Raphael
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— Os cinco minutos acabaram. — sussurrei, destravando o arco. — O Vazio está aberto. Boa porra de caçada, cavalheiros.
Com uma descarga de adrenalina, os homens desapareceram entre as árvores, sumindo na escuridão que eu controlava.
Permaneci no terraço por um momento, observando o mapa digital no meu pulso. Queria ver qual deles corria mais rápido. Queria escolher o alvo mais interessante.
Eu era o melhor naquilo porque não caçava apenas com as mãos; caçava com a mente.
Fiquei ali parado, com a luz azul do meu relógio se refletindo nos meus olhos enquanto os primeiros gritos começavam a ecoar da linha das árvores. Os outros já tinham desaparecido, avançando pela mata como lobos famintos, mas eu preferia esperar. Gostava de ver os padrões se formarem.
No meu pulso, cinquenta pontos de luz estavam se espalhando. A maioria estava agrupada, encolhida nos arbustos como ovelhas, presas fáceis para os outros. Mas um ponto me chamou a atenção.
Estava se movendo rápido, cortando em linha reta em direção à crista norte, abrindo caminho pela parte mais densa da floresta com uma velocidade que não combinava com o resto da escória.
— Achei você. — sussurrei.
Saltei do terraço, pousando silenciosamente na grama. Eu não estava correndo; estava deslizando. Conhecia cada raiz, cada depressão na terra, cada rocha daqueles hectares. Eu havia mapeado aquela terra na minha cabeça muito antes de mapeá-la em uma tela.
Não fui direto atrás dele. Isso seria rápido demais. Em vez disso, fiz uma curva, cortando por uma ravina estreita para interceptar o caminho dele. Queria ver a expressão em seu rosto quando percebesse que sua fuga era apenas um círculo que o trazia de volta para mim.
Alcancei a crista e subi em um carvalho imenso, acomodando-me em um galho grosso a seis metros do chão da floresta. Puxei uma flecha da aljava. A ponta eletrônica sibilou ao se armar, com uma pequena luz vermelha piscando.
Abaixo de mim, os bosques estavam vivos com os sons da Caçada. Ouvi o impacto distante de um machado, seguido por um grito agudo que foi cortado abruptamente. Em algum lugar à minha esquerda, ouvi Julian rindo.
Então, eu o escutei.
O corredor apareceu. Estava arquejando, com os pulmões chiando no peito. Parou por um segundo, apoiando-se em uma árvore logo abaixo do meu galho, com a cabeça girando para a esquerda e para a direita. Estava coberto de suor e sujeira, com os olhos arregalados e brancos de puro medo.
Olhei para ele, com o dedo apoiado levemente na corda do arco. Conseguia ver a pulsação saltar em seu pescoço. Conseguia sentir o sal do seu suor.
Não disparei. Em vez disso, enfiei a mão no bolso e apertei o botão de um pequeno controle remoto.
A partir de um alto-falante oculto a três metros atrás do homem, o som de um galho quebrando ecoou pela clareira.
O homem girou rapidamente, com um soluço escapando de sua garganta. Começou a recuar, direto para o espaço aberto que eu precisava. Tremia tanto que mal conseguia parar em pé.
Observei-o através do meu visor digital. Meu arco calculava o vento, a distância e o momento exato em que seu coração estaria mais vulnerável.
— Por favor... — ele lamuriou para a escuridão. — Por favor, eu não fiz nada...
— Você foi o que correu mais rápido. — comentei. — Eu odeio quando me fazem ter trabalho.
Ele olhou para cima, com o queixo caindo ao ver o ponto vermelho da minha flecha se estabilizar bem sobre o seu esterno. Ele nem sequer teve tempo de gritar novamente.
Soltei a corda.
A flecha sibilou pelo ar. Atingiu o centro exato do peito dele.
Houve um flash azul brilhante quando a descarga elétrica atingiu seu sistema nervoso, travando seus músculos instantaneamente. Ele não caiu; ele desabou, com o corpo convulsionando sob a força de mil volts antes de atingir a terra.
Desci do galho, pousando sobre ele. Ainda estava vivo, com os olhos revirando na cabeça e o peito subindo em espasmos curtos. Inclinei-me e puxei a flecha com um ruído úmido.
— Trinta segundos. — falei, checando o relógio. — Foi o tempo que você levou para morrer na minha cabeça. Você durou quarenta. Impressionante.
Não olhei para trás enquanto me voltava para a próxima assinatura térmica no meu mapa.
A floresta gritava como se fosse um matadouro sem teto.
Movi-me pelo subbosque como uma sombra, com meu visor térmico pintando o mundo em tons de azul e calor neon. À minha esquerda, a vegetação explodiu. Um homem irrompeu pelos espinhos, com o rosto retalhado pelos galhos, mas não foi longe.
Uma corrente de metal pesada e enferrujada surgiu da escuridão, envolvendo seu pescoço com um estalo doentio.
Luca surgiu sob a luz fraca da lua. Ele parecia a porra de um demônio. Nem sequer estava respirando pesado.
Fincou sua bota pesada firmemente no centro da parte inferior das costas do homem, com os músculos se contraindo sob a camisa preta enquanto segurava as duas extremidades da corrente.
As mãos do homem arranhavam a ferrugem, com os olhos saltando das órbitas enquanto tentava buscar um ar que não existia mais ali. Luca inclinou-se para trás, usando cada gota da sua força para curvar o corpo do homem para trás sobre o seu joelho.
O som que se seguiu foi um estalo úmido e abafado, o ruído inconfundível de uma espinha dorsal se partindo como um galho seco.
O corpo do homem amoleceu instantaneamente, com as pernas atingindo a terra sem utilidade. Luca não soltou. Manteve a tensão firme por mais alguns segundos, assistindo à luz se apagar nos olhos do homem com uma expressão de pura fome. Ele afrouxou a corrente, e o corpo desabou na lama como um saco de grãos.
Mais abaixo na crista, o som de ossos quebrando ecoou pelas árvores.
Adriano estava de pé sobre um grupo de três homens que tinham tentado se esconder em uma vala. Ele segurava um taco de beisebol envolto em arame farpado enferrujado. Cada vez que golpeava, o arame rasgava fundo, prendendo-se na pele e no tecido, arrancando pedaços de carne quando ele puxava de volta.
Ele nem sequer estava respirando pesado. Parecia estar apenas praticando rebatidas, com o rosto calmo e entediado enquanto os homens imploravam por uma misericórdia que não existia naquelas árvores.
E então havia Dante.
Ele não usava correntes ou tacos. Tinha algo que eu o havia ajudado a modificar: uma luva de ferrão. Era uma manopla tática pesada, equipada com agulhas de titânio pressurizadas nas juntas dos dedos.
Cada agulha era oca, projetada para injetar um ácido de alta concentração diretamente na corrente sanguínea com o impacto. Observei enquanto ele agarrava um corredor pelo ombro, girando o homem e enterrando o punho em seu peito.
O homem não apenas caiu. Atingiu o chão agarrando o torso enquanto o ácido começava a devorá-lo de dentro para fora, com seus gritos se transformando em um chiado úmido e sufocado. Dante apenas limpou uma gota de sangue da luva e olhou ao redor em busca do próximo.
Virei as costas. Eu tinha meu próprio trabalho a fazer.
Três assinaturas térmicas estavam encolhidas atrás de um tronco caído a cem metros à frente. Estavam quietos, achando que a escuridão era sua aliada.
Ergui o arco.
Não precisava vê-los a olho nu. Meu visor travou na espinha do homem do meio. Ajustei o seletor no meu arco, mudando a configuração da flecha de "Choque" para "Ponta de Caça".
Fiu.
A flecha sibilou pelo ar, perfurando o tronco podre e o homem atrás dele. Ele não teve tempo nem de arquejar antes que a ponta da flecha se expandisse dentro do seu peito, prendendo-o à madeira como uma borboleta em um quadro de exibição.
Os outros dois saíram em disparada. Deixei que corressem três metros.
Saltei do meu ponto de observação, pousando entre eles. Um tentou desferir um soco; agarrei seu pulso, quebrei o osso como um graveto seco e enterrei uma faca de combate para cima, através da mandíbula dele, em um único movimento. Ele desabou contra mim, e empurrei seu corpo contra o amigo.
O último homem caiu para trás, rastejando pelos cotovelos.
— Por favor! Eu tenho família! — implorou.
— As pessoas que você traiu também tinham. — respondi.
Não usei uma flecha para ele. Pisei em seu peito, sentindo suas costelas cederem sob minhas botas táticas.
Inclinei-me, com o ponto vermelho do laser do meu arco descansando bem entre os seus olhos.
E então puxei o gatilho.
A caçada continuou e, quando a primeira luz cinzenta do amanhecer começou a romper a copa das árvores, a Caçada terminou..
Fiquei de pé e chequei o mostrador digital no meu pulso. Doze. Doze mortes esta noite.
Caminhei de volta em direção à clareira. Os outros homens já estavam lá, emergindo das sombras como uma alcateia de lobos retornando de uma matança. Seus equipamentos táticos caros estavam manchados de lama e sangue, com os rostos corados pela adrenalina do tipo que não se podia comprar em pílulas.
Julian aproximou-se de mim, com o peito arfando. Ele ergueu uma mão respingada de sangue, e batemos os punhos.
— Deus, Raphael! — ele riu. — Aquela armadilha na crista? Pura genialidade. Eu assisti ao terceiro correr direto para o seu arame. Melhor noite do ano.
Marcus juntou-se a nós, limpando um rastro vermelho da bochecha. Ele pegou uma garrafa de uísque centenário de um soldado que aguardava e deu um longo gole antes de passá-la para mim.
— As apostas laterais foram para o teto, Rafe. Vamos precisar de uma floresta maior na próxima vez. Cinquenta não é suficiente.
Luca se aproximou, com a corrente enferrujada ainda apoiada no ombro como um troféu. Não disse nada; apenas permaneceu ali ao lado dos homens.
— Limpem tudo. — ordenei aos soldados. — Quero o lugar limpo até o nascer do sol.
Virei as costas para os bosques e comecei a longa caminhada de volta para a mansão. Arranquei as luvas e as joguei sobre uma mesa lateral, com os olhos varrendo o saguão.
— Onde elas estão? — perguntei a um soldado que montava guarda perto das escadas.
— Na sala privada, senhor. — murmurou ele. — Enzo as trouxe pela entrada de serviço há três horas.
Empurrei as portas da sala. A iluminação era fraca, mantida apenas por algumas luminárias. O aroma de um perfume barato e adocicado preenchia o lugar.
Duas mulheres estavam encolhidas no sofá de veludo. Uma garota branca de traços suaves e cabelos claros, e uma garota negra de traços marcantes e cabelos cacheados.
Varri seus rostos, com a mente repassando as memórias do clube. Nenhuma delas era ela.
— Onde ela está? — perguntei.
A loira olhou para cima.
— Quem?
— A que se apresentou para mim. — disparei, dando um passo para dentro do círculo de luz da luminária.
Minha camisa ainda estava úmida de suor, e uma trilha de sangue escuro secava ao longo da minha mandíbula. Eu provavelmente parecia um pesadelo, e não me importava.
— A que estava com a peruca. — continuei.
A loira levantou-se devagar e caminhou na minha direção. Tentou demonstrar coragem, rebolando os quadris de uma forma que provavelmente julgava sedutora.
— Eu estava de peruca prateada na outra noite... — disse ela.
Estreitei os olhos, escaneando-a da cabeça aos pés. Eu não me lembrava exatamente do rosto. Na penumbra do clube, rostos eram apenas máscaras. Do que eu me lembrava era da maneira como ela se movia. Lembrava-me da curvatura da espinha, da inclinação da cabeça e do modo como a pele dela tinha capturado as luzes neon como seda.
Olhei para a mulher parada na minha frente agora. Ela era bonita, com certeza. Mas era travada.
— Vire-se. — ordenei, com a voz plana.
Ela obedeceu, tentando arquear as costas, mas estava tudo errado. A matemática não batia. A altura estava errada por dois centímetros, os ombros eram estreitos demais. Meu cérebro registrava tudo como uma câmera de alta velocidade, e aquela não era a gravação que eu tinha armazenada na memória.
Dei um passo para trás, o interesse se esvaindo dos meus olhos. Não era ela.
— Você não é ela. — afirmei.
A loira congelou, com seu sorriso falso sumindo. Olhou para a outra mulher no sofá, depois de volta para mim.
Eu não tinha tempo para aquilo. Virei as costas para elas e encarei o soldado que aguardava junto à porta.
— Tire-as daqui. — ordenei. — Leve-as de volta. Certifique-se de que sejam compensadas pelo tempo delas e que cheguem em casa inteiras.