LOGINUm amor conquistado no inferno da guerra. Um casamento transformado em pesadelo. David é um capitão fuzileiro veterano. Passou os últimos quatro anos a sobreviver à lama, ao sangue e aos morteiros na província de Helmand, no Afeganistão. Calejado pelo gatilho, o seu único porto de abrigo mental eram as cartas de Teresa — a rapariga doce e inocente que deixou em solo americano, a única capaz de desarmar a sua armadura militar.De regresso a casa, tudo o que David deseja é enterrar os fantasmas do passado e cumprir a promessa que o manteve vivo: levar Teresa ao altar num casamento perfeito sob o sol de Miami.No entanto, o destino não perdoa quem tem as mãos manchadas de pólvora.No dia da cerimónia, a ilusão da paz desaba com o chiar dos pneus da polícia. Teresa nunca chegou. O carro nupcial foi encontrado arrombado na estrada, a mãe da noiva está inconsciente no asfalto e o véu de seda branca foi deixado para trás, rasgado e manchado de sangue. O passado militar de David bateu-lhe à porta da pior maneira possível.Teresa foi arrancada do seu mundo para servir de peão numa vingança geopolítica implacável. Mas os raptores cometeram o maior erro das suas vidas: eles achavam que estavam a fazer refém a noiva de um civil, mas acabaram de despertar o predador mais letal do exército.Desarmado, sem o apoio das autoridades e com o relógio a contar os segundos, David quebra o seu juramento de paz. Ele abre o baú militar, recupera a faca de combate e ativa o modo caçador. A sua jurisdição agora é o mundo. Ele vai cruzar oceanos, desmantelar cartéis e deixar um rasto de corpos até trazer a sua noiva de volta... ou morrer a tentar.
View MoreO ar condicionado daquela porcaria do Boeing 777 cheirava a suor, café, tralhas e querosene. Quatro anos enfiados na província de Helmand resumidos a um voo com mais de 200 gajos que tal como eu, não sabiam bem o que iam fazer agora que não tinham em mãos uma espingarda para agarrar. Para os civis que viam as notícias na televisão, o Afeganistão era um monte de areia e gajos trajados a pano. Para mim, era o barulho dos cartuchos a bater no chão e o rádio a chamar numa certa frequência no meio de uma emboscada.
Quando os pneus do bicho morderam o chão na base aérea de MacDill, o pessoal desatou aos gritos. Malta fardada aos murros nos ombros uns dos outros, a chorar aquela palhaçada toda. eu fiquei quieto no banco. A minha mão direita estava enfiada no bolso da calça camuflagem com os dedos agarrando o raio da caixa de veludo azul.
Finalmente esta merda acabou!
A rampa de metal desceu e o bafo de Miami adentrou pelas minhas narinas, esbatendo com violência mínima no meu rosto. A brisa vinha também com um calor húmido e pegajoso, diferente do clima daquela zona que sabia a pó, bem peculiar das montanhas arenosas de Kandahar. Deitei a mochila ao colo e saí do avião às pressas, sem olhar para trás.
Só me interessava uma coisa: a linha de civis atrás das grades de segurança.
Havia cartazes parvos, balões e gajas a chorar, mas o meu olho focou em apenas um único ponto.
A Teresa.
Estava com um vestido amarelo ranhoso, daqueles leves e o cabelo castanho todo despenteado com ação do vento seco e quente. Quando me viu, largou a mala que tinha em mão e veio a correr para dentro dos meus braços. os policiais da base ainda tentaram alcançá-la, mas vendo a minha farda, perceberam logo e refrearam o passo, deixando-a seguir o destino a muito traçado.
larguei a mochila ao chão. Nem pensei. Dei dois passos e ela chocou contra o meu peito com a força de um caminhão.
O cheiro dela. Baunilha. Sem Pólvora, sem fumo. Sem cheiro de sangue. Só ela.
— Voltaste... foda-se, David, tu voltaste mesmo — soluçou ela, com a cara enterrada no meu pescoço, a apertar-me as costas como se o mundo fosse acabar.
— Eu disse-te que voltava, não disse? — murmurei, a enterrar os dedos no cabelo dela. A minha postura militar, aquela rigidez de quem passa o dia em sentido, derreteu-se toda ali no meio do cimento da pista. — Acabou, miúda. A guerra acabou. Estou aqui.
Segurei-lhe o queixo para a olhar de frente. Tinha a cara cheia de lágrimas. Beijei-a com a fome de quem passou a comer ração seca e com sabor a nada caseiro. Um beijo bruto, com o peso de todas as patrulhas onde quase fiquei agarrado à terra por causa de uma mina ou de um tiro de um sniper qualquer.
Ela afastou-se um pouquinho e olhou-me nos olhos, passou o dedo pela minha bochecha e deu-me mais um chocho, deixando o rosto corado de batom.
— Estás diferente, David. Tens o olhar... mais frio. Mais duro.
— É do cansaço do voo, não é nada — cortei logo, forçando um sorriso que me soube a falso. — Só preciso de te ver todos os dias para esta merda me passar da cabeça. Quero esquecer o deserto. Vamos mas é embora daqui.
Peguei na mochila com a mão esquerda e dei-lhe a direita. Os nossos dedos encaixaram direitinhos como as peças de um carregador. Enquanto íamos para o parque, ela não se calava:falava da casa que alugou ao pé da praia, que já tinha o frigorífico cheio e que o jantar estava pronto.
Eu ia abanando a cabeça a fingir que ouvia tudo mas o meu cérebro de fuzileiro não descansava. Os meus olhos faziam o scan ao parque de forma criteriosa: saídas, esquinas, entradas, e coberturas. A uns duzentos metros estacionada ao pé dos táxis estava uma carrinha cinzenta de vidros fumados. Vio reflexo latente de uma lente de câmera lá dentro. Alguém a apontar para nós.
Instintivamente, puxei a Teresa para mais perto de mim, mantendo o meu corpo entre o dela e o veículo. Mal nos aproximamos da zona movimentada o veículo arrancou e sumiu pela pista a nossa frente.
Estás paranoico, pensei, a tentar acalmar os batimentos cardíacos. A guerra ficou lá longe, caralho. Estás na América. Aqui ninguém te quer matar.
A Teresa abriu a porta do carro dela e olhou para mim a rir, com os olhos a brilhar.
— Pronto para a vida civil, Capitão?
Toquei na caixa de veludo dentro do bolso. Aquele anel tinha-me custado quatro anos de inferno, mas estava ali.
— Siga, noiva. Conduz tu.
Nós nem sabíamos que aquele dia seria um dos poucos dias que passaríamos juntos. O momento que se prenunciava como de paz, na verdade, se configuraria como algo bem pior que os sangrentos dias de Kandahar.
David MercerO motor do jipe tossiu antes que o motorista engatasse uma mudança mais baixa. Engoli o resto da adrenalina do sonho, forçando o meu ritmo cardíaco a descer para os níveis de operação. Miami estava a milhares de quilómetros de distância; a realidade ali cheirava a lama saturada, lixo queimado e ao óleo diesel dos geradores decrépitos de Trapeang Phlong.Olhei pelo vidro lateral. O vilarejo de fronteira emergia da penumbra das cinco da manhã como um esqueleto de madeira e zinco. Luzes vermelhas e verdes de tabernas baratas refletiam-se nas poças profundas da estrada principal. Homens de olhar pesado cobriam-se com oleados de plástico sob os alpendres, vigiando a noite. Ninguém fazia perguntas naquele lugar, desde que o dinheiro trocasse de mãos.— Para aqui — ordenei, tocando no ombro do motorista.Ele travou abruptamente junto a uma fiada de camiões de carga abandonados, na periferia da vila. O cambojano olhou-me com uma mistura de alívio e terror absoluto. O suor brilhav
David MercerO silêncio da selva voltou, pesado e sufocante. Só se ouvia o som da chuva tropical a fustigar as folhas de bambu e o gotejar constante do sangue na lama vermelha. Sob a mira da minha Beretta M9, as pupilas do terceiro salteador dilataram-se tanto que o castanho dos seus olhos quase desapareceu. A AK-47 velha tremia na mão dele. O cano vacilou, descendo um centímetro. Depois dois.Ele percebeu o que o chefe mutilado na traqueia e o outro homem a jorrar sangue da coxa já sabiam: eu não era um engenheiro civil. Eu era a morte com uma farda invisível.— Don't... — gaguejou ele, numa mistura de inglês macarrónico e dialeto. — No shoot...Com um movimento rápido da mão esquerda, avancei e arranquei-lhe a AK-47 dos dedos flácidos. Dei um passo atrás, retirei o carregador da arma e lancei o corpo de metal para a densidade da vegetação escura. Ele caiu de joelhos na lama, com as mãos acima da cabeça, a tremer como uma folha.— Sai do meu trilho — ordenei, com a voz num tom baixo
David MercerO motor do jipe gemia em rotação baixa, sofrendo. A cada metro o lodo vermelho tentava engolir as rodas.Já íamos há mais de três horas longe do subúrbio de Saigão. O asfalto acabou. Agora era só trilho, rasgado pela erosão e pela lama das plantações de borracha abandonadas. O jipe sacudia. Terra molhada batia nas janelas fumadas.A humidade do Sudeste Asiático entrava pelas frestas da chapa como vapor. Colava a camisa ao meu peito e deixava o painel melado. O ar cheirava a vegetação podre, gasóleo e terra encharcada. Com 1,87m e ombros de fuzileiro, aquela cabine era um caixão de metal. Cada osso doía com os solavancos. Mas os olhos ficaram presos na mata. Ela se fechava sobre nós como garras negras sob a tempestade. No auricular esquerdo, no volume mínimo, Miami chiava.— Corvo... a frequência... a perder sinal... — a voz do sargento Miller vinha picotada pelas nuvens do golfo. — Tempestade... interferência no satélite de Homestead... estás a entrar na zona cega... C
David MercerA madrugada em Ho Chi Minh chegou cinzenta pelas frestas da ventoinha. Eu já estava acordado muito antes do despertador tocar.Sentei na cama de solteiro. O ar abafado colava a poeira das paredes de betão na minha pele. No espelho baço vi um estranho: cabelo cortado rente em Miami, pele morena disfarçada com base barata. O resultado era um operário cansado. Só que os meus 1,87m e os ombros de fuzileiro não dá pra esconder. Isso continua gritando. Puxei o saco de lona pra cima do colchão.Beretta M9 de 9mm. Faca Ka-Bar.O peso do aço me acalmou e me afundou ao mesmo tempo. Lá fora aquilo era cadeia perpétua. Aqui era a única coisa entre mim e a morte. Pegar a estrada? Impossível.Auto-Estradas cheias de cães, postos e guarda com punho de ferro. O Spector já tinha avisado: fronteiras fechadas, polícia em todas as saídas da província. Se me pegassem com ferro na bagagem, Timothy Scott morria ali. E com ele, a Teresa. Enfiei a Beretta num coldre de lona sob a camisa larga, en
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