FAZER LOGINKNOX KINGSLEY
O estalo seco da fechadura ecoa no meu crânio.
Ariane fecha a porta do meu quarto e se vira na minha direção. O maxilar dela está tão trincado que vejo os músculos da mandíbula saltarem sob a pele.
Ela vai falar algo que fiz de errado, apontar mais uma falha no meu protocolo de sobrevivência.
O problema? Eu não tenho a menor ideia do que seja dessa vez.
— Knox, você sabe com quem estava conversando? — A voz dela é cortante.
Retiro o relógio do meu pulso com movimentos deliberadamente lentos e, em seguida, o anel. Meu uniforme de tênis está colado ao corpo, encharcado de suor, e tudo o que eu peço é um banho gelado para tirar a sensação de estar sendo vigiado.
— Com a irmã do Justin. — Dou de ombros, embora meu estômago dê um nó.
Ela me encara com os olhos semicerrados.
Conheço essa expressão desde a infância, muito antes de ela trocar as brincadeiras em Ashford pelo terno escuro de minha guarda-costas oficial na Northwood University.
O pai dela protege o sangue dos Kingsley há décadas. Ela herdou o pragmatismo cruel da profissão.
— Enola. Harrington — diz pausadamente, como se anunciasse uma sentença de morte.
E já ouvi coisas assim a meu respeito.
— Sim. — Caminho até o móvel do lado da minha cama e deixo meus pertences em cima com um baque surdo. — Eu sei o nome dela.
Enola.
A jornalista mais observadora e intrometida do campus, a garota que fareja segredos antes mesmo de eles acontecerem. Popular, líder de torcida e irmã do meu colega de quarto.
E dona de um sorriso adorável que quase me fez esquecer do perigo por alguns segundos.
— Ela é perigosa para o seu disfarce — Ariane afirma convicta.
— Ari, não acha que está exagerando? — Sento-me no colchão.
Ariane fecha a cara e relaxa os braços ao lado do corpo.
— Exagerando? Todos na KINGS sabem disso — ela cita o nome da agência de espionagem.
Eu sei que não somos estudantes normais.
Balanço a cabeça, cansado disso tudo. Ela aponta o dedo indicador diretamente para o relógio no móvel.
— O sinal do rastreador do seu relógio foi reativado — Ariane sussurra.
Fico boquiaberto.
Meu peito aperta.
— Eles sabem que você se moveu. Não está mais na Europa, Knox. Mais um motivo para ficar o mais longe possível da Enola.
Minha boca seca. Um nó surge na minha garganta.
Ariane é tão pragmática.
Mas sei que, bem lá no fundo, ela está apavorada e não quer que eu passe pelo inferno de novo. Como quase aconteceu quando fugimos da Europa.
— Estava desativado. Em Roma foi desativado, Ariane! — Elevo o tom de voz.
O ar no quarto fica denso, sufocante.
Ela caminha a passos lentos e para diante de mim. Os olhos castanhos, gélidos como um escudo, cravam-se nos meus.
— Melhor você ficar aqui no quarto.
— Não! — Levanto-me da cama em um salto. — Eu não vou virar prisioneiro do meu próprio quarto de novo. — Passo por ela e seguro a maçaneta. — Tenho mais um treino de tênis daqui a pouco. E é isso que vou fazer.
Saio determinado.
Não vou parar a minha vida novamente por conta deles.
Não serei refém dessa situação.
A Northwood University deveria ser o meu santuário, um dos locais mais seguros do mundo para alguém com a cabeça a prêmio.
Atrás da fachada de uma universidade comum da elite, existe o departamento secreto da KINGS.
De repente, meu corpo é arremessado com violência para trás. Minhas costas se chocam contra a madeira fria e úmida da porta do banheiro do corredor.
Um braço forte e rígido é posicionado com precisão sobre a minha garganta, me deixando sem ar.
Os olhos castanhos dela estão a centímetros do meu rosto, com uma fúria controlada.
— Você tem que saber acatar ordens, sabia, Knox? — Ariane força o peso do próprio corpo contra o meu.
Uma técnica de imobilização que me impede de mover os quadris.
O calor da pele dela encosta no meu pescoço enquanto ela prende meu tronco com precisão de treino.
— Ariane, me solta. Agora! — rosno e me bato na parede, uma tentativa em vão de livrar meus braços do seu bloqueio.
— Não — ela sussurra e estreita os olhos. — Meu trabalho é te proteger. E é isso que estou fazendo.
— Você enlouqueceu. Eu só vou para a porra da aula de tênis!
— E depois se esbarrar na Enola? Não mesmo — Ariane rosna, a voz vibra perto do meu ouvido.
— Qual é o problema com a Enola? Ela parece ser legal igual ao irmão, que você não suporta. Mas, Ari, o Justin é meu amigo.
— Ele é amigo do Ricky. Não do Knox — afirma.
Engulo seco, a saliva desce rasgando pela garganta apertada.
Ariane tem razão. Como dói admitir isso.
O Justin e todos os outros estudantes que não são da KINGS só conhecem o carismático Ricky D’Ambrosio.
— E ela… ela é um problema — Ariane continua e afrouxa o braço no meu pescoço. — Eu já te falei. O que você não precisa é de uma jornalista na sua cola. Já chega aquela gente na Europa.
Antes que eu possa responder, ouço o clique da fechadura atrás de mim. A porta do banheiro é empurrada para dentro.
Meu corpo acompanha o movimento abrupto e eu caio, desajeitado, sentado no chão frio de azulejos.
Ariane continua de pé no corredor, me olhando de cima com um meio sorriso cínico e vitorioso nos lábios.
— Talvez você deva ser contido.
— O que quer dizer com isso? — Levo a mão à cabeça e franzo o cenho.
Ela simplesmente dá um passo para trás e b**e a porta com força.
Ergo-me do chão, o sangue fervendo. Seguro a maçaneta cromada, giro com força e... nada. O trinco nem se move.
Estou trancado.
Minha respiração fica irregular.
— Ariane, abre a merda dessa porta agora! — Descarrego meu punho contra a madeira maciça, o batente vibra. — Ariane! Você não pode me trancar aqui para sempre!
— Desculpa, Ricky — a voz dela vem abafada, mas carregada de deboche, utilizando o nome do meu disfarce —, mas você não vai para a aula hoje. E talvez eu só venha te tirar daí à noite, para o jantar. Talvez.
— Ariane! — chamo.
— Aproveita para tomar banho. Assim, esfria a cabeça.
— A minha cabeça vai explodir porque você está sendo muito… eu não sei a palavra em inglês, mas você está sendo muito… out o' bounds comigo! — grito contra a madeira.
Fora dos limites. Abusada. Inadequada. É o termo que queima na minha língua escocesa, o único capaz de traduzir a petulância dela.
— Tchau, Ricky. — Ouço-a do outro lado da porta, seguido pelo som rítmico de seus passos sumindo pelo corredor da fraternidade Delta Ridge.
— Ariane! — chamo novamente, mas o silêncio é a minha única resposta.
Arfo e encosto a testa na porta.
Meus dedos estão vermelhos e latejam de tanto murro que dei na madeira, e nem assim ela desabou.
Tento normalizar minha respiração.
Fecho os olhos.
Puxo o ar pelo nariz.
Não acredito que ela fez isso comigo.
Solto pela boca.
A que ponto chegamos?
Olho para o boxe cinzento e noto minha toalha pendurada no gancho ao lado das outras.
Talvez só me resta esfriar a cabeça.
Retiro o uniforme completo e deixo as peças caírem em um monte no chão. Entro no boxe de azulejos e ligo o registro do chuveiro.
A água cai morna, exatamente do jeito que gosto. Primeiro estendo as mãos, molhando os braços para acostumar a pele com o choque térmico. Depois, fecho os olhos e coloco a cabeça direto debaixo do fluxo d'água.
Minha mãe sempre dizia que um bom banho recupera as energias para continuar a luta. Essa pausa é essencial para reorganizar os pensamentos e elaborar a estratégia vencedora.
Só que, por mais que eu tente focar em uma rota de fuga, a única imagem que invade minha mente é a da irmã do Justin. Lembro do contorno dos lábios dela ao redor daquele maldito canudo, bebendo o chá gelado enquanto me encarava.
E apesar de ela parecer estar me interrogando… por um lado, eu gostei de ter a atenção da Enola. Por outro, eu sei o quanto é perigoso.
Não tiro a razão da Ariane.
Uma jornalista talentosa e curiosa como a Enola Harrington pode destruir o pouco que restou da minha vida real com apenas uma matéria.
E então percebo que ainda estou encarando o nada como se ela estivesse ali.
KNOX KINGSLEYTRÊS SEMANAS DEPOISMinhas mãos suam frio dentro do tecido grosso do paletó.O estômago se revira em um nó apertado e ácido.Passo a mão pelos meus fios castanhos naturais.O reitor Branson cedeu o auditório principal da Northwood University para anunciarmos o noivado. Há dezenas de jornalistas lá dentro, sussurrando e ajeitando as lentes de câmeras. Estão todos famintos para registrar o início do nosso plano.Caminho com passos pesados até Ariane, que permanece encostada na parede fria do corredor.— Alguma movimentação suspeita nos arredores?— Negativo —
ENOLA HARRINGTONSe alguém me dissesse há uma semana que eu estaria usando o anel de um duque e planejando um casamento com o amigo do meu irmão, eu diria que a pessoa estava louca.Mas o perigo tem uma forma estranha de acelerar o tempo. E, no meio de tantas mentiras, o calor da pele do Knox contra a minha e a promessa silenciosa no chuveiro são as únicas verdades que me restam.Solto um suspiro assim que paro diante da porta de madeira escura do quarto de hóspedes onde Justin está instalado.Aperto o metal frio do anel de sinete do Knox contra a palma da minha mão.Dobro o indicador e bato na madeira com três toques firmes. Espero alguns segundos, com o coração na garganta, até que ele finalmente abre.
KNOX KINGSLEYAs lágrimas descem devagar pelo rosto da Enola.Os olhos azuis, antes tão cheios de respostas, agora estão arregalados, fixos em mim.Ela deve estar me chamando de louco.E é loucura mesmo o que vou falar. Mas pode ser a loucura que vai nos salvar.Sinto o sangue pulsar com força nas minhas têmporas.Eu nunca tive tanta certeza assim toda a minha vida.— Eu vou te dar uma escolha — aviso e ela inclina o rosto para o lado. — Mas se a resposta for a que eu não quero ouvir, meus planos terão que ser modificados para o meu azar.Enola tem o direito de escolher cada passo sobre a própria vida.
ENOLA HARRINGTONLevo a xícara de cerâmica fria até a boca e tomo o último gole do chá morno.O gosto amargo da camomila parece se prender à minha língua.Vasculho a minha mente, repassando cada linha do banco de dados do consórcio de notícias.Nada. Absolutamente nada.Nenhum arquivo confidencial mencionava a morte da Kate, o exílio do Justin ou o envolvimento do meu pai com os Maddox. Muito menos que a pequena Maya é filha de um duque escocês.Não tem nada de normal nessa história.Justin me explicou algumas coisas, mas eu ainda sinto que faltam tantas informações para eu finalmente finalizar esse quebra-cabeça.
KNOX KINGSLEYRespiro fundo assim que Lennox fecha a porta pesada do escritório.O clique da fechadura ecoa no meu peito como um tiro de advertência.Ariane me encara em guarda, o corpo tenso sob as roupas escuras de combate. Como se soubesse que eu sou capaz de pegar o meu irmão pelo colarinho e socar várias vezes a cara dele.A raiva queima no meu peito.A vontade de quebrar o nariz do Lennox é enorme. Mas eu preciso me controlar, pelo menos um pouco, para entender o objetivo do plano deles.Porque o meu irmão pode não ter confiado em mim, mas eu sei que ele seria capaz de queimar o mundo para proteger o Callum.Então, se fingir de morto… sim,
ENOLA HARRINGTONO mundo está girando.Na verdade, está capotando em câmera lenta bem diante de mim.E eu sou a passageira indefesa dentro desse carro desgovernado, esmagada ao lado do Knox.Recebendo um bombardeio de verdades capaz de… sei lá, acabar de me pulverizar de vez.Meu. Deus.A Maya. Minha irmãzinha.Não é a minha irmãzinha de sangue.Ela é do Callum. Sobrinha do Knox. E filha do Duque de MacLeod que não está morto.— É a pura verdade — Justin afirma ao quebrar o silêncio pesado da sala e me encara hesitante. — Quando eu falo







