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Capítulo 11

Author: A. C. Barroso
last update publish date: 2025-09-27 00:02:39

SAVANA

A manhã nasceu clara, como se a fazenda tivesse decidido me dar boas-vindas com um novo fôlego. A claridade atravessava as cortinas improvisadas que eu tinha pendurado com prendedores de roupa e pintava o quarto com uma luz dourada. Respirei fundo, sentindo o ar frio da manhã preencher meus pulmões, tão diferente da poluição e do barulho constante da cidade.

Por um instante, me permiti ficar deitada, ouvindo apenas os sons do campo. O galo ainda se fazia ouvir, insistente como sempre. Os
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  • O que Apollo uniu, ninguém separa    Epílogo

    Um Ano Depois...A manhã da competição começou antes do sol. O céu ainda estava meio escuro, e o ar carregava aquele frio suave que só existe quando a terra ainda está decidindo acordar.Eu sentia o peso da barriga enquanto prendia o cabelo num coque desajeitado no espelho do banheiro da Estância. Não era uma barriga enorme ainda, mas já era presença. Uma lembrança constante de que havia mais uma história começando dentro de mim.Um menino.Nosso menino.Caleb estava apoiado no batente da porta, observando em silêncio. Ele sempre fazia isso, me olhar como quem reconhece algo que já sabia, mas gosta de ver de novo.— Você tá linda — disse, sem esforço, como quem afirma o óbvio.— Não precisa mentir — respondi, ajeitando uma mecha.Ele sorriu.— Linda.Ele veio até mim, colocou a mão na minha barriga, e o bebê mexeu na hora. Não sei se por hábito, toque, ou porque reconheceu a voz dele.— Ele tá ficando forte. — Caleb murmurou.— Ele vai ter que ser, com essa família — brinquei.Ele riu

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 47

    SAVANASe alguém me dissesse anos atrás que eu me casaria de novo — e que esse casamento não teria véu, não teria salão, não teria cerimônia ensaiada — eu teria rido.O sol estava se pondo atrás das árvores quando eu senti que o mundo inteiro respirava comigo. O céu tinha aquela cor dourada de fim de tarde que sempre me fez acreditar que Deus pinta o dia a dedo só para lembrar a gente de viver.A cerimônia acontecia ali, no coração da estância, na frente do celeiro de madeira envelhecida, onde pequenas luzes penduradas em fios brilhavam como vaga-lumes presos no ar.O caminho até o altar era de pedra rústica, ladeado por cestos de flores campestres e penachos de capim dos pampas que dançavam levemente ao vento. Cada passo parecia contar uma história — uma história de terra, de raízes, de casa. No centro, sob um arco feito de troncos rústicos cobertos por flores secas em tons terrosos, ele me esperava.O terno escuro e simples, a camisa clara, a fivela grande do cinto brilhando no últi

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 46

    CALEBMeses depois...O tempo tem um jeito estranho de passar quando a vida finalmente encontra um ritmo. Não corre, não arrasta... Só segue.Meses se passaram desde aquele sorvete na praça. Desde os olhares que a cidade já nem fingia esconder. Desde o dia em que Amber me chamou de “nosso Caleb” sem perceber que tinha dito um destino inteiro numa frase simples.À noite, depois que Amber dormia, às vezes ficávamos sentados na varanda. Não falávamos do passado, nem fazíamos planos grandes demais. A gente só existia ali. Respirando o mesmo ritmo.Foi nesses pequenos silêncios que entendi: Eu não estava apaixonado por Savana. Eu estava em casa nela. E eu fiquei. Não porque decidiram que eu devia ficar, mas porque, pela primeira vez na vida, eu quero um lugar para voltar todo dia.A cidade deixou de cochichar. Não porque perdeu o interesse, até porque povo de cidade pequena nunca perde, mas porque o assunto virou parte do cotidiano, como o horário das missas e o preço do leite. Eu e Savana

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 45

    SAVANAAssumir um relacionamento parecia simples, mas quando era falado em voz alta, não parecia tão fácil assim. Na prática, era diferente. Era acordar sabendo que todo olhar da cidade pesaria diferente, que cada passo na calçada seria observado, medido, comentado.E ainda assim, naquela manhã, quando Caleb parou sua caminhonete em frente à casa e abriu a porta do carona, eu entrei sem pensar duas vezes.Amber já estava na escola, Íria na lida com a rotina da casa, e a Estância finalmente respirava um ar tranquilo depois de meses de recomeço, mas dentro de mim, nada estava calmo. Era uma mistura perigosa de medo e coragem, o tipo de sentimento que só aparece quando a gente resolve viver de verdade.Caleb estava bonito de um jeito que não se esforçava pra ser. Vestindo uma camisa azul clara, barba por fazer, o chapéu jogado no banco de trás. O sol batia no braço dele, dourando a pele, e o som do motor parecia acompanhar o ritmo do meu coração.— Tá tudo bem? — Ele perguntou, sem tirar

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 44

    CALEBA tarde tinha o peso das coisas faladas pela metade.O curral estava em silêncio de serviço: mugido baixo, água batendo no cocho, um galo insistindo num canto. Eu tentei enfiar a cabeça no que era concreto: revisar a ração, ajustar o banho de imersão das patas, conferir os piquetes do trecho leste. Tudo o que pedisse mão, não pensamento.Não adiantou.Cada vez que eu levantava os olhos, enxergava a cena sem esforço: cerca, sol oblíquo, a curva do pescoço de Relâmpago… e a boca de Savana encontrando a minha. Foi inevitável como tempestade em tarde de calor.— Caleb. — A voz do meu pai veio seca, do tipo que a gente ouve antes de decidir se vai discutir. — Preciso falar com você agora.Ele estava na sombra do depósito de sal mineral, chapéu baixo, postura de quem não gostou do que soube. Meu pai não era homem de rodeio com palavras. Era a cerca esticada na medida, o nó bem dado. Se chamava, tinha motivo.— Diga — respondi, caminhando até ele.Ele não disse ali. Virou as costas e s

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 43

    SAVANAO resto da manhã pareceu comprido demais.Mesmo depois que Caleb saiu do galpão, a presença dele ficou ali — pairando no ar como o vapor quente que subia das máquinas.Por mais que eu tentasse continuar a planilha, revisar os números, concentrar no trabalho, a mente fugia. Entre uma anotação e outra, o olhar se perdia na janela, onde o campo brilhava sob o sol novo. E então decidi seguir o conselho dele e fui montar.Não era fuga. Era lembrança.Quando o mundo desabava, o cavalo sempre foi meu lugar seguro. E, naquele momento, eu precisava desse refúgio mais do que de qualquer planilha.Fui até o estábulo com passos firmes, tentando não pensar demais. Relâmpago ergueu a cabeça assim que me viu. O brilho nos olhos dele era familiar — vivo, confiante, paciente. Parecia entender, sem precisar de palavra alguma, que eu não estava ali pra treinar. Estava ali pra respirar.— Oi, garoto — murmurei, passando a mão no pescoço dele. — Pronto para da um saltos hoje?Ele bufou, quente, com

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