INICIAR SESIÓNA luz do sol invadiu o quarto através das cortinas de seda pesada, me acordando de um sono inquieto. Por um segundo, esqueci onde estava. O colchão era macio demais, os lençóis tinham um toque de cetim que eu nunca havia sentido antes. Mas então, meus olhos focaram no teto alto com molduras de gesso e no lustre de cristal pendurado acima de mim, e a realidade desabou sobre meu peito como uma bigorna.
Eu não estava em casa. Eu estava na Mansão Montiel. E eu não era mais Elisa Campos. Eu era uma propriedade adquirida.
Antes que eu pudesse sequer me sentar, a porta do quarto se abriu sem nenhuma batida prévia. A Sra. Odete entrou, seguida por um exército de três mulheres carregando araras de roupas, maletas de maquiagem e caixas de sapatos.
— Bom dia, senhora — disse a governanta, com aquele tom que misturava polidez e desprezo. — O Sr. Gabriel exige que a senhora esteja pronta às sete em ponto. Temos muito trabalho a fazer.
— Trabalho? — perguntei, puxando o lençol até o pescoço, sentindo-me invadida. — O que está acontecendo?
— A transformação — respondeu uma das mulheres, uma loira alta com um tablet na mão. Ela me olhou como se eu fosse uma tela em branco que precisava ser consertada urgentemente. — O Sr. Montiel contratou nossa equipe para garantir que a senhora se adeque aos padrões visuais da família.
Sem esperar minha permissão, elas começaram. Fui arrancada da cama e colocada em uma cadeira diante de um espelho enorme. O que se seguiu nas horas seguintes não foi um dia de spa relaxante; foi uma operação militar.
Minhas unhas, roídas de ansiedade, foram lixadas e pintadas de um nude discreto. Meu cabelo, rebelde e ondulado, foi domado, hidratado e escovado até cair em ondas perfeitas e brilhantes sobre meus ombros. Elas pinçaram minhas sobrancelhas, esfoliaram minha pele e aplicaram camadas de produtos que custavam mais do que meu aluguel antigo.
Eu me sentia uma boneca de plástico. Ninguém me perguntou se eu gostava da cor do batom. Ninguém me perguntou se eu preferia o cabelo preso ou solto. Eu não tinha voz. Eu era apenas um manequim sendo preparado para a vitrine.
— Agora, o vestido — anunciou a estilista, trazendo uma peça protegida por uma capa de veludo.
Quando ela revelou o tecido, perdi o fôlego. Era um vestido longo, de seda azul-marinho profundo, com um decote elegante e uma fenda lateral discreta, mas provocante. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
— Vista-se — ordenou a Sra. Odete.
Deslizei para dentro da seda fria. O vestido se ajustou ao meu corpo como uma segunda pele, realçando curvas que eu nem sabia que tinha. Calcei os saltos agulha prateados e, finalmente, olhei para o espelho.
A mulher que me encarava de volta era uma estranha. Ela era sofisticada, poderosa, deslumbrante. Ela parecia pertencer àquele mundo de ouro e mentiras. Mas seus olhos… os olhos ainda eram os meus. Assustados e tristes.
— Está aceitável — decretou a Sra. Odete, sem um pingo de elogio real. — O Sr. Gabriel está esperando no hall. Não o faça esperar.
Desci a escadaria principal com o coração batendo na garganta, segurando o corrimão com força para não tropeçar nos saltos altíssimos.
Gabriel estava lá embaixo, de costas para mim, ajustando as abotoaduras do seu smoking preto. Ele parecia ainda mais alto e intimidante naquela roupa formal. Ao ouvir o som dos meus passos, ele se virou.
E parou.
Por um breve segundo — uma fração de tempo tão curta que eu poderia ter imaginado — a máscara fria dele rachou. Seus olhos cinzentos se arregalaram ligeiramente, percorrendo meu corpo de cima a baixo, demorando-se na curva da minha cintura e no decote do vestido. Vi uma faísca de algo que não era desprezo. Era… fome? Surpresa?
O ar entre nós ficou pesado, carregado de uma eletricidade estática que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Eu parei no último degrau, sentindo minhas bochechas queimarem sob o olhar intenso dele.
Mas tão rápido quanto surgiu, a emoção desapareceu. Gabriel piscou, e o muro de gelo subiu novamente.
— Melhor — ele disse, sua voz rouca, mas controlada. — Pelo menos agora você não parece uma pedinte. Vamos. Meu avô detesta atrasos.
Ele ofereceu o braço para mim. Não foi um gesto gentil; foi uma ordem. Coloquei minha mão sobre o antebraço dele, sentindo os músculos rígidos sob o tecido caro do terno. O calor da pele dele queimou a ponta dos meus dedos.
— Lembre-se do contrato, Elisa — ele sussurrou perto do meu ouvido enquanto caminhávamos para a porta, o hálito quente causando arrepios na minha espinha. — Esta noite, você é a mulher mais feliz do mundo. Se você falhar, se alguém desconfiar… o acordo acaba.
— Eu sei atuar, Gabriel — respondi, erguendo o queixo, tentando recuperar um pouco da minha dignidade. — O show vai começar.
Ele me olhou de soslaio, e um canto da sua boca se ergueu em um meio sorriso cínico. — Então quebre a perna, querida esposa.
(Salto temporal: 10 anos depois - O Aniversário de 50 anos da Regenera)O terraço do novo Centro Cultural Montiel oferecia a melhor vista do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor de um lado, a Baía de Guanabara do outro, e a cidade pulsando abaixo. A festa de 50 anos da Regenera estava no auge. Helena, agora com 40 anos e no auge de sua carreira como CEO global, conversava com o Ministro da Economia. Ela exalava poder. Mas eu notava, com meu olho de mãe, que ela verificava o celular com uma frequência ansiosa. Alguma coisa em Singapura não estava cheirando bem.Theo, com 25 anos, tinha vindo de Viena para a festa. Ele estava mais maduro, vestindo um smoking desalinhado de propósito. Ele conversava com uma jovem violoncelista que eu nunca tinha visto antes, mas a forma como ele protegia o copo dela sugeria que não era apenas uma colega de orquestra. Havia um segredo ali.Eu e Gabriel estávamos sentados em uma mesa reservada, longe do barulho. Gabriel, aos 70 anos, ainda era o homem mais bo
A mesa de café da manhã parecia um campo de pouso deserto. Onde antes havia cadeirões, brinquedos, mochilas e discussões sobre o mercado de ações, agora havia apenas dois lugares postos, um vaso de orquídeas e o silêncio. Theo estava em Viena. Helena estava em Singapura fechando um acordo. Éramos só nós.Gabriel dobrou o jornal (de papel, um hábito antigo que ele retomou). — Está quieto demais — ele comentou. — Está — concordei, tomando meu chá. — Sinto falta da gritaria. Sinto falta até das brigas.— O que vamos fazer hoje? — ele perguntou. — Não tenho reuniões. Não tenho que buscar ninguém na escola. Não tenho que salvar a empresa. — Podemos… não fazer nada? — sugeri. Gabriel riu. — Nós não sabemos fazer "nada", Elisa. Vamos enlouquecer até o meio-dia.— Tem razão. — Levantei-me. — Vamos ao Centro. Quero ver a inauguração da biblioteca do Projeto Renascença.Centro do Rio. Rua do Ouvidor.Caminhamos de mãos dadas pelas ruas de paralelepípedo. O prédio que Gabriel tinha comprado como
O escritório de Gabriel cheirava a couro antigo e tabaco (embora ele não fumasse há anos). Helena estava de pé, os braços cruzados, defensiva. — Você me desautorizou na frente dele, pai. Como vou liderar essa família se você me trata como uma criança?Gabriel serviu dois copos de água. Ele não ofereceu álcool. A conversa exigia sobriedade. — Sente-se, Helena.— Eu prefiro ficar de pé.— Sente-se. — A voz dele não foi um grito, mas um comando. O mesmo tom que ele usava para parar negociações hostis. Helena sentou-se, contrariada.Gabriel sentou-se à frente dela. — Você sabe por que eu me tornei CEO da Montiel Mining aos vinte e dois anos? — Porque o vovô morreu. — Não. Porque ele matou o arquiteto dentro de mim antes de morrer. — Gabriel olhou para as mãos. — Eu desenhava, Helena. Como o Theo toca piano. Eu tinha sonhos. Mas Roberto Montiel achava que arte era fraqueza. Ele me forçou, me moldou, me quebrou até eu caber no terno dele.Helena desviou o olhar. — E você se tornou um grande
(Salto temporal: 5 anos depois - Theo com 15 anos, Helena com 30)O jantar de domingo na mansão era sagrado. Eu e Gabriel tínhamos voltado de uma temporada de seis meses na Europa, e a casa estava cheia novamente. Mas o ar estava pesado. Helena, sentada na cabeceira (o lugar que costumava ser de Gabriel), digitava no celular entre uma garfada e outra. Theo, agora um adolescente alto e desengonçado, com cabelos cacheados caindo sobre os olhos, empurrava a comida no prato, evitando contato visual.— Theo — Helena disse, sem largar o celular. — Marquei uma reunião para você com o Diretor de Branding amanhã às 14h. Corte o cabelo e vista uma camisa decente.Theo suspirou, soltando o garfo com um barulho metálico. — Eu não posso amanhã. Tenho ensaio da orquestra.Helena bloqueou a tela e olhou para ele com aquele olhar de "CEO lidando com funcionário insubordinado". — Cancele o ensaio. O estágio de verão começa na segunda-feira. Você vai rodar pelas áreas de Marketing e Design. Preciso que
(Salto temporal: 3 anos depois - Helena com 25 anos)Minha sala na sede da Regenera estava estranhamente vazia. As estantes, antes cheias de prêmios e relatórios, estavam limpas. Apenas uma caixa de papelão repousava sobre a mesa de vidro. Dentro dela: uma foto de Gabriel e eu jovens, o primeiro desenho de Theo e a caneta Montblanc que usei para assinar a compra da Montiel Mining décadas atrás.Helena entrou. Aos 25 anos, ela era uma força da natureza. Vestia um terninho branco impecável (uma escolha ousada, que dizia "eu não tenho medo de me sujar porque eu mando em quem limpa"). Ela parou na porta, olhando para a sala vazia. — Parece menor sem as suas coisas — ela disse.— A sala é a mesma. A ocupante é que vai mudar. — Sentei-me na cadeira pela última vez. — Está pronta?— Os relatórios trimestrais estão prontos. O discurso para os acionistas está revisado. A equipe de transição está alinhada. — Ela listou, eficiente. — Tecnicamente, estou pronta.— Não perguntei tecnicamente. Perg
(Salto temporal: 7 anos depois - Theo com 7 anos, Helena com 22)A festa de formatura de Helena em Engenharia Ambiental foi, previsivelmente, um evento corporativo disfarçado. Metade do PIB brasileiro estava no salão de festas do Copacabana Palace. Helena, deslumbrante em um vestido verde esmeralda, navegava pelo salão como um tubarão em águas calmas. Ela apertava mãos, lembrava nomes de esposas de investidores e discutia tendências de mercado com a facilidade de quem foi treinada para isso desde o útero.Eu e Gabriel observávamos de longe, orgulhosos, mas cansados. — Ela é melhor do que nós éramos nessa idade — Gabriel comentou, tomando um gole de uísque. — Ela é mais técnica. Menos emocional. — Concordei. — O estágio no sertão tirou o romantismo dela, mas deixou a eficiência. Ela está pronta para a Diretoria de Operações.Senti um puxão no meu vestido. Era Theo. Aos sete anos, ele era a cópia física de Gabriel, mas com uma alma completamente diferente. Enquanto Gabriel era aço, Theo







