LOGINQuando eu digo que trabalho em um bar, as reações são sempre as mesmas: olhares tortos, sorrisos falsos e aquele julgamento silencioso de quem acha que um bar não é lugar para uma moça direita.
Mas o Aconchego Pub… ah, ele é diferente. Lá, cada canto respira história. Temos de tudo: jovens animados, casais buscando refúgio, e até os engravatados cansados que só querem um lugar longe das reuniões e dos sorrisos forçados. Comecei lá achando que seria temporário, apenas uma ajuda de verão. Já se passaram cinco anos. E, de alguma forma, o bar virou parte de mim. O Vini, dono do Aconchego, costuma dizer que somos uma família. E é verdade. Os meninos que trabalham comigo são como irmãos meio doidos, bagunceiros, mas de coração enorme. E ninguém ali nunca me desrespeitou. Os seguranças são atentos, e os clientes, na maioria, respeitosos. Então, sinceramente, não entendo o motivo de tanto espanto. Trabalhar num bar não me faz menos digna só mostra que eu não desisto. Depois de pronta, me encaro no espelho. Retoco o batom, ajeito o cabelo. Não temos uniforme, mas há um padrão: jeans escuro, camisa preta e atitude. Meu coturno de salto é meu xodó além de me deixar mais confiante, seria uma ótima arma se alguém resolvesse ultrapassar os limites. Borrifo meu perfume favorito, pego a bolsa e respiro fundo. Na sala, minha mãe está sentada no sofá, um bloco de notas no colo, assistindo TV sem realmente prestar atenção. — Mãe, já estou indo! Ela levanta o olhar, com aquele sorriso que sempre me dá força. — Vai com Deus, filha. — Qualquer coisa me liga, tá? — beijo sua testa e saio. O caminho até o bar é tranquilo. O céu já começa a se tingir de laranja, e o vento traz aquele cheiro familiar de fim de tarde. Caminhar até o Aconchego é quase terapêutico cada passo me afasta um pouco da frustração da manhã. De longe, vejo o letreiro de madeira iluminado, o brilho âmbar das luzes e o som suave que escapa da porta entreaberta. Um sorriso involuntário se forma nos meus lábios. Ali, sim, eu me sinto em casa. Assim que entro, o clima é o de sempre: risadas, música, vozes misturadas. O Vini está na mesa dele, concentrado em papéis. — Pediu pra falar comigo? — pergunto, me aproximando. Ele ergue o olhar e sorri. — E aí, como foi na entrevista? Suspiro, jogando a bolsa num canto. — O de sempre. Querem experiência, mas não dão oportunidade. — Ei, não desanima, Nany — ele diz, apoiando os cotovelos no balcão. — Vou falar com minha irmã. Ela conhece umas pessoas da área. Quem sabe te consigo um empurrãozinho. — Sério? Você faria isso por mim? — pergunto, surpresa e emocionada. — Claro que sim! Ninguém mais do que eu viu o quanto você ralou pra se formar. Você merece. Só vou ficar triste porque vou perder a minha melhor garçonete. — Ah, tá! — rio. — Pode parar com o drama, hein? Mesmo que eu arrume algo na área, não abandono vocês. — É isso que eu gosto em você, Nany. Sua energia é o que mantém esse lugar vivo. Ele ri e, em seguida, muda o tom: — Preciso de um favor. O Gui não vem hoje. Será que você pode ficar na parte dos drinks? — Claro! Mas tá tudo bem com ele? — Uns problemas pessoais. Nada grave. — Tudo bem. Pode deixar comigo. Saio do escritório e vou direto avisar as meninas. — Garotas, hoje quem comanda o balcão sou eu! — Ihhh, segura a Nany dos drinks! — Luh grita, arrancando risadas. O relógio marca o início da noite e, pouco a pouco, o bar começa a encher. As luzes ganham brilho, a música aumenta e o movimento começa a pulsar. Enquanto sirvo as primeiras taças, sinto algo dentro de mim mudar. Aquela frustração da manhã, o peso de mais uma porta fechada, tudo parece evaporar junto com o som das risadas e o cheiro do álcool. Ali, entre as garrafas, os copos e as histórias que cruzam o balcão, eu me sinto viva. E, sem saber, é ali naquele mesmo Aconchego que já era parte de mim que o destino começa a se mover, preparando o meu próximo encontro....Solto uma risada baixa. Minha pequena Serena é tranquila, doce, um verdadeiro pacotinho de amor. Mas ontem, na minha consulta de rotina, minha vida virou de cabeça para baixo outra vez. Solto um suspiro involuntário e levo a mão até minha barriga. Porque foi justamente ali, no meio de exames simples, que surgiu a suspeita. E quando percebi... Já estava grávida de novo. Seis semanas. Menos de dois meses ou seja meu querido marido conseguiu me engravidar praticamente na primeira tentativa depois do resguardo. Fecho os olhos por um instante, ainda tentando absorver tudo isso. Porque eu ainda nem sei como contar para ele. Só imagino a reação do Bruno ao descobrir que nossa família vai crescer mais uma vez. Passo a mão lentamente sobre minha barriga, sentindo meu coração acelerar. E, pela primeira vez em muito tempo. Não existe medo. Só amor. Sou desperta dos meus pensamentos com a voz do Théo me chamando ao longe. - Mamãe, a senhora não vem? - ele pergunta, me
Um ano após o casamento...Agora me pego parada, completamente imóvel, observando a paisagem diante dos meus olhos.E posso dizer, com toda certeza do mundo, que nem o Cristo Redentor consegue ser tão incrível quanto a cena que está exatamente na minha frente.Estou parada há alguns minutos na porta de acesso da nossa casa, incapaz de desviar o olhar. Porque aquela imagem simplesmente me paralisou.Ali, no meio do gramado perfeitamente iluminado pelo fim de tarde, sobre uma manta acolchoada, está Bruno com Serena nos braços, enquanto Théo segura um livrinho pequeno e lê para ela com toda concentração do mundo.- E o príncipe encontrou a princesa perdida na floresta... - Théo lê devagarzinho, tentando pronunciar cada palavra corretamente. - E prometeu que nunca deixaria ninguém machucar ela...Minha garganta aperta imediatamente.Os olhinhos da Serena estão atentos no irmão, como se realmente entendesse cada palavra, e Théo leva aquilo tão a sério que
E preciso respirar fundo antes de começar. Porque olhar para Amanda vestida de branco por mais simples que seja, é o que a deixa ainda mais bela, me olhando daquele jeito, mexe comigo mais do que imaginei.- Amanda... - começo, a voz rouca pela emoção. - Você entrou na minha vida da forma mais improvável possível, invadindo meu carro, e, sem perceber, invadindo completamente a minha vida.Ela sorri emocionada, enquanto eu continuo.- Antes de você, eu não fazia ideia do que era amar alguém de verdade. Não fazia ideia do quanto uma pessoa podia transformar tudo, só com um sorriso.Minha voz falha por um segundo.- Você me fez querer ser melhor. Me fez desejar ter um lar, uma família, algo que fosse real.Vejo seus olhos marejarem.- E eu prometo, diante de todos que amo, que vou cuidar de você. Te proteger. Te respeitar. Estar ao seu lado nos dias bons, e principalmente nos ruins.Aperto suas mãos com mais força.- Prometo amar você, pelo resto da
Mas, de repente o riso morre.O silêncio toma conta.Todos olham na mesma direção.O corredor.Eu me viro. E, por um segundo, tudo para. Ela está ali. Linda não chega nem perto.Ela está deslumbrante.Do tipo que prende o ar, que silencia qualquer ambiente, que faz tudo ao redor desaparecer.Sinto algo apertar no peito, forte.Sem pensar, caminho até ela.Paro à sua frente, deixando meus olhos percorrerem cada detalhe.E então me inclino, deixando um beijo suave, casto, carregado de tudo na sua boca.- Você está linda, baixinha... - murmuro, encostando minha testa na dela e beijando sua testa em seguida.Ela sorri do jeito que só ela tem.- Você que está, meu vício...Respiro fundo, ainda sem acreditar que ela é minha.Seguro sua mão, entrelaçando nossos dedos.- Está preparada para conhecer todos?Ela aperta levemente minha mão, segura, decidida.- Por você... sempre.Vamos em direção a todos de mãos dadas,
Depois disso, eu organizei tudo.Convidei meus pais. A Andreia e meu cunhado. Meus amigos... com suas famílias.Os pais dela... minha cunhada e o namorado.- Vai ser só um jantar... - falei, naturalmente.Mas não era.Ali naquele jantar seria o nosso casamento.Íntimo. Simples. Só família.Exatamente como a Amanda sempre sonhou. E, pela primeira vez. Eu sabia que não estava apenas realizando um sonho dela.Eu estava vivendo o meu também.Já tínhamos contado para o Théo e ver a reação dele foi algo que eu nunca vou esquecer.Ele estava radiante.Os olhos brilhando, o sorriso largo, como se aquele momento fosse tão dele quanto nosso.Minha sogra, minha cunhada e o namorado já tinham chegado e estavam hospedados conosco, deixando tudo ainda mais cheio de vida. O juiz de paz também chegaria a qualquer momento.E, claro, minha querida noiva não me deixou ver o vestido.- Nem pensar, Bruno! - ela disse mais cedo, rindo. - Você só vai
Ficar longe da Amanda foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na minha vida.Não foi só difícil, foi sufocante.Eu tentei respeitar o espaço que ela pediu. Tentei ser paciente, dar tempo para que ela organizasse a própria vida, os sentimentos, esperei por uma ligação, uma mensagem qualquer sinal.Até mesmo imaginei ela aparecendo de surpresa.Mas não. Ela simplesmente seguiu sem olhar para trás.E isso me destruiu mais do que eu gostaria de admitir.Senti falta dela em tudo.Nos pequenos detalhes, no silêncio.Então, quando recebi aquela foto, foi como um estalo.Não pensei.Só fui.Fui ao encontro dela como quem já não aguentava mais lutar contra o que sentia. E, depois daquele reencontro, eu soube. Dessa vez seria diferente.Eu não daria mais espaço para que a gente se perdesse de novo.E, porra, foi a melhor decisão que eu já tomei.Depois da nossa reconciliação, o que construímos foi algo só nosso.Intenso. Verdadeiro. Nosso.Um relacionamento que não precisava de plateia, nem







