INICIAR SESIÓNO toque dos nossos dedos entrelaçados sobre a mesa de centro parecia a única coisa sólida num mundo que acabara de ser reduzido a escombros. Olhei para a mão de Lucas, quente e acolhedora, e depois ergui os olhos para encontrar a serenidade do seu olhar. A forma como ele me enxergava — sem o peso da condenação que o escritório inteiro me lançara — tornava a minha culpa ainda mais esmagadora.Respirei fundo, sentindo o peito apertar com uma honestidade dolorosa que eu não podia mais adiar.— Lucas... eu preciso te pedir desculpas — comecei, com a voz embargada e falhada, puxando suavemente o ar. — Me desculpa de verdade. Por não ter sido sincera com você desde o começo.Lucas não desviou o olhar. Ele apenas me escutou em silêncio, ajustando a postura para me dar toda a sua atenção.— Você sempre foi tão correto, tão transparente e atencioso comigo — continuei, sentindo novas lágrimas quentes marejarem meus olhos, mas desta vez não de pavor, e sim de uma vergonha genuína. — E eu permiti
O silêncio do apartamento de Lucas era um contraste absoluto com a tempestade que devorava a minha vida do lado de fora. Deitada no sofá, envolta pelo cobertor macio, deixei que o calor do ambiente e a presença constante dele acalmassem a tremedeira involuntária das minhas mãos. O cheiro de café fresco começou a tomar conta da sala, trazendo uma sensação estranha de normalidade para uma manhã que começara no inferno.Lucas voltou da cozinha trazendo uma xícara fumegante. Ele se aproximou devagar, sentou-se na borda da mesa de centro diante de mim e me entregou o café, esperando pacientemente até que eu conseguisse segurar a xícara sem derramar.— Obrigado, Lucas... por tudo — murmurei, mantendo os olhos fixos na bebida. — Eu nem sei como te agradecer por ter me tirado daquele lugar.Ele me observou em silêncio por alguns segundos, o olhar atento e compreensivo, sem qualquer vestígio do julgamento que eu tanto temia.— Você não precisa me agradecer, Valentina — ele respondeu, a voz cal
O barulho abafado do elevador descendo em velocidade constante parecia o único ruído em um mundo que havia acabado de desmoronar.O choro preso na minha garganta explodiu em soluços convulsivos, fazendo meu peito subir e descer desordenadamente. Minhas pernas, desprovidas de qualquer força, cederam por completo. Eu teria caído contra o piso de espelho se os braços de Lucas não tivessem me amparado com firmeza, segurando-me pela cintura e me trazendo para junto do seu peito.Ele não disse nada naquele primeiro momento. Apenas me segurou com um abraço protetor e quente, permitindo que eu escondesse o rosto no tecido de seu paletó e descarregasse ali cada resquício da humilhação, da culpa e do pavor que me esmagavam.— Calma, Valentina... Já passou. Eu estou aqui — a voz de Lucas veio baixinha, perto do meu ouvido, num tom calmo e constante que funcionava como um bálsamo sobre a minha pele queimada pelo escândalo.Quando a cabine alcançou o subsolo, as portas se abriram para o silêncio d
O som do telefone sendo recolocado no gancho ressoou como um tiro na minha mesa. A frase de Henrique continuava reverberando na minha mente, paralisando meus dedos sobre o teclado: a Laura estava no prédio. O ar no setor de compliance pareceu congelar, e o bipe característico das portas do elevador se abrindo no andar da diretoria fez meu peito dar um salto doloroso. Laura não foi em direção ao gabinete da presidência. Passos rápidos e pesados cruzaram o piso atapetado. Quando ergui os olhos, ela já estava parada no início da ilha de mesas. O rosto jovem continuava pálido, com marcas profundas do choro da madrugada, mas a postura vinha carregada por uma fúria cega e incontrolável. — Laura... — murmurei em um fio de voz, tentando me levantar. — Não fala o meu nome, sua vadia! — o grito de Laura rasgou o silêncio do escritório como uma bomba. Ao redor, o barulho de teclados cessou instantaneamente. Analistas, secretárias e diretores pararam o que estavam fazendo, virando as cabeças
O relógio de parede da sala marcava seis e quinze da manhã. O som compassado e metódico dos ponteiros era a única coisa que preenchia o vazio dilacerante do meu apartamento. Eu continuava sentada no piso frio, com os joelhos encolhidos contra o peito e o roupão de seda apertado ao redor do corpo, encarando a porta de entrada por onde Henrique passara minutos atrás. A sensação de que o mundo havia ruído sob os meus pés não era uma metáfora; era uma dor física, aguda e sufocante, que tornava cada respiração uma tarefa miserável. As palavras de Laura ainda queimavam na minha pele como ferro em brasa. “Eu tenho nojo de vocês dois! Nojo!” A expressão de puro desprezo e desilusão estampada no rosto da garota que um dia me enxergara como uma confidente repetia-se em um looping infinito na minha mente. Não havia justificativa no mundo, não havia tese corporativa ou discurso sobre casamentos de fachada que pudesse apagar a imagem sórdida que ela presenciou. Eu era a vilã. Eu era a mulher qu
O som das chaves atingindo o piso de madeira ecoou pelo quarto como um estrondo ensurdecedor.Por dois segundos que pareceram uma eternidade agonizante, o tempo congelou dentro daquele espaço. O ar tornou-se rarefeito, sufocante, carregado pela eletricidade estática do choque. Laura permanecia imóvel sob a luz amarelada do corredor, a boca meio aberta, os olhos arregalados em uma mistura de horror, repulsa e uma dor profunda que rasgou a pouca sanidade que me restava. Eu não conseguia respirar. O calor que preenchia meu corpo segundos atrás transformou-se instantaneamente num gelo glacial. — L-Laura... — a palavra saiu da minha boca como um sopro quebrado, um sussurro insignificante de vergonha. Num reação puramente instintiva de pavor, empurrei o peito de Henrique com as duas mãos. Ele se deslocou para o lado da cama de forma pesada, mas sem o menor sinal de pânico ou desespero. Henrique sentou-se na borda do colchão, mantendo a postura ereta, e usou o braço para cobrir a minha ci







