INICIAR SESIÓNO som do mar de Miami a bater na areia de South Beach foi o despertador mais bonito que o destino me deu naquela manhã de sábado. Abri os olhos devagarinho, sentindo o lençol de linho do hotel de luxo contra a pele, e a primeira coisa que fiz foi olhar para a mesa de cabeceira. Lá estava ele: um buquê enorme de orquídeas brancas, as minhas preferidas, que o David Mercer tinha mandado entregar às seis da manhã. Junto aos caules, um pequeno bilhete com aquela caligrafia dura e apressada que eu conhecia bastante bem: Falta pouco, noiva. Te amo. Sorri sozinha, apertando aquele pedaço de cartão contra o peito, sentindo o meu coração bater com uma esperança tão limpa e brilhante que parecia que o mundo inteiro estava a celebrar conosco.
Toda a poeira do deserto, os palavrões do fuzileiro e a paranoia da floresta tinham ficado para trás. O meu David Mercer estava em casa, e o nosso futuro ia começar ali.
A minha manhã foi um desfile de risos, mimos e champanhe rosé com as minhas amigas de infância que tinham voado de Boston de propósito para a cerimónia. O salão termal do hotel cheirava a óleos essenciais de lavanda e jasmim. Passei horas sentada numa cadeira de veludo branca, com duas maquilhadoras e um estilista tratando de mim com a delicadeza de quem esculpe uma obra de arte. A minha mãe, a dona Maria não parava de andar de um lado para outro com o lenço na mão, limpando as minhas lágrimas sempre que eu me olhasse no espelho.
— Estás uma rainha, minha filha — soluçou ela, ajoelhando-se ao meu lado para me segurar as mãos. — Deus ouviu as minhas preces. O David passou por tanto naquele inferno, mas voltou inteiro para te dar o dia com que sempre sonhaste.
O momento de vestir a seda branca foi mágico. O vestido da alta costura assentava perfeitamente na minha cintura, com uma cauda longa que parecia flutuar no chao de mármore. Quando o estilista colocou sobre mim o véu branco e transparente sobre o rosto e eu olhei para a aliança a brilhar no meu dedo sob a luz do sol de Miami, senti-me a mulher mais sortuda do universo. Estava tudo perfeito, tudo pacífico.
As quatro da tarde, o carro nupcial— um Lincoln clássico preto e reluzente que o meu pai tinha alugado — já estava parado à porta do hotel. O motorista abriu-me a porteira com uma vénia. Entrei com cuidado para não machucar a seda do vestido, acomodando-me no banco de trás de cabedal ao lado da minha mãe e da minha madrinha de casamento. O trajeto até à igreja de Coral Gables devia demorar apenas quinze minutos, mas assim que o carro entrou na avenida principal junto à costa, o trânsito de Miami mostrou as suas garras. Uma fila interminável de para-arranca estendia-se a perder de vista sob o sol quente da tarde.
— Que raio de azar, logo hoje esta avenida tinha de estar assim entupida — reclamou a minha mãe, a olhar preocupada para o relógio de pulso. — O David já deve estar a dar voltas ao altar. Tu conheces o feitio dele, filha. A pontualidade militar daquele rapaz não tolera estas coisas.
— Calma, mãe — sorri, segurando a mão dela e sentindo uma onda de paz e felicidade absoluta a inundar-me o peito. — É um atraso normal de sábado. O David sabe esperar. Ele esperou quatro anos por mim no meio do deserto, não vai ser por causa de vinte minutos de trânsito em Miami que ele vai fugir do altar. Está tudo bem. Nós vamos chegar e vai ser perfeito.
Ponto de Vista: David
O raio do fato cinzento de tres peças estava a sufocar-me o pescoço. A gravata parecia o raio de uma corda de enforcar que me impedia de respirar direito. O Miller sentado na sua cadeira de rodas ao meu lado perto do altar improvisado na relva jardim da igreja, deu-me um toque com o cotovelo e soltou uma piada curta, a abanar a cabeça.
— Relaxa, Coveiro — disse ele baixo, a ajeitar o lenço do bolso do meu fato com os dedos calejados. — Estás com a cara amarela de quem vai saltar de paraquedas sem equipamento. É só uma igreja, pá. O teu trabalho é só dizer "sim" e garantir que não largas nenhuma asneira à frente do padre. Aquela velha ali no segundo banco já está a olhar para nós como se fôssemos assaltar o sacrário.
Forcei um sorriso de canto, limpando o suor das mãos nas calça do fato. Olhei para o relógio de pulso. Eram quatro e quarenta da tarde. O jardim da igreja em Coral Gables estava o auge do luxo civil: bancos de madeira com laços beges e flores brancas por todo o lado. Mas a noiva estava atrasada há vinte minutos. O padre, um homem idoso e de óculos na ponta do nariz, já caminhava de um lado para o outro na relva, a olhar para o céu e a resmungar alto sobre a falta de respeito dos jovens modernos com os horários sagrados da paróquia.
Atrás de mim, entre os bancos dos convidados, o burburinho começou a ganhar corpo. Tentei desligar os meus ouvidos militares, mas a fofoca vinha de todo o lado. Uma tia da Teresa cochichava com a vizinha que talvez a miúda se tinha arrependido à última da hora e que casar com um gajo que veio de um passado de guerra e com a cabeça às voltas, era um passo arriscado demais para se dar. Outro gajo do bairro desatou a rir, dizendo baixo que se calhar ela tinha ido dar uma volta com o ex-namorado de Boston que tinha aparecido na cidade na véspera. O Arthur, o meu sogro, andava de um lado para o outro junto ao portão com o telemóvel no ouvido, com a cara vermelha de irritação.
— Nada, caralho — resmungou o Arthur, aproximando-se de mim com o telefone na mão. — O telemóvel da Maria dá desligado. O da Teresa vai direto para a caixa de mensagens. Devem ter apanhado aquele nós de trânsito na ponte ou esqueceram-se de alguma porcaria no hotel e voltaram para trás. Mulheres, David. É sempre a mesma merda no dia do casamento.
— Está descansado, sogro — respondi, forçando a minha voz a sair calma, embora o meu estômago estivesse a começar a dar aquele nó de ferro frio. — O trânsito de sábado em Miami é um inferno. Elas já entram por ali.
Mas o cérebro deu um estalo. Ao fundo da estrada Lateral da igreja, ouvi o chiar dos pneus a morder a estrada com bastante agressividade. Olhei de relance por cima dos convidados. Uma carrinha da polícia preta, descaracterizada, entrou a abrir pelo portão do jardim, levantando poeira e caruma seca. A música do quarteto de cordas desafinou com o susto e as fofocas pararam no sítio. As portas do veiculo abriram-se e dois homens de casaco de negro, e crachás federais ao pescoço saíram com as caras trancadas.
Na angústia invoquei ao Senhor, e clamei ao meu Deus; desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face.
Salmos 18:6
À frente deles vinha o Lincoln Spector.
Lincoln era o meu amigo de infância, o gajo com quem eu crescera, antes de ir para os fuzileiros e ele para a academia. Ele agora era detetive na divisão de raptos da Flórida mas não vinha vestido a rigor para uma boda. Trazia o coldre tático por baixo do blazer, e os olhos dele, quando se fixaram aos meus, carregavam uma tensão que me gelou a alma e o sangue instantaneamente. O Linc caminhou pela relva a passo rápido, ignorando o Arthur e os convidados. Parou a um metro de mim, junto ao altar, com o peito a arquejar e a mandíbula contraída de dor.
— Linc?... Que merda é essa, caralho? — murmurei, sentindo o fato cinzento apertar-me o pescoço como uma força. — Onde está a Teresa? O Arthur diz que elas estão presas no trânsito.
O Lincoln Spector olhou para o Miller, engoliu em seco e poisou a mão esquerda no meu ombro com tanta força que o tecido do fato estalou. A mão dele estava a tremer.
— David... foda-se, meu irmão, desculpa — a voz dele saiu falhada, num sussurro baixo para os convidados não ouvirem o estrondo. — Recebemos um alerta da central há dez minutos. O Lincoln nupcial foi encontrado abandonado numa rua secundária, a três quarteirões do hotel. O motorista e a mãe dela estavam inconscientes no asfalto e agora no hospital. O vidro de trás estava estilhaçado, David. Havia sinais de luta e o véu do vestido dela ficou rasgado no banco, cheio de sangue. A Teresa foi raptada, irmão. Levaram a tua noiva.
David MercerO silêncio da selva voltou, pesado e sufocante. Só se ouvia o som da chuva tropical a fustigar as folhas de bambu e o gotejar constante do sangue na lama vermelha. Sob a mira da minha Beretta M9, as pupilas do terceiro salteador dilataram-se tanto que o castanho dos seus olhos quase desapareceu. A AK-47 velha tremia na mão dele. O cano vacilou, descendo um centímetro. Depois dois.Ele percebeu o que o chefe mutilado na traqueia e o outro homem a jorrar sangue da coxa já sabiam: eu não era um engenheiro civil. Eu era a morte com uma farda invisível.— Don't... — gaguejou ele, numa mistura de inglês macarrónico e dialeto. — No shoot...Com um movimento rápido da mão esquerda, avancei e arranquei-lhe a AK-47 dos dedos flácidos. Dei um passo atrás, retirei o carregador da arma e lancei o corpo de metal para a densidade da vegetação escura. Ele caiu de joelhos na lama, com as mãos acima da cabeça, a tremer como uma folha.— Sai do meu trilho — ordenei, com a voz num tom baixo
David MercerO motor do jipe gemia em rotação baixa, sofrendo. A cada metro o lodo vermelho tentava engolir as rodas.Já íamos há mais de três horas longe do subúrbio de Saigão. O asfalto acabou. Agora era só trilho, rasgado pela erosão e pela lama das plantações de borracha abandonadas. O jipe sacudia. Terra molhada batia nas janelas fumadas.A humidade do Sudeste Asiático entrava pelas frestas da chapa como vapor. Colava a camisa ao meu peito e deixava o painel melado. O ar cheirava a vegetação podre, gasóleo e terra encharcada. Com 1,87m e ombros de fuzileiro, aquela cabine era um caixão de metal. Cada osso doía com os solavancos. Mas os olhos ficaram presos na mata. Ela se fechava sobre nós como garras negras sob a tempestade. No auricular esquerdo, no volume mínimo, Miami chiava.— Corvo... a frequência... a perder sinal... — a voz do sargento Miller vinha picotada pelas nuvens do golfo. — Tempestade... interferência no satélite de Homestead... estás a entrar na zona cega... C
David MercerA madrugada em Ho Chi Minh chegou cinzenta pelas frestas da ventoinha. Eu já estava acordado muito antes do despertador tocar.Sentei na cama de solteiro. O ar abafado colava a poeira das paredes de betão na minha pele. No espelho baço vi um estranho: cabelo cortado rente em Miami, pele morena disfarçada com base barata. O resultado era um operário cansado. Só que os meus 1,87m e os ombros de fuzileiro não dá pra esconder. Isso continua gritando. Puxei o saco de lona pra cima do colchão.Beretta M9 de 9mm. Faca Ka-Bar.O peso do aço me acalmou e me afundou ao mesmo tempo. Lá fora aquilo era cadeia perpétua. Aqui era a única coisa entre mim e a morte. Pegar a estrada? Impossível.Auto-Estradas cheias de cães, postos e guarda com punho de ferro. O Spector já tinha avisado: fronteiras fechadas, polícia em todas as saídas da província. Se me pegassem com ferro na bagagem, Timothy Scott morria ali. E com ele, a Teresa. Enfiei a Beretta num coldre de lona sob a camisa larga, en
Vandy fez um sinal com a cabeça em direção à cortina de veludo vermelho que separava o camarote do corredor dos fundos. Dois capangas entraram no espaço empurrando duas jovens. Elas não tinham mais dezoito anos. Usavam trajes tradicionais de seda, mas os seus rostos mostravam os sinais claros de sedação extrema — olhos semicerrados e passos vacilantes. Tinham os pulsos atados com fitas plásticas pretas.— Estas duas chegaram no lote de terça-feira, vindas das províncias vizinhas — explicou Vandy, apontando para as jovens com desdém. — Estão limpas. Foram testadas e estão prontas para o uso. Considera-as uma oferenda pessoal para ti e para os teus guardas esta noite. Podem levá-las para os quartos do piso superior. Façam o que quiserem com elas. Amanhã, se ainda estiverem inteiras, os meus homens tratam de as recolher.O inspetor Sarath olhou para as raparigas. Um brilho de luxúria crua cruzou o seu rosto enrugado. Ele levantou-se e agarrou no queixo da mais próxima com força, virando
Samnang VandyO fumo denso de ópio e tabaco misturava-se com o vapor húmido que subia das margens do rio Vàm Cỏ Đông. Sob as vigas de madeira podre da Lanterna de Lótus, uma taberna clandestina oculta nos pântanos nos arredores da vila fronteiriça de Trapeang Phlong, o submundo respirava ao ritmo do álcool, da droga e da impunidade. A poucos quilómetros dali, os camiões de carga roncavam na Estrada Nacional 7, cruzando o posto aduaneiro oficial para o Vietname. Mas naquele antro, a lei era ditada por outra engrenagem. Contrabandistas jogavam dados enquanto consumiam doses de metanfetamina pura, e mulheres com olhares vazios moviam-se como fantasmas entre os clientes da noite. Samnang Vandy observava a decadência lá em baixo com um esgar de desdém do alto do camarote privado. Ele ajeitou os punhos da sua camisa de linho escuro. O perfume caro de sândalo que usava servia como uma armadura olfativa contra a podridão do lugar. À sua frente, sentado numa poltrona de cabedal desgastada,
Teresa d'ÁvilaA sombra de Samnang Vandy caiu sobre mim com o peso de uma laje de betão. Encolhi-me contra o cimento frio do porão, apertando os trapos do vestido de noiva contra o peito, enquanto o silêncio da cela era quebrado apenas pelo som compassado dos passos dele. Ele não tinha pressa. Tinha a calma de um predador que sabe que a presa não tem para onde fugir. O cheiro do perfume caro de sândalo dele misturava-se de forma nauseabunda com o odor a mofo e a álcool daquele subsolo. O barão do crime agachou-se à minha frente. A luz fraca e amarelada do candeeiro de teto refletia-se na cicatriz profunda que lhe cortava a face direita. Ele estendeu a mão e, com uma lentidão que me fez parar o coração, enterrou os dedos no meu cabelo, puxando-me a cabeça para trás com força para me obrigar a olhar diretamente para os seus olhos escuros e vazios.— És demasiado valiosa para ser desperdiçada numa vala comum, americana — murmurou Vandy, num inglês perfeito, soltando um riso seco que me