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Capítulo 4

Penulis: Kell velloso
last update Tanggal publikasi: 2026-06-26 08:06:26

Zaya

Já faz uma semana desde que me mudei para a mansão em Coconut Grove e, mesmo assim, eu ainda não consigo me acostumar, não é apenas o silêncio, embora ele pese mais do que qualquer outra coisa, são os corredores longos demais, organizados demais, e a sensação constante de estar ocupando um espaço que não foi feito para mim, como um hotel caro onde tudo funciona perfeitamente, menos a presença de quem está ali dentro.

A casa é linda, isso é inegável, cada detalhe foi pensado, cada móvel escolhido com precisão, as paredes claras contrastando com o piso escuro que reflete a luz dos lustres, tudo impecável, intocado, e talvez seja exatamente isso que incomoda, nada aqui parece ter sido vivido, não há marcas, não há desordem, não há nada que indique que alguém já pertenceu a este lugar, e quanto mais tempo eu passo aqui, mais evidente se torna que eu também não pertenço.

A casa de Brett Howard não admite imperfeições, e eu sou uma.

Os dias se organizam rápido demais, como se a rotina já estivesse pronta antes mesmo de eu chegar, eu acordo cedo, tomo banho, visto o terno, desço para o café e ele já está lá, sempre antes, sempre no mesmo lugar, o café preto nas mãos, os olhos em qualquer coisa que não seja eu, e no começo isso incomoda mais do que deveria, a forma como ele consegue estar tão próximo e, ao mesmo tempo, completamente ausente, mas com o passar do tempo eu começo a fazer o mesmo, porque é mais fácil assim, se não existe troca, não existe erro, não existe nada que precise ser sustentado.

Mesmo assim, não deixa de doer, dói perceber que essa distância não é acidental, que ela foi construída, mantida, e que nenhum de nós parece disposto a atravessar o espaço que existe entre uma cadeira e outra naquela mesa grande demais.

— Senhora, a senhora tem alguma preferência de comida?

A voz da governanta me puxa de volta, e eu demoro um segundo a responder, como se ainda estivesse tentando me localizar dentro da casa.

— Não, eu como qualquer coisa, não quero dar trabalho.

Ela sorri com paciência e comenta, de forma casual, que o senhor Brett não come doce, que só toma café preto e evita frutas pela manhã, e eu apenas assinto, guardando a informação sem pensar muito no motivo, talvez porque entender as pequenas regras torne tudo um pouco mais previsível.

Em algum ponto, a rotina cede, a governanta precisa sair mais cedo e a ideia de sentar sozinha naquela mesa enorme parece pior do que qualquer esforço na cozinha, então eu faço o que sei, algo simples, familiar, o tipo de comida que não exige atenção constante, apenas presença.

Quando ele chega, ainda estou terminando de organizar a mesa, e por um instante curto demais para ser analisado o olhar dele muda, não completamente, mas o suficiente para quebrar o padrão, como se tivesse encontrado algo fora do lugar.

— A governanta não veio hoje?

— Teve uma emergência, eu fiz o jantar, não precisa comer se não quiser.

Ele não responde, apenas se senta, como faz todos os dias, e espera.

Eu sirvo o prato, evitando olhar diretamente, mas percebo o suficiente, o ritmo mais lento, a pausa breve antes da segunda garfada, depois da terceira, e isso diz mais do que qualquer comentário.

Quando ele termina, levanta os olhos.

— Estava bom, obrigado.

A frase é simples, mas não deveria ser relevante, e ainda assim é.

As noites não melhoram, o silêncio da casa não diminui, só muda de forma, e em mais de uma madrugada eu acordo com passos no corredor, constantes, medidos, como se parar fosse mais difícil do que continuar andando, até que, depois de resistir por tempo demais, eu cedo.

Levanto e vou até a cozinha.

Ele já está lá, sentado, a xícara nas mãos, e quando me vê não demonstra surpresa, apenas desliza outra xícara na minha direção, um gesto que começa a se repetir sem nunca ser combinado.

— Chá de camomila, ajuda a dormir.

Seguro a xícara, sentindo o calor atravessar a porcelana.

— Não tem ajudado.

Ele solta um suspiro leve.

— Eu sei.

Ficamos em silêncio, mas não é o mesmo silêncio da mesa de jantar, não há distância calculada, não há necessidade de manter postura, apenas uma pausa compartilhada, como se naquele horário nenhuma regra precisasse ser seguida completamente.

Tomo o chá devagar, consciente da presença dele ao meu lado, não como algo distante, mas como algo que ocupa espaço de verdade, que respira, que se move, que existe ali comigo.

O primeiro evento chega sem anúncio, ou talvez eu só tenha fingido que ele não estava se aproximando.

— Hoje tem um jantar, investidores japoneses, use o vestido que está no seu quarto.

Subo e encontro a caixa sobre a cama.

O vestido é elegante demais para ser casual, ajusta no corpo como se tivesse sido feito sob medida, o tecido frio contra a pele, o decote nas costas mais aberto do que eu usaria por escolha própria, e ainda assim eu visto, porque não há muito o que decidir.

Prendo o cabelo, passo o batom e desço.

Ele está na sala, impecável como sempre, e quando me vê algo muda de novo, não o suficiente para ser chamado de reação, mas o bastante para ser notado, um segundo a mais de atenção, um ajuste leve na postura, como se precisasse recalibrar alguma coisa.

— Está pronta?

— Estou.

Ele estende o braço e eu aceito, e o contato é imediato, firme, quente, o cheiro do perfume dele mais próximo do que deveria, e por um instante eu tenho a impressão de que ele aperta um pouco mais do que o necessário, como se estivesse se certificando de que eu estou ali.

O jantar acontece como esperado, perguntas ensaiadas, respostas calculadas, olhares avaliando cada detalhe, e ele fala por nós dois na maior parte do tempo, mantendo tudo dentro de um padrão seguro, até que um dos investidores se dirige a mim.

— E você, senhora Howard, o que achou de Miami quando se mudou?

A palavra ainda não é minha, mas precisa ser.

— Ainda estou me acostumando, mas a cidade é linda.

— E de onde a senhora veio?

— Hialeah, não é tão glamouroso quanto Coconut Grove, mas é o meu lugar.

Eles riem, e quando olho para ele, percebo algo diferente, não é desaprovação, nem surpresa completa, é mais contido, como se estivesse avaliando algo que não esperava encontrar.

O resto da noite se dissolve em gestos repetidos, e a mão dele permanece na minha cintura mais tempo do que o necessário, firme o suficiente para ser notada, constante o suficiente para não parecer acidental.

No carro, o silêncio volta, mas não é o mesmo de antes.

— Você mentiu.

— Sobre o quê?

— Hialeah, você não gosta de lá.

Respiro antes de responder.

— Eu não disse que gostava, eu disse que era o meu lugar.

Ele não responde imediatamente, e por um momento eu tenho a impressão de que ele não está tentando me analisar, nem corrigir, apenas absorvendo a resposta como algo que não se encaixa completamente no que ele esperava.

As luzes passam pela janela, refletindo no rosto dele, e pela primeira vez desde que cheguei ele não parece estar no controle de tudo.

Ele está apenas ali, ao meu lado.

E a proximidade disso, mais do que qualquer toque, mais do que qualquer cláusula, é o que realmente me desestabiliza.

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