos seis meses alimentando um ódio cego, imaginando que ela tinha me roubado para viver uma vida de luxo, ostentação e liberdade bem longe de mim e das responsabilidades de Ponte Negra. Mas a realidade diante dos meus olhos era um soco violento no meu estômago. Ela estava vivendo em um buraco.Olhei de volta para ela. Angel estava de pé perto da mesa, com os braços cruzados apertados contra o corpo, tremendo de frio ou de puro constrangimento. As asas brancas nas costas dela, que antes no salão pareceram
POV: Angel A determinação na voz de André me causou um arrepio que subiu pela espinha. Ele estendia o meu casaco com firmeza, mas não havia violência nos gestos dele; apenas um desespero controlado, a urgência de um homem que estava prestes a explodir por dentro se não obtivesse a verdade. A gerente olhou para o maço de notas sobre a mesa de vidro e soltou um riso anasalado, os olhos brilhando ao recolher o dinheiro com rapidez. — Bem, o dinheiro dita as regras aqui, cavalheiro. Por mim, ela é toda sua até o amanhecer. Só não façam bagunça no meu corredor — ela disparou, puxando a cortina de veludo de volta e nos deixando sozinhos mais uma vez. O silêncio desabou sobre nós, quebrado apenas pela minha respiração entrecortada. Eu olhava para o casaco na mão dele e depois para o seu rosto. André estava tão perto que eu conseguia ver o tremor sutil no seu maxilar rígido. — André... você não entende o perigo que está correndo vindo atrás de mim — sussurrei, a voz quase sumindo. Peguei
POV: André O silêncio que se instalou na cabine depois que aquelas palavras saíram da minha boca tinha gosto de fel. Eu ainda segurava o queixo dela, sentindo a pele macia que tantas vezes me tirou o sono, mas meus dedos tremiam, movidos por uma mistura de mágoa e uma saudade que eu tentava a todo custo sufocar. Eu me afastei devagar, soltando o rosto dela e dando as costas, incapaz de continuar encarando aquela vulnerabilidade que me desarmava. Clara — ou Angeline, ou seja lá quem ela quisesse ser agora — permaneceu imóvel, recolhendo o pano do chão com as mãos trêmulas. Ela se ergueu lentamente, tentando ajeitar a saia curta com um gesto instintivo de pudor que quebrou ainda mais o meu peito. A asa branca nas costas dela balançava de um jeito melancólico diante daquela cena. — Por que você mentiu seu nome? — perguntei, a voz saindo mais baixa, o tom irônico dando lugar a um cansaço genuíno. — Para garantir que ninguém de Ponte Negra, que eu nunca mais te encontrasse? Ela limp







