Compartir

Capítulo 6

last update Fecha de publicación: 2025-09-16 07:00:59

CALEB

O dia começou cedo, como todos os dias. Antes mesmo do sol despontar no horizonte, eu já estava de pé, tomando minha terceira xícara de café enquanto calçava as botas e ajeitava o chapéu na cabeça para voltar ao trabalho depois de uma longa noite de vigilância para o bezerro nascer. A Estância não esperava. Os animais tinham fome, o pasto exigia atenção, e cada detalhe esquecido podia se transformar em prejuízo no final do mês. Essa era a vida que eu conhecia, a única que fazia sentido.

No curral, o bezerro recém-nascido se movia trôpego, buscando a mãe. Observei por alguns minutos para garantir que estava mamando, antes de seguir para verificar os outros lotes. Hudson, ainda perdido com o serviço, fazia mais confusão do que ajudava.

— Se não aprender a olhar duas vezes antes de soltar a tranca, vai acabar correndo atrás do rebanho estrada afora — resmunguei quando ele quase deixou escapar três novilhas.

Ele ficou com o rosto vermelho, murmurou um pedido de desculpa e saiu correndo para buscar feno. Era atrapalhado, mas pelo menos tinha disposição. Isso já era alguma coisa.

Depois de cuidar dos animais, segui para o estábulo. Tex estava agitado batendo os cascos no chão e bufando, como se sentisse a mudança no ar. Escovei sua pelagem, tentando acalmá-lo, e percebi que, no fundo, quem estava inquieto era eu. Desde que Savana tinha cruzado a porteira, nada parecia igual.

Enquanto selava Tex para uma ronda rápida pelas cercas, ouvi o ronco de um motor pesado vindo da estrada de terra. Subi a colina e, ao erguer a mão contra o sol, vi a poeira se levantar atrás de um caminhão de mudanças.

Meu peito se apertou. Então era isso. Savana não tinha vindo apenas para resolver papéis ou passar alguns dias. Ela tinha vindo para morar em definitivo. Aquele ia ser o seu lar dali em diante e eu vou ter que me acostumar com isso.

Da onde eu estava, consegui ver alguns homens descarregando móveis e muitas caixas em frente à casa sede. Amber corria de um lado para o outro, rindo alto como se tudo aquilo fosse uma grande brincadeira. Savana, de braços cruzados, dava ordens, embora estivesse claro que não tinha nenhum controle sobre a situação.

Hudson apareceu ao meu lado, a corda enrolada no ombro.

— Então é verdade mesmo, chefe. Ela veio para ficar.

— É — respondi, sem tirar os olhos da cena.

— Não parece o tipo de mulher que troca salto alto por lama de curral — comentou, rindo.

Virei o rosto para ele, e só com o olhar já o fiz se calar.

— Ela é filha do Clint —  lembrei-o. —  Só isso já basta pra você respeitá-la.

Hudson engoliu seco e se afastou sem retrucar.

Fiquei parado ali por mais alguns minutos. O contraste me incomodava. A casa, que por tanto tempo ficou mergulhada em silêncio, agora estava cheia de barulho. O som dos móveis sendo arrastados, das vozes dos carregadores, e a risada cristalina de Amber enchiam o ar. E, junto com isso, lembranças que eu tinha tentado enterrar ressurgiam com força.

A imagem da Savana criança veio à tona sem que eu pudesse evitar: de tranças bagunçadas, vestido manchado de poeira, botas cor de rosa, correndo pelo quintal atrás de mim, implorando para brincar de casinha. Eu sempre fingia impaciência, mas, no fundo, acabava cedendo. Agora, vendo Amber tão cheia de energia, percebi como a filha lembrava a mãe.

Suspirei, puxei Tex e desci até a sede. Eu sabia que meter o nariz ia gerar discussão, mas não suportava ver aquela bagunça. Os carregadores largavam as caixas no meio do corredor sem critério nenhum, e aquilo me tirava do sério.

Peguei uma caixa mais pesada e comecei a carregá-la para dentro.

— Caleb! — a voz de Savana cortou o ar. Ela estava parada na varanda, os olhos faiscando. — O que está fazendo aqui?

— Evitando que essa mudança vire um caos maior. — respondi sem me deter.

— Eu não pedi a sua ajuda.

— E pelo que estou vendo, precisa mais do que imagina. — rebati, entrando com a caixa nos braços.

Ela veio atrás, indignada.

— Essa caixa é da Amber! Vai para o quarto dela, não para a sala!

— Então diga isso aos carregadores, não a mim. — soltei a caixa no canto com um baque.

— Você não pode simplesmente entrar na minha casa e decidir onde tudo vai ficar! — disse ela, as mãos firmes na cintura.

Ri de canto.

— Sua casa? Que eu saiba aqui ainda é a Estância Solar. 

— A propriedade é a Estância Solar, mas a casa era do meu pai, portanto, minha.

— E sem mim, você não vai aguentar nem uma semana aqui.

Os olhos dela faiscaram de raiva. Por um instante, achei que ela fosse me dar um tapa, mas Amber surgiu correndo, segurando uma boneca nas mãos.

— Mamãe, olha só o que achei dentro da caixa — disse a menina, sorridente, sem perceber a tensão entre nós.

Savana respirou fundo e se agachou para responder à filha, usando isso como desculpa para se afastar de mim. Eu fiquei ali, parado, observando. Parte de mim queria ir embora, encerrar a discussão. Outra parte não conseguia se afastar.

Depois que Amber voltou a brincar, Savana se levantou e me encarou de novo, o rosto corado.

— Eu não preciso de você me dizendo o que fazer.

Cruzei os braços.

— Não precisa gostar de mim, mas vai ter que aceitar que, sem minha ajuda, você e essa menina não têm como manter a Estância.

Ela me virou as costas, ignorando minhas palavras, mas vi sua mão tremer quando pegou uma das caixas e levou para dentro.

E foi aí que percebi: por fora, ela podia se mostrar firme e decidida. Mas por dentro… talvez ainda fosse a mesma menina teimosa, tentando provar que podia enfrentar o mundo sozinha. E eu sabia que no fundo, essa teimosia ia nos colocar frente a frente muitas vezes ainda.

Montei em Tex e me afastei da casa sede, tinha que voltar ao trabalho, ainda tinha muita coisa a ser feita antes do pôr do sol e o dia estava bem longe de terminar. A discussão com Savana tinha me deixado totalmente de mau humor.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • O que Apollo uniu, ninguém separa    Epílogo

    Um Ano Depois...A manhã da competição começou antes do sol. O céu ainda estava meio escuro, e o ar carregava aquele frio suave que só existe quando a terra ainda está decidindo acordar.Eu sentia o peso da barriga enquanto prendia o cabelo num coque desajeitado no espelho do banheiro da Estância. Não era uma barriga enorme ainda, mas já era presença. Uma lembrança constante de que havia mais uma história começando dentro de mim.Um menino.Nosso menino.Caleb estava apoiado no batente da porta, observando em silêncio. Ele sempre fazia isso, me olhar como quem reconhece algo que já sabia, mas gosta de ver de novo.— Você tá linda — disse, sem esforço, como quem afirma o óbvio.— Não precisa mentir — respondi, ajeitando uma mecha.Ele sorriu.— Linda.Ele veio até mim, colocou a mão na minha barriga, e o bebê mexeu na hora. Não sei se por hábito, toque, ou porque reconheceu a voz dele.— Ele tá ficando forte. — Caleb murmurou.— Ele vai ter que ser, com essa família — brinquei.Ele riu

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 47

    SAVANASe alguém me dissesse anos atrás que eu me casaria de novo — e que esse casamento não teria véu, não teria salão, não teria cerimônia ensaiada — eu teria rido.O sol estava se pondo atrás das árvores quando eu senti que o mundo inteiro respirava comigo. O céu tinha aquela cor dourada de fim de tarde que sempre me fez acreditar que Deus pinta o dia a dedo só para lembrar a gente de viver.A cerimônia acontecia ali, no coração da estância, na frente do celeiro de madeira envelhecida, onde pequenas luzes penduradas em fios brilhavam como vaga-lumes presos no ar.O caminho até o altar era de pedra rústica, ladeado por cestos de flores campestres e penachos de capim dos pampas que dançavam levemente ao vento. Cada passo parecia contar uma história — uma história de terra, de raízes, de casa. No centro, sob um arco feito de troncos rústicos cobertos por flores secas em tons terrosos, ele me esperava.O terno escuro e simples, a camisa clara, a fivela grande do cinto brilhando no últi

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 46

    CALEBMeses depois...O tempo tem um jeito estranho de passar quando a vida finalmente encontra um ritmo. Não corre, não arrasta... Só segue.Meses se passaram desde aquele sorvete na praça. Desde os olhares que a cidade já nem fingia esconder. Desde o dia em que Amber me chamou de “nosso Caleb” sem perceber que tinha dito um destino inteiro numa frase simples.À noite, depois que Amber dormia, às vezes ficávamos sentados na varanda. Não falávamos do passado, nem fazíamos planos grandes demais. A gente só existia ali. Respirando o mesmo ritmo.Foi nesses pequenos silêncios que entendi: Eu não estava apaixonado por Savana. Eu estava em casa nela. E eu fiquei. Não porque decidiram que eu devia ficar, mas porque, pela primeira vez na vida, eu quero um lugar para voltar todo dia.A cidade deixou de cochichar. Não porque perdeu o interesse, até porque povo de cidade pequena nunca perde, mas porque o assunto virou parte do cotidiano, como o horário das missas e o preço do leite. Eu e Savana

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 45

    SAVANAAssumir um relacionamento parecia simples, mas quando era falado em voz alta, não parecia tão fácil assim. Na prática, era diferente. Era acordar sabendo que todo olhar da cidade pesaria diferente, que cada passo na calçada seria observado, medido, comentado.E ainda assim, naquela manhã, quando Caleb parou sua caminhonete em frente à casa e abriu a porta do carona, eu entrei sem pensar duas vezes.Amber já estava na escola, Íria na lida com a rotina da casa, e a Estância finalmente respirava um ar tranquilo depois de meses de recomeço, mas dentro de mim, nada estava calmo. Era uma mistura perigosa de medo e coragem, o tipo de sentimento que só aparece quando a gente resolve viver de verdade.Caleb estava bonito de um jeito que não se esforçava pra ser. Vestindo uma camisa azul clara, barba por fazer, o chapéu jogado no banco de trás. O sol batia no braço dele, dourando a pele, e o som do motor parecia acompanhar o ritmo do meu coração.— Tá tudo bem? — Ele perguntou, sem tirar

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 44

    CALEBA tarde tinha o peso das coisas faladas pela metade.O curral estava em silêncio de serviço: mugido baixo, água batendo no cocho, um galo insistindo num canto. Eu tentei enfiar a cabeça no que era concreto: revisar a ração, ajustar o banho de imersão das patas, conferir os piquetes do trecho leste. Tudo o que pedisse mão, não pensamento.Não adiantou.Cada vez que eu levantava os olhos, enxergava a cena sem esforço: cerca, sol oblíquo, a curva do pescoço de Relâmpago… e a boca de Savana encontrando a minha. Foi inevitável como tempestade em tarde de calor.— Caleb. — A voz do meu pai veio seca, do tipo que a gente ouve antes de decidir se vai discutir. — Preciso falar com você agora.Ele estava na sombra do depósito de sal mineral, chapéu baixo, postura de quem não gostou do que soube. Meu pai não era homem de rodeio com palavras. Era a cerca esticada na medida, o nó bem dado. Se chamava, tinha motivo.— Diga — respondi, caminhando até ele.Ele não disse ali. Virou as costas e s

  • O que Apollo uniu, ninguém separa   Capítulo 43

    SAVANAO resto da manhã pareceu comprido demais.Mesmo depois que Caleb saiu do galpão, a presença dele ficou ali — pairando no ar como o vapor quente que subia das máquinas.Por mais que eu tentasse continuar a planilha, revisar os números, concentrar no trabalho, a mente fugia. Entre uma anotação e outra, o olhar se perdia na janela, onde o campo brilhava sob o sol novo. E então decidi seguir o conselho dele e fui montar.Não era fuga. Era lembrança.Quando o mundo desabava, o cavalo sempre foi meu lugar seguro. E, naquele momento, eu precisava desse refúgio mais do que de qualquer planilha.Fui até o estábulo com passos firmes, tentando não pensar demais. Relâmpago ergueu a cabeça assim que me viu. O brilho nos olhos dele era familiar — vivo, confiante, paciente. Parecia entender, sem precisar de palavra alguma, que eu não estava ali pra treinar. Estava ali pra respirar.— Oi, garoto — murmurei, passando a mão no pescoço dele. — Pronto para da um saltos hoje?Ele bufou, quente, com

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status