FAZER LOGINJinx encarou seu reflexo no espelho do banheiro de hóspedes e a vontade de socar o vidro foi visceral.
Sem sua mochila tática, ela estava refém da governanta, a Sra. Potts — uma mulher com cara de buldogue que a olhava como se ela fosse uma praga bíblica. A velha lhe entregou uma caixa de roupas marcada como "Doação da Sra. Vale". O resultado foi uma catástrofe.
Jinx, a ladra que já invadiu o Louvre usando alta costura, agora vestia um vestido floral amarelo com babados excessivos que cheirava a naftalina e depressão. O tecido repuxava no busto e sobrava na cintura.
— Isso é um crime contra a moda — resmungou, ajeitando os óculos de grau falsos sobre o nariz sardento. — Se o cartel me vir assim, minha reputação vai pro lixo.
Ela respirou fundo, forçando o batimento cardíaco a desacelerar. Foco, Jinx. O plano era simples: sobreviver ao jantar, localizar o cartão de acesso do cofre (que Aeron certamente mantinha no corpo) e recuperar a mochila. Sem as gazuas de titânio trancadas lá dentro, ela era inútil.
Quando entrou na sala de jantar, o silêncio parecia uma entidade pesada vagando pelo ambiente.
Aeron estava na cabeceira da mesa de mogno, parecendo um imperador entediado e perigoso. Ele vestia uma camisa social branca, os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos, expondo antebraços cobertos por uma leve penugem escura e veias que pareciam mapas de estradas.
Ao lado dele, Luna desenhava animada num caderno. Seu prato de comida, intocado.
Aeron levantou os olhos. Sua taça de vinho parou no meio do caminho quando viu Jinx. Ele engasgou com o álcool, tossindo discretamente, e passou a mão pelo queixo mal barbeado para esconder o choque.
— Escolha... interessante de vestuário — ele comentou, a voz pingando ironia. — Muito primaveril.
Jinx sentiu o rosto queimar.
— Era o que tinha na caixa, Sr. Vale — respondeu com a voz doce de "Sarah", puxando a cadeira ao lado de Luna. — A moda não é minha prioridade. Cuidar da sua filha é.
Aeron estreitou os olhos. Ele odiava quando ela usava a filha como escudo.
— Sente-se.
O jantar mais parecia um teste de resistência. Jinx cortava o filé mignon — que custava mais que seu antigo aluguel — mas seus olhos afiados mapeavam o corpo do alvo.
Ele não usava paletó, o que era ótimo. Observou mais um pouco, e percebeu como o tecido da calça social se esticava na coxa direita quando ele se movia. Foi então que ela notou um contorno retangular no bolso da frente.
Bingo. Era o cartão magnético. A chave para o escritório. A chave para sua mochila recheada de explosivos.
— Luna não comeu nada — Jinx falou, incapaz de aguentar o silêncio.
— Ela nunca come com estranhos — Aeron respondeu sem olhar, cortando a carne com precisão cirúrgica. — É teimosa como a mãe.
Jinx olhou para o prato da menina. Ervilhas e purê. Que tipo de psicopata serve isso para uma criança de quatro anos?
— Talvez ela precise de incentivo.
Jinx pegou o garfo de Luna. Rápida, ela reorganizou as ervilhas e o purê até formarem uma carinha sorridente tosca no prato.
Luna parou de desenhar. Olhou para a comida, e um sorriso minúsculo surgiu no canto da boca dela. Ela pegou o garfo e comeu uma das ervilhas que formavam o "olho".
Aeron parou de mastigar. Ele encarou aquela cena e sua cicatriz na sobrancelha franziu. Havia algo doloroso no olhar dele. Parecia ciúmes misturado com alívio.
— Você tem jeito com ela — admitiu a contragosto. — A última babá saiu chorando em duas horas.
— Sou mais resistente do que pareço, Sr. Vale. Já lidei com... situações piores que crianças birrentas.
— Veremos.
Aeron fez menção de levantar para pegar a garrafa de vinho no aparador atrás dele.
— Deixe que eu sirvo. — Jinx levantou num pulo. Era a chance. A "tática do esbarrão".
Ela pegou a garrafa e caminhou até ele. O cheiro dele a atingiu como um soco — sândalo, chuva e testosterona bruta. Era um cheiro que fazia o cérebro lógico dela desligar por um segundo.
Ela se inclinou para servi-lo.
— Mais um pouco, senhor?
Enquanto a mão direita servia o vinho tinto, a esquerda "escorregou" suavemente em direção à coxa dele, visando o bolso. Dedos leves como plumas. Ela sentiu a borda rígida do cartão. Peguei você.
De repente, uma mão quente e enorme fechou em volta do pulso dela. Como uma algema de carne e osso.
O vinho respingou na toalha branca como sangue arterial.
Jinx travou.
Aeron não olhava para a taça. Ele olhava nos olhos dela, a centímetros de distância. A pupila dele estava dilatada. A mão dele apertava o pulso dela com força suficiente para deixar marcas, o polegar pressionando o ponto da pulsação acelerada dela.
A tensão na sala mudou de "estranha" para "elétrica".
Aeron puxou a mão dela para cima, virando a palma para a luz do lustre de cristal. Ele passou o polegar calejado sobre a base dos dedos de Jinx. A pele ali era grossa, calejada pelo atrito de cordas de rapel, gatilhos de pistola e manuseio de lâminas.
— Mãos curiosas para uma babá, Sarah — Aeron sussurrou, a voz vibrando baixa e perigosa. — E esses calos... não são de segurar giz de cera. São de quem segura coisas pesadas. Ou perigosas.
Ele ergueu o olhar, perfurando a alma dela.
— O que exatamente você fazia antes de cuidar de crianças?
Jinx sabia que ele estava procurando qualquer falha nela. Seu coração batia na garganta, mas ela não recuou. Em vez disso, inclinou-se ainda mais, invadindo o espaço pessoal dele.
— O senhor ficaria surpreso, Sr. Vale — ela respondeu, mantendo o contato visual desafiador. — Carregar crianças exige força. E eu pratico escalada indoor para desestressar. É um hobby um pouco bruto para uma dama, eu sei.
Aeron não a soltou. O polegar dele traçou a linha da veia no pulso dela. O toque era possessivo, investigativo e absurdamente quente.
— Escalada — ele repetiu, testando a mentira como quem testa uma nota falsa. — Isso explica a força. Mas não explica a audácia de tentar tocar no meu bolso.
— Eu ia pegar o guardanapo que caiu — Jinx mentiu sem piscar, a respiração misturando-se com a dele. — O senhor é muito tenso.
O ar entre eles crepitava. Aeron parecia prestes a dizer algo — ou fazer algo imprudente, como beijá-la ou estrangulá-la — quando...
CRACK.
O som de cera quebrando estalou no ar.
Ambos olharam para o lado. Luna havia partido seu giz vermelho ao meio com sua força. Ela olhava para o pai e a babá com os olhos arregalados, alternando o olhar entre as mãos unidas deles.
Aeron soltou o pulso de Jinx como se tivesse levado um choque. Ele pigarreou, fechando o botão do colarinho e recompondo sua máscara fria.
— O jantar acabou — anunciou, levantando-se bruscamente. — Leve Luna para a cama. O quarto dela é sua cela... digo, seu local de trabalho.
Jinx esfregou o pulso onde a pele ainda formigava pelo toque dele.
— E Sarah?
Ela parou na porta, com Luna no colo.
— Sim?
— Não tente sair de casa à noite. Os sensores de movimento do terraço ativam os cães robóticos. — Aeron abriu um sorriso sem humor, cruel. — São protótipos militares que criei. Eles não mordem, Sarah. Eles disparam 50 mil volts antes que você consiga gritar por socorro. E eles não têm botão manual de desligar.
Jinx engoliu em seco.
— Boa noite, Sr. Vale.
Ela saiu, sentindo o olhar dele queimando em suas costas como um alvo laser.
[FIM DO CAPÍTULO]
O sol estava se pondo sobre o vale do rio Hudson, pintando o céu de tons violentos de roxo e laranja, como um hematoma cicatrizando.Aeron estava na varanda de pedra da casa principal, apoiado no parapeito largo, segurando uma copo de uísque envelhecido. O líquido âmbar capturava a luz do crepúsculo.Lá embaixo, no gramado que se estendia até a orla da floresta, a vida acontecia.Luna estava correndo atrás de vaga-lumes, com um pote de vidro na mão, rindo enquanto as luzes piscavam ao redor dela. Liam, agora com passos firmes e desajeitados de um ano e meio, tentavam seguindo a irmã, caindo na grama macia e levantando-se com a determinação teimosa de um Vale. O cachorro da família — um pastor alemão aposentado da unidade K-9 que Jinx adotou de um canil da polícia — vigiava as crianças com uma paciência estoica.Era uma cena perfeita. Era tudo o que Aeron pensou que nunca teria, porque homens como ele não tinham finais felizes; eles tinham danos colaterais.— Você está pensando demais,
A festa tinha acabado.O silêncio desceu sobre a casa de campo como um cobertor pesado e confortável. Os convidados tinham ido embora, Bit tinha se retirado para sua "caverna" na casa de hóspedes (provavelmente para limpar o glacê do teclado), e as crianças... bem, as crianças tinham desmaiado.Liam dormia em seu berço, exausto pela overdose de açúcar e atenção. Luna tinha adormecido no sofá da sala e Aeron a carregou para o quarto dela minutos atrás.Jinx estava sozinha no quarto principal.Ela caminhou até o closet.Haviam vestidos de seda, casacos de caxemira e sapatos de grife. Roupas de uma mulher que frequenta leilões beneficentes e jantares de gala.Jinx passou a mão pelos tecidos caros, sentindo a maciez. Eram bonitos. Eram confortáveis. Mas não tinham história.Ela caminhou até o fundo do closet, onde uma prateleira alta, quase fora de alcance, guardava caixas de armazenamento. Ela pegou uma escada de mogno e subiu.Lá, escondida atrás de uma caixa de chapéus de inverno que n
Jinx segurava a faca como se fosse matar alguém.Seus dedos se fecharam no cabo, calculando o ângulo de ataque. A lâmina era longa, serrilhada e brilhava sob a luz do sol que inundava o jardim. Ela respirou fundo, focou no alvo e desceu o braço.— Sarah, querida, você está tentando assassinar o bolo ou quer cortar uma fatia?A voz da Sra. Potts quebrou o transe.Jinx piscou, olhando para o bolo de três andares coberto de glacê azul-bebê à sua frente. Ela tinha acabado de decapitar um urso de açúcar com uma violência desnecessária.— Desculpa, Sra. Potts — Jinx murmurou, soltando a faca de corte e pegando a espátula. — São velhos hábitos.O jardim da Fortaleza estava irreconhecível. Onde antes havia perímetros de segurança e sensores de movimento, agora havia balões prateados e azuis amarrados às árvores. Onde antes tinham atiradores de elite, agora havia uma mesa de buffet carregada de doces que poderiam induzir um coma diabético em um exército.Era a festa de um ano de Liam Vale.E e
POV AeronAeron já tinha ouvido muitos tipos de gritos. Gritos de dor em campos de batalha, gritos de raiva em salas de interrogatório, gritos de terror durante sequestros. Ele conhecia a frequência exata do desespero humano.Mas nada, absolutamente nada, o preparou para o som que Jinx fez naquela sala de parto.Não era um grito de vítima. Era um rugido. Primitivo, gutural, rasgando o ar estéril da sala de parto do hospital como se ela estivesse declarando guerra contra a própria biologia.— Aeron! — Ela esmagou a mão dele. Ele sentiu os ossos de seus dedos estalarem sob a pressão. Se ela não estivesse conectada a monitores, ele juraria que ela quebraria sua mão. — Se você disser "respire" mais uma vez, eu juro que arranco sua laringe!Aeron estava pálido. O suor escorria por suas costas, encharcando a camisa cirúrgica azul que o obrigaram a vestir. Ele era um homem que comandava exércitos privados, mas ali, segurando a mão da mulher que amava enquanto ela se contorcia em uma agonia q
O quarto do bebê cheirava a tinta fresca, madeira serrada e frustração masculina.Jinx estava sentada na poltrona de amamentação — um móvel absurdamente confortável que custava mais do que o primeiro carro de fuga que ela roubou —, com as mãos pousadas sobre a barriga de oito meses.O bebê se mexeu. Não foi um chute delicado. Foi um movimento de rolamento, como se ele estivesse tentando encontrar uma posição tática melhor ou, mais provavelmente, tentando escapar do útero. Jinx soltou um gemido baixo, massageando a pele esticada.— Ele está agitado — ela comentou.— Ele está sentindo a tensão no ambiente — Aeron resmungou do chão.O CEO da Vale Security, o homem que projetava sistemas de defesa para governos e bancos internacionais, estava sentado no tapete felpudo, cercado por peças de madeira branca, parafusos e uma chave Allen minúscula. Ele estava sem camisa, o suor brilhando em suas costas largas, e parecia pronto para declarar guerra contra o berço desmontado.— Essa instrução es
POV AeronAeron saiu do quarto como quem foge de um incêndio invisível.Ele disse a Jinx que precisava de café. Disse que precisava ligar para a Sra. Potts para avisar que eles passariam a noite no hospital por precaução. Era mentira. Ele precisava sair daquele quarto porque o ar lá dentro tinha ficado subitamente pesado demais para seus pulmões.O corredor da ala VIP do hospital estava deserto. Eram três da manhã. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido elétrico das lâmpadas fluorescentes e pelo som distante de um elevador subindo.Aeron caminhou até o final do corredor, onde uma janela panorâmica dava para a cidade.Ele apoiou a testa no vidro frio. A cidade brilhava lá fora, indiferente.Grávida.A palavra ecoava em sua mente, batendo contra as paredes do seu crânio. Depois do primeiro susto, a palavra “gravidez” o atingiu. A notícia deveria ser o ápice da felicidade humana. Mas para Aeron Vale, aquela palavra começou a ter gosto de metal retorcido e cheiro de gasolina queimada







