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Capítulo 1.2 Audislane Vieira

last update Fecha de publicación: 2026-02-12 17:16:35

Quando eu digo que trabalho em um bar, as reações são sempre as mesmas: olhares tortos, sorrisos falsos e aquele julgamento silencioso de quem acha que um bar não é lugar para uma moça direita.

Mas o Aconchego Pub… ah, ele é diferente.

Lá, cada canto respira história. Temos de tudo: jovens animados, casais buscando refúgio, e até os engravatados cansados que só querem um lugar longe das reuniões e dos sorrisos forçados.

Comecei lá achando que seria temporário, apenas uma ajuda de verão. Já se passaram cinco anos. E, de alguma forma, o bar virou parte de mim.

O Vini, dono do Aconchego, costuma dizer que somos uma família. E é verdade.

Os meninos que trabalham comigo são como irmãos meio doidos, bagunceiros, mas de coração enorme. E ninguém ali nunca me desrespeitou. Os seguranças são atentos, e os clientes, na maioria, respeitosos.

Então, sinceramente, não entendo o motivo de tanto espanto. Trabalhar num bar não me faz menos digna só mostra que eu não desisto.

Depois de pronta, me encaro no espelho. Retoco o batom, ajeito o cabelo.

Não temos uniforme, mas há um padrão: jeans escuro, camisa preta e atitude.

Meu coturno de salto é meu xodó além de me deixar mais confiante, seria uma ótima arma se alguém resolvesse ultrapassar os limites.

Borrifo meu perfume favorito, pego a bolsa e respiro fundo.

Na sala, minha mãe está sentada no sofá, um bloco de notas no colo, assistindo TV sem realmente prestar atenção.

— Mãe, já estou indo!

Ela levanta o olhar, com aquele sorriso que sempre me dá força.

— Vai com Deus, filha.

— Qualquer coisa me liga, tá? — beijo sua testa e saio.

O caminho até o bar é tranquilo. O céu já começa a se tingir de laranja, e o vento traz aquele cheiro familiar de fim de tarde. Caminhar até o Aconchego é quase terapêutico cada passo me afasta um pouco da frustração da manhã.

De longe, vejo o letreiro de madeira iluminado, o brilho âmbar das luzes e o som suave que escapa da porta entreaberta. Um sorriso involuntário se forma nos meus lábios.

Ali, sim, eu me sinto em casa.

Assim que entro, o clima é o de sempre: risadas, música, vozes misturadas. O Vini está na mesa dele, concentrado em papéis.

— Pediu pra falar comigo? — pergunto, me aproximando.

Ele ergue o olhar e sorri.

— E aí, como foi na entrevista?

Suspiro, jogando a bolsa num canto.

— O de sempre. Querem experiência, mas não dão oportunidade.

— Ei, não desanima, Nany — ele diz, apoiando os cotovelos no balcão. — Vou falar com minha irmã. Ela conhece umas pessoas da área. Quem sabe te consigo um empurrãozinho.

— Sério? Você faria isso por mim? — pergunto, surpresa e emocionada.

— Claro que sim! Ninguém mais do que eu viu o quanto você ralou pra se formar. Você merece. Só vou ficar triste porque vou perder a minha melhor garçonete.

— Ah, tá! — rio. — Pode parar com o drama, hein? Mesmo que eu arrume algo na área, não abandono vocês.

— É isso que eu gosto em você, Nany. Sua energia é o que mantém esse lugar vivo.

Ele ri e, em seguida, muda o tom:

— Preciso de um favor. O Gui não vem hoje. Será que você pode ficar na parte dos drinks?

— Claro! Mas tá tudo bem com ele?

— Uns problemas pessoais. Nada grave.

— Tudo bem. Pode deixar comigo.

Saio do escritório e vou direto avisar as meninas.

— Garotas, hoje quem comanda o balcão sou eu!

— Ihhh, segura a Nany dos drinks! — Luh grita, arrancando risadas.

O relógio marca o início da noite e, pouco a pouco, o bar começa a encher.

As luzes ganham brilho, a música aumenta e o movimento começa a pulsar.

Enquanto sirvo as primeiras taças, sinto algo dentro de mim mudar.

Aquela frustração da manhã, o peso de mais uma porta fechada, tudo parece evaporar junto com o som das risadas e o cheiro do álcool.

Ali, entre as garrafas, os copos e as histórias que cruzam o balcão, eu me sinto viva.

E, sem saber, é ali naquele mesmo Aconchego que já era parte de mim que o destino começa a se mover, preparando o meu próximo encontro....

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