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Capítulo 54 – O Confronto

Autor: Eva Belmont
last update Data de publicação: 2025-09-24 00:40:22

O vento do inverno soprava forte naquela manhã, espalhando folhas secas pelo pátio da Casa Raízes. As adolescentes se reuniam para mais uma roda de conversa. Havia risos, cochichos, olhares curiosos. Mas, como sempre, Luana estava lá com os braços cruzados, sentada no canto, como se estivesse pronta para desmontar qualquer tentativa de aproximação.

Júlia tentava manter o ritmo da atividade, falando sobre autoestima e escolhas. — Ninguém aqui precisa ter pressa — dizia com firmeza. — O important
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    O tempo, quando amadurece, não passa — repousa. E era assim que a Casa Raízes existia agora: repousando sobre tudo o que fora sem jamais deixar de crescer.O portão azul e verde já não era apenas entrada, mas símbolo. Gente de todos os cantos do país vinha vê-lo, tocá-lo, fotografá-lo. Algumas deixavam bilhetes com histórias, outras apenas choravam em silêncio diante da placa onde se lia o nome de Clara Monteiro.Era um domingo de sol quando Júlia chegou mais cedo. Gostava de vir sozinha antes do movimento começar. Caminhou até o jardim, onde as flores recém-plantadas desabrochavam tímidas. A brisa trazia o perfume doce do alecrim e da lavanda, misturado ao som das vozes que ecoavam ao longe — risadas, canções, vida.Parou diante do caderno de Clara, protegido pelo vidro, e leu as palavras já gastas pela luz:"O amor é o que sobra depois que a dor já gastou tudo o que tinha."Sorriu. — Você estava certa, Clara — murmurou. — No fim, é o amor que fica.O portão rangeu atrás dela. Era Mi

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    Quando Clara retornou à Casa Raízes, o mundo parecia outro. Não que o lugar tivesse mudado fisicamente — as paredes ainda guardavam as marcas do ataque, as cores novas do portão ainda brilhavam sob o sol —, mas havia um brilho diferente nos olhos de todas. Um tipo de confiança serena, como quem percebe que sobreviveu à tempestade e agora pode, enfim, erguer o rosto para o vento.Júlia a esperava no portão, o cabelo preso às pressas e o sorriso cansado.— Finalmente — disse, abraçando-a com força. — Você não imagina o que aconteceu enquanto estava fora.Clara riu, sentindo o calor do abraço. — Imagino que você tenha feito milagre.— Talvez um ou dois — respondeu Júlia, piscando. — Mas o maior deles veio de fora.Na sala principal, as adolescentes estavam reunidas em torno de um jornal aberto sobre a mesa. Assim que Clara entrou, todas se viraram, ansiosas. Luana correu até ela, quase tropeçando nas próprias pernas.— Saiu uma matéria sobre a Casa, Clara! Na seção principal do jornal da

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    A madrugada posterior ao ataque foi longa. Ninguém dormiu direito na Casa Raízes. O som do portão caindo, o eco dos gritos, o estilhaço do vidro quebrando — tudo ainda reverberava nos corpos e nas lembranças. Mesmo em silêncio, as mulheres pareciam ouvir o passado se repetindo.Clara ficou acordada até o amanhecer. Miguel insistira para que ela descansasse, mas ela se recusou. Sentou-se na varanda, enrolada num cobertor, observando o portão improvisado com tábuas e arames, montado às pressas pelas voluntárias e pelos vizinhos solidários. Havia sangue seco em um dos degraus da entrada — uma das mulheres cortara a mão ao tentar segurar a madeira.O sol subia devagar, colorindo o céu de laranja e rosa, mas Clara sentia o peito pesado. O ataque não a surpreendia, mas doía. Era diferente ver o medo nos olhos das meninas, sentir o tremor das mãos de Júlia, ouvir Luana chorando escondida no banheiro, acreditando que ninguém perceberia.Na cozinha, o cheiro de café se espalhava, mas o ar aind

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